NATAL NO SUDÃO DO SUL:
O CAMINHO CRISTÃO QUE LEVA À PAZ

Christmas Bentiu 2 (2)

Pe. Raimundo Rocha, mccj, desde Juba, 03 de Janeiro de 2016.

“Bem vindo a Bentiu”, disse o Pe. Bulus Dirpiny enquanto me aguardava na poeirenta pista de pouso de Rubkona. Pe. Dirpiny é da Diocese de Malakal. Ele já estava com a comunidade dos IDPs (refugiados de guerra) por mais de uma semana no campo de Bentiu, quando eu cheguei dias antes do Natal. “O povo nos espera”, acrescentou. Aquele encontro marcou o começo do nosso programa pastoral de Natal em Bentiu, Sudão do Sul.

Pouco tempo depois nos encontrávamos dentro do campo de Proteção de Civis (PoC) onde mais de 126.000 pessoas deslocadas por causa da guerra são mantidas sob proteção da Missão de Paz das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS).

Desde dezembro de 2013 esse conflito tem devastado a vida de milhões de Sul-sudaneses e causado o deslocamento de cerca de 1.6 milhões de pessoas. O estado de Unity tem sido bastante afetado pelos conflitos violentos nestes dois anos. A maioria das pessoas perderam suas casas, rebanho e outras propriedades. Infelizmente muitas perderam entes queridos também.

Fomos bem recebidos no campo de deslocados de guerra. Essas boas vindas incluíam o gesto acolhedor de lavar os pés do visitante. Assim acampamos no meio do povo deslocado de guerra com quem ficaríamos todo o período de Natal.

Eu me senti muito comovido e alegre ao encontrar tantas pessoas que vieram da Paróquia de São José Operário na missão de Leer. Elas caminharam de lá até chegar em Bentiu onde procuraram proteção e outras formas de assistência. Cada pessoa tem uma narrativa particular dos eventos, da luta por sobrevivência. A alegria de estar juntos mais uma vez foi como uma antecipação da festa de Natal.

1.Natal em Bentiu - IDPs

As pessoas na zona de conflitos sofrem as consequências do pós-trauma (Post-Traumatic Stress Disorders – PTSD). Por isso nosso programa pastoral de Natal incluía atividades com dinâmicas para superação dos traumas de guerra. Pelo menos cento e cinquenta crianças, jovens e adultos participaram das oficinas para superação dos traumas.

Através de uma abordagem educacional popular (metodologia Capacitar), a qual inclui simples práticas físicas, mentais e espirituais, os participantes aprenderam exercícios que os capacitam a curarem-se e a transformarem suas vidas e a vida de suas comunidades.

No fim de cada sessão os participantes expressaram com alegria como os exercícios ajudaram a superar os efeitos dos traumas e a restaurar o seu bem estar. Além disso, as oficinas propiciaram um ambiente favorável para se falar e promover o perdão e a reconciliação.

Finalmente, chegamos ao centro do nosso programa: as comunidades – oito capelas ao todo – se reuniram para celebrar o Natal. Muita gente estava impressionada ao ouvir um padre que não é da etnia Nuer presidir a celebração na língua nativa do povo. Isso contribuiu ainda mais para a sua alegria.

Christmas Bentiu 3

O espírito de Natal podia ser sentido e visto nas decorações, cantos, danças, partilha e orações realizadas pelo povo que compareceu e lotou o espaço de celebração e suas proximidades. Eram milhares de pessoas. Uma mensagem de alegria, esperança e reconciliação foi transmitida a todos. Deus lembrou-se do seu povo e veio para eles.

“Nesse Natal fomos abençoados com a vinda de Jesus, o Príncipe da Paz”, disse o padre que presidia, “mas também porque neste ano na maioria das paróquias da Diocese de Malakal há padres celebrando o Natal com o povo refugiado de guerra”, acrescentou. O povo aplaudiu jubilante. De fato, muita gente não tinha celebrado o Natal nos últimos dois anos por causa da guerra.

Enquanto isso em Juba, o governo anunciava a nomeação dos governadores para os recém-criados vinte e oito estados no país. Nem todo mundo está feliz com essa decisão, mas essa ação política não tira a esperança do povo em ter paz no ano novo. De fato, apesar da descrença de alguns, os afetados pela guerra rezam e esperam que no ano que vem eles possam celebrar o Natal em suas casas e não mais no campo de refugiados.

Orações também aconteceram na igreja de Bentiu onde a maioria das celebrações são animadas por catequistas entusiastas. Os moradores de Bentiu se esforçam para manter uma vida normal. Pequenos comércios e o mercado são abertos, alguns meios de transporte público se movimentando e gado pastando nos arredores. As marcas da violência e destruição, no entanto, são visíveis em todos os lugares.

Os dias em que Pe. Bulus e eu ficamos no campo de IDPs (pessoas deslocadas pela guerra) em Bentiu nos proporcionaram com uma oportunidade única para estar perto das pessoas e ouvir suas estórias. Apesar das dificuldades e tantos desafios que o povo enfrenta, essas comunidades de afetados pela guerra possuem uma resiliência extraordinária. Isso, somado à sua fé, ajuda o povo a lidar com a luta diária.

Além disso, é bastante animador ver o quanto bem organizadas e ativas são essas comunidades, apesar da ausência de padres na maior parte do ano dentro do campo.

O caminho para a paz pode já ter sido pavimentado pela assinatura do acordo de paz em agosto do ano passado. Paz duradoura e reconciliação, porém, não se consegue somente com tinta de caneta e papel. Tem muito a ser feito também na base com o povo, envolvendo indivíduos e comunidades.

O Pe. Bulus, enquanto visitava famílias no campo de proteção de civis, conseguiu reconciliar membros da mesma família que não se falavam há uma década. Com orações e uma boa conversa também ajudei uma mãe e filha a se reconciliarem.

A igreja presente no campo de deslocados de guerra também caminha nessa direção. Atenta às necessidades de promover paz e reconciliação e encurtar o abismo criado pela guerra durante os dois anos de conflitos, a igreja criou uma comissão de justiça e paz dentro do campo. Já começaram a promover paz e reconciliação através de orações, oficinas, cura de traumas e atividades culturais.

Enquanto eu me preparava para deixar o campo de IDPs e seguia para a pista de pouso para retornar à capital Juba, o Pe. Bulus juntamente com as lideranças das igrejas dentro do campo, liderava uma multidão de milhares de jovens que marchavam pela paz disseminando uma mensagem de paz e reconciliação entre as comunidades afetadas pela guerra, especialmente os jovens.

Christmas Bentiu 2 (1)

Parti. O Pe. Bulus Dirpiny ficou por mais uns dias no campo com os refugiado de guerra.

Esse Natal foi sem dúvida um evento muito marcante para as comunidades deslocadas de guerra no campo de Bentiu. O ano novo já começou e o povo renovou sua fé e esperança. Que o novo ano seja de paz, reconciliação e justiça para marcar um novo começo para os povos do Sudão do Sul.

Pe. Raimundo Rocha, mccj