A cidade de Montreal, no Canadá, recebeu mais de cinco mil organizações da sociedade civil para o Fórum Social Mundial (FSM), um espaço privilegiado para partilhar ideias e práticas na procura de um mundo melhor, possível e necessário (BERNARDINO FRUTUOSO, Alem-Mar 9/2016)

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A 12.ª edição do Fórum Social Mundial (FSM) realizou-se em Montreal, a principal cidade do Quebeque, região canadiana de língua francesa, entre os dias 9 e 14 de Agosto. Pela primeira vez na História, o evento altermundialista que nasceu em Porto Alegre (Brasil), em 2001, efectuou-se num país do hemisfério norte.

Os organizadores afirmam ter escolhido a nação da América do Norte, entre outras razões, pelo alto grau de activismo da sociedade civil canadiana e pela mundialização dos problemas sociais e ambientais. Chico Whitaker, um dos co-fundadores do FSM, explica numa entrevista à RFI: «A realização do evento no Canadá representa uma tomada de consciência geral de que os problemas que enfrentamos para mudar o mundo não acontecem só no hemisfério sul, mas no mundo inteiro. Um exemplo são os problemas ecológicos, como as mudanças climáticas». E o coordenador do Colectivo do Fórum, Raphael Canet, expressou: «As desigualdades sociais dão-se em todos os lados, queremos superar a oposição norte-sul e dizer que existem efectivamente problemas mundiais e também que há pistas de solução.»

A ideia de realizar o FSM no Canadá procurava, precisamente, criar uma maior tomada de consciência do Norte do mundo em relação aos problemas e conflitos do Sul. No entanto, esta opção limitou o número de participantes dos países da Ásia, África e América Latina, seja pelos custos das viagens e da hospedagem, seja devido às dificuldades legais para obtenção do visto – o Governo do país negou-o a muitas pessoas, incluindo uns 200 conferencistas e delegados estrangeiros convidados para o encontro, entre eles Aminata Traoré, política e escritora do Mali. No total, umas 50 mil pessoas estiveram presentes no FSM, segundo dados da organização.

Outro mundo é necessário

Como é tradicional, o FSM iniciou com uma grande marcha pelas principais ruas de Montreal. Participaram, segundo os dados oficiais, cerca de 15 000 pessoas, representando cinco mil associações e movimentos da sociedade civil. Na frente do desfile, que começou no Parque Lafontaine, um grupo de indígenas – no dia em que se celebrava o Dia Internacional dos Povos Aborígenes – recordava as culturas ancestrais dos povos originários, as lutas pela preservação das suas culturas e os seus ecossistemas. Nesta terra onde viviam os Iroqueses e os Hurons, povos autóctones do vale de São Lourenço, estão estabelecidas, nem mais nem menos, muitas das maiores empresas do sector da mineração do planeta, contestadas pelos danos que causam aos territórios indígenas, ao seu modo de vida e ao meio ambiente.

Nessa tarde quente, os participantes cantavam e dançavam com alegria e ímpeto enquanto percorriam as ruas, pouco frequentadas pelos habitantes de Montreal, uma cidade com mais de três milhões e meio de habitantes. «Estas iniciativas são muito importantes e necessárias, ajudam-nos a olhar a nossa realidade com sentido crítico e a lutar por um mundo melhor», comenta um jovem estudante colombiano que segue na marcha reclamando pelo fim do conflito no seu país. Os cartazes, levantados com determinação, denunciavam situações de injustiça, pediam o respeito pelo meio ambiente, exigiam o fim das armas nucleares e rogavam minutos de oração pela paz. Expressavam nas suas mensagens escritas e orais o desejo de um mundo diferente, mais solidário e inclusivo, como manifesta o lema proposto para este ano: «Outro mundo é necessário, juntos é possível.»

O FSM é um espaço de encontro de movimentos e organizações sociais de todo o mundo, de articulação de redes, de partilha de ideias e de reflexão para inspirar acções de impacto social e construir sociedades mais justas e solidárias.

Durante os restantes dias do FSM de Montreal, as 1200 actividades autogeridas, os momentos culturais – canto, dança, teatro, exposições fotográficas, cinema –, as 21 grandes conferências, os debates, fóruns e ateliês, procuraram sensibilizar e promover a participação cidadã em inúmeras linhas de acção: alternativas económicas, sociais e solidárias perante a crise capitalista; democratização do conhecimento e direito à informação; cultura de paz e luta pela justiça e a desmilitarização; a autodeterminação dos povos; a defesa dos direitos da Natureza; a luta contra o racismo e a xenofobia; as alterações climáticas; as migrações; e o mundo do trabalho face ao neoliberalismo.

A arte de viver juntos

A questão ecológica foi um dos temas principais dos debates e das grandes conferências desta edição do FSM. Significativos foram os testemunhos de Máxima Acuña, do Peru – símbolo dos agricultores que lutam pela protecção das terras húmidas dos Andes e que iniciou o movimento organizado de agricultores por se recusar a vender a sua casa e as suas terras às empresas responsáveis do projecto de minas Conga – e de Bertha Zuñiga Cáceres, filha de Berta Cáceres, activista ambientalista assassinada nas Honduras no início deste ano e que continua a luta da sua mãe pelos direitos ecológicos e dos povos indígenas.

Numa das grandes conferências, os defensores do meio ambiente Naomi Klein (Canadá), Anne-Céline Guyon (Canadá), Maité Llanos (Argentina), Tadzio Muller (Alemanha) e Clayton Thomas-Muller (Canadá) falaram sobre a necessidade de mudar o sistema, não o clima. No repleto anfiteatro Marie Gérin-Lajoie da Universidade UQAM, os conferencistas expressaram que é urgente transformar o sistema de produção actual, assente na exploração maciça de combustíveis fósseis e marcado por uma grande desigualdade social.

Para Naomi Klein, o modelo neoliberal não aborda a crise ecológica. Como está baseado no crescimento a qualquer custo, preconiza reformas e políticas superficiais. Por isso, nenhuma mudança real e profunda pode dar-se em tais circunstâncias.

Riccardo Petrella, politólogo, economista e ecologista italiano, falou sobre a ecocidadania, a arte de viver juntos, no auditório Alfred La Liberté da Universidade de Montreal. O professor universitário, doutor em Ciências Sociais, defende o Pacto Mundial da Água e o reconhecimento do direito universal ao acesso à água potável por parte das Nações Unidas. Recordou aos presentes que, no actual contexto económico e político, os diferentes actores da sociedade civil devem exercer um papel de vigilância crítica e vincular-se a projectos colectivos que procuram outras maneiras de viver juntos, de produzir, de distribuir… Nessa “cidade” ecológica do “bom viver”, é necessário aprender a renovar a democracia e a cooperação.

Presença comboniana

Inspirados pela Doutrina Social da Igreja e pelas interpelações do Papa Francisco na exortação apostólica Evangelli Gaudium (2013) e na encíclica Laudato si’ (2015), treze missionários combonianos e duas missionárias combonianas participaram no FSM. Apresentaram seis seminários sobre temas relacionados com as questões dos direitos humanos, a paz, a justiça social e ambiental.

Uma presença como família comboniana que, como expressam os participantes numa carta aberta, «permitiu que nos encontrássemos com muitos irmãos e irmãs de diferentes países que perseguem o mesmo sonho de um outro mundo possível, alternativo a este dominante, insustentável, excludente, injusto e violento. Acreditamos que a participação no FSM seja um sinal de fidelidade ao carisma do nosso fundador, São Daniel Comboni, que lutou pela libertação da escravidão e a regeneração da África».