O Tríduo Pascal é o coração pulsante do ano litúrgico, o tempo em que a Igreja contempla o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Para viver mais intensamente estes dias santos, proponho aqui uma seleção de homilias do Papa Bento XVI escolhidas para o Tríduo Pascal.

1. Missa crismal: Adsum!
Queridos irmãos e irmãs!
Todos os anos a Missa crismal nos exorta a reentrar naquele “sim” à chamada de Deus, que pronunciamos no dia da nossa Ordenação sacerdotal. “Adsum eis-me!”, dissemos como Isaías, quando ouviu a voz de Deus que perguntava: “Quem enviarei eu? E quem irá por mim?” “Eis-me aqui, enviai-me” respondeu Isaías (6, 8). Depois o próprio Senhor, pelas mãos do Bispo, impôs-nos as mãos e nós entregámo-nos à sua missão. Em seguida, percorremos vários caminhos no âmbito da sua chamada. Podemos nós afirmar sempre o que Paulo, depois de anos de serviço ao Evangelho muitas vezes cansativo e marcado pelos sofrimentos de todos os tipos, escreveu aos Coríntios: “Não desanimemos neste ministério, que nos foi concedido misericordiosamente” (cf. 2 Cor 4, 1)? “Não desanimemos neste ministério”. Rezemos neste dia, para que ele seja sempre animado, para que seja sempre alimentado de novo pela chama viva do Evangelho.
Ao mesmo tempo, a Quinta-Feira Santa é para nós uma ocasião para nos perguntarmos sempre de novo: Ao que dissemos “sim”? O que significa “ser sacerdote de Jesus Cristo”? O Cânone II do nosso Missal, que provavelmente foi redigido já no final do século II em Roma, descreve a essência do ministério sacerdotal com as mesmas palavras com as quais, no Livro do Deuteronómio (18, 5.7), era descrita a essência do sacerdócio veterotestamentário: astare coram te et tibi ministrare. Portanto, são duas as tarefas que definem a essência do ministério sacerdotal: em primeiro lugar o “estar diante do Senhor”. No Livro do Deuteronómio isto deve ser lido no contexto da disposição precedente, segundo a qual os sacerdotes não recebiam porção alguma de terreno na Terra Santa eles viviam de Deus e por Deus. Não se ocupavam dos normais trabalhos necessários para o sustento da vida quotidiana. A sua profissão era “estar diante do Senhor” olhar para Ele, estar com Ele. Assim, em última análise, a palavra indicava uma vida na presença de Deus e com isto também um ministério em representação dos outros. Assim como os outros cultivavam a terra, da qual vivia também o sacerdote, assim ele mantinha o mundo aberto para Deus, devia viver com o olhar dirigido para Ele. Se esta palavra agora se encontra no Cânone da Missa imediatamente depois da consagração dos dons, depois da entrada do Senhor na assembleia em oração, então isto indica para nós o estar diante do Senhor presente, isto é, indica a Eucaristia como centro da vida sacerdotal. Mas também aqui o alcance vai além.
No hino da Liturgia das Horas que durante a quaresma introduz o Ofício das leituras o Ofício que outrora os monges recitavam durante a hora da vigília nocturna diante de Deus e pelos homens uma das tarefas da quaresma é descrita com o imperativo: arctius perstemus in custodia estejamos vigilantes de modo mais intenso. Na tradição do monaquismo sírio, os monges eram qualificados como “os que estão em pé”; estar em pé era a expressão da vigilância. O que era considerada tarefa dos monges, podemos com razão vê-la também como expressão da missão sacerdotal e como justa interpretação da palavra do Deuteronómio: o sacerdote deve ser alguém que vigia. Deve estar alerta diante dos poderes ameaçadores do mal. Deve manter o mundo desperto para Deus. Deve ser alguém que está em pé: firme diante das correntes do tempo. Firme na verdade. Firme no compromisso pelo bem. Estar diante do Senhor deve ser sempre, no mais profundo, também um ocupar-se dos homens junto do Senhor que, por sua vez, se ocupa de todos nós junto do Pai. E deve ser um ocupar-se d’Ele, de Cristo, da sua palavra, da sua verdade, do seu amor. Firme deve ser o sacerdote, destemido e disposto a suportar pelo Senhor até ultrajes, como referem os Actos dos Apóstolos: eles “cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do nome de Jesus” (5, 41).
