Livro


Viver como crentes no mundo em mudança

Maria Clara Bingemer

Do volume agora editado em Portugal, apresentamos um excerto, intitulado “Desafios atuais à existência crente”.

Viver como crentes no mundo em mudançaDiante da situação em que se encontra o catolicismo hoje, alguns desafios devem ser enfrentados a fim de que ele reencontre o seu lugar na área pública da sociedade e possa cumprir a sua missão de ser um caminho para se viver a boa-nova do Evangelho e do Reino de Deus pregado por Jesus.

Um primeiro desafio seria recuperar uma docta ignorantia ou agnosia ao falar de Deus e dos seus mistérios. A linguagem arrogante de quem pretende deter o monopólio e a exclusividade do discurso não condiz bem com o discipulado cristão.

Em seguida, viria a necessidade urgente de reconfigurar uma mística da profanidade, mostrando que não há que sair da realidade para encontrar a Deus. Ressituar o sagrado, a experiência de Deus no coração do mundo e do humano, mostrando que tudo não é Deus, mas tudo fala de Deus, é urgente para que os nossos contemporâneos possam experimentar esse Deus que lhes vem ao encontro, desde o coração do mundo.

Não se pode esquecer igualmente a necessidade de valorizar certos sujeitos e atores da comunidade eclesial que sempre foram e continuam a ser secundários. O laicado deve realmente ser formado e aceder à maturidade da fé para que possa ser sujeito pleno de missão e testemunha. Assim também, dentro do laicado, a mulher – sempre leiga, mesmo se for religiosa –, já que não tem acesso aos ministérios ordenados, deve ser revalorizada a fim de poder dar toda a preciosa contribuição a partir da sua identidade, para além do que já faz em termos de serviço humilde e não reconhecido.

Há urgência em redescobrir os sentidos, o corpóreo, a dimensão das emoções na experiência espiritual cristã. O risco da frigidez não ronda apenas a sociedade secular, mas entrou também, perigosamente, nas Igrejas. A experiência de fé não está movendo o afetivo ou, quando o faz, é de maneira banalizadora, infantil ou desordenada. Aí também haveria um desafio importante, para recuperar a importância da corporeidade, da sensibilidade e da afetividade.

Encontramo-nos num momento privilegiado para migrar de uma individualização da fé a uma personalização desta mesma, reconfigurando o sujeito dessa mesma fé. A fé tem um novo sujeito dotado de uma nova consciência religiosa que é importante assimilar e integrar ao conjunto do tecido eclesial. No fundo, tratar-se-ia de dar de novo ao amor a primordialidade da cidadania dentro da comunidade que pretende e se dispõe a viver o facto cristão.

De tudo o que por nós foi dito até agora, e que apenas roça muito leve e subtilmente o problema, na sua grandeza incomensurável, permanece uma convicção profunda e central: a experiência mística cristã é experiência de alteridade. Uma alteridade em que antropologia e teologia estão unidas indissociavelmente.

Não se trata, pura e simplesmente, de uma experiência do transcendente ou algo que desloque o ser humano do chão da sua realidade em direção a um plano sobrenatural ou a um nirvana situado alhures, num espaço que não se sabe bem qual é, aonde se vai em busca de sensações e esperando pelo cessar de todas as preocupações ligadas à realidade e à espessura da humanidade.

A experiência mística, no Cristianismo, é a experiência de um Deus encarnado. Fora deste dado central e absolutamente necessário, não há Cristianismo. Não havendo encarnação, não há a possibilidade de Deus assumir todas as coisas por dentro e viver a história passo a passo, por assim dizer, «na contramão» da sua eternidade. Não havendo encarnação, não há cruz, não há redenção, não há salvação. Não há, portanto, aliança entre a carne e o Espírito.

Certamente é esta a contribuição maior que a mística cristã tem para dar hoje, em tempos de ressacralização, busca de transcendência e novos paradigmas inclusive para a espiritualidade. Nada do que é humano é estranho à mística cristã, e toda a nova descoberta e toda a nova ênfase, em termos de humanidade, vêm não a ameaçar a mística cristã, mas, pelo contrário, a alimentá-la, a nutri-la, a fazê-la mais de acordo ao sonho de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, que a tudo e a todos deseja cristificar e santificar pela sua práxis santificadora que preside a história e trabalha por dentro a carne do mundo.

Pelo contrário, toda a tentativa de escapar disso é tentação que descaracteriza a mística cristã na sua pessoalidade, na sua configuração trinitária, na sua dinâmica histórica e encarnatória.

Confessar com a boca e o coração que o Verbo se fez carne e o Espírito foi derramado sobre toda carne implica buscar a experiência e a união com o Deus, que assim determina comunicar-se com a humanidade, através desta carne na qual é possível experimentá-lo. E essa carne é a carne da «outra» que mostra uma maneira própria e diferente de ser humano; é a carne do outro que sente e nomeia Deus de «outro» modo; é a carne do «outro» que sofre opressão e injustiça e cujo rosto revela o Deus que se constituiu desde sempre em seu defensor e advogado. Integrar a carne do outro na experiência mais inefável do amor divino é o grande desafio que, hoje como sempre, está posto à mística cristã.

Desde que, pela encarnação de Jesus Cristo, foi feita uma aliança indissolúvel entre o Espírito e a Carne, todos os caminhos do Espírito passam necessariamente pela carne, ou seja, pela Alteridade Encarnada, único locus onde é possível encontrar e experimentar a Alteridade do Verbo Encarnado.

Maria Clara Bingemer In Viver como crentes no mundo em mudança Publicado em 09.10.2014