Papa Francisco abraça São Francisco de Assis | Imagem: https://www.philipchircop.com

Entrevista especial com Rubens Ricupero, Leonardo Boff, Roberto Romano, Edgard de Assis Carvalho, Luiz Gonzaga Belluzzo, Agbonkhianmeghe E. Orobator e Faustino Teixeira

Por: Patricia Fachin e João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | 06 Outubro 2020
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Francisco, o papa, parafraseia Francisco, o de Assis, no título de sua mais recente encíclica, Fratelli Tutti, em que recupera a fraternidade como valor central das relações não somente entre os humanos, mas entre os humanos, todas as demais espécies e o planeta. Nesse sentido o documento é, ao mesmo tempo, o testemunho de um mundo ferido e uma lúcida proposição de caminhos para enfrentarmos os dilemas contemporâneos a partir de uma visão que tem o amor e o cuidado aos mais vulneráveis como pano de fundo. Esta entrevista, realizada por e-mail, reúne uma série de análises sobre o documento publicado no domingo.

“Sentia-se a falta de uma nova grande síntese que refletisse sobre as profundas transformações que ocorreram no contexto social do mundo desde os fins do século XX: o desaparecimento da União Soviética e do comunismo real, a globalização, a revolução digital, o aquecimento global, a crise financeira de 2008, a pandemia”, pondera Rubens Ricupero. “Num mundo órfão de lideranças à altura dos desafios, onde os chefes dos mais poderosos países da terra encarnam o que há de pior na natureza humana, Francisco confirma em definitivo que representa hoje a consciência moral e intelectual da humanidade”, complementa.

Leonardo Boff salienta que “as saídas são fundadas em valores derivados da irmandade universal, do amor e da amizade, da solidariedade, começando sempre a partir de baixo, articulando o local com o universal e dando ênfase à região, o que em ecologia se chama de biorregionalismo”.

Para Roberto Romano, a posição tomada pelo Papa Francisco é pelo bem da coletividade e, em certo sentido, contrária à postura geopolítica das últimas décadas do século passado. “Ele tudo faz e tudo diz para que os interesses imperiais não se sobreponham ao Bem do gênero humano. Assim, Francisco retoma com brilho profético o papel desempenhado por João XXIII e Paulo VI no século XX, bem longe da postura assumida por João Paulo II, o alinhamento a uma geopolítica que favoreceu apenas a parte mais poderosa e rica do planeta”.

De acordo com Edgard de Assis Carvalho, dentre os pontos principais da encíclica está o “apelo para a urgência de se pôr em prática uma política da civilização planetária multilateralista, voltada ao bem comum, à solidariedade, ao convivialismo, ao reconhecimento da igualdade e da fraternidade. O discurso também deixa claro que os estados-nações precisam se voltar para uma governança global capaz de imunizar o planeta contra os ‘vírus da desigualdade’”.

Já o economista Luiz Gonzaga Belluzzo destaca que “a questão central da Fratelli Tutti é a afirmação do amor fraterno em sua dimensão universal. Não há fraternidade se esse sentimento e sua prática estiverem confinados às fronteiras nacionais, às discriminações de religião raça, gênero e classe social”.

O jesuíta Agbonkhianmeghe Orobator diz que “Papa Francisco promove a fraternidade e a amizade social em nosso contexto atual para nos lembrar que somos uma família comum e com um propósito comum; da’ o imperativo de construirmos uma comunidade de solidariedade e pertença”.

Faustino Teitexeira descreve a encíclica como um documento que “convoca-nos a olhar para o alto, pedindo forças para enfrentar com coragem esses tempos sombrios, de escuridão, solidão e dor. Como no evangelho, há uma cristalina opção pelos mais pobres”.

Veja as entrevistas:
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