Passemos agora à segunda palavra, que o Cânone II retoma do texto do Antigo Testamento “estar diante de ti e servir-te”. O sacerdote deve ser uma pessoa recta, vigilante, uma pessoa que sabe ser firme. A tudo isto acrescente-se depois o servir. No texto veterotestamentário esta palavra tem um significado essencialmente ritual: aos sacerdotes competiam todas as acções de culto previstas pela Lei. Mas este agir segundo o rito era depois classificado como serviço, como um encargo de serviço, e explica-se assim em que espírito aquelas actividades deviam ser desempenhadas. Com a assunção da palavra “servir” no Cânone, este significado litúrgico da palavra é de certa forma adoptada de acordo com a novidade do culto cristão. O que o sacerdote faz naquele momento, na celebração da Eucaristia, é servir, realizar um serviço a Deus e um serviço aos homens. O culto que Cristo prestou ao Pai foi doar-se até ao fim pelos homens. O sacerdote deve inserir-se neste culto, neste serviço. Assim, a palavra “servir” assume muitas dimensões. Certamente dela faz parte antes de tudo a recta celebração da Liturgia e dos Sacramentos em geral, realizada com participação interior.
Devemos aprender sempre a compreender cada vez mais a sagrada Liturgia em toda a sua essência, desenvolver uma viva familiaridade com ela, de modo que se torne a alma da nossa vida quotidiana. É então que celebramos de modo justo, que sobressai a ars celebrandi, a arte de celebrar. Nesta arte nada deve haver de artificial. Se a Liturgia é uma tarefa central do sacerdote, isto significa também que a oração deve ser uma realidade prioritária que se deve aprender sempre de novo e sempre cada vez mais profundamente na escola de Cristo e dos santos de todos os tempos. Dado que a Liturgia cristã, pela sua natureza, é sempre também anúncio, devemos ser pessoas que têm familiaridade com a Palavra de Deus, a amam e a vivem: só então a poderemos explicar de maneira adequada. “Servir o Senhor” o serviço sacerdotal significa precisamente também aprender a conhecer o Senhor na sua Palavra e fazê-Lo conhecer a todos os que Ele nos confia.
Por fim, fazem parte do servir ainda outros dois aspectos. Ninguém está tão próximo do seu senhor como o servo que tem acesso à dimensão mais privada da sua vida. Neste sentido “servir” significa proximidade, exige familiaridade. Esta familiaridade inclui também um perigo: o de que o sagrado por nós continuamente encontrado se torne para nós um hábito. Desaparece assim o temor reverencial. Condicionados por todos os costumes, não deixamos de compreender o facto grande, novo, surpreendente, que Ele mesmo está presente, nos fala, se doe a nós. Contra este acostumar-se à realidade extraordinária, contra a indiferença do coração, devemos lutar sem tréguas, reconhecendo sempre de novo a nossa insuficiência e a graça que existe no facto de que Ele se entregue assim nas nossas mãos.
Servir significa proximidade, mas significa sobretudo também obediência. O servo está sob a palavra: “Não seja feita a minha mas a tua vontade” (Lc 22, 42). Com esta palavra, Jesus no Jardim das Oliveiras resolveu a batalha decisiva contra o pecado, contra a rebelião do coração decaído. O pecado de Adão consistia, precisamente, no facto de que ele queria realizar a sua vontade e não a de Deus. A tentação da humanidade é sempre a de querer ser totalmente autónoma, de seguir apenas a própria vontade e considerar que só assim nós seremos livres; que só graças a uma tal liberdade sem limites o homem seria completamente homem. Mas precisamente assim vamos contra a verdade. Porque a verdade é que devemos partilhar a nossa liberdade com os demais e só podemos ser livres em comunhão com eles. Esta liberdade partilhada só pode ser liberdade verdadeira se com ela entramos no que constitui a própria medida da liberdade, se entramos na vontade de Deus.
