
No imaginário comum, os místicos pertencem a um universo distante do nosso. As suas palavras parecem brotar de claustros e celas silenciosas, de experiências interiores que pouco têm a ver com as tensões do mundo contemporâneo. No entanto, a obra de São João da Cruz revela uma surpreendente atualidade. Num tempo marcado por indiferença, individualismo e conflitos armados, o seu pensamento oferece não apenas uma reflexão espiritual, mas também uma profunda leitura da condição humana. É o que penso e sinto, ao escrever este artigo em Faro, junto à Igreja do Carmo (da Ordem Terceira), muito conhecida pela sua Capela dos Ossos, numa semana marcada pelo ataque dos EUA e Israel ao Irão. Recordo, em simultâneo, a voz do Papa Francisco, ao dizer que a guerra nunca é uma solução, mas um problema, um absurdo, uma derrota.
Nuno Henriques,
Cortesia de
https://claustro.carmelitas.pt
O conceito mais conhecido, ou dos mais conhecidos, associado a São João da Cruz é o da «noite escura». Tradicionalmente interpretada como uma experiência espiritual individual, sendo um período de aridez, dúvida e purificação interior, a noite pode também ser entendida como uma metáfora poderosa para o momento cultural que atravessamos. A nossa época, apesar de extraordinários progressos científicos e tecnológicos, deslumbrada com a Inteligência Artificial, parece viver uma crise de sentido. Nunca houve tanto acesso à informação, tantas possibilidades de escolha, tanta capacidade de intervenção sobre a realidade. E, no entanto, parece crescer a sensação de vazio, de desorientação, ansiedade e de fadiga interior.
Talvez a modernidade esteja a atravessar a sua própria noite escura. A perda de referências, a fragmentação social, o aumento da ansiedade e da solidão são sinais de uma cultura que, tendo conquistado uma grande autonomia exterior, parece ter perdido parte da sua orientação interior. Para São João da Cruz, a noite não é apenas um momento de crise; é também um processo de purificação. Aquilo que parecia sólido revela-se frágil, e o ser humano é convidado a reexaminar os fundamentos da sua vida.
Uma das críticas mais radicais presentes no pensamento do Padroeiro dos Poetas Espanhóis, dirige-se ao apego. Para ele, a liberdade interior depende da capacidade de desapego. Mesmo um apego aparentemente pequeno pode aprisionar a pessoa, impedindo-a de alcançar uma verdadeira liberdade. Esta ideia que pode parecer austera, revela-se particularmente pertinente num mundo estruturado em torno do consumo e da acumulação. A sociedade contemporânea multiplica objetos de desejo: bens materiais, experiências, reconhecimento social, visibilidade digital e likes. O problema não reside necessariamente na existência dessas realidades, mas na forma como podem capturar o coração humano.
São João da Cruz formula este princípio de modo retoricamente paradoxal: «Para venir a gustarlo todo, no quieras tener gusto en nada». Não se trata de um desprezo pela realidade, mas de uma advertência contra a ilusão de que a felicidade pode ser garantida pela acumulação. Quando o desejo humano se fixa exclusivamente em bens externos, torna-se dependente deles. A liberdade exige uma transformação mais profunda do próprio desejo.
Outro elemento essencial do pensamento de João da Cruz é a importância do silêncio interior.
Olvido de lo criado,
memoria del Criador,
atención a lo interior,
y estarse amando al Amado.
A tradição mística da qual faz parte sempre valorizou o recolhimento, não como fuga mundi, mas como condição para compreender o mundo de forma mais profunda. O silêncio permite escutar: escutar a própria consciência, escutar os outros, escutar a realidade, escutar… o ruah… na brisa…
A cultura contemporânea, porém, caracteriza-se frequentemente pelo contrário. Vivemos numa atmosfera de estímulo permanente (eu que o diga…): notificações constantes, fluxos ininterruptos de informação, opiniões imediatas sobre quase todos os acontecimentos. Tal ambiente pode criar a ilusão de uma participação intensa na vida pública, mas muitas vezes tem como efeito colateral a superficialidade e o cansaço. O filósofo Byung-Chul Han, com várias obras traduzidas em Portugal, tem descrito este fenómeno como uma sociedade saturada de estímulos que acaba por gerar esgotamento e perda de profundidade.
