Celebração da Vigília Pascal
Mateus 28,1-10

VIGÍLIA PASCAL
Não coloquemos uma pedra sobre a esperança!
Papa Francisco
«Terminado o sábado» (Mt 28, 1), as mulheres foram ao sepulcro. O Evangelho desta santa Vigília começa assim: com o sábado. Este é o dia do Tríduo Pascal que mais descuramos, ansiosos de passar da cruz de sexta-feira à aleluia de domingo. Este ano, porém, damo-nos conta, mais do que nunca, do sábado santo, o dia do grande silêncio; podemos rever-nos nos sentimentos que tinham as mulheres naquele dia. Como nós, tinham nos olhos o drama do sofrimento, duma tragédia inesperada, que se verificou demasiado rapidamente. Viram a morte e tinham a morte no coração. À amargura, juntou-se o medo: acabariam, também elas, como o Mestre? E depois os receios pelo futuro, carecido todo ele de ser reconstruído. A memória ferida, a esperança sufocada. Para elas, era a hora mais escura, como o é hoje para nós.
Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não cedem às forças obscuras da lamentação e da lamúria, não se fecham no pessimismo, nem fogem da realidade. Realizam algo simples e extraordinário: nas suas casas, preparam os perfumes para o corpo de Jesus. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Nossa Senhora, no sábado – dia que Lhe será dedicado –, reza e espera. No desafio da tristeza, confia no Senhor. Sem o saber, estas mulheres preparavam na escuridão daquele sábado «o romper do primeiro dia da semana» (Mt 28, 1), o dia que havia de mudar a história. Jesus, como semente na terra, estava para fazer germinar no mundo uma vida nova; e as mulheres, com a oração e o amor, ajudavam a esperança a desabrochar. Quantas pessoas, nos dias tristes que vivemos, fizeram e fazem como aquelas mulheres, disseminando rebentos de esperança com pequenos gestos de solicitude, de carinho, de oração!
Ao amanhecer, as mulheres vão ao sepulcro. Lá diz-lhes o anjo: «Não tenhais medo. Não está aqui; ressuscitou» (cf. Mt 28, 5-6). Diante dum túmulo, ouvem palavras de vida… E depois encontram Jesus, o autor da esperança, que confirma o anúncio dizendo-lhes: «Não temais» (28, 10). Não tenhais medo, não temais: eis o anúncio de esperança para nós, hoje. Tais são as palavras que Deus nos repete hoje, na noite que estamos a atravessar.
Nesta noite, conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmadinha nas costas nem um encorajamento de circunstância, com o aflorar dum sorriso. Não. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos. Tudo correrá bem: repetimos com tenacidade nestas semanas, agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento. Mas, à medida que os dias passam e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida.
O túmulo é o lugar donde, quem entra, não sai. Mas Jesus saiu para nós, ressuscitou para nós, para trazer vida onde havia morte, para começar uma história nova no ponto onde fora colocada uma pedra em cima. Ele, que derrubou a pedra da entrada do túmulo, pode remover as rochas que fecham o coração. Por isso, não cedamos à resignação, não coloquemos uma pedra sobre a esperança. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel. Não nos deixou sozinhos, visitou-nos: veio a cada uma das nossas situações, no sofrimento, na angústia, na morte. A sua luz iluminou a obscuridade do sepulcro: hoje quer alcançar os cantos mais escuros da vida. Minha irmã, meu irmão, ainda que no coração tenhas sepultado a esperança, não desistas! Deus é maior. A escuridão e a morte não têm a última palavra. Coragem! Com Deus, nada está perdido.
Coragem: é uma palavra que, nos Evangelhos, sai sempre da boca de Jesus. Só uma vez é pronunciada por outros, quando dizem a um mendigo: «Coragem, levanta-te que [Jesus] chama-te» (Mc 10, 49). É Ele, o Ressuscitado, que nos levanta a nós, mendigos. Se te sentes fraco e frágil no caminho, se cais, não tenhas medo; Deus estende-te a mão dizendo: «Coragem!» Entretanto poderias exclamar como padre Abbondio: «A coragem, não no-la podemos dar» (I promessi sposi, XXV). Não a podes dar a ti mesmo, mas podes recebê-la, como um presente. Basta abrir o coração na oração, basta levantar um pouco aquela pedra colocada à boca do coração, para deixar entrar a luz de Jesus. Basta convidá-Lo: «Vinde, Jesus, aos meus medos e dizei também a mim: “coragem!” Convosco, Senhor, seremos provados; mas não turvados. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque convosco a cruz desagua na ressurreição, porque Vós estais connosco na escuridão das nossas noites: sois certeza nas nossas incertezas, Palavra nos nossos silêncios e nada poderá jamais roubar-nos o amor que nutris por nós».
