Domingo da Páscoa
João 21,1-9

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predileto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.
Ressurreição do Senhor
Aprender a acreditar
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Aleluia! Esta palavra hebraica que significa “adorai, louvai, enchei de glória, enchei de louvor” é aquela palavra que habita hoje o nosso coração. Hoje é mais verdade que cada um de nós foi criado para adorar, foi criado para louvar, foi criado para dançar. Tudo o que existe bate palmas, tudo o que respira louva. Porque a vida que nós vimos tão ameaçada, tão retida pelos laços da morte, essa vida soltou-se.
A ressurreição é a reviravolta de Deus. A história escreve-se de outra maneira, não há uma fatalidade. Na Sexta-feira Santa nós sentimos o peso da fatalidade, que tantas vezes é a palavra que nós temos de mastigar devagar ao longo do tempo. Tem de ser, temos de nos conformar, temos de aceitar, temos de viver o vazio, temos de viver essa redução a cinzas, a nada, temos de ver o fogo apagar-se e compreender que é assim, que não há mais nada a fazer. E, quando os discípulos rolaram a pedra sobre o sepulcro, era como se um ponto final tivesse de ser colocado naquela história.
A espiritualidade de Sexta-feira Santa é a espiritualidade de uma vida adulta como a nossa. De uma vida inacabada, de uma vida dilacerada, presa nos seus conflitos, nas coisas irresolúveis da nossa história, sentindo que aquilo que temos de fazer ou que teríamos de fazer é tão superior às nossas possibilidades. Então, o que nós sentimos é as mãos vazias, o que nós sentimos é a conformação de abanar os ombros e dizer “é assim”, de encolher a vida e de aceitar que no fundo a morte ganha sempre. A morte e o que ela significa, porque a morte significa muitas coisas, não é apenas o fim desta vida terrena, é também a pequena morte que nos insinua a morte que é o egoísmo, a morte que é a maldade, a morte que é a violência, a morte que é a indiferença. No fundo, olhamos para o mundo, olhamos para nós próprios e dizemos: tarde ou cedo a morte ganha sempre. E a nossa vida torna-se uma vida ferida, uma vida marcada cada vez mais por uma nudez, vamos ficando cada vez mais vazios, cada vez mais ocos, se calhar cada vez mais conformados com a nudez de Cristo que está pregada naquela cruz.
E há a manhã de Páscoa, três dias depois, quando as coisas são levadas ao limite, quando já não há mais esperança alguma, quando tudo começa a entrar num processo de decomposição e de fim, aquela Madalena vai ao sepulcro e descobre que ele está vazio. Vem a correr doida de alegria, intrigada, dizer aos discípulos e eles põem-se a correr ao sepulcro. Hoje é o dia em que os cristãos correm, correm. Porquê? Porque o sepulcro vazio é inacreditável, é inacreditável! O que nós celebramos na Páscoa é inacreditável, é a verdade mais inacreditável. E ao mesmo tempo é a reviravolta, é o levantamento, é a insurreição, é a história como nós não a tínhamos pensado. E isto para cada um de nós, e isto para o destino do mundo.
Por isso, hoje é o dia de celebrar aleluia, de levantar a cabeça. Hoje é o dia de sentir a leveza, sentir a esperança como um sopro que nos refaz, que nos anima, que coloca um sorriso no fundo da nossa alma porque Ele ressuscitou. Aquele que desceu mais fundo do que se pode descer, Aquele que foi até à aniquilação para abraçar toda a minha ferida, toda a minha fragilidade, toda a minha miséria, levantou-Se. E, quando Ele Se levanta, ele leva-nos aos Seus ombros de bom-pastor; quando Ele Se levanta, Ele leva-nos, segura-nos nas suas mãos de misericórdia; quando Ele se levanta também coloca a minha vida de pé.
O verbo “ressuscitar” quer dizer: ficar de pé, levantar-se. Levantemo-nos! Este é o levantamento mais fácil, mas há um profundo dentro de nós, esse é o verbo “ressuscitar”. Podemo-nos sentar. Para compreender a ressurreição é preciso fazer um caminho. Nós perguntamos: quem foram as primeiras testemunhas da ressurreição? E a quem custou mais não acreditar na ressurreição?
