É que Deus planta frequentemente sementes da inquietação espiritual nos corações dos ateus. E eles vão procurar respostas; à sua maneira, na sua perspetiva, no seu tempo, mas vão procurar. E se por acaso estivermos na rota de procura de um ateu e ele chocar connosco, então é bom que estejamos preparados para responder ao maior número possível de perguntas sem recorrer ao catoliquês. Esta é, portanto, a minha tentativa de explicar a fé em ateuês.

Rui Guerra
Mar 24, 2026
Cortesia de
https://claustro.carmelitas.pt

Prólogo. Como se apresenta a fé a um ateu? O melhor é não falar catoliquês, porque o enunciado corre o risco de se tornar circular: apresentar a fé com base em argumentos de fé. Além disso, o ateu não fala catoliquês, pelo que a conversa se pode tornar rapidamente uma conversa de surdos. Não me entendam mal. O catoliquês é uma língua maravilhosa que a nós, os seus falantes, permite exprimir da melhor forma possível o mistério do amor de Deus. Mas até dizer uma coisa tão simples como “Até amanhã, se Deus quiser” pode ser motivo de irritação para um ateu rabugento. Por isso, tal como com os Espanhóis, é melhor falar Portunhol, porque eles não vão entender nada do nosso maravilhoso Português, também com um ateu é melhor começar por falar em ateuês e, se a coisa correr bem, introduzir lentamente o catoliquês.

É que Deus planta frequentemente sementes da inquietação espiritual nos corações dos ateus. E eles vão procurar respostas; à sua maneira, na sua perspetiva, no seu tempo, mas vão procurar. E se por acaso estivermos na rota de procura de um ateu e ele chocar connosco, então é bom que estejamos preparados para responder ao maior número possível de perguntas sem recorrer ao catoliquês. Esta é, portanto, a minha tentativa de apresentar a fé em ateuês. Que me perdoem os católicos se disser alguma coisa ligeiramente herética; e que me perdoem os ateus se disser alguma coisa demasiado beata. São os problemas bem conhecidos da tradução: as expressões idiomáticas de uma língua nunca encontram uma tradução perfeita na outra.

A existência de Deus – um argumento existencialista. A ciência tenta descrever o funcionamento do Universo. Tem sido muito bem sucedida. Hoje sabemos muito mais que há 100 anos. E conseguimos compreender e dominar a matéria de forma a produzir verdadeiros prodígios tecnológicos. Mas o mistério da própria existência está para além da ciência. Mesmo se dissermos que os átomos vêm do Big Bang (de cuja existência nunca poderemos ter a certeza), isso só explica o aparecimento dos átomos, não a existência da energia infinita concentrada na singularidade da explosão inicial, que teria sido a existência prévia aos átomos. Por outras palavras, mesmo que recuemos de causa da existência em causa da existência, esbarramos sempre contra o problema da existência em si. Por isso, nunca conseguimos atingir um nível de compreensão abaixo da existência. O que quer dizer “existir”? Poderia não existir nada? Que prodígio é este de existirmos, de nos sentirmos como seres? Este mistério só pode ser tocado em silêncio, em profunda reclusão dos sentidos, mas sentindo-se que se é. (E neste ponto convido o/a amigo/a que me lê a parar a leitura por uns instantes e sentir esse mistério em si e em tudo o que está à volta). E este sentir-se que se é representa um abismo para a compreensão. Não há nada, na verdade, para compreender. Há apenas a certeza – repentinamente rotunda – de que se existe, como quem cai de repente num chão frio de mármore. E essa certeza monolítica é o derradeiro mistério. O homem ateu pode não se dar conta disso; ou dá-se conta, mas prefere não tirar daí conclusões; ou então confia que a ciência tudo há de explicar um dia, o que não deixa de ser uma forma de fé irracional. Mas, para o homem religioso, o mistério de existir é também o mistério de Deus. A cada respiração que faço no silêncio, enquanto sinto que sou, reforço a convicção que a vida que me atravessa é a vida em Deus. Assim, sentir que se é, sentir a sua própria existência, é uma forma, acessível a todos, de tocar o mistério de Deus. E este é provavelmente o sentido da resposta de Deus a Moisés, no episódio da sarça ardente: «Eu sou o que sou» (Ex 3:14). Com efeito, apenas em Deus a realização do ser é completa. Os homens participam do seu ser, mas de forma imperfeita: sentimos que somos, mas, por outro lado, a essência do ser escapa-nos. E é essa participação no Ser perfeito de Deus que podemos sentir quando sentimos que somos. Esta é, portanto, a nossa porta de acesso ao mistério de Deus. Não é um diálogo, não é uma conversa de amigos (isso é uma forma de oração, mas não é disso que falamos agora). É estar à porta do templo e pressentir que há lá dentro algo de sagrado. Um ateu compreende e partilha deste mistério. Simplesmente integra-o de forma diferente na sua cosmovisão.