Sem interioridade, o diálogo torna-se difícil. Sem silêncio, o pensamento torna-se reativo. A proposta espiritual de São João da Cruz recorda, por isso, que a verdadeira liberdade humana exige uma dimensão interior que não pode ser constantemente ocupada pelo ruído exterior.
O mundo contemporâneo é também frequentemente descrito como profundamente individualista. A autonomia pessoal tornou-se um valor central das sociedades modernas. Contudo, essa autonomia nem sempre se traduz em relações humanas mais ricas. Pelo contrário, muitos estudos apontam para o crescimento da solidão e do isolamento social.
Na visão de João da Cruz, o ser humano encontra a sua plenitude no amor. Mas o amor, para ele, não é apenas uma emoção ou um sentimento passageiro. Trata-se de uma força transformadora que desloca a pessoa do centro de si mesma. A sua frase: «No entardecer da vida examinar-te-ão no amor» resume bem esta perspetiva. E eu temo-a… Esta afirmação não é uma simples exortação moral; é uma afirmação antropológica. O ser humano realiza-se na medida em que aprende a amar de forma livre e desinteressada.
Num mundo marcado por conflitos armados e tensões geopolíticas, esta dimensão interior adquire uma relevância particular. Conflitos como a Invasão da Ucrânia pela Rússia, o Conflito Israel–Hamas que, afinal, ainda permanece, ou agora, este último entre os EUA/Israel contra o Irão, recordam que a história humana continua profundamente marcada pela violência, pelo medo e pela luta pelo poder. São João da Cruz não propõe programas políticos ou soluções diplomáticas para estas situações. É verdade. Mas recorda algo essencial: as estruturas exteriores da sociedade refletem, em grande medida, as disposições interiores das pessoas.
A transformação do mundo não pode ser reduzida a reformas institucionais ou avanços tecnológicos. Sem uma transformação do coração humano de olhos postos no Sagrado Coração de Jesus, as mesmas dinâmicas de rivalidade, medo e dominação tenderão a reaparecer sob novas formas. Neste sentido, a mística não é uma fuga à realidade histórica, mas uma tentativa de ir à raiz mais profunda dos conflitos humanos.
Sin arrimo y con arrimo,
sin luz y a oscuras viviendo,
todo me voy consumiendo.
O pensamento de São João da Cruz está cheio de paradoxos aparentes. Ele fala da necessidade de perder para ganhar, de atravessar a noite para alcançar a Luz, de se esvaziar para ser plenamente preenchido. À primeira vista, estas ideias parecem contrariar a lógica dominante da modernidade, baseada na eficiência, no sucesso imediato e na visibilidade social. No entanto, a própria experiência humana confirma frequentemente a verdade destes paradoxos. Muitas das transformações mais profundas da vida nascem de momentos de crise, de perda ou de desorientação.
Talvez por isso a mensagem de São João da Cruz continue a ressoar através dos séculos. A sua reflexão não oferece receitas simples para os problemas do mundo contemporâneo. Mas convida a uma interrogação mais radical: que tipo de desejo orienta a nossa vida? Que lugar damos ao silêncio interior? Que significado atribuímos ao amor?
Num tempo marcado pela pressa, pela dispersão e pela polarização, a voz deste místico da minha saudosa Úbeda pode parecer inesperada. No entanto, precisamente por vir de um horizonte tão diferente, essa voz pode ajudar a iluminar algumas das inquietações mais profundas do nosso tempo. Talvez a noite que sentimos em muitos aspetos da cultura contemporânea não seja apenas sinal de decadência. Pode também ser um convite a redescobrir o essencial: a liberdade interior, a purificação do desejo e a capacidade de amar.
É a minha esperança.
Nuno Henriques
Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC