A atualidade de D. Helder Câmara, 50 anos depois, e as convergências com o papa Francisco

A atualidade de D. Helder CâmaraHá 50 anos entrava na arquidiocese de Olinda-Recife (mais precisamente a 12 de abril de 1964), como seu arcebispo, D. Helder Câmara, personalidade que marcou a história da Igreja no Brasil e que, apenas seis anos depois, o jornal britânico Sunday Times definiu como «o homem mais influente da América Latina depois de Fidel Castro».

A chegada à cidade de Recife aconteceu escassos dias após o golpe que a 1 de abril levou ao poder o regime militar, que governou o país nas duas décadas seguintes. O novo arcebispo, até então auxiliar do Rio de Janeiro, não tardou a denunciar a opressão das Forças Armadas.

Ao entrar na arquidiocese, Câmara não quis ser acolhido dentro da catedral, mas na praça, no meio das pessoas. Marcelo Barros, abade beneditino que colaborou com D. Helder durante 12 anos, recorda as palavras iniciais do prelado aos fiéis: «No nordeste do Brasil, Jesus Cristo chama-se Zé, Maria e Severino. Tem a pela escura e sofre a pobreza». Sabia bem de que falava, ele que nasceu a 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, no nordeste brasileiro, território de sertão, seca e fome.

Helder, lembra, «via a presença divina em cada irmão e irmã que encontrava. Manifestava esta sua convicção principalmente na relação com os mais pobres e marginalizados. Uma vez por semana, reuníamo-nos em sua casa. Enquanto falávamos, muitas pessoas batiam à porta. Ele próprio levantava-se e recebi-as. Por vezes demorava-se na escuta. Dizia: “Tenho de recebê-las pessoalmente porque não quero perder o privilégio de acolher o próprio Senhor”».

Mais de mil livros e 30 mil unidades documentais foram catalogados e estão patentes na exposição permanente instalada na igreja das Fronteiras, no Recife, perto da qual D. Helder quis viver, em duas modestas habitações, desde 1968 até ao dia da sua morte, a 27 de agosto de 1999.

«A casa é o maior exemplo de coerência entre o discurso e a vida. D. Helder era conhecido como o bispo dos pobres. E ele dizia que a gente tem de viver com os pobres, para os pobres e como os pobres”, explicou a diretora cultural do Instituto Dom Helder Câmara, Elizabeth Barbosa.

Entre os objetos expostos estava o seu preferido: um guizo. Numa das cassetes do acervo, D. Helder explica o motivo que o levava a tê-lo sempre no bolso: «Quando encontro alguém com tristeza, esmagada demais, quando tento de todas as maneiras acordar a esperança e uma ponta de alegria, meio brincando, meio sério, tiro do bolso o meu guizinho. Explico, acredite quem puder: foi um peixinho muito meu amigo quem me trouxe do fundo do mar e ele me garantiu que o guizo mágico tem o dom de afastar a tristeza».

A importância do arcebispo é «não só religiosa, mas social e política», sublinha a historiadora Lucy Pina: «Ele intercedeu por vários presos políticos, sejam eles cristãos, católicos ou não. Ele recebeu, acolheu e ajudou todos aqui que bateram em sua porta». A sua influência fora dos muros da Igreja é atestada por numerosos reconhecimentos internacionais, medalhas honoríficas e doutoramentos “Honoris Causa”. Mas um dos motivos que continua a tornar a sua figura tão familiar é o sonho de uma Igreja pobre para os pobres, que tanto se assemelha à que o papa Francisco tem procurado modelar.

Há alguns dias, quando foi entrevistado por jovens belgas, Francisco disse-lhes: «Ouvi que uma pessoa disse: com este falar dos pobres, este papa é um comunista! Não, esta é uma bandeira do Evangelho, a pobreza sem ideologia, os pobres estão no centro do Evangelho de Jesus».  Muitos anos antes, o “bispo vermelho”, como era chamado pelos adversários, teve uma frase que hoje evoca a de Francisco: «Quando dou de comer a um pobre, todos me chamam santo. Mas quando pergunto porque é que os pobres não têm alimento, então todos me chamam comunista».

«Em D. Helder conheci um profeta com o espírito de poeta; tinha o falar tranquilo dos sábios e um coração imenso de pai e de mãe, de pastor», diz o italiano Luis Tenderini, antigo braço direito do arcebispo e fundador da comunidade Emaús-Recife.

