5° Domingo da Quaresma (A)
João 11,1-45
Referências bíblicas
- 1ª leitura: “Porei em vós o meu espírito e vivereis” (Ez 37,12-14)
- Salmo: Sl.129(130) – R/ No Senhor, toda graça e redenção!
- 2ª leitura: “O Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós” (Rm 8,8-11)
- Evangelho: “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11,1-45)
Viver segundo o Espírito
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Na Carta de S. Paulo que hoje nós lemos ele fala de dois princípios que servem de bússola para a nossa vida. Muito na linguagem paulina nós temos de um lado a lei da carne, o caminho da carne, o princípio da carne e o princípio do espírito.
S. Paulo desafia os cristãos, os da sua comunidade e os de cada tempo, a viverem segundo a lei do espírito. Isto é, desobedecendo à lei da morte que se insinua em nós, desobedecendo à escravidão, à dependência que limita a nossa liberdade e atrofia a nossa vida; e estimula-nos, inspira-nos para acolhermos uma vida segundo o espírito. Isto é, uma vida em que, a cada momento, nós estamos conscientes de que somos filhos e filhos amados de Deus, que somos cuidados e encaminhados pela Sua misericórdia, que somos divinizados pelo Seu amor. E por isso, a nossa vida tem de ter o sentido, tem de ter a expressão desta vida divina aqui na terra. Viver segundo o Espírito é viver nesta relação permanente com Deus, nesta consciência a cada momento de que estamos perante Ele, perante o Seu amor.
Por isso, as pequenas coisas da vida não são pequenas, são o nosso modo de relação, são a oportunidade, a oportunidade de uma relação. Viver segundo o Espírito é considerar sagrado cada momento, é considerar uma grande oportunidade tudo aquilo que nos é dado, mesmo aquilo que a gente não espera ou aquilo que a gente não quer mas que está para ser vivido. Aceitar isso como oportunidade, como lugar de encontro, como via, como estrada, como caminho que nos conduz até Deus e viver isso segundo o Espírito. Isto é, numa atitude profunda, filial, de confiança. Como um filho pequenino se abandona no colo da mãe, no abraço do pai, nós somos chamados a viver essa entrega da nossa vida, essa confiança, repetindo continuamente: “Eu sou Teu. Eu quero ir para Ti. Ajuda-me a permanecer em Ti.” Libertar-se de um princípio da carne que é uma vida autocentrada, uma vida muito egoísta, uma vida à procura do próprio prazer, à procura daquilo que é o nosso eu para viver uma vida segundo o Espírito, experimentando essa liberdade, essa confiança, essa certeza do amor de Deus e sermos capazes de experimentar o desprendimento. Desprendimento de tudo aquilo que nos aprisiona, de tudo aquilo que nos prende.
A Quaresma é uma máquina de produzir desprendimento, de produzir desapego, é uma máquina de fazer liberdade, de fazer mulheres e homens livres que na oração, no jejum e na esmola encontram formas de se libertar, de pensar no outro, de sentir que a nossa vida é maior do que aquilo que nós somos capazes de construir, que a nossa vida não está apenas ao nosso serviço mas que é um caminho que tem de transbordar. É uma fonte, é uma cisterna que tem de espalhar vida em redor de si. Viver segundo a carne ou viver segundo o Espírito? O que é que nós verdadeiramente vivemos? O que é que estamos dispostos a viver?
