Domingo de Ramos (ciclo A)


Domingo de Ramos (A)

Referências bíblicas

  • Evangelho (proclamado no exterior da igreja):
    Entrada messiânica (Mateus 21,1-11)
  • Missa da Paixão: 1ª leitura: Não desviei o rosto dos ultrajes… Porque sei que não serei humilhado. (Isaías 50,4-7)
  • Salmo: Sl. 21(22) – R/ Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
  • 2ª leitura: Humilhou-se a si mesmo… Por isso Deus o exaltou… (Filipenses 2,6-11)
  • Evangelho: Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Mateus 26,14-75; 27,1-66 ou 27,11-54, mais breve)

Queridos irmãs e irmãos,
Nós acabámos de ler a grande narrativa da Paixão de Jesus. Hoje nós sabemos que a primeira parte dos Evangelhos a ser escrita foi a Paixão de Jesus. Quando olhamos para os quatro evangelhos juntos (Mateus, Marcos, Lucas e João) nós percebemos que aquilo que eles têm de mais próximo, aquilo que é mais comum entre eles é a narrativa da Paixão. Quer dizer que a primeira coisa a ser escrita, aquilo que foi conservado na palavra, no relato, no testemunho, na conversa dos cristãos, aquilo que foi segredado ao ouvido, aquilo que iniciou cada cristão fazendo-o discípulo e discípula de Jesus foi o contacto com esta narrativa da Paixão.

Nós hoje entramos na Semana Maior, na mais santa das semanas do ano. É uma semana para nós muito significativa porque temos oportunidade na liturgia de reviver o mistério pascal do Senhor, sentindo que este relato é a nossa coluna dorsal, que este relato é a nossa arquitetura íntima, que nós somos moldados por este relato, que ele é confiado a cada um de nós como se Jesus viesse bater à nossa porta.

É muito interessante que logo no início do relato aparece-nos uma figura anónima. Os discípulos vêm perguntar a Jesus “Senhor, onde é que queres celebrar a Páscoa este ano?” e Jesus diz “Ide dizer a casa de tal pessoa: o Senhor mandou dizer «Este ano é em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa.»” Nós não sabemos que pessoa é essa, é um anónimo. Seria com certeza conhecido de Jesus e dos outros discípulos. Mas o facto de na narrativa permanecer anónimo permite hoje que cada um de nós, leitores auscultadores desta narrativa, sintamos, porque é mesmo assim, que o Senhor diz ”Olha, este ano é em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa.”

Cada um de nós sinta esta Palavra como uma palavra a si dirigida e, por isso, procuremos viver o mistério desta semana em intimidade com Jesus, em união espiritual com Ele. Tentando perceber o que é esta narrativa, tentando perceber como é que ela pode ser nossa, que mistério extraordinário é este da solidariedade de Jesus que desce ao fundo do abismo, da solidão, do silêncio de Deus, do abandono, do sofrimento de uma vítima, de um justo inocente. Ele desce até aos fundos abissais do sofrimento humano para me abraçar, para me resgatar, para dizer a cada momento da nossa vida: “Tu não estás só. Eu já estive aí, eu já estive aí.” No lugar da nossa dor, do nosso dilema, do nosso impasse, da nossa miséria, do nosso sofrimento, do que nós não conseguimos aceitar nem compreender. Jesus pode dizer com verdade ao nosso coração: “Eu já estive aí, Eu já estive aí.” Ele esteve em todos os lugares onde o homem é vítima, onde a nossa humanidade é crucificada. “Eu já estive aí. Por isso, eu posso estar contigo a cada momento da tua vida.” Sintamos que este relato hoje nos é confiado, confiado a cada um de nós. E o que vamos fazer com isto? O que vamos fazer com esta história?

Dois mil anos depois, num ponto do Ocidente distante da Palestina mas marcado de uma forma indelével por esta história, são os nossos ouvidos que escutam esta história, são os nossos ouvidos que ouvem esta notícia, somos nós que recebemos este apelo e somos nós que temos de sair destas portas e anunciar ao mundo que há um homem crucificado que diz que é o Salvador.

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org


A tomada do poder

A Paixão-Ressurreição de Jesus é a sua exaltação, sua elevação acima de tudo, sua tomada de posse do Reino. O 4º evangelho investe na imagem de Jesus «levantado da terra», na cruz, que se torna assim o trono da glória. Os outros evangelistas mostram a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém.