Outro traço que junta Câmara e Bergoglio é a predileção por S. Francisco. A 17 de setembro de 1964, escreveu: «S. Francisco nutria um profundo amor pela Igreja; foi um dos maiores inovadores que Deus suscitou; depois de Cristo e da Virgem, ninguém compreendeu e amou os pobres como ele».

Palavras de D. Helder Câmara

A situação do mundo
Dois mil anos depois do nascimento do Cristo mais de dois terços da humanidade se encontram em condição desumana de miséria e de fome. Mais de dois terços dos filhos de Deus vivem em condições de animais. Uma criatura humana condenada a uma situação subumana de animal – boi ou asno – mergulhado na lama.
Quem vê um pântano à luz da lua pode enganar-se: aquela lhe parecerá uma visão de paz. Mas, por baixo, não passa de podridão e lama em fermentação. Nós não queremos a paz dos pântanos, a paz enganadora que esconde injustiças e podridão. A injustiça é una e indivisível: atacá-la e fazê-la recuar, aqui e ali, é sempre fazer avançar a justiça. É preciso não esquecer que se a miséria e a injustiça são sempre mais difíceis de suportar no Terceiro Mundo, as raízes mais fundas do mal se encontram no coração, nos interesses e práticas dos países ricos, com a cumplicidade dos ricos dos países pobres.

Pobres e ricos
No Calvário, não era fácil reconhecer Jesus num semblante coberto de escarros, suor, poeira, sofrimento. Dizia o profeta: ‘Parece mais um verme esmagado’. Um verme. E, no entanto, era o Cristo. Não é aos pobres que cabe partilhar minha esperança: antes, é a mim que cabe partilhar a deles. Aprendi muito com aqueles a quem chamam de pobres e que, no entanto, são ricos do Espírito do Senhor. Há uma Eucaristia do santo sacramento: a presença viva do Cristo, sob as aparências do pão e do vinho. Há também a outra Eucaristia, a Eucaristia do pobre: – aparência de miséria? realidade do Cristo! A propriedade é o maior dogma para nossos bons cristãos, mais importante que a Santíssima Trindade, que a Encarnação do Verbo: a propriedade privada!… Propriedade privada que é propriedade privante…

 A não violência
É mais fácil estar no ódio do que na bondade. Somente os fortes – fortes pela graça do Senhor – podem manter-se verdadeiramente na bondade. E é curioso como os poderosos da terra temem a bondade… Eu não digo que a doçura, a bondade, a mansidão tudo consigam. Mas, parece-me evidente que não se pode obter pela violência o que se pode conseguir pela doçura, bondade, mansidão. Bem o sabem, por exemplo, aqueles pais que vêem o que ajuda seus filhos a crescerem… ₁Eu acuso os verdadeiros fautores de violência, todos aqueles, de direita e de esquerda, que ferem a justiça e impedem a paz.

 A utopia
Nunca se deve temer a utopia. Agrada-me dizer e repetir: quando se sonha só, é um simples sonho, quando muitos sonham o mesmo sonho, é já a realidade. A utopia partilhada é a mola da história.

Os jovens
Demos à juventude, enquanto é tempo, um crédito de confiança, corajoso e ilimitado. Os jovens não aceitam uma confiança pela metade. Enfim, meus irmãos adultos: os jovens, são ou não são vossos filhos? No dia em que a juventude for comedida, prudente e fria como a velhice, o país morrerá de tédio. É preciso deixar os jovens serem jovens. Eles estão a caminho do futuro. Deus ama os jovens. Jesus comparava o Reino a um grão minúsculo e perdido… E não esqueçam: Acreditar no homem não é um erro nem um pecado. Deus também acredita no homem! A pior coisa que se possa fazer aos jovens, é tirar-lhes as razões de esperar. Tende a coragem de lutar para que estas lhes sejam restituídas. E não somente de lutar: mas de sacrificar a vida se necessário for!

A Igreja
Por que se fala sempre de prática religiosa e nunca de prática evangélica, feita de amor e de coragem, de serviço aos outros? E tarefa das comunidades cristãs fazer que andem juntas prática evangélica e prática religiosa até se tornarem uma só e mesma coisa, como na tarde da Quinta-Feira Santa. Fala-se muito de crise de autoridade na Igreja, e mesmo de crise de fé. Minha experiência pessoal permite-me afirmar que há uma crise de autoridade, sobretudo quando as autoridades não têm a coragem de aceitar as consequências das opções que estudaram, deliberaram, votaram e assinaram. O moralismo e o jurisdicismo fizeram muito mal à Igreja. São gravemente responsáveis pela partida de muitos, pela indiferença de um número ainda maior de outros, e pela falta de interesse dos que poderiam olhar a Igreja com simpatia mas são tomados de desânimo diante do nosso farisaísmo.