Neste tempo da Quaresma, nós estamos já no quinto domingo da Quaresma, entramos na última semana. E a última pode ser a primeira. Não é mal nenhum, a última pode ser a primeira, podemos começar agora, o importante é que experimentemos este viver segundo o Espírito que é viver na escuta, viver na atenção, viver na paz, viver na generosidade, viver na mansidão, viver na reconciliação, viver no amor – este deixar-nos habitar pelo Espírito. Nós precisamos espiritualizar muito a nossa vida porque a nossa vida vive muito escravizada por aquilo que temos a fazer, pela pressão do dia a dia, pela nossa agenda, pelos acontecimentos, que muitas vezes são uma necessidade e outras vezes são uma desculpa para não estarmos em nós mesmos, para não estarmos diante de Deus. É importante parar, é importante colocarmo-nos a verdade de certas perguntas como esta que a partir de S. Paulo nos é feita: como é que tens vivido? Mais na linha do Espírito ou mais na linha da carne, mais na linha do mundo, mais na linha da tua autossuficiência e do prazer do teu eu? Tens vivido esse desapego? Tens-te deixado conduzir pelo Espírito Santo nas grandes e nas pequenas decisões da tua vida? Deus é o construtor da cidade onde tu habitas? Ou não pensamos nisso? Ou isso não é uma coisa que entra nos nossos cálculos, nas nossas discussões interiores?
A palavra que hoje nos é dita, primeiro em forma de promessa e depois em forma de realidade, é que Deus está disposto a tudo para vir ao nosso encontro. E cada um de nós tem de sentir isso. Deus está disposto a tudo para me manifestar o Seu amor. E por isso nós ouvíamos a palavra do profeta Ezequiel: “Eu vos farei ressuscitar dos vossos túmulos.”
O túmulo parece o lugar do irreversível, onde já não há nada a fazer. Lázaro estava morto há quatro dias, já cheirava mal. Muitas vezes na nossa vida há coisas que já cheiram mal, coisas que parece que já não há nada a fazer, já é mesmo assim, só se pode suportar, só se pode aceitar. E contudo, o amor de Deus diz-nos: “Não aceites o irreversível, não aceites a fatalidade da morte, da pequena morte que se insinua dentro da nossa vida, não aceites, não aceites, acredita na força da promessa: “Eu vos retirarei dos vossos túmulos.”
No Evangelho de S. João temos esta cena da ressurreição de Lázaro, está muito bem contada. Aí nós vemos a amizade de Jesus, vemos como Ele Se emociona profundamente, como Ele chora. Vemos profundamente a humanidade de Jesus em cena. Mas, quando Jesus ressuscita aquele homem, aquele amigo chamado Lázaro, o que é que Jesus diz? O que é que Ele nos ensina a ver? O que é que Ele nos leva, nos conduz a acreditar? Ele diz-nos: a morte não é a última palavra sobre o destino humano. Nós temos de atirar o nosso coração para mais longe, temos de atirar o nosso olhar para o infinito. A morte não é a irreversibilidade. Jesus desfaz o irreversível, Jesus desfataliza a nossa história, reabre o nosso assunto. Jesus diz: “Não, isto não é um assunto arrumado.” Vamos reabrir – reabre o processo da nossa vida no sentido da esperança, não para nos julgar mas para nos reanimar, para nos revitalizar, para nos dar uma outra vida no Espírito.
Queridos irmãs e irmãos, confrontemo-nos, cada um de nós, com estes textos – o profeta Ezequiel: “Eu vos farei ressuscitar dos vossos túmulos.”, S. Paulo: “Vivei, não segundo a lei da carne mas segundo a vida do Espírito.” E o que é isso viver segundo o Espírito? Jesus que disse a Lázaro e diz a cada um de nós, manietados tantas vezes pelas nossas mortes, numa vida que tantas vezes já cheira mal disto ou daquele assunto: “Sai para fora, sai para fora.” E tira as ligaduras que nos prendem e devolve-nos à vida. Isto é aquilo que Jesus está disposto a fazer na vida de cada um de nós. Deixemo-nos trabalhar pelo Espírito Santo na vida.