Esta obediência fundamental que faz parte do ser homem, um ser não por si e só para si mesmo, torna-se ainda mais concreta no sacerdote: nós não anunciamos a nós próprios, mas a Ele e à sua Palavra, que sozinhos não poderíamos idealizar. Anunciamos a Palavra de Cristo de modo justo só na comunhão do seu Corpo. A nossa obediência é um crer com a Igreja, um pensar e falar com a Igreja, um servir com ela. Faz parte disto sempre também o que Jesus predisse a Pedro: “Serás levado onde não queres”. Este deixar-se guiar para onde não queremos é uma dimensão fundamental do nosso servir, e é precisamente o que nos torna livres. Neste ser guiados, que pode ser contrário às nossas ideias e projectos, experimentamos algo novo a riqueza do amor de Deus. “Estar diante d’Ele e servi-Lo”: Jesus Cristo como verdadeiro Sumo Sacerdote do mundo conferiu a estas palavras uma profundidade antes inimaginável. Ele, que como Filho era e é o Senhor, quis tornar-se aquele servo de Deus que a visão do Livro do profeta Isaías tinha previsto. Quis ser o servo de todos. Representou o conjunto do seu sumo sacerdócio no gesto do lava-pés. Com o gesto do amor até ao fim ele lava os nossos pés sujos, com a humildade do seu servir purifica-nos da doença da nossa soberba. Assim faz com que nos tornemos convidados de Deus. Ele desceu, e a verdadeira elevação do homem realiza-se agora no nosso descer com Ele e para Ele. A sua elevação é a Cruz.
É a descida mais profunda e, como amor levado até ao extremo, é ao mesmo tempo o ápice da elevação, a verdadeira “ascensão” do homem. “Estar diante d’Ele e servi-Lo” isto significa agora entrar na sua chamada de servo de Deus. A Eucaristia como presença da descida e da elevação de Cristo remete assim sempre, além de si mesma, para os numerosos modos do serviço do amor ao próximo. Peçamos ao Senhor, neste dia, o dom de poder proclamar neste sentido de novo o nosso “sim” à sua chamada: “Eis-me aqui. Enviai-me” (Is 6, 8). Amém.
Quinta-feira Santa, 20 de Março de 2008
2. Quinta-feira Santa: Hoc est hodie!
Amados irmãos e irmãs!
Qui, pridie quam pro nostra omniumque salute pateretur, hoc est hodie, accepit panem: assim diremos hoje no Cânone da Santa Missa. «Hoc est hodie»: a liturgia de Quinta-feira Santa insere no texto da oração a palavra «hoje», sublinhando deste modo a dignidade particular deste dia. Foi «hoje» que Ele o fez: deu-Se a Si mesmo para sempre no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. Este «hoje» é antes de mais nada o memorial da Páscoa de então. Mas é mais do que isso. Com o Cânone, entramos neste «hoje». O nosso hoje entra em contacto com o seu hoje. Ele faz isto agora. Com a palavra «hoje», a liturgia da Igreja quer induzir-nos a olhar com grande atenção interior para o mistério deste dia, para as palavras com que o mesmo se exprime. Procuremos, pois, escutar de maneira nova a narração da instituição tal como a Igreja, com base na Escritura e contemplando o próprio Senhor, a formulou.
A primeira coisa que faz impressão é o facto de a narração da instituição não ser uma frase autónoma, mas começar por um pronome relativo: qui pridie. Este «qui» liga toda a narração à frase anterior da oração: «… se converta para nós no Corpo e Sangue de vosso amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo». Deste modo, a narração fica unida à oração anterior, ao Cânone inteiro e torna-se ela mesma oração. Não é de modo algum uma simples narração aqui inserida nem se trata de palavras de autoridade, como um todo à parte, que interromperiam mesmo a oração. É oração. E somente na oração se realiza o acto sacerdotal da consagração, que se torna transformação, transubstanciação dos nossos dons de pão e vinho em Corpo e Sangue de Cristo.