Se não estou enganado nós, homens de Igreja, deveríamos realizar dentro dela aquelas mudanças que exigimos da sociedade. Nós, os excelentíssimos, estamos necessitados de uma excelentíssima reforma! Basta! de uma Igreja que quer ser servida; que exige ser sempre a primeira; que não tem o realismo e a humildade de aceitar a condição do pluralismo religioso… Jesus diz que ele é a porta do aprisco, do cercado. Então, por que temos a tão frequente tentação de sermos nós mesmos a porta? É preciso que se passe por nossa porta, nossas definições, nossa maneira de falar! Mas, não! Cristo basta! Basta uma porta, Cristo! Ah! quando chegaremos a ajudar a Igreja de Cristo a libertar-se… Pois, para ajudar na libertação do mundo, é preciso ajudar a libertar o papa, a libertar os bispos, a libertar os cristãos…

Crentes e não crentes
Os que não crêem têm em comum com os que crêem que o Senhor acredita neles. Será a surpresa de cristãos e de católicos quando virem que não entrarão sozinhos na casa do Pai… Porque o coração do Pai é muito maior que os registos de todas nossas paróquias, e que o Espírito do Pai sopra por toda parte, mesmo lá aonde os missionários ainda não aportaram! Vocês sabem, não existe um pensamento humano que não contenha uma parte ao menos da verdade, uma parcela do pensamento do Criador.
Não, a partilha da esperança não exige a partilha da fé. Simplesmente, os crentes têm mais responsabilidade.

A justiça e a religião
A religião anunciada a homens sem liberdade se torna necessariamente uma religião fatalista e mágica. Porque a fome, a miséria, são consequências das estruturas de injustiça, o Senhor exige de nós a denúncia das injustiças. Isso faz parte do anúncio da palavra. Se a política consiste em fazer que os direitos humanos fundamentais sejam reconhecidos por todos, esta política é não somente um direito mas um dever para a Igreja. Estou convencido de que se a caridade consiste, hoje em dia, em ajudar a fazer a justiça, a grande pobreza é sofrer com o trabalho para a justiça.
Ah! é tão fácil dar, quero dizer: dar, como uma árvore dá sombra, do alto de sua grandeza! Mas, como é difícil dar sem humilhar, como um irmão que apenas cumpre o seu dever, que partilha com seus irmãos o que pertence também a eles.
É preciso viver a religião e não somente representá-la.
Sempre e em todo lugar do mundo, se se procura viver verdadeiramente o Evangelho corre-se o risco de dissabores.

O pecado e a oração
Com muita frequência falamos em pecados, mas prefiro falar em fraquezas. Quanto mais se conhecem as pessoas por dentro, melhor se percebe que existe bem mais fraqueza do que malignidade. Deus está em toda parte. Dia e noite, estamos mergulhados no Senhor. Andamos, falamos, vivemos, sempre nele. E Deus está dentro de nós. Como é bonito olhar a natureza toda inteira com o Criador que está dentro de nós!
Se Deus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente Pai, que necessidade tem de nossas preces? Não é porque rezamos menos que ele será menos Deus, menos Pai, menos perfeito! Nós é que temos necessidade de rezar, porque se não mergulhamos no Senhor, esquecemos nosso próximo e nos tornamos então tão inumanos… Digo a vocês: o ideal é ter as mãos de Marta e o coração de Maria. O importante não é fazer o impossível para parar o tempo, mas aproveitar o tempo para transformá-lo em eternidade.
Como chegará minha irmã, a morte? A ideia que mais me custa aceitar, mas que aceito, é a de que meu corpo sobreviva a meu espírito… Mesmo esta maneira de terminar os meus dias, de antemão, eu a aceito…

 Fontes: Gerolamo Fazzinni (Vatican Insider), Globo
Frases e fotografias de D. Helder Câmara: in Helder, o Dom, ed. Vozes Redação: Rui Jorge Martins © SNPC | 12.04.14