As primeiras testemunhas da ressurreição foram as mulheres. Foram as mulheres porque elas não largavam o sepulcro, porque elas choravam, elas precisavam chorar, porque elas levavam perfumes, porque elas cuidavam, elas queriam cuidar na morte e para lá da própria morte, porque elas queriam ficar ali, porque não tinham nada a perder. Não tinham medo que lhes dissessem: “Tu és Dele, tu és Daquele.” Elas não tinham nada a perder. E, ao mesmo tempo, o testemunho das mulheres também não era válido num tribunal judaico. Então, reparem, aquelas que amam, aquelas que não têm medo de correr o risco de amar, aqueles e aquelas que cuidam, aqueles que permanecem são os primeiros a testemunhar o mistério da ressurreição.
Como é que nós vamos tatear a verdade da ressurreição? Se nos colocarmos na fronteira do amor, na fronteira do cuidado, na fronteira do serviço, se permanecermos fiéis à memória do amor e habitarmos esse lugar continuamente, se perdermos o medo de amar então nós vamos ser os primeiros testemunhas da ressurreição. E são elas, como diz o Papa Francisco, Madalena, seguindo a tradição dos Padres da Igreja, “Madalena, a apóstola dos apóstolos”, vai chamar Pedro e João e eles vêm a correr. E eles também têm de fazer o caminho para compreender. Então, há dois verbos. Há o verbo “ver”, e o que é que eles vêm? Veem o sepulcro vazio, vêm as ligaduras caídas, vêm o sudário dobrado. Este é o primeiro verbo, o verbo “ver”.
Os nossos olhos também veem e veem o vazio, veem o silêncio, veem esse lugar refulgente da ausência, veem o invisível, mas esta visão é para podermos acreditar. E o grande trabalho da ressurreição é acreditar, acreditar. Quem ama, quem cuida, quem permanece fiel, quem perfuma a vida dos outros, quem não abandona, quem habita o lugar da vizinhança, o lugar da proximidade acredita, acredita, aprende a acreditar. E é isso, queridos irmãos, que a Páscoa pede de cada um de nós: que aprendamos a acreditar. A acreditar que a vida é maior do que a morte, a acreditar que Deus repara as feridas, que Deus é capaz de salvar o insalvável, que para Deus não há o irrecuperável, que Ele é capaz de fazer e recriar e reconstruir, porque Ele é o Deus da vida. A ressurreição, o sepulcro vazio, é essa irrupção de vida – torna-se fonte, manancial, surto. É dessa fonte que nós temos de nos alimentar para encher a nossa vida de gestos, de olhares, de caminhos, de viagens, de projetos, de pactos. Porque a ressurreição tem de ser vida que nos atravessa.
S. Paulo na Carta aos Colossenses tem uma das mais belas formulações da Igreja antiga, ele diz: “Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus para que ela, com Cristo, se possa manifestar.”
Queridos irmãos, nós celebrámos o Tríduo Pascal e o que é que fizemos? Morremos com Cristo. E nesta Eucaristia nós morremos com Cristo, o homem velho, a mulher velha que subsiste dentro de nós, nós queremos deixar com Cristo o homem da impureza, queremos que morra com Cristo para que possamos renascer com Ele para a vida. Os cristãos sentiram uma coisa quase insolente, pelo menos muito insólita, eles acreditavam que o Espírito do Ressuscitado estava com eles. Nós aqui, não estamos apenas a celebrar um facto de há dois mil anos. Não, nós estamos a estremecer, como a haste de uma flor estremece ao vento. Nós estamos a brilhar, como quando uma luz se acende no interior. Porquê? Porque já não somos só nós, já não contamos apenas com as nossas forças, já não vivemos apenas a nossa pequena história, o Ressuscitado está connosco, o espírito do Ressuscitado hoje desce sobre nós. E Ele também nos transforma, Ele também opera a grande reviravolta, a grande transformação na nossa vida. Hoje, quando nos voltarmos a levantar seremos mulheres e homens novos.