Um cristão é uma criação de Deus, é uma criação do Espírito. É verdade que há muito esforço nosso, há muito compromisso, há muita vontade, há sacrifício da nossa parte, há dádiva, há sonho, há utopia, há desejo profundo de ser. Mas, ao mesmo tempo, sentirmos que esta vida nova em nós é um dom, é um dom que Ele nos dá à partida, que não tem a ver com merecer isto ou merecer aquilo. Ele dá-te o dom. Nós somos filhas e filhos deste dom, somos recriados, transformados por este dom, reinventados pelo Espírito. Desobedeçamos, rebelemo-nos de uma vida que seja apenas um conformismo, uma fatalidade, um “não vejo como possa ser de outra forma”. E sintamos que há uma possibilidade, que há este desejo de Deus, esta fantasia de Deus que é capaz de recriar a mulher e o homem que eu sou, que é capaz de me tornar, eu que sou homem velho, numa nova criatura. Sintamos por isso as mãos de Deus, que moldam silenciosamente a nossa vida e abandonemo-nos com confiança a esse trabalho. Que esta última semana da Quaresma seja para nós um reacordar, seja para nós um entregarmo-nos, seja para nós um exercitar da própria confiança deste Deus que nos conduz pelo caminho do Espírito e nos reveste do Seu Espírito Santo.
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
O túmulo é um berço
Raymond Gravel
Terceiro escrutínio: a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-45)
Hoje termina a série de três evangelhos de São João que tratam do batismo cristão: após a água viva da samaritana e a luz do cego de nascença, vem agora o renascimento, a ressurreição de Lázaro, que significa em hebraico Deus ajuda. Nesse relato, Lázaro morre, ou melhor, adormece na morte para acordar, ressuscitar. O batismo faz passar: Páscoa = Passagem da morte para uma vida nova no Cristo ressuscitado. Nesse relato que se encontra apenas em João, há belas mensagens para os cristãos de todos os tempos.
1. A morte = um drama
A morte sempre foi e sempre será um momento difícil de passar. Quando se perde um ente querido, nos sentimos impotentes, feridos, chocados e muitas vezes privados. No relato que São João nos conta, todos os personagens provam esses sentimentos: Jesus, Marta, Maria e os judeus.
Jesus. “Quando Jesus ouviu que Lázaro estava doente, ficou ainda dois no lugar onde estava” (Jo 11,6). Por quê? Simplesmente porque Jesus não pode fazer nada contra a sequência natural da vida humana que termina necessariamente com a morte. Foi agradável provar o amor para com seu amigo Lázaro: “Senhor, aquele a quem amas está doente” (Jo 11,3). A doença, o sofrimento e a morte fazem parte da nossa realidade humana que devemos assumir. Por outro lado, João já deixa entrever que a doença e a morte não têm a última palavra sobre a vida: Jesus ficou dois dias no lugar, isto é, o tempo para ressuscitar, segundo o profeta Oseias. Também o Jesus de João é muito humano diante da morte; ele prova os mesmos sentimentos que nós: “Jesus viu que Maria e os judeus que iam com ela choravam. Então ele se comoveu interiormente e ficou conturbado” (Jo 11,33). “Jesus começou a chorar” (Jo 11,35).
Marta. “Então Marta disse a Jesus: ‘Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido’” (Jo 11,21). Esta é a reprovação que ousamos fazer quando a morte sobrevém: por que isso acontece? É injusto partir tão jovem! Se Deus existisse verdadeiramente não deixaria morrer uma criança! Aqui, Marta nos apresenta todos esses momentos de dúvida, de inquietude e de desespero diante da morte.
Maria. “Indo para o lugar onde estava Jesus, quando o viu, caiu de joelhos diante dele e disse-lhe: ‘Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido’” (Jo 11,32). Ela também está chocada com a situação, mas ela expressa sua impotência e sua decepção pelos que estão chorando (Jo 11,33).
Os judeus. João nos diz que os judeus também choravam (Jo 11,33), por solidariedade para com Maria, a irmã de Lázaro. Mas, em seguida, alguns expressam reprovações: “Alguns deles, porém, diziam: ‘Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?’” (Jo 11,37)
2. A morte = uma esperança
Para João que escreve seu evangelho aos cristãos muitos anos após a Páscoa, a morte não pode passar de um momento difícil, uma passagem, um sono: “‘O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo’” (Jo 11,11). Além disso, a morte não pode ter a última palavra sobre a vida: “Jesus disse a Marta: ‘Teu irmão ressuscitará’” (Jo 11,23. E mais ainda: “Então Jesus disse: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá’” (Jo 11,25). Para João, o que aconteceu com Jesus, acontece também conosco. Por causa dele, a ressurreição nos é prometida; ela torna-se a nossa realidade cristã.