Eis o anúncio pascal, anúncio de esperança. Este contém uma segunda parte, o envio. «Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia» (Mt 28,10): diz Jesus. Ele «vai à vossa frente para a Galileia» (28, 7): diz o anjo. O Senhor precede-nos, precede-nos sempre. É bom saber que caminha diante de nós, que visitou a nossa vida e a nossa morte para nos preceder na Galileia, isto é, no lugar que, para Ele e para os seus discípulos, lembrava a vida diária, a família, o trabalho. Jesus deseja que levemos a esperança lá, à vida de cada dia. Mas, para os discípulos, a Galileia era também o lugar das recordações, sobretudo da primeira chamada. Voltar à Galileia é lembrar-se de ter sido amado e chamado por Deus. Cada um de nós tem a sua própria Galileia. Precisamos de retomar o caminho, lembrando-nos de que nascemos e renascemos a partir duma chamada gratuita de amor, lá, na minha Galileia. Este é o ponto donde recomeçar sempre, sobretudo nas crises, nos tempos de provação: na recordação da minha Galileia.
Mais ainda. A Galileia era a região mais distante de Jerusalém, onde estavam. E não só geograficamente: a Galileia era o lugar mais distante do caráter sacro da Cidade Santa. Era uma região habitada por povos diferentes, que praticavam vários cultos: era a «Galileia dos gentios» (Mt 4, 15). Jesus envia para lá, pede para recomeçar de lá. Que nos diz isto? Que o anúncio da esperança não deve ficar confinado nos nossos recintos sagrados, mas ser levado a todos. Porque todos têm necessidade de ser encorajados e, se não o fizermos nós que tocamos com a mão «o Verbo da vida» (1 Jo 1, 1), quem o fará? Como é belo ser cristãos
que consolam, que carregam os fardos dos outros, que encorajam: anunciadores de vida em tempo de morte! A cada Galileia, a cada região desta humanidade a que pertencemos e que nos pertence, porque todos somos irmãos e irmãs, levemos o cântico da vida! Façamos calar os gritos de morte: de guerras, basta! Pare a produção e o comércio das armas, porque é de pão que precisamos, não de metralhadoras. Cessem os abortos, que matam a vida inocente. Abram-se os corações daqueles que têm, para encher as mãos vazias de quem não dispõe do necessário.
No fim, as mulheres «estreitaram os pés» de Jesus (Mt 28, 9), aqueles pés que, para nos encontrar, haviam percorrido um longo caminho até entrar e sair do túmulo. Abraçaram os pés que espezinharam a morte e abriram o caminho da esperança. Hoje nós, peregrinos em busca de esperança, estreitamo-nos a Vós, Jesus ressuscitado. Voltamos as costas à morte e abrimos os corações para Vós, que sois a Vida.
Papa Francisco
Sábado Santo, 11 de abril de 2020
Jesus aparece primeiro às mulheres discípulas
Enzo Bianchi
Neste dia, o primeiro dia depois do sábado, início de uma nova semana, na verdade inicia um novo tempo, o tempo da vitória do amor sobre a morte, um tempo que durará até ao fim do mundo (cf. Mt 28,20). É o tempo em que Jesus, o Senhor vivo, “vem” para encontrar os homens e as mulheres que procuram dar um sentido à sua vida; é o tempo em que os discípulos de Jesus, sem o terem visto, convictos de que ele está vivo, procuram segui-lo e conformar sua vida cotidiana à sua própria vida humaníssima (cf. 1Pd 1,8-9). Esse dia que marca uma virada na história é a Páscoa do Senhor, o Dia do Senhor!
O que aconteceu na história, na madrugada daquele 9 de abril do ano 30 da nossa era, o terceiro dia após a crucificação e a morte de Jesus? Todos os Evangelhos nos dão um testemunho concorde: o túmulo no qual Jesus havia sido sepultado encontra-se vazio.
Mas sigamos o relato de Mateus, como nos pede a liturgia da grande e santíssima Vigília Pascal. Passado o sábado, na madrugada do primeiro dia da semana, as mulheres discípulas que haviam sido testemunhas da morte de Jesus na cruz (cf. Mt 27,55-56) e acompanharam seu sepultamento por José de Arimatéia (cf. Mt 27,61) vão ao túmulo de Jesus.
Mateus diz que fazem isso para “contemplar” (verbo theoréo) o sepulcro, enquanto Marcos e Lucas, para ungi-lo (cf. Mc 16,1; Lc 24,1). Seu afeto fiel as leva a voltar ao lugar onde Jesus foi deposto, ao seu corpo, porque essas mulheres continuam sendo atraídas pelo seu mestre e profeta, seguido a um caro preço até ao fim. São Maria de Magdala e a outra Maria, que foram da Galileia para Jerusalém com Jesus.