Esta cena dá o sentido dos acontecimentos que se seguirão, fosse qual fosse o seu conteúdo histórico. Não está aí para nos mostrar a versatilidade da multidão, que num dia aclama e no outro condena. Não. O que ela nos quer dizer é que Jesus veio «tomar o poder», que ele é o Messias filho de Davi que era esperado e que as antigas promessas vão ser cumpridas.

Temos, pois, de superpor, temos de ler em impressão sobreposta as profecias do Reino de Deus por meio do «ungido», do Cristo, na cena dos ramos, da elevação na cruz, da Ressurreição e também do anúncio da volta do Cristo, a recapitulação final.

Obediência à Palavra

Temos o hábito de considerar o Cristo como a Palavra. De fato, as Escrituras o mostram como quem as profere como quem instrui. Mas Jesus mesmo, recebendo e acolhendo a Palavra, esta imagem nos é menos familiar. E, no entanto, ele cumpre ativa e voluntariamente as Escrituras, decifrando na Palavra o que deve ele ser e fazer.

Particularmente nas profecias do Servo, em Isaías, capítulos 42, 49, 50 (a 1ª leitura), 52 e 53. Ver também (1º domingo da Quaresma) como Jesus fez suas as palavras do Deuteronômio. A Epístola aos Hebreus retoma este tema da obediência de Cristo, primeiro em 5,7-9 e, sobretudo, em 10,7, que cita o Salmo 40,7-9: «Eis-me aqui – no rolo do livro está escrito a meu respeito – eu vim, ó Deus, para fazer tua vontade».

Por ter-se deixado instruir por Deus, por ter recebido a Palavra, é que Cristo pode tomar a palavra; mas, então, sua palavra é a Palavra de Deus. Em João, Jesus diz que não cumpre a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou; que as suas obras não são suas, mas do Pai; e que as suas palavras, ele não as diz de si mesmo, mas são as palavras de quem o enviou. Daí a primeira frase de nossa primeira leitura: «Deus me deu língua de discípulo (…)», ou seja, de quem se deixa instruir. Jesus “fez-se obediente até a morte, e morte de Cruz”.

Face de luz e face de trevas

Esta obediência de Jesus tem algo de luminoso. Se, com efeito, tudo o que ele faz e o que diz não é dele, mas do Pai, então, através dele o Pai se torna visível e acessível. Deus está bem aí, entre nós. Este Jesus é a sua imagem perfeita e, a justo título, é chamado de «o Filho».

Se ser Pai significa tão somente dar-se a si mesmo em alimento, a fim de que os filhos vivam; fazer-se desaparecer (deixar-se ir, passar), a fim de deixar lugar aos outros; não se subtrair à maldade e à loucura, «não proteger a sua face dos ultrajes»…

Então, o Filho, Imagem perfeita, exata, deve passar pela cruz, pois que os homens estão por todo o tempo erguendo cruzes pelas quais, ao crucificarem os seus irmãos, estão crucificando o próprio Deus. Resumindo, ser Filho consiste em despojar-se de si mesmo, porque o Pai se despojou (2ª leitura). Mas isto passa por uma libertação.

Quero dizer que Jesus teve de superar a sua vontade de viver, o seu desejo de não sofrer, para escolher e querer aquela atitude. O que não acontece por si mesmo. Ele teve de se ajustar a isso. E o Getsêmani mostra que para ele não foi tão mais fácil do que para nós.

Das trevas à luz

Na hora das trevas, só há uma coisa a fazer: «conservar o rosto impassível como pedra» (1ª leitura), quer dizer, «receber os golpes», deixar-se rolar como um seixo, num silêncio «mineral» («Jesus se calava»). Mas por trás desta espécie de passividade inabalável, uma certeza: «sei que não serei confundido».

O segredo confiado por Deus a este a quem «abriu-lhe os ouvidos» a fim de que se «deixasse instruir como um discípulo», é que, fazendo-se por sua Paixão semelhante a Deus, tornou-se realmente em tudo semelhante a Ele e, encontrando-O ali onde Ele está, recebeu o Nome que está acima de todo nome.