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
Crer sem ver
Marcel Domergue, SJ
Aqui estamos novamente no centro da nossa fé, diante da sua prova definitiva, do núcleo de onde jorra a única luz capaz de iluminar as trevas que a vida nos dá para atravessar. Deus, fundamento e fonte de tudo o que existe, veio esposar a nossa morte. Ou melhor, veio esposar-nos em nossa morte. Do leito nupcial da Cruz, nasceu uma vida nova. Vida que, primeiro, manifestou-se por uma ausência. Para que tudo se mantivesse em ordem, teria sido preciso que o cadáver de Jesus tivesse permanecido enterrado em seu lugar, num dos túmulos de nossos cemitérios. Mas eis que Maria Madalena, Pedro e João não encontraram senão um túmulo vazio. Vazio e aberto! Como se, daí em diante, a morte se comunicasse com a vida sem mais nenhum obstáculo. A primeira explicação foi de que haviam levado o corpo, para colocá-lo em outro lugar. «Alguém». Mas, quem? Os discípulos, como se mostra em seguida, estavam aterrorizados demais, para terem feito tal proeza (ver João 20,19). Esta remoção haveria de ter sido clandestina. Como, então, na pressa, arrumarem-se meticulosamente as faixas de linho e o pano que lhe envolveu a cabeça? Os detalhes da versão segundo João tendem a colocar-nos em presença de um túmulo que jamais fora usado, como se a Ressurreição tivesse sido contemporânea à morte. De fato, tudo se passara na invisibilidade, num «universo» que escapa à nossa temporalidade. Ninguém viu Jesus levantar-se nem sair do túmulo. Por isso, com exceção deste evangelho que diz ter João «visto e acreditado», os outros textos todos insistem na dificuldade de crer, com referência aos discípulos. E a maior parte de nós segue por este mesmo caminho.
A prova e a plenitude da fé
O evangelho não diz o que João viu, nem sequer no que acreditou. De fato, ele não viu nada. Viu que ali onde deveria ver um cadáver não havia nada. «Por que procurais entre os mortos aquele que vive?» (Lucas 24,5). Daí em diante, Jesus vai se encontrar onde se encontram os vivos. Sua visibilidade agora se passou para todos os humanos, e nos tornamos a sua morada, quando unidos pela fé. Com efeito, a fé nos faz ver o que os olhos não podem enxergar. E, todavia, é este invisível que faz existir tudo o que se vê, e o que o salva da insignificância, da sua ausência de sentido. Pois, o que pode significar de fato uma vida que acaba por se dissolver no nada? Não podemos imaginar que, dia após dia, estamos caminhando para a morte. A morte não é um termo; é sim uma via, uma passagem. Para a fé e pela fé, seguimos para a vida. A morte tem somente a antepenúltima palavra. Confessemos que a Ressurreição de Cristo e os relatos que a anunciam são uma verdadeira prova para a fé. De fato, é aí que a fé encontra a sua verdade: o que significaria uma fé que não chegasse até à vitória da vida? O que significaria um poder de Deus que fosse posto em cheque pela morte? O que seria este «Amor», se nos deixasse perecer? Recapitulada e fundada na Ressurreição de Cristo, a nossa ressurreição é necessária para que Deus seja Deus. Este é o fundamento da nossa fé, e também a sua comprovação, através deste «mistério» do qual, no entanto, só podemos tomar conhecimento por meio dela.