Rezando neste momento central, a Igreja está em total acordo com o acontecimento no Cenáculo, porque o agir de Jesus é descrito com as palavras: «gratias agens benedixit – dando graças, abençoou-o». Com esta expressão, a liturgia romana dividiu em duas palavras aquilo que, no hebraico é uma palavra só – berakha –, enquanto em grego já aparece em dois termos: eucharistía e eulogía. O Senhor dá graças. Ao agradecermos, reconhecemos que algo é dádiva que provém de outrem. O Senhor agradece e assim restitui a Deus o pão, «fruto da terra e do trabalho do homem», para de novo o receber d’Ele. Agradecer torna-se abençoar. O que foi entregue nas mãos de Deus, volta d’Ele abençoado e transformado. Por isso, a liturgia romana tem razão quando interpreta a nossa prece neste momento sagrado por meio das palavras: «oferecemos», «suplicamos», «pedimos que aceiteis», «que abençoeis estas ofertas». Tudo isto se encerra na palavra «eucharistia».
Há outra particularidade na narração da instituição referida no Cânone Romano, que queremos meditar nesta hora. A Igreja orante fixa o olhar nas mãos e nos olhos do Senhor. Quer de certo modo observá-Lo, quer perceber o gesto do seu rezar e do seu agir naquela hora singular, encontrar a figura de Jesus por assim dizer também através dos sentidos. «Ele tomou o pão em suas santas e adoráveis mãos…». Olhamos para aquelas mãos com que Ele curou os homens; mãos com que abençoou as crianças; mãos que impôs sobre as pessoas; mãos que foram cravadas na Cruz e que para sempre conservarão os estigmas como sinais do seu amor pronto a morrer. Agora somos nós encarregados de fazer o que Ele fez: tomar nas mãos o pão para que, através da oração eucarística, seja transformado. Na Ordenação Sacerdotal, as nossas mãos foram ungidas, para que se tornassem mãos de bênção. Nesta hora, rezemos ao Senhor para que as nossas mãos sirvam cada vez mais para levar a salvação, levar a bênção, tornar presente a sua bondade.
Depois o Cânone toma, da introdução à Oração Sacerdotal de Jesus (cf. Jo 17, 1), as palavras: «Levantando os olhos ao céu, para Vós, Deus, seu Pai todo-poderoso…». O Senhor ensina-nos a levantar os olhos e sobretudo o coração: a levantar o olhar, afastando-o das coisas do mundo; a orientar-nos na oração para Deus e assim nos erguermos. Num hino da Liturgia das Horas, pedimos ao Senhor que guarde os nossos olhos, para que não acolham nem deixem entrar em nós «vanitates» – as vaidades, as nulidades, aquilo que não passa de ilusão. Pedimos que, através dos olhos, não entre em nós o mal, falsificando e manchando assim o nosso ser. Mas queremos rezar principalmente para ter olhos que vejam tudo o que é verdadeiro, esplendoroso e bom; a fim de nos tornarmos capazes de ver a presença de Deus no mundo. Pedimos para vermos o mundo com olhos de amor, com os olhos de Jesus, reconhecendo assim os irmãos e irmãs que precisam de nós, que estão à espera da nossa palavra e da nossa acção.
Depois de o ter abençoado, o Senhor parte o pão e distribui-o aos discípulos. Partir o pão é o gesto do pai de família que se preocupa dos seus e lhes dá aquilo de que têm necessidade para a vida. Mas é também o gesto da hospitalidade com que o estrangeiro, o hóspede é acolhido na família sendo-lhe concedido tomar parte na sua vida. Partir-partilhar é unir. Através da partilha, cria-se comunhão. No pão repartido, o Senhor distribui-Se a Si próprio. O gesto de partir alude misteriosamente também à sua morte, ao amor até à morte. Ele distribui-Se a Si mesmo, verdadeiro «pão para a vida do mundo» (cf. Jo 6, 51). O alimento de que o homem, no mais fundo de si mesmo, tem necessidade é a comunhão com o próprio Deus. Dando graças e abençoando, Jesus transforma o pão: já não dá pão terreno, mas a comunhão consigo mesmo. Esta transformação, porém, quer ser o início da transformação do mundo, para que se torne um mundo de ressurreição, um mundo de Deus. Sim, trata-se de transformação: do homem novo e do mundo novo que têm início no pão consagrado, transformado, transubstanciado.
Dissemos que partir o pão é um gesto de comunhão, é unir através do partilhar. Deste modo, no próprio gesto já se alude à natureza íntima da Eucaristia: esta é agape, é amor que se tornou corpóreo. Na palavra «agape», compenetram-se os significados de Eucaristia e amor. No gesto de Jesus que parte o pão, o amor que se participa alcançou a sua radicalidade extrema: Jesus deixa-Se fazer em pedaços como pão vivo. No pão distribuído, reconhecemos o mistério do grão de trigo que morre e assim dá fruto. Reconhecemos a nova multiplicação dos pães, que deriva da morte do grão de trigo e continuará até ao fim do mundo. Ao mesmo tempo vemos que a Eucaristia não pode jamais ser apenas uma acção litúrgica; só está completa, quando a agape litúrgica se torna amor no dia a dia. No culto cristão, as duas coisas tornam-se uma só: ser cumulados de graça pelo Senhor no acto cultual e o culto do amor para com o próximo. Nesta hora, peçamos ao Senhor a graça de aprender a viver cada vez melhor o mistério da Eucaristia de tal modo que assim tenha início a transformação do mundo.
Depois do pão, Jesus toma o cálice do vinho. O Cânone Romano qualifica o cálice que o Senhor dá aos discípulos como «praeclarus calix» (como cálice sagrado), aludindo assim ao Salmo 23/22, o Salmo que fala de Deus como Pastor poderoso e bom. Lê-se nele: «Diante de mim, preparastes uma mesa, sob o olhar dos meus inimigos… o meu cálice transborda» – calix praeclarus. O Cânone Romano interpreta esta expressão do Salmo como uma profecia, que se realiza na Eucaristia: Sim, o Senhor prepara-nos a mesa no meio das ameaças deste mundo e dá-nos o cálice sagrado – o cálice da grande alegria, da verdadeira festa, pela qual todos anelamos – o cálice cheio do vinho do seu amor. O cálice significa as bodas: agora chegou a «hora», a que de forma misteriosa tinham aludido as bodas de Caná. Sim, a Eucaristia é mais do que um banquete, é uma festa de núpcias. E estas núpcias fundam-se na autodoacção de Deus até à morte. Nas palavras da Última Ceia de Jesus e no Cânone da Igreja, o mistério solene das núpcias esconde-se sob a expressão «novum Testamentum». Este cálice é o novo Testamento, «a nova Aliança no meu Sangue» – assim a frase de Jesus sobre o cálice é referida por Paulo, na segunda leitura de hoje (1 Cor 11, 25). O Cânone Romano acrescenta «da nova e eterna Aliança», para exprimir a indissolubilidade do laço nupcial de Deus com a humanidade. O motivo pelo qual as antigas traduções da Bíblia não falam de Aliança, mas de Testamento, deve-se ao facto de não serem dois contraentes de nível igual que se encontram, mas entra em acção a distância infinita entre Deus e o homem. Aquilo que designamos por nova e antiga Aliança não é um acto acordado entre duas partes iguais, mas dom meramente de Deus que nos deixa em herança o seu amor, nos deixa a Si mesmo. E com certeza Ele, superando toda a distância através deste dom do seu amor, torna-nos depois verdadeiramente seus «parceiros» e realiza-se o mistério nupcial do amor.
Para se poder compreender em profundidade o que ali sucede, devemos escutar ainda mais atentamente as palavras da Bíblia e o seu significado originário. Os estudiosos dizem-nos que, nos tempos remotos de que falam as histórias dos Patriarcas de Israel, «ratificar uma aliança» significa «entrar com outros numa ligação assente sobre o sangue, ou seja, acolher o outro na própria federação e assim entrar numa comunhão de direitos um com o outro». Deste modo, cria-se uma consanguinidade real, embora não material. Os parceiros tornam-se de algum modo «irmãos com a mesma carne e os mesmos ossos». A aliança realiza um todo que significa paz (cf. ThWNT, II, 105-137). Será possível agora fazermos pelo menos uma ideia do que sucedeu na hora da Última Ceia e que, desde então, se renova sempre que celebramos a Eucaristia? Deus, o Deus vivo estabelece connosco uma comunhão de paz; mais, Ele cria uma «consanguinidade» entre Ele e nós. Através da encarnação de Jesus, através do seu sangue derramado, fomos atraídos para dentro duma consanguinidade muito real com Jesus e, consequentemente, com o próprio Deus. O sangue de Jesus é o seu amor, no qual a vida divina e a humana se tornaram uma só. Peçamos ao Senhor para compreendermos cada vez mais a grandeza deste mistério, a fim de que o mesmo desenvolva de tal modo a sua força transformadora no nosso íntimo que nos tornemos verdadeiramente consanguíneos de Jesus, permeados pela sua paz e desta maneira também em comunhão uns com os outros.
Agora, porém, surge ainda uma nova questão. No Cenáculo, Cristo dá aos seus discípulos o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, dá-Se a Si mesmo na totalidade da sua pessoa. Mas, como pode fazê-lo? Está ainda fisicamente presente no meio deles, está ali diante deles! Eis a resposta: naquela hora, Jesus realiza aquilo que tinha anteriormente anunciado no discurso do Bom Pastor: «Ninguém me tira a vida, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e o de a retomar…» (Jo 10, 18). Ninguém Lhe pode tirar a vida: é Ele que por livre decisão a dá. Naquela hora, antecipa a crucifixão e a ressurreição. O que se há-de realizar por assim dizer fisicamente n’Ele, cumpre-o Ele já de antemão na liberdade do seu amor. Ele dá a sua vida e retoma-a na ressurreição, a fim de poder partilhá-la para sempre.
Senhor, hoje destes-nos a vossa vida, destes-nos a Vós mesmo. Penetrai-nos com o vosso amor. Fazei-nos viver no vosso «hoje». Tornai-nos instrumentos da vossa paz. Amen.
Quinta-feira Santa, 9 de Abril de 2009
3. Sábado Santo: Resurrexi et adhuc tecum sum!
Queridos irmãos e irmãs!
Desde os tempos mais antigos a liturgia do dia de Páscoa começa com as palavras: Resurrexi et adhuc tecum sum — ressuscitei e estou sempre contigo; puseste sobre mim a tua mão. A liturgia vê nisto a primeira palavra do Filho dirigida ao Pai depois da ressurreição, depois da volta da noite da morte ao mundo dos vivos. A mão do Pai sustentou-O também nesta noite, e assim Ele pode levantar-se, ressuscitar.
A palavra encontra-se no Salmo 138 e ali tem inicialmente um significado distinto. Este Salmo é um canto de admiração pela onipotência e onipresença de Deus, um canto de confiança naquele Deus que jamais nos deixa cair das suas mãos. E suas mãos são boas mãos. O orante imagina uma viagem através de todas as dimensões do universo — que lhe acontecerá? “Se subir aos céus, lá Vos encontro, se descer aos infernos, igualmente. Mesmo que me aposse das asas da aurora, e for morar nos confins do mar, mesmo aí, a Vossa mão me conduz, e a vossa dextra me segura. Se eu disser: “ao menos as trevas me cobrirão…”, nem sequer as trevas serão bastante escuras para Vós […] tanto faz a luz como as trevas” (Sl 139/138, 8-12).
