Manuel Pinto | 26 Ago 21
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Os bispos católicos da Irlanda nomearam uma mulher leiga para dirigir a realização do sínodo nacional da Igreja daquele país, que decorrerá até 2026. A escolha da conferência episcopal recaiu sobre Nicola Brady, atualmente com responsabilidades em vários domínios, sendo secretária-geral do Conselho das Igrejas da Irlanda e co-secretária do Encontro Inter-Igrejas Irlandês, além de diretora de duas instituições ligadas ao trabalho de reconciliação de comunidades que passaram por experiência de guerras.

Nicola é bacharel em Estudos Europeus pelo Trinity College de Dublin e doutorada pela mesma instituição. Na sua tese doutoral, examinou a resposta da hierarquia católica à violência política na Irlanda do Norte (1921-1973) e no País Basco (1936-1975). A sua experiência, no país e no estrangeiro, incide em particular na área de construção da paz a partir da fé, incluindo a defesa dos direitos humanos, apoio às vítimas/sobreviventes, facilitação do diálogo cívico e envolvimento das comunidades.

Tal como noutras partes do mundo, o episcopado da Irlanda anunciou na sua reunião de inverno de 2020 o desejo de realizar um sínodo, que se desenvolverá em várias etapas. A comissão organizadora agora criada e presidida por Nicole Brady é ainda constituída por dois vice-presidentes, Andrew O’Callaghan, um leigo casado e com atividade no setor da contabilidade e consultoria (PwC), e o bispo de Limerick, Brendan Leahy, e professor de teologia (estudioso de Urs von Balthasar), com experiência no âmbito do ecumenismo.

Em declarações publicadas pelo jornal La Croix, que deu a notícia no seu site internacional, a líder da comissão organizadora salientou que “o caminho sinodal é um desenvolvimento importante e cheio de esperança na vida da Igreja Católica na Irlanda”, manifestando-se “grata pela oportunidade de ajudar a orientar e moldar este trabalho”.

A Conferência Episcopal Irlandesa identificou sete áreas para “ouvir o que o Espírito Santo está a dizer à Igreja na Irlanda”, uma das quais é “honrar a contribuição das mulheres”. O jornal cita um estudo que apurou que 74% das mulheres católicas irlandesas consideram que a Igreja não as trata com “muito respeito”, em comparação com 6% das mulheres protestantes. A ex-presidente irlandesa e canonista Mary McAleese descreveu a Igreja Católica como “a principal portadora global do vírus da misoginia”. Uma pesquisa de 2018 descobriu que 55% concordaram com McAleese na opinião de que a Igreja não trata as mulheres da mesma forma.

Modelo atual de Igreja Católica na Irlanda é ‘insustentável’

Uma recente entrevista do arcebispo de Dublin, Dermot Farrell, pode dar contributos para o tipo de desafios que o Sínodo Nacional terá de equacionar. Respondendo a perguntas da revista Siolta, do Seminário Maior de Maynooth, o arcebispo considerou que a expressão católica da fé “se desvaneceu” na Irlanda, traduzindo-se numa crise da Igreja, que se manifesta sobretudo entre os mais jovens.

Nas declarações citadas pelo jornal The Tablet, o arcebispo Dermot Farrell reconheceu que “o modelo atual de igreja é insustentável”. A crise já vem de trás, exprime-se num clero envelhecido, nas poucas novas vocações e num “declínio no número de pessoas que praticam ativamente a sua fé”.

Nos anos mais recentes, o escândalo dos abusos sexuais “prejudicou a credibilidade da Igreja” e contribuiu para o agravamento da crescente “invisibilidade da fé na Irlanda”, segundo o arcebispo Farrell. A “transmissão da fé aos jovens” é, por isso, para este responsável eclesiástico, “um dos desafios mais graves que a Igreja enfrenta hoje”.

“Uma Igreja em crise exige criatividade. Este tempo de números reduzidos pode muito bem oferecer a oportunidade de sermos criativos e re-imaginar a Igreja institucional. Não fomos abandonados por Deus. Deus pode ser encontrado nesta situação ”, disse ele.

Em concreto, o entrevistado, que é também vice-presidente da conferência episcopal, defende “um programa eficaz de catequese” que repense de cima a baixo e substitua o tipo de catequese ainda vigente, o qual supõe ainda a educação cristã na família. “Com o declínio gradual da socialização familiar na religião, o papel do catequista qualificado será essencial”, observou o arcebispo.