3. A morte = um renascimento
O francês Henri Meunier disse que quando perdemos um ente querido, acontece com todos nós de perguntar: de que serve vir ao mundo se é para morrer? E, em sua reflexão, ele responde: se nascemos para morrer é porque morremos para renascer. Não é este o sentido da ressurreição no evangelho de João? “Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muitos frutos” (Jo 12,24). Ressuscitar ou renascer não é voltar a ser o que se era antes; é tornar-se como depois… é tornar-se de outra maneira. Isso explica a recusa de Jesus de ficar na cabeceira do seu amigo Lázaro que está doente, como se preferisse vê-lo morto em vez de curá-lo. A este respeito, o exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Se refletimos sobre isso, ser curado é ser novamente o que éramos antes da doença. Ora, a morte e a ressurreição de Jesus não querem nos fazer como antes, mas ao contrário, como depois”. E acrescenta: “Jesus não é um restaurador de quadros ou um consertador de porcelana e ele não recolhe os pedaços; ele faz nascer, ele cria um novo dia, ele inventa uma nova vida”.
4. A ressurreição – uma vida nova livre e responsável
Ressuscitar ou renascer não é somente sair da morte; é sair livre: “O morto saiu, atado de mãos e pés com os lençóis mortuários e o rosto coberto com um pano. Então Jesus lhes disse: ‘Desatai-o’” (Jo 11,44a), e capaz de caminhar, portanto, responsável: “‘deixai-o caminhar’” (Jo 11,44b). Jean Debruynne escreve: “Não se trata somente de ressuscitar as aparências: a ressurreição inventa realmente uma vida nova que é livre e responsável quando é capaz de caminhar sozinho”. E é para esta vida nova livre e responsável que Cristo nos convida, através de Marta, a expressar a nossa fé: “‘E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?’” (Jo 11,26). Qual será a nossa resposta? “Marta respondeu: “‘Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo’” (Jo 11,27). E podemos continuar a frase do evangelho, dizendo: aquele que vem ao mundo para nos dar a vida. O que supõe, segundo Jean Debruynne: “É hora de ressuscitar nossos irmãos. É urgente chamá-los para se levantarem, saírem dos seus túmulos, da prisão da sua existência e da morte em vida. Mas isso não bastará! Será preciso ainda abrir para a liberdade e para o gosto de caminhar. A ressurreição de Jesus não é uma esmola, nem uma piedade; é uma nova manhã, é ter uma vida pela frente”.
Para terminar, o evangelho desse terceiro escrutínio nos mostra um Jesus que é, ao mesmo tempo, humano e divino: humano em seu encontro com Maria, e divino no seu encontro com Marta. Os dois são inseparáveis; os dois nos dizem o que nos tornamos desde a primeira manhã da Páscoa: “Ela, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberem, isto é, àqueles que acreditam no seu nome” (Jo 1,12). E mais ainda: “Estes não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus” (Jo 1,13). Que grandeza e que dignidade possuímos no Cristo ressuscitado!
Quem ama não morre
Enzo Bianchi
Na iminência da Páscoa, a Igreja nos convida a meditar sobre o grande sinal da ressurreição de Lázaro, profecia da ressurreição de Jesus.
“Naquele tempo, havia um doente, Lázaro, que era de Betânia, o povoado de Maria e de Marta, sua irmã.” Jesus amava muito esses amigos, a quem frequentava nos períodos em que ficava em Jerusalém: na casa de Betânia, encontrava a acolhida carinhosa de Marta, a escuta adorante de Maria e o afeto fiel de Lázaro. As irmãs mandam avisá-lo da doença de Lázaro, mas ele está longe, do outro lado do Jordão.
Como Jesus pode permitir que um amigo seu fique doente, sofra e morra? Essa interrogação, que certamente surgiu no coração dos seus amigos, também nos toca quando a comunhão com o Senhor parece negada pela ameaça da morte…
Mas Jesus exclama: “Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”, ou seja, é uma oportunidade para que se manifeste o peso que Deus tem na história, e, assim, se manifeste a glória do Filho.