No dia de Páscoa a Igreja nos diz: Jesus Cristo cumpriu para nós esta viagem através das dimensões do universo. Na Carta aos Efésios lemos que Ele desceu nas regiões mais profundas da terra e que Aquele que desceu é o mesmo que também subiu acima de todos os céus para encher o universo (cf. 4, 9-10). Deste modo a visão do Salmo tornou-se realidade. Na escuridão impenetrável da morte Ele entrou como luz – a noite fez-se luminosa como o dia, e a trevas tornaram-se luz. Por isso a Igreja justamente pode considerar a palavra de agradecimento e de confiança como palavra do Ressuscitado dirigida ao Pai: “Sim, viajei até às extremas profundezas da terra, no abismo da morte e trouxe a luz; e agora ressuscitei e permaneço para sempre seguro pelas tuas mãos”. Mas esta palavra do Ressuscitado ao Pai tornou-se também uma palavra que o Senhor dirige a nós: “Ressuscitei e estou contigo para sempre”, diz a cada um de nós. A minha mão de mantém. Onde quer que possas cair, cairás em minhas mãos. Estou presente até mesmo nas portas da morte. Onde ninguém já não pode acompanhar-te e onde nada podes levar, ali eu te espero e transformo para ti as trevas em luz.
Esta palavra do Salmo, lida como diálogo do Ressuscitado conosco, é ao mesmo tempo uma explicação daquilo que acontece no Batismo. De fato, o Batismo é mais do que um lavacro, ou uma purificação. É mais do que a inserção numa comunidade. É um novo nascimento. Um reinício da vida. A passagem da Carta aos Romanos, que acabamos de ouvir, diz com palavras misteriosas que no Batismo fomos “enxertados” de forma semelhante à morte de Cristo. No Batismo nos doamos a Cristo – Ele nos assume em si, para que depois não vivamos mais para nós mesmos, mas graças a Ele, com Ele e n’Ele; para que vivamos com Ele e, assim, para os outros. No Batismo abandonamos a nós mesmos, depomos a nossa vida em suas mãos, para poder dizer com S. Paulo: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim”. Se nos doamos deste modo, aceitando uma espécie de morte do nosso eu, então isto significa também que o confim entre morte e vida se torna permeável. Tanto nesta vida como depois da morte estamos com Cristo e, por isso, daquele momento em diante, a morte já não é um verdadeiro limite. Paulo no-lo diz de forma clara na sua Carta aos Filipenses: “Para mim o viver é Cristo. Mas se permaneço nesta vida, ainda posso trazer fruto. Assim, vejo-me apertado entre estas duas coisas: ser libertado – ou seja, justiçado – e ser com Cristo, seria bem melhor; mas permanecer nesta vida é mais necessário para vós” (cf. 1, 21ss.). Tanto nesta vida como depois da morte ele está com Cristo – já não existe uma verdadeira diferença. Sim, é certo: “Estais à minha frente e atrás de mim, sobre mim repousa a Vossa mão”. Aos Romanos, Paulo escreveu: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo […] Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 7ss.).
Queridos batizandos, esta é a novidade do Batismo: nossa vida pertence a Cristo, não a nós mesmos. Mas precisamente por isso não estamos sós nem sequer na morte, mas estamos com Ele que vive sempre. No Batismo, junto com Cristo, já fizemos a viagem cósmica até às profundezas da morte. Acompanhados por Ele, aliás, acolhidos por Ele no seu amor, nos libertamos do medo. Ele nos envolve e nos leva, onde quer que formos – Ele que é a própria Vida.
Voltemos à noite do Sábado Santo. No Credo professamos a respeito do caminho de Cristo: “Desceu à mansão dos mortos”. O que acontece então? Visto que não conhecemos o mundo da morte, podemos representar este processo de superação da morte somente com imagens que permanecem sempre pouco apropriadas. Porém, com toda a sua insuficiência, elas nos ajudam a entender algo do mistério. A liturgia aplica à descida de Jesus na noite da morte a palavra do Sl 24 [23]: “Levantai, ó pórticos, os vossos dintéis, levantai-vos, ó pórticos eternos!” A porta da morte está fechada, ninguém dali pode voltar para trás. Não existe uma chave para esta porta férrea. Cristo, porém, possui a chave. A sua Cruz abre de par em par as portas da morte, as portas irrevogáveis. Elas agora já não são intransponíveis. A sua Cruz, a radicalidade do seu amor é a chave que abre esta porta. O amor d’Aquele que, sendo Deus, se fez homem para poder morrer – este amor tem a força para abrir esta porta. Este amor é mais forte que a morte.