“Não tenhais medo”
A menção ao medo aparece duas vezes no evangelho da Vigília pascal. E de que é preciso não ter medo? Da morte, com certeza, mas o fim do medo da morte só virá mais tarde. Neste texto, para Maria Madalena e Salomé trata-se do medo da vida, desta vida nova, que fez da morte, um segundo parto. Assim como nós, também elas estão habituadas a ver na morte o contrário da vida; e eis que estes dois «adversários» entram agora em conivência. A morte, dali em diante, está condenada a produzir a vida, uma vida para além da nossa experiência. Conforme João, esta Maria, que a Tradição sempre assimilou a Maria Madalena, já havia testemunhado a ressurreição de seu irmão Lázaro, assim, este sinal a encontrara crente. Mas, mesmo que, no texto, a ressurreição de Lázaro não tenha sido da mesma natureza que a de Cristo, manifestou-se Ele como senhor da vida e vitorioso sobre a morte, mantendo-se então fora e acima do combate a que ambas se entregavam. Agora, no entanto, mostra-se como parte interessada, imerso em seu afrontamento. Eis aí, agora, a revelação de um mundo que não se havia suspeitado. As duas mulheres permanecem mudas. Estamos acostumados de tal forma à proclamação da Ressurreição de Cristo que não nos deixamos abalar por ela. Pois acostumemo-nos antes de tudo a buscar e a experimentar o medo e a estupefação das primeiras testemunhas. Para, só em seguida, buscarmos a fé, fonte de uma alegria que está à prova da perspectiva da morte.
«Cristo Ressuscitado»:
a boa notícia que muda a pessoa e a história humana
Romeo Ballan, MCCJ
“No primeiro dia da semana” (Evangelho v.1), Jesus Ressuscitou! Explode a vida, inicia a nova história da humanidade, nada é como dantes, tudo tem um novo sentido, positivo, definitivo. O anúncio daquele facto histórico – que é o tesouro na origem da comunidade crente – ecoa de casa em casa, de igreja em igreja, em todas as latitudes, em todos os ângulos do mundo; torna-se ‘evangelho = bela notícia’ para todos os povos. “O sepulcro vazio torna-se berço do cristianismo”(S Jerónimo. O sepulcro vazio marcou o passo decisivo da fé para João: ele correu até ao sepulcro, “inclinou-se, viu os panos pousados lá, mas não entrou”; depois entrou juntamente com Pedro, “viu e acreditou” (v.4.5.8). Era o início da fé em Jesus ressuscitado, que mais tarde se reforçou quando o encontraram vivo. “O facto principal na história do cristianismo está num certo número de pessoas que afirmam terem visto o ressuscitado” (Sinclaire Lewis) .
Desde sempre, a Igreja missionária dá início a novas comunidades de fiéis anunciando que Jesus Cristo é o Filho de Deus, crucificado e ressuscitado. É Ele o motivo principal e o fundamento da missão. O facto histórico da ressurreição de Cristo, que teve lugar por volta do ano 30 da nossa era, constitui o núcleo central que dá força a toda a mensagem cristã, enquanto que a catequese enriquece os seus conteúdos e inspira a sua metodologia. A missão é portadora da mensagem de vida que é o próprio Cristo: Aquele que Vive pela sua ressurreição, depois da paixão e da morte. Este é o Kerigma, anúncio essencial para aqueles que ainda não são cristãos; anúncio fundamental também para despertar e purificar a fé daqueles que se ficam quase só pela primeira parte do mistério pascal. Há cristãos, na verdade, que se concentram quase só em Cristo sofredor na paixão, e quase não chegam a dar o salto da fé em Cristo ressuscitado. Parece-lhes mais fácil e mais consolador identificar-se com o Cristo morto, sobretudo quando vivem em situações de sofrimento, depressão, pobreza, humilhação, luto… Na verdade, uma tal consolação seria só aparente; a verdadeira consolação adquire solidez só com a fé em Cristo ressuscitado. A missão é um evento eminentemente pascal, porque afunda as suas raízes e os seus conteúdos na ressurreição de Cristo.
A fé é gradual: Maria de Magdala, Pedro e João correram ao sepulcro com a intenção de recuperar um cadáver desaparecido; estavam de todo impreparados para um acontecimento que não entrava nos seus cálculos; só mais tarde chegaram à fé no Senhor ressuscitado; e tornaram-se nas primeiras testemunhas e anunciadores corajosos (I leitura): “Nós somos testemunhas … testemunhas escolhidas de antemão por Deus … E mandou-nos anunciar ao povo e testemunhar… “(v. 39.41.42). Desde então, o caminho ordinário da transmissão da fé cristã é o testemunho de pessoas que acreditaram antes de nós. Por isso mesmo, nós professamos que a fé é apostólica: porque é radicada na fé dos apóstolos e no seu testemunho.