Depois de permanecer dois dias onde ele se encontra, Jesus decide ir para a Judeia. Os discípulos o advertem, lembrando-o de que, pouco antes, os seus adversários tentavam apedrejá-lo (cf. Jo 10,31), mas Jesus responde que, no pouco tempo antes da hora das trevas, ele deveria fazer o que o Pai lhe pediu, para revelar ao mundo a sua luz.
E acrescenta: “O nosso amigo Lázaro dorme. Mas eu vou acordá-lo”. Depois, dada a incompreensão dos discípulos, ele declara abertamente: “Lázaro está morto. Mas por causa de vós, alegro-me por não ter estado lá, para que creiais. Mas vamos para junto dele”.
Quando Jesus chega em Betânia, o seu amigo já está morto há quatro dias. Marta vai encontrá-lo dizendo: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele to concederá”. Ela crê em Jesus e, solicitada por ele, confessa a própria fé na ressurreição final da carne. Mas Jesus a convida a dar um passo a mais, fazendo-lhe a revelação decisiva: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais”, ao que Marta responde prontamente: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
Maria também corre ao encontro de Jesus e, jogando-se aos seus pés, exclama entre lágrimas: “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. Ao vê-la chorar, junto com os que o acompanham, Jesus estremece de comoção pela injustiça da morte, fica perturbado com a morte daquele que ama e entra em prantos.
Jesus, ser humano como nós, realmente sentiu esses sentimentos: várias vezes ele se sentiu perturbado pelo mal que desfigurava os homens e as mulheres, e aqui, em particular, sofre com a morte de um amigo querido. A sua dor é sinal do seu amor intenso por Lázaro, como os presentes também entendem: “Vede como ele o amava!”.
Ainda profundamente comovido, Jesus vai ao sepulcro e lá, ele que é a vida (cf. Jo 14,6), se envolve em um duelo com a morte: pede para retirar a pedra do túmulo, levanta os olhos para o céu e diz: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste. Eu sei que sempre me escutas”.
Jesus reza para que aqueles que se encontram ao seu redor compreendem que ele é o Enviado de Deus: Jesus não é autorreferencial, não centra a atenção em si mesmo, mas age para que, através dele, os homens possam voltar para Deus! E a resposta de Deus chega imediatamente, perceptível na palavra eficaz de Jesus, que faz o que diz: “Lázaro, vem para fora!”.
Jesus havia anunciado “a hora em que todos os mortos que estão nos túmulos ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão dos túmulos” (cf. Jo 5,28); eis uma antecipação daquela hora: Lázaro, morto e sepultado, como acontecerá com Jesus, sai do túmulo ainda envolto em faixas e, com a sua ressurreição, profetiza a ressurreição de Jesus.
Sim, Jesus arranca as suas ovelhas da morte, não permite que nenhuma delas seja tirada da sua mão (cf. Jo 10,27-28). Essa é a sua glória, a glória do amor, mesmo que aparentemente ele pareça derrotado: em troca desse gesto, ele recebe uma sentença de morte das autoridades religiosas (cf. Jo 11,46-53); mas quem tem a inteligência da fé reconhece que o amor de Jesus vence também a morte.
Eis a consciência com a qual caminhamos rumo à Páscoa: nós não estamos sozinhos, somos amigos de Jesus, e, mesmo na morte, ele estará ao nosso lado para nos chamar de volta à vida com o seu amor.
Quem crê em mim viverá
Marcel Domergue, SJ
Deus e o homem diante da morte
Jesus evitava ir à Judeia, onde estavam os que haviam decidido matá-lo. Sua hora ainda não tinha chegado, mas estava próxima. Ele sabia disso. E, junto com o seu consentimento, experimentava ao mesmo tempo desejo e temor.