Jesus. Voltemos então a esta sensação de absoluto. Como se disse, é um mistério que nos ultrapassa totalmente. De certa forma, é tão imensurável que não temos forma de nos relacionarmos com Ele. Como é que então a nossa finitude pode aceder ao infinito mistério do Ser? Esse milagre da engenharia divina é Jesus. Jesus é Deus, mas também é homem. Através d’Ele o Deus Pai torna-se acessível e, até certo ponto, compreensível aos homens. Ser Deus e ser homem é também um mistério. Mas este segundo mistério traz Deus para mais perto do homem e eleva a sua dignidade à condição de filho de Deus. Prestando agora um pouco mais de atenção à sensação de ser, percebemos que esta pode levar ao sentido de relação. E é aqui que existe a primeira bifurcação importante entre o homem religioso e o homem ateu. O homem religioso percebe, nessa sensação de ser, uma presença que é a sua, mas que também é maior que ele. E descobre assim Jesus em si. Porque Jesus é a ligação de Deus Pai, o inefável absoluto, à nossa alma finita. Mas o homem ateu, mesmo que atinja o mistério do ser, não faz este passo. O homem ateu vive este mistério fechado em si. Se se dedica à meditação (mindfulness, yoga, etc.), fá-lo centrado em si. Não é que isto seja intrinsecamente mau. Mas, do ponto de vista de um católico, parece incompleto. A oração é uma relação, a meditação não religiosa é um monólogo. E isto faz toda a diferença: a oração-relação abre-nos ao universo; a meditação centrada em si fecha-nos ao universo. Neste ponto o ateu pode objetar que, depois da constatação do mistério do ser, que é relativamente objetiva, a ideia da mediação de Jesus é uma construção ilusória dos católicos. Mas o nosso objetivo não é demonstrar racionalmente que assim é (não seria possível). É mostrar que é racional viver nesta convicção, embora a convicção em si não seja demonstrável racionalmente. Então é melhor passar ao próximo ponto.

Amor. A ligação a Deus só se faz através do amor. Porque Deus é amor (1 João 4:16). E o que é o amor para os católicos? Vejamos em primeiro lugar a dimensão interior do amor: o mistério do ser é um mistério de amor. O católico não consegue desligar esse mistério de uma sensação intrínseca de agradecimento e louvor: compreende que a criação é amorosa e compreende (tanto quanto pode a sua capacidade finita) o amor de Deus e, como corolário, que a sua própria existência é por Ele amada. E nessa medida, retribui: «Nós amamos porque Ele nos amou primeiro» (1João 4:19). Isto é o louvor bíblico: corresponder, com agradecimento, ao mistério amoroso de ser. E segue-se o passo natural de sair de si e realizar que o amor de Deus foi igualmente derramado por toda a criação, por cada ser. Surge então a decisão profunda de agir sempre para o bem de toda a criação. É a dimensão exterior do amor. Em que consiste exatamente agir sempre em nome do Bem, só o soubemos com Jesus Cristo. Ainda hoje procuramos iluminação nas suas palavras. Mas há uma coisa que se torna cada vez mais clara à medida que procuramos: o amor pedido por Deus no Evangelho sai fora da nossa definição confortável de amor. Não se coaduna muito bem com o que chamamos de “bom-senso”, e que advoga o amor aritmético: “metade para ti, metade para mim”. O amor que se pede é extremo: “nada para mim, tudo para ti”. E é simultaneamente o mais fácil e o mais difícil. É o mais fácil, porque é graça abundante acessível a todos; mas é o mais difícil, porque exige sair de si, despojar-se de si e de todos os apegos, andar no escuro e entregar a vida nas mãos de Deus. E também porque é difícil à nossa mente racional aceitar amor tão irracional. E ainda porque é contra a nossa biologia, negarmo-nos. Só o longo caminho da fé nos vai iluminando e transmutando apegos em amor, como chumbo em ouro. Nesse lento acordar para a Vida, vamos percebendo que os nossos apegos nos fecham ao mundo, enquanto a liberdade que vem de aceitar a vontade de Deus nos aproxima da nossa vocação universal de O vivermos em tudo e em todos.