Marcel Domergue
http://www.ihu.unisinos.br


Isaías 50, 4-7

A primeira leitura contém a profecia sobre o “servo do Senhor”, literariamente o terceiro dos quatro “cantos do servo” no livro de Isaías (cf. Is 42, 1-7; 49, 1-7; 50, 4-9; 52, 13-53,12). É o próprio servo que fala da sua missão: de servo que escuta a cada manhã a servo que anuncia a palavra do Senhor. E isso a um alto preço, até ter que sofrer, sem se defender, os flagelos, os insultos, a tortura e a perseguição, mas sempre conservando a confiança do Senhor Deus, que é fiel e que está ao seu lado mesmo na hora da paixão.

Carta aos Filipenses 2, 6-11

No canto da encarnação do Filho de Deus, Jesus CristoPaulo lê este movimento: aquele que era Deus se esvaziou das prerrogativas divinas até assumir a condição do escravo, até viver uma paixão com o resultado da humilhação, da morte ignominiosa na cruz. Mas Deus responde ao abaixamento do seu Filho, que se fez servo, com a exaltação, dando-lhe o nome de Kýrios, Senhor. O que a paixão segundo os Evangelhos narra em um longo relato, o Apóstolo resume em poucas expressões que sintetizam o movimento da nossa salvação no abaixamento/elevação do Filho de Deus, Jesus Cristo.

Mateus 26, 14-27.66

A liturgia deste domingo da Paixão do Senhor, também chamada de Ramos, envolve a leitura do relato da paixão segundo Mateus. O evangelista não nos entrega principalmente uma “crônica”, mas nos fornece a interpretação, que brotou da fé da Igreja, daqueles fatos que constituíram o fim da vida de Jesus, o Cristo.

O evangelho é escrito por aquele que confessa a ressurreição de Jesus e, portanto, lê os eventos antecedentes à luz daquele evento que explica, dá sentido, ilumina a paixão e a morte. Por isso, Mateus insiste no “cumprimento das Escrituras”, dando ritmo ao relato com este refrão: “Como está escrito…”, “isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras…”.

Lendo a paixão segundo Mateus, assistimos, como a multidão convocada, ao processo de Jesus, no qual se confrontam a vontade de Deus e a dos homens, em um drama que é pascal não só pela sua colocação temporal, mas também pela sua dinâmica.

Podemos distinguir o relato em três grandes partes:
– o prelúdio (Mt 26, 1-46);
– o processo religioso (Mt 26, 47-75);
– o processo político, a morte e o sepultamento (Mt 27, 1-66).

No prelúdio, depois do complô (cf. Mt 26, 1-5), lemos como abertura a unção de Jesus por parte de uma mulher anônima em Betânia (casa do pobre), verdadeira introdução à paixão (cf. Mt 26, 6 -13). Derramando óleo perfumado sobre a cabeça de Jesus, a mulher profetiza aquela unção real e sacerdotal que Jesus receberá na cruz. Ela “discerne” Jesus como “o Pobre”, aquele que vai à morte na solidão, no abandono e sem defesa; Jesus aprova o seu gesto, que não é desperdício, mas verdadeiro dom ao Pobre. Não compreender isso significa – como fará Judas (cf. Mt 26, 14-16) – vender Jesus ao preço de dinheiro, porque se estima o valor do dinheiro como mais importante do que a atenção a ser dedicada ao próprio Jesus. Por isso, como Jesus afirma com solenidade: “Em verdade, eu vos digo: por toda a parte, onde este Evangelho for anunciado, no mundo inteiro, também contarão o que ela fez, e ela será lembrada” (Mt 26, 13), o seu gesto de amor.

Segue o relato da ceia (cf. Mt 26, 17-35), que, de acordo com o evangelista, é uma ceia pascal, e justamente nela ocorre a denúncia do pecado do traidor: um dos Doze entrega Jesus, os outros todos fugirão, e Pedro, a rocha, tremendo como uma vara verde, dirá que não conhece Jesus. Essa é a comunidade de Jesus, à qual ele dá o seu corpo e o seu sangue, a sua própria vida. Sim, os convidados daquela ceia são pecadores, infiéis, uma assembleia que nós julgamos como indigna de receber o dom da vida mesma do Senhor. Mas esse dom é para a remissão dos pecados, o cálice é sangue da aliança derramado para a remissão dos pecados, começando por aqueles dos Doze.