O testemunho, que une anúncio e coerência de vida, é a primeira forma de missão (cfr. AG 11-12; EN 21; RMi 42-44). As verdadeiras testemunhas do Ressuscitado são pessoas ‘contagiantes’. As pessoas transformadas pelo Evangelho de Jesus Cristo ressuscitado, que vivem os valores superiores do espírito (II leitura), são as únicas capazes de contagiar outras pessoase interessá-las nos mesmos valores: tais como a aceitação e a serenidade no sofrimento, a esperança perante a morte, a oração como abandono nas mãos do Pai, a alegria no serviço aos outros; a honestidade a toda a prova, a humildade e o autocontrole, a promoção do bem dos outros, a atenção aos necessitados e aos últimos, o testemunho do Invisível… Assim se compreende e se realiza a missão de maneira capilar, ainda antes e melhor do que através das estruturas hierárquicas. “Celebra a Páscoa com Cristo só quem sabe amar, sabe perdoar… com um coração grande como o mundo, sem inimigos, sem rancores”, como ensinava numa catequese o bispo Mons. Óscar Arnulfo Romero, morto em São Salvador, a 24 de Março de 1980.
Esta é a notícia bela de que o mundo precisa; o Evangelho que todos têm o direito de conhecer! E que a Igreja missionária deve levar a todos os povos.
O PERCURSO DE MARIA MADALENA
António Couto
1. A narrativa de João 20 abre com a Madalena, que vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo de Jesus, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante dos olhos o inefável. Mas cega como está pelos seus preconceitos, falha a visão do inefável, e corre logo para trás, equivocada e baralhada, a levar a Simão Pedro e ao outro discípulo uma falsa notícia: «Retiraram (êran: aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Aquele «retiraram», no tempo histórico (aoristo grego), sugere que foram mãos humanas a roubar o cadáver de Jesus, lenda já astuciosamente fabricada e divulgada pelos judeus em Mt 27,64; 28,13-15. Mas o equívoco da Madalena não é de admirar, dado que ela anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite, não consegue ver a Luz.
2. Mas não acaba aqui o percurso da Madalena. Depois da inspeção ao túmulo levada a efeito por Simão Pedro e pelo outro discípulo, a Madalena muda de olhar (de blépô, um ver normal, para theôréô, um ver que dá que pensar) e de atitude, e volta a aparecer junto do túmulo. Agora vem a chorar e aproxima-se do túmulo, o que não tinha feito antes. Agora inclina-se e vê, com o tal ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, sentados no lugar onde foi deposto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?» (João 20,13). Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza. A paisagem em que se move, ou a página que a move, ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto, da Cruz retirado (êren: aoristo de aírô) pelas mãos de José de Arimateia (João 19,38), daquele Rei que os judeus pedem a Pilatos que o retire (âron: imperativo aoristo de aírô) (João 19,15[2x]), ou até daquela pedra do túmulo de Lázaro por mãos humanas retirada (êran: aoristo de aírô) (João 11,39 e 41). A Madalena, como tantas vezes nós, anda perdida por entre os pequenos episódios do tempo, pelos aoristos da história. Falhou o inefável que lhe foi oferecido logo na primeira vez que foi ao túmulo, e não soube ver a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), como indica o particípio perfeito passivo do verbo aírô. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram (êran) o meu Senhor (tòn kýrión mou), e não sei onde o puseram» (João 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô. Mas note-se agora sobretudo o possessivo «meu» (mou) afeto a Senhor.
3. Voltando-se para o jardim, vê, outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20 do Evangelho de João. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15).
4. Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela em aramaico: «Maria!» (João 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para João 19,13 e 17. Equivocada e baralhada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte terrena para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (João 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (João 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê sem parar o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.