Nilo

A Iniciativa da Bacia do Nilo (NBI em inglês) proclamou 2019 Ano da Bacia do Nilo para celebrar os êxitos e desafios de vinte anos de cooperação na gestão hídrica da região.

Bacia do NiloA Iniciativa foi lançada a 22 de Fevereiro de 1999 para promover o uso equitativo da água do Nilo pelos dez Estados ribeirinhos (Burundi, Egipto, Etiópia, Quénia, República Democrática do Congo, Ruanda, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia e Uganda) mais a Eritreia (observadora), um território de 3,3 milhões de quilómetros quadrados e com mais de 520 milhões de habitantes.

A Iniciativa representa um marco importante no uso partilhado do Nilo. Em 1929, os Ingleses deram ao Egipto o usufruto exclusivo das suas águas. Como dizia o faraó, «os meus Nilos são meus, fui eu quem os fez» (Ezequiel 29, 3). Em 1956, o Sudão independentizou-se do Egipto e dois anos mais tarde os dois governos dividiram entre si o caudal do rio: 66 por cento para o Egipto e 33 por cento para o Sudão. Os países ribeirinhos a montante podiam pescar e pouco mais.

Foi neste contexto que surgiu a Iniciativa da Bacia do Nilo para um uso repartido das suas águas. A organização representa um passo em frente no desfrute das reservas hídricas da bacia por parte de todos os países ribeirinhos, uma partilha fundamental porque a região atravessa grandes transformações sociais, políticas, económicas e ambientais e precisa de mais comida, energia e água. A Etiópia tinha pouco mais de 66 milhões de habitantes na viragem do século; hoje, conta mais de 109 milhões.

A Iniciativa permite ao Uganda montar uma grande estação de tratamento de água para abastecer Campala, a capital, a partir do lago Vitória e à Etiópia construir a megabarragem Grande Renascença para produção de electricidade.

A área é muito afectada pelas mudanças climáticas. El Niño, o fenómeno meteorológico com origem no Pacífico tropical, provoca secas cíclicas seguidas de inundações cada vez maiores. Depois, há a praga do jacinto-de-água, que cobre parte do lago Vitória com um manto vegetal, mata a vida subaquática, afasta o turismo e aumenta casos de malária.

O Egipto e o Sudão resistiram ao novo ordenamento regional para a partilha das águas da bacia nilótica evocando precedentes históricos. Mas os recursos comuns têm de ser usados por todos para o desenvolvimento socioeconómico sustentável e pacífico da região.

O Nilo é um rio curioso: aliás, são três rios num! O Nilo Azul vem das montanhas da Etiópia e o Nilo Branco das colinas do Ruanda. Ambos atravessam lagos (o Azul passa pelo Tana e o Branco cruza os lagos Vitória, Kioga e Albert). Juntam-se em Cartum (Sudão) formando o Nilo propriamente dito que desagua em delta no Mediterrâneo junto a Alexandria (Egipto).

Ao todo, do Ruanda ao Mediterrâneo, o Nilo mede 6695 quilómetros. O seu vale é habitado por gente com características físicas, étnicas e linguísticas próprias, os povos nilóticos. Entre as espécies autóctones destaca-se a perca-do-nilo, que chega às nossas mesas vinda sobretudo do lago Vitória. O crocodilo-do-nilo é o rei da espécie.

As nascentes do Nilo foram um mistério desde a Antiguidade. O escocês James Bruce (1730-1794) escreveu um livro a contar a descoberta da nascente do Nilo Azul cerca de cem anos depois de o jesuíta espanhol Pedro Páez o ter feito em 1618. O padre Páez viveu na Etiópia entre 1603 e 1622. O padre Páez viveu na Etiópia entre 1603 e 1622.

JOSÉ VIEIRA, Missionário comboniano
Revista Além-Mar, Março 2019