Depois da ceia, Jesus desce com a sua comunidade ao Getsêmani, para além da torrente Cedron, no vale abaixo do templo, onde, em uma intensa oração, ele assume até o fim aqueles eventos que já estavam precipitando (cf. Mt 26, 36- 46). Ele poderia ter fugido, renegando o que tinha feito e dito; poderia ter assumido o estilo de quem combate também com a violência, fazendo resistência: em vez disso, opta por viver até o fim fazendo o bem, acolhendo sobre si o mal, em vez de fazê-lo. Essa é a vontade de Deus para todos, para cada ser humano! Portanto, Jesus está pronto, faz dos eventos um ato na sua liberdade e por causa do seu amor. Houve uma luta, podemos dizer que Jesus sofreu novamente a tentação (cf. Mt 4, 1-11), mas, mais uma vez, como sempre, ele colocou o seu destino nas mãos do Pai.

Segue-se a captura na escuridão, por indicação de Judas, através de um beijo, e a firme confissão por parte de Jesus de que o que está acontecendo está de acordo com o que as Escrituras haviam anunciado: agora, mais do que nunca, ele cumpre a vocação recebida (cf. Mt 26, 47-56). Depois, Jesus é conduzido pelo sumo sacerdote Caifás para o processo religioso (cf. Mt 26, 57-68): lá, estavam reunidos alguns escribas e alguns anciãos do povo, convocados às pressas no meio da noite por Caifás. Com esse processo, quer-se condenar Jesus, identificando nas suas ações e nas suas palavras contradições à Lei, blasfêmias contra Deus, traição à comunidade de Israel. Testemunhas compradas intervêm para relatar palavras de Jesus contra o templo, a morada de Deus.

Embora Mateus não nos forneça um relato preciso, uma “gravação”, entendemos que a causa desse processo está toda na identidade de Jesus em relação a Deus. Assim, o sumo sacerdote lhe pede para confessar se ele é o Cristo, o Messias, o filho de Deus. E Jesus respondeu remetendo Caifás às suas palavras e à sua consciência (“Tu o dizes”: Mt 26, 64), mas revelando também que, justamente naquela morte já próxima, haveria a revelação do Filho do homem sentado como Juiz à direita de Deus na glória. Palavras que causam indignação e assustam Caifás, levando-o até a rasgar as suas vestes, sinal de que o sumo sacerdócio que julga Jesus já está acabado, esvaziado.

Em paralelo ao processo religioso de Jesus por parte do sumo sacerdote, há o interrogatório de Pedro por parte de algumas servas, de pessoas anônimas e sem poder. Pedro renega, não reconhece Jesus como Messias sofredor e não consegue nem reconhecê-lo como aquele do qual ele tinha sido discípulo (cf. Mt 26, 69-75). E Judas? Tendo preferido o dinheiro a Jesus, não consegue dar sentido à própria vida e, assim, decide se suicidar (cf. Mt 27, 3-10).

O processo religioso podia emitir condenações, mas não infligir uma pena a Jesus. Por isso, ele é enviado de volta à autoridade política romana, Pôncio Pilatos, naqueles anos governador da Judeia (cf. Mt 27, 1-3.11-26). Para Pilatos, Jesus só é um caso interessante se representar uma ameaça ao poder político de César. Por isso, pergunta-lhe: “Tu és o rei dos judeus?” (Mt 27, 11). Ou seja: “Tu és um concorrente ao poder imperial? Reconheces o poder político de Roma ou o queres para ti?”. Mais uma vez, porém, Jesus não responde com um “sim” ou com um “não”, mas remete Pilatos às suas palavras: “É como dizes, tu fazes essa afirmação, eu nunca a fiz!” (ibid.). Pilatos compreende, então, que Jesus não é um perigo, mas apela às acusações que as autoridades religiosas judaicas moviam contra ele. Mas Jesus não responde, cala-se (cf. Mt 26, 14), com um silêncio que, se fosse escutado, gritaria a verdade com mais força do que qualquer palavra.