. As convicções não demonstráveis pela razão são sustentadas pela fé. Mais uma vez, o ateu dirá que escolhemos viver na ilusão porque é mais fácil viver assim; que é mais fácil passar pelas dificuldades da vida acreditando que existe um pós-vida. Mas a fé é outro milagre espantoso da engenharia divina. Embora comunicada por Deus, não se mantém sem a nossa participação. É luz quanto baste para avançar no escuro, mas sem perder totalmente o medo instintivo do escuro. Por outras palavras: a fé não apaga a biologia, os seus medos e as suas dores. Por isso, a fé não é um salvo-conduto para a alegria contínua. E, em geral, as escolhas de fé são mais difíceis que as escolhas agnósticas. Mas pode dizer-se que a fé abre a possibilidade de uma felicidade permanente. Porque felicidade não é alegria. Felicidade é sentir-se amado mesmo no sofrimento e sentir que a partir desse amor pode amar. Parece um paradoxo. E é. Mas vamos por partes.

A cruz.São Paulo diz que «nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1 Coríntios 23). Esta tradução do grego correspondente fielmente ao original, skándalon (escândalo) e moría (loucura). Era escândalo para os judeus, com a sua grandiosa visão messiânica; mas também era loucura para os gentios – gregos incluídos – pois o conceito de um Deus crucificado pelos homens não tem qualquer lógica filosófica. Como entender então tal loucura escandalosa? Com a cruz, Jesus mostra como Deus está indissociavelmente ligado à tragédia humana: se o homem sofre, Deus sofre; se Deus, como homem, triunfa da morte, nós, homens, vivificados em Cristo, também triunfaremos da morte. Deus está no centro da nossa alma e em cada fibra, músculo e veia do nosso corpo. Por isso, Deus não é uma abstração, não é um ente abstrato, uma hipotética fonte da vida sem vida própria aparente. Na cruz de Cristo revela-se uma verdade inimaginável: a divindade ama-nos tanto que se rebaixa até nós, o que quer dizer que o seu amor é semelhante ao humano e o amor humano é semelhante ao amor divino; quer também dizer que Deus está no alto, mas também está aqui entre nós, vive e respira nos homens e em toda a criação. Mas então, porquê o sofrimento? Não era mais fácil para todos ser já o Céu?