Naquele início do dia, estão ausentes os discípulos, aqueles que tinham deixado tudo para seguir o rabi Jesus (cf. Mt 4,18-22), mas depois, durante sua paixão, o abandonaram para fugir, todos, sem excluir nenhum deles (cf. Mt 26,56). Também essa ausência evidencia a presença das discípulas, que, em seu vínculo perseverante com Jesus, tornam-se as primeiras testemunhas de sua ressurreição. Assim que essas mulheres se aproximam do sepulcro, eis que ocorre o indizível: ocorre uma revelação de Deus, e é feito um anúncio às mulheres que só Deus podia fazer, um anúncio que se impõe.
A própria terra parece participar da revelação, tremendo como em um terremoto, e um mensageiro do Senhor desce do céu, enviado por Deus, com o rosto resplandecente de luz e as vestes resplandecentes. Temos aqui as imagens vetero-testamentárias que tentam representar o mistério que não pode ser contado com palavras e, ao mesmo tempo, temos a descrição do temor que sempre toma conta de quem se aproxima de Deus.
Esse mensageiro – apenas Mateus narra esse detalhe – desce do céu e faz rolar a grande pedra que fechava o sepulcro, selada pelos guardas colocados pelas autoridades religiosas (cf. Mt 27,62-66); depois, faz dessa pedra um trono, sentando-se gloriosamente sobre ela. A pedra que fechava o túmulo, sinal da morte implacável e invicta, é removida pelo mensageiro que, sentando-se sobre ela, proclama que a morte foi vencida, que não é mais a última realidade. Ele também se impõe aos guardas, que “tremeram e ficaram como mortos”.
O mensageiro, portanto, pode dirigir-se às mulheres, dizendo-lhes: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava”. Acima de tudo, o mensageiro as tranquiliza e certifica que conhece a sua busca: elas buscavam Jesus! Buscavam aquele que tinham visto crucificado três dias antes, aquele que havia morrido na cruz e havia sido sepultado no túmulo por elas visitado.
Mas o túmulo está vazio, e esse é um sinal para passar da aporia à fé. No sepulcro vazio, não há uma prova da ressurreição: de fato, seria possível dizer que os discípulos foram roubar o corpo (cf. Mt 27,64), que Jesus não morreu, mas fugiu; outras explicações poderiam ser aduzidas…
Mas o que é decisivo é que no anúncio: “Ele não está aqui. Ressuscitou”, o mensageiro acrescenta: “como havia dito”, evidenciando que havia palavras ditas por Jesus que deviam ser lembradas e acreditadas.
As mulheres iniciam, assim, o fatigante caminho de recordar, de reviver as palavras de Jesus como confiáveis, fonte de fé, de convicção. Nelas nasce a fé: recordando as palavras de Jesus (dizem Marcos e Mateus), recordando também as Escrituras do Antigo Testamento, verdadeira profecia (diz Lucas), interpretando tudo isso à luz do túmulo vazio, elas aderem à revelação: “Jesus, o crucificado, ressuscitou!”.
E assim que as mulheres chegam a interpretar o evento ocorrido na história, o evento do túmulo vazio, logo sentem nelas o impulso, o desejo, a força para anunciar o evento. Devem ir ao encontro dos discípulos amedrontados e fechados em sua habitação em Jerusalém, para lhes anunciar a boa notícia pascal da ressurreição de Jesus. E na Galileia ocorrerá o encontro:
onde havia ocorrido o chamado,
o encontro e a intimidade,
o envolvimento com a vida de Jesus,
para lá era preciso voltar, com um caminho que não é geográfico, mas existencial. É um voltar ao início para recomeçar e, assim, transcender a hora da negação, do abandono do Senhor, da própria queda.
As mulheres, então, correm, abandonando às pressas o sepulcro, que não tem mais nenhum significado para elas e, convencidas de que Jesus ressuscitou, vão levar o Evangelho aos seus discípulos. Sim, as mulheres foram as primeiras destinatárias do anúncio pascal, foram enviadas àqueles que se diziam enviados (apóstoloi) do Senhor: esse dado ainda hoje parece não ser plenamente aceitável pela cultura eclesiástica… Mas, na verdade, esse não é detalhe pequeno, e hoje devemos ressaltar sua peculiaridade: as mulheres discípulas, e não os discípulos, são os sujeitos do primeiro testemunho, da primeira evangelização pascal.