Pilatos, então, tenta uma troca entre Jesus e um prisioneiro famoso, um sedicioso, Barrabás, mas as pessoas, incitadas pelos chefes religiosos, preferem a morte de Jesus e chegam a gritar: “Crucifica-o!” (Mt 27, 22). Aqui, o poder totalitário mostra o seu rosto: vendo que o tumulto cresce, tendo compreendido que Jesus não importa nada e não é defendido por ninguém, Pilatos prefere consentir com a vontade da massa, em sua maioria nas garras da vertigem da raiva, do rancor e da violência (cf. Mt 27, 20-26). Mas, antes da execução da condenação, a violência encontra a possibilidade de se desafogar contra um justo indefeso, até o desprezo e a tortura. Jesus é coroado Rei dos judeus, de acordo com a acusação apresentada, e é celebrado em uma paródia: é revestido com um manto escarlate, coroado de espinhos e lhe é dado uma vara como cetro, ícone que os cristãos nunca esquecerão. “Até esse ponto” trataram Jesus, o Filho do homem, o homem vítima da injustiça e do abuso de poder… O processo político se encerra com a entrega de Jesus aos soldados por parte de Pilatos, a fim de que executem a crucificação fora do cidade, no lugar chamado Gólgota (cf. Mt 27, 27-37).

Jesus é crucificado entre dois delinquentes (cf. Mt 27, 38), contado até na morte entre os pecadores, os malfeitores, e a paródia continua com um cartaz que o despreza: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” (Mt 27, 37), um Messias fracassado, condenado pela autoridade religiosa como blasfemador e pela política como malfeitor, posto em uma cruz, o suplício ignominioso reservado aos escravos e aos malditos por Deus e pelos homens (cf. Dt 21, 23; Gl 3, 13).

Na cruz, Jesus continua ouvindo ultrajes, além do último eco das tentações vividas no início e depois sempre na sua missão (cf. Mt 27, 39-44). Descer da cruz manifestando a sua onipotência divina? Salvar a si mesmo como salvou a tantos outros? Ter fé em Deus somente se o libertar daquele fim? Não, Jesus permanece fiel à sua missão até o fim, por isso faz ao Pai uma última pergunta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46; Sl 22, 2). Não é uma contestação, mas uma oração, um pedido de luz na escuridão, uma confissão: “Ó Deus, permaneço fiel a ti mesmo naquilo que eu vivo como abandono, teu silêncio, afastamento de ti!”. Nenhum dos presentes pode compreender, mas apenas um centurião pagão, debaixo da cruz, vendo aquela morte, chega a confessar: “Ele era mesmo Filho de Deus!” (Mt 27, 54).

Assim, enquanto a noite cai e o corpo de Jesus é deposto em um sepulcro por discípulos e discípulas (cf. Mt 27, 57-61), em um pagão é gerada a fé em Jesus: naquela morte tão atroz, o centurião vê que Jesus tem esperança, que permanece fiel a Deus, que vive aquele fim como dom, como amor por todos os homens. Aquela morte já começa a se manifestar como ressurreição, como vida, até que, no terceiro dia, se manifestará em plenitude como o grande mistério da Páscoa de Jesus (cf. Mt 28, 1-10).

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No portal da Semana Santa que hoje tem início (Evangelho), está gravada uma pergunta: “Quem é ele? (Mt 21,10). Assim se interrogava a gente da cidade, em rebuliço, quando Jesus entrou em Jerusalém, entre os aplausos dos simpatizantes, montado não sobre um cavalo de guerra ou de corrida, mas sobre uma burra emprestada… Aquela entrada foi um acontecimento missionário, uma revelação de Jesus à gente. Um momento de triunfo efémero, que durou um só dia; mas serviu pelo menos para provocar a pergunta sobre a identidade de Jesus. A multidão tinha uma resposta já pronta: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré na Galileia” (Mt 21,11). Uma resposta verdadeira, mas na boca deles era, também esta, uma resposta um tanto efémera, a julgar pelo comportamento deles nos dias que se seguiram. Seria necessário, isso sim, um desejo sincero de aprofundar a identidade daquele surpreendente profeta de Nazaré. Tal era o desejo que alguns gregos tinham exprimido, ao chegarem a Jerusalém, quando disseram a Filipe: “Queremos ver Jesus” (Jo 12,21).