O que é surpreendente, pois Jesus é a imagem do Deus invisível. E nós imaginamos um Deus imperturbável, sempre ao abrigo de qualquer emoção! Mas este não é o Deus de Jesus Cristo. Desde os textos da primeira Aliança, vemos Deus reagir às condutas dos homens, cedendo até mesmo aos seus desejos.
Os Evangelhos mostram Jesus ser, inúmeras vezes, tomado pela emoção: no anúncio da morte do Batista (Mateus 14,13), por exemplo, ou diante da incredulidade dos seus compatriotas (Mateus 13,57-58). Extasiou-se diante da fé do centurião. Aqui, «profundamente comovido», pôs-se a chorar.
Devemos compreender que Deus vive a nossa vida conosco. Não se contenta em julgar, mas compartilha tudo conosco: nós O fazemos passar por tudo o que vivemos. Isto é muito importante, porque às vezes pensamos que, se tivéssemos fé, estaríamos ao abrigo da dor e não conheceríamos o medo perante a nossa própria morte.
Ora, não contemos poder nos sair melhor do que Cristo. Choramos sim por todos os Lázaros e passamos todos pelos Getsêmanis. A morte guarda o seu mistério, vindo com ela, já incluído no pacote, a provação da nossa fé. Superá-la, na dor, no temor e nas lágrimas, nos faz alcançar a glória de Deus.
Enquanto não acreditarmos verdadeiramente que Deus nos arranca da morte, deste nada que é o contrário da Vida, não O estamos vendo tal como Ele é. Vamos certamente continuar dizendo que Ele é Amor, mas sem compreender tudo o que isto significa.
O Cristo encarnado
A propósito da Samaritana, no domingo passado, havíamos feito alusão à afetividade de Jesus. Podemos acrescentar outros textos que o mostram cheio de compaixão, como Marcos 10,21, em que é tomado de amor pelo rico que havia observado a Lei desde a sua juventude.
Aqui, ele chora por Lázaro, é claro. Mas também pelas suas irmãs, que estão tristes e aflitas. E, finalmente, por toda a humanidade, que está submetida à lei da morte. O que me parece importante, porque, como dissemos, imaginamos facilmente Cristo e, portanto, o próprio Deus, como imperturbável, sem emoção nem estado d’alma.
Assim, a alegria de Deus pelo pecador que volta (Lucas 15) ou sua decepção, quando a sua palavra não é ouvida, tudo isto nos permanece estranho. No entanto, o homem é imagem de Deus, e, se há afetividade no homem, é porque já havia antes, em sua Fonte.
Temos de compreender que a ressurreição de Lázaro não é uma simples manifestação de poder, mas é obediência ao amor, que é a essência mesma do Filho. O que aqui se traduz pelas lágrimas diante das nossas tristezas.
Esta afetividade de Cristo foi que o culto ao Sagrado Coração procurou evidenciar, quando se manteve centrado na interioridade de Jesus e não resvalou para o pseudo-fisiológico, sob pretexto da Encarnação. Resulta, assim, que a afetividade de Cristo é consequência da Encarnação. Revelação, portanto, do que no próprio Deus corresponde à nossa afetividade.
Ressurreição de Lázaro e ressurreição de Jesus
Por tudo que acaba de ser dito, o relato da ressurreição de Lázaro merece ser lido por inteiro, como envolvido nesta ternura. Para bem compreender, é uma espécie de profecia ativa da ressurreição do próprio Jesus; mas devemos entender que, se Cristo ressuscitou, foi para nós que ressuscitou; por amor.
Senão, o que significaria a vontade de Deus de vir esposar até mesmo a nossa morte, de vir nos esposar até a este ponto, «até o fim» (João 13,1-2)? Tendo dito isto, notemos mais uma vez a diferença radical entre a ressurreição de Lázaro, ou do filho da viúva de Naím, e a ressurreição de Jesus. Cristo não ressuscita em nosso mundo, para retomar a sua vida de onde havia deixado. Sua Ressurreição é como um salto na vida do próprio Deus.