Os ícones pascais da Igreja oriental mostram como Cristo entra no mundo dos mortos. A sua veste é luz, porque Deus é luz. “A noite é clara como o dia, as trevas são como a luz” (cf. Sl 139 [138], 12). Jesus que entra no mundo dos mortos leva os estigmas: as suas feridas, os seus padecimentos tornaram-se poder, são amor que vence a morte. Ele encontra Adão e todos os homens que esperam na noite da morte. À sua vista parece até ouvir a oração de Jonas: “Clamei a vós do meio da morada dos mortos, e ouvistes a minha voz” (Jn 2, 3). O Filho de Deus na encarnação fez-se uma só coisa com o ser humano – com Adão. Mas só naquele momento, em que cumpre o extremo ato de amor descendo na noite da morte, Ele cumpre o caminho da encarnação. Com a sua morte Ele leva Adão pela mão, leva todos os homens em expectativa para a luz.
Contudo, agora, pode-se perguntar: Mas o que significa esta imagem? Que novidade realmente aconteceu ali através de Cristo? Sendo a alma do homem por si própria imortal desde a criação, qual foi a novidade que Cristo trouxe? Sim, a alma é imortal, porque o homem de forma singular está na memória e no amor de Deus, mesmo depois da sua queda. Mas a sua força não basta para elevar-se até Deus. Não temos asas que poderiam levar-nos até aquela altura. Porém, nada pode contentar o homem eternamente, se não o estar com Deus. Uma eternidade sem esta união com Deus seria uma condenação. O homem não consegue chegar ao alto, mas deseja-o: “Clamei a vós…” Só o Cristo ressuscitado pode elevar-nos até à união com Deus, onde nossas forças não podem chegar. Ele carrega realmente a ovelha perdida sobre os seus ombros e a leva para casa. Vivemos sustentados pelo seu Corpo, e em comunhão com o seu Corpo alcançamos o coração de Deus. E só assim a morte é vencida, somos livres e nossa vida é esperança.
Este é o júbilo da Vigília Pascal: nós somos livres. Mediante a ressurreição de Jesus o amor revelou-se mais forte do que a morte, mais forte do que o mal. O amor O fez descer e, ao mesmo tempo, é a força pela qual Ele se eleva. A força através da qual nos leva consigo. Unidos ao seu amor, levados sobre as asas do amor, como pessoas que amam descemos juntos com Ele nas trevas do mundo, sabendo que precisamente assim também nos elevamos com Ele. Rezemos, portanto, nesta noite: Senhor, mostra hoje também que o amor é mais forte do que o ódio. Que é mais forte do que a morte. Desce também nas noites e na mansão dos mortos deste nosso tempo moderno e segura pela mão aqueles que esperam. Leva-os para a luz! Permanece também comigo nas minhas noites escuras e leva-me para fora! Ajuda-me, ajuda-nos a descer contigo na escuridão daqueles que estão à espera, que das profundezas gritam por ti! Ajuda-nos a levar-lhes a tua luz! Ajuda-nos a chegar ao “sim” do amor, que nos faz descer e por isso mesmo elevevarmo-nos juntamente contigo! Amém.
Sábado Santo 7 de Abril de 2007
4. Sábado Santo: O óleo da misericórdia
Amados irmãos e irmãs
Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Mais tarde, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”.
Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.
Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. “Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – ‘Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ‘ E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa… O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos” (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).
Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.
No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice “não”: ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra “pompas”, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, este “não” era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores.
Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as “vestes velhas”, com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as “vestes” que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina “obras da carne” – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: “fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas” (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.
Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas “vestes” “fruto do Espírito” e as descreve com as seguintes palavras: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gal 5, 22).
Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.
No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.
Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: “alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.
Sábado Santo, 3 de Abril de 2010