As respostas à pergunta inicial, encontramo-las de maneiras diversas durante esta Semana especial. Uma primeira resposta é o próprio Jesus a dá-la, provocado pelo pedido dos gregos: Ele é o grão de trigo, que cai à terra e morre para produzir muito fruto (cfr Jo 12,24); Ele é o Mestre que convida todos a segui-Lo para partilhar a sua sorte (cfr. Jo 12,26); é o Senhor que pode dizer: “Eu, quando serei elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). O destino universal da sua morte na cruz, elevado da terra, é claramente indicado  também nas variantes dos códices antigos: atrairei ‘tudo’, ‘todos os homens’, ‘todo o homem’ … A sua salvação é oferecida, como dom, por todos aqueles que, com coração sincero, “hão-de olhar para aquele que trespassaram” (Jo 19,37), isto é, por aqueles que com fé compaixão e amor olham para Cristo elevado sobre a cruz (cfr. Num 21,8; Zac 12,10). Esta é a situação surpreendente do centurião  romano e dos outros soldados pagãos que, à vista daquilo que sucedia, diziam: “Verdadeiramente este era Filho de Deus!” (Mt 27,54). “Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, precisamente porque permaneceu sobre a cruz, em vez de descer (Cfr Mt 27,40.42); e enquanto os judeus o recusam, os pagãos reconhecem-no. Os pagãos vêem o que os judeus não conseguem ver” (Bruno Maggioni).

A chave para compreender quem é este Filho de Deus, que se faz grão de trigo, que morre na Cruz para atrair todos a si, é nos oferecida pelo evangelista João na última Ceia de Jesus com os seus discípulos: “Amou-os até ai fim” (Jo 13,1). É a declaração de um amor extremo, universal no espaço e no tempo. Palavras que convidam a viver a Semana Santa com um respiro universal, contemplando e anunciando um  Deus na cruz por todos. S. Daniel Comboni tinha compreendido bem quanto era necessário que os seus missionários se formassem nesta contemplação, e recomendava na sua Regra: “Hão-de crescer nesta atitude essencialíssima (espírito de sacrifício) tendo os olhos sempre fixos em Jesus Cristo, amando-o ternamente, e procurando compreender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas”. (Escritos, n.2721)

A longa narração (Evangelho) da condenação e execução de um inocente vai muito mais além da crónica: contém a ‘Boa Nova’ de Cristo Salvador, morto e ressuscitado, que os missionários da Igreja levam por toda a parte no mundo inteiro. Deste núcleo central do Evangelho, derivam escolhas e atitudes fundamentais para os discípulos. Citamos uma entre tantas: a recusa da violência e do uso das armas, como Jesus ensina a Pedro: “Repõe a espada na bainha, porque todos aqueles que usam a espada, de espada morrerão” (v. 52). Uma palavra emblemática para os cristãos que já o apologista Tertuliano (III sec.) comentava assim: “Desarmando Pedro, Jesus tirou as armas das mãos de todos os soldados”.

O cântico do Servo (I leitura) e sobretudo o hino cristológico da Carta aos Filipenses (II leitura) cantam o ciclo completo daquele Deus-homem na cruz: a preexistência divina, o esvaziamento de si mesmo, a humilhação até à cruz, a glorificação com o nome de Senhor, perante o qual todos são convidados à adoração, “para a glória de Deus Pai” (v. 11). A glória do Pai é a meta para a qual tende toda a acção missionária da Igreja. Além da obediência filial, o hino de Filipenses “mostra também o aspecto da solidariedade com os irmãos: Cristo tornou-se semelhante aos homens, assumiu a nossa condição humilde; mais ainda, fez-se solidária com as pessoas mais criminosas, com os condenados à morte de cruz” (A. Vanhoye).

A mensagem da Paixão, mesmo se permanece sempre uma estrada em subida, consegue realizar o prodígio de transformar o coração e a vida das pessoas. De facto, diante da paixão de Jesus, ninguém pode ser um mero espectador. Todos são actores, desempenham um papel, hoje, na Paixão que Jesus continua a viver no seu Corpo místico, na família humana.

Deixando de lado os papéis dos personagens negativos (Judas, Pilatos, os chefes dos sacerdotes, o sinédrio, a multidão que se deixa manipular…), podemos escolher o papel de Simão de Cirene (v. 32), da mulher de Pilatos (v. 19), do centurião (v.54), das pias mulheres, Madalena, Maria, de João, José de Arimateia, Nicodemos… O papel mais apropriado ao cristão, e em particular ao missionário, é o do Cireneu, solidário com os crucificados da história, portador da salvação realizada por Jesus.