Sofrimento. A doutrina da Igreja Católica é que o sofrimento e a morte derivam do pecado original, que é um pecado de orgulho e negação de Deus em favor de uma escolha absoluta de si próprio. Como se pode ler no parágrafo 400 da Catecismo da Igreja Católica: «A harmonia com a criação desfez-se: a criação visível tornou-se, para o homem, estranha e hostil. Por causa do homem, a criação ficou sujeita “à servidão da corrupção”. Enfim, vai concretizar-se a consequência explicitamente anunciada para o caso da desobediência: o homem “voltará ao pó de que foi formado”. A morte faz a sua entrada na história da humanidade». Confesso que tenho alguns problemas com esta explicação. Concordamos que a história de Adão e Eva é simbólica (no §396), mas depois o Catecismo baseia efetivamente a sua explicação do sofrimento numa interpretação literal do Génesis. E muito mais difícil ainda será um ateu aceitar esta explicação ou encontrar nela uma base racional de discussão. Para iniciar, será melhor começar por distinguir dois graus de sofrimento: o sofrimento causado pelo próprio homem e o sofrimento causado pelas leis da biologia e/ou por acontecimentos imprevisíveis. O primeiro grau é muito bem compreendido à luz do simbolismo do Génesis: o orgulho e o egoísmo são a queda que nos afasta do amor de Deus e nos levam a infligir sofrimento aos outros, pelos nossos atos, mas também a nós próprios, porque a alma egoísta nunca está satisfeita. Mas o segundo grau é muito mais difícil de compreender. O universo material assenta em ciclos de vida e morte, construção e destruição. Não só a morte física é um processo de sofrimento, como muitos animais se alimentam uns dos outros. Além disso, catástrofes naturais ou epidemias ceifam vidas de forma arbitrária. As leis da natureza que nos maravilham são também as leis da natureza que nos aterrorizam. Não há como dourar a pílula: o mundo material em que vivemos é impermanente e está sujeito à corrupção. E não sabemos bem porque é assim. Mas aceitando que é assim, o católico continua a acreditar na bondade de Deus. Não é que Deus seja um seguro de vida (basta pensar em tantos santos que morreram jovens). Mas é um seguro de amor. Mantendo o seu coração virado para Deus, o católico procura ver em todas as situações a ação de Deus na sua vida. Mas, na verdade, ainda é mais que isso. O homem tem os pés na terra e a cabeça no céu. Vivemos no mundo material corruptível e ansiamos pelo mundo espiritual incorruptível. Mas os apegos sensíveis aprisionam-nos à terra e afastam-nos do céu. Ficamos demasiado centrados em nós e não em Deus. O sofrimento é muitas vezes a ocasião de cortar apegos e purificar a ligação a Deus. No sofrimento, as luzes do mundo (bens, fama, poder) perdem grande parte sua atração (ou toda) e aparece o espaço e a solidão necessária para estabelecer uma relação mais forte com Deus. Isto não é uma forma de masoquismo ou sublimação do sofrimento. Na verdade, durante toda a vida, todos os dias, temos oportunidades de aceitar e carregar a nossa cruz. Geralmente leve, e se aceite com humildade, é ela que nos permite ir gradualmente criando o espaço para Deus. Mas se a recusarmos com orgulho, afastando-nos da Sua vontade, provavelmente teremos muitas dificuldades em passar por uma provação mais pesada. Então, talvez o sofrimento a que somos sujeitos seja uma forma de conseguir que o Bem que há em nós consiga se resgatar a si próprio. Já vimos que esse bem é uma sociedade: Deus, o sócio maioritário, infunde-nos a graça de amar o Bem, mas nós, sócios ínfimos, temos de aderir pelo nosso livre-arbítrio. Por isso, de certa forma, o Bem tem de sobreviver em nós. Deus tem de sobreviver em nós. E há de sobreviver através da tempestade, através deste mundo impermanente e sujeito à corrupção.

Oração. Toda a vida do católico depende da oração. Porque a vida do católico é passada frente a Deus. E isso é a oração. Por isso, a oração é, acima de tudo, uma atenção amorosa à presença de Deus. Mas como a nossa natureza humana precisa de concretizar o amor, surge então a oração como relação pessoal com Jesus. Só amamos o que conhecemos. E se de Deus Pai sentimos o mistério de existir, de Deus Filho conhecemos a história. Ler e meditar a sua história é uma forma de o conhecermos. Por outro lado, a oração deve ser o espaço em que verdadeiramente somos livres e felizes de sermos como somos. E é desta liberdade e abertura do ser que nasce o amor espontâneo de louvor. Este louvor pode ser expresso vocalmente ou simplesmente voar até Deus na linguagem silenciosa do coração. Oração vocal e oração mental são complementares. A oração vocal é a âncora que permite estar com Deus em qualquer altura do dia ou com qualquer disposição mental, mas pode bloquear o fluxo espontâneo de amor para o Pai. A oração mental é a linguagem pura do coração para Deus, mas pode cair num certo relativismo sem a âncora segura da oração vocal. Ao longo da sua vida, e conforme a sua evolução espiritual, o católico vai usando as duas formas de oração com o fim de preservar a relação pessoal com Jesus.

A missa. A Eucaristia é o centro da vida dos católicos porque «O nosso Salvador instituiu na última ceia, na noite em que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue, para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até voltar, o sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da glória futura» (§1323) – neste caso é muito clara a formulação do Catecismo. Não vale a pena acrescentar mais nada!

Epílogo. Tentei apresentar alguns pontos essenciais da fé católica que levantam mais dúvidas aos ateus, numa linguagem tão agnóstica quanto possível. Esta é uma área em que talvez a Igreja pudesse investir mais: explicar-se com linguagem mais simples, menos clerical.

Este foi o contributo de um simples crente, talvez não muito conseguido, mas bem intencionado.

Rui Guerra
Professor universitário. Carmelita secular