Ao contrário, em João 12,2, encontramos Lázaro em Betânia, sentado à mesa. Em 12,9, muitas visitas vieram vê-lo. Não vamos fazer a mesma coisa, ou seja, buscar nos representar as coisas concretamente. A ressurreição de Lázaro, mais ainda a de Jesus, e também a nossa própria ressurreição, permanecem sendo um mistério, ou seja, uma verdade não representável, mas capaz de iluminar a nossa vida, mesmo se não possamos, tal como os destinatários da primeira carta de Paulo aos Coríntios, responder à questão: «Com que corpo ressuscitaremos?» (15,35). Escutemos o relato de João e ouçamos Jesus dizer que Ele é “a ressurreição e a vida”. O amor não morre nunca, pelo menos este Amor.
Rumo à plenitude da fé e da vida
Assim como o cego de nascença, que estava enfermo «para que se manifestasse a glória de Deus» (João 9,3), assim também Lázaro morre «para a glória de Deus» (11,4). Desta forma, os males que afligem os homens, e que retornam sempre, são utilizados de algum modo para gerar o bem e a alegria.
Para gerar a fé, mencionada nos dois relatos, como resultado da ação de Jesus (9,38 e 11,27.45). Lembremos que a fé em Cristo, a fé em Deus, não é uma crença entre outras: consiste em entregar-Lhe a nossa vida. E, uma vez entregue, nossa vida já participa da Ressurreição.
O relato da ressurreição de Lázaro nos revela igualmente a nossa solidariedade na fé. Com efeito, a fé de Lázaro não é mencionada. E com razão! O texto insiste pelo contrário na fé de cada uma das suas duas irmãs. Fé, aliás, imperfeita no início («Se tivesses estado aqui...»).
Jesus é quem docemente as conduz à plenitude da fé. O cenário é o mesmo em Mateus 9,2, a propósito do paralítico de Cafarnaum. Significa que, frente aos nossos problemas, podemos e devemos contar com a fé dos outros. Assim como também eles devem poder contar com a nossa fé.
Nós a debitamos a crédito da comunidade cristã, de quem somos todos beneficiários. O Corpo de Cristo, que somos todos nós em conjunto – reunidos, portanto, no Amor – está destinado à Ressurreição. A ressurreição de Lázaro é disto figura e antecipação.
Figura e antecipação igualmente, e antes de tudo, da ressurreição de Cristo, em quem se produz toda ressurreição. Contrariamente a Lázaro, que parece retomar a mesma vida de antes, Cristo, agora, escapa aos nossos olhares, da mesma forma que todos os que perdemos. Este é o tempo de provação, que nos dá acesso à fé plena: a fé sem ver (João 20,29).
Demoras e distâncias
Este relato vem enquadrado por duas menções à “glória de Deus” (versículos 4 et 40). A “glória de Deus” é que Ele seja reconhecido pelo que é, e que sua verdade se manifeste fulgurante em plena luz do dia. Esta glória é ao mesmo tempo a glória do Filho, como sugere o versículo 42.
Deus, por Cristo, vai poder ser identificado ao Amor, mesmo se não sabemos, exceto muito imperfeitamente, o que esta palavra quer dizer. Mas uma questão se põe: o que significa esta demora, este retardamento, na manifestação da glória? À notícia da doença de Lázaro, Jesus espera dois dias até se pôr a caminho.
Quando chega ao túmulo, Marta lhe diz que Lázaro já está enterrado há quatro dias. Por que a demora? Será simplesmente para que a morte do amigo seja bem autentificada, tornando-se indiscutível? Ou, então, esta demora representa o tempo de provação da fé, o tempo em que vivemos guardando a lembrança dos nossos mortos?
À questão do tempo acrescente-se a da distância, da ausência. As duas irmãs, por sua vez, dizem a Jesus: «Se tivesses estado aqui…» Estes quatro dias de distância e de ausência correspondem bem a este entretempo em que vivemos. A obscuridade do túmulo evoca a obscuridade da noite da fé, enquanto caminhamos sem nada ver.
Jesus, no entanto, não está ausente verdadeiramente: ele está a caminho, para vir nos encontrar aqui mesmo onde estamos. E, então, receberemos a ordem de