É um fato que permanece inegável, que não pode ser ignorado ou recordado apenas superficialmente, mas deve nos questionar hoje e ser fonte de perguntas para a cultura cristã dominante nas Igrejas, em todas as Igrejas. Aquela manhã de Páscoa, aquele início da salvação, tem como protagonistas as mulheres discípulas: os discípulos permanecem fechados, os sacerdotes e os escribas permanecem convencidos de que Jesus está morto e corrompem os guardas para que testemunhem o falso, e as pessoas vivem a habitual indiferença que as induz a não fazer perguntas.
Mateus nos diz não só que as discípulas anunciaram a fé pascal aos discípulos, mas também que puderam ver uma manifestação de Jesus ressuscitado. Ele vai ao encontro delas, quase como para lhes agradecer pela missão realizada junto aos discípulos, e as saúda dizendo: “Alegrem-se!” (chaírete). Então, aproximam-se de Jesus e seguram-lhe os pés, isto é, caem por terra e, prostradas, abraçam-lhe os pés, constatando que ele está vivo, expressando-lhe seu afeto fiel, alegrando-se porque sua morte não foi um fracasso, mas uma passagem (é isso que significa o termo “páscoa”) para uma vida nova, a vida eterna de Deus.
Jesus, em resposta, dá-lhes o mandato já dado pelo mensageiro: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”.
Esse mandato de ir para a Galileia, para as discípulas e os discípulos, significa: “Reconstituam a comunidade depois da dispersão ocorrida em Jerusalém. Retomem o caminho da fé juntos e, nessa terra de fronteira entre Israel e os territórios dos gentios, comecem a anunciar a boa notícia da ressurreição, porque esse é o fundamento do Evangelho”.
Esse evento da ressurreição, os discípulos, os evangelistas e depois todos os cristãos voltarão a contar, a interpretar, celebrando assim sua fé até hoje. Cristo ressuscitou: essa é a nossa esperança, a nossa dívida para com toda a humanidade!
VIGÍLIA NA NOITE SANTA
Antonio Couto
1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3).
2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo e belo o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não». Tudo céu. Nenhuma parcela de chão envenenado. Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não.
3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egito opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» (Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).
4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável proteção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo.
5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).
6. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de pergaminho ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Mal aparecem as primeiras três estrelas no firmamento, que acendem o Primeiro Dia da semana (tê epiphôskoúsê eis mían sabbátôn) (Mateus 28,1a), as mulheres vêm ao túmulo para ver (theôréô) com atenção e carinho (Mateus 28,1b). Já antes estavam lá a ver (theôréô) da mesma maneira (Mateus 27,55), únicas duas menções deste verbo no Evangelho de Mateus. Note-se que, nesta página admirável de Mateus, as mulheres não conseguem dormir, não esperam pela madrugada para saírem de casa, mas vão ver o túmulo de Jesus logo que termina o sábado, pouco depois de se pôr o sol, e de aparecerem as primeiras três estrelas no céu! É nessa altura que acaba o sábado e se acende o primeiro dia da semana, o DOMINGO. A pedra da morte não pode ser retirada por nós. É manifesta a nossa impotência face à morte. Levanta-se, porém, um terramoto grande (teofania), vem um Anjo, rola a pedra, e sentava-se (ekáthêto: imperf. de káthêmai) sobre (epánô) ela (Mateus 28,2). O sentar-se sobre (epánô) a pedra da morte indica domínio sobre a morte, é como estar sentado sobre um trono (cf. Mateus 23,22). Por sua vez, o uso do verbo no imperfeito, indica duração. Acabou-se o domínio da morte. À vista do sucedido, os guardas de serviço, que vigiavam um eventual furto, ficaram cheios de medo, e caíram como mortos (Mateus 28,4). Às mulheres, que procuravam o fruto, o Anjo diz para não terem medo, desvenda o que elas sentem e pensam: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado» (Mateus 28,5), e entrega-lhes um novo saber: «Não está aqui; foi Ressuscitado», e convida-as a mudarem de olhar e a irem, não apenas ver, identificar (ideîn), não um corpo morto, mas o lugar onde jazia (Mateus 28,6).
7. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indica o fim do domínio da morte. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, como bem sabiam as mulheres (Mateus 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto; é necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo. E é ainda o Anjo que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma missão: «Ide dizer aos seus Discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mateus 28,7). E elas partiram imediatamente, e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mateus 28,8). Mas pelo caminho são surpreendidas pelo próprio Jesus Ressuscitado, que as convida à alegria e a não terem medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: «Ide dizer aos meus Irmãos…» (Mateus 28,9-10).
8. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição de Jesus antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora.
9. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como os discípulos de Emaús, que sentiam o coração a arder. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume Novo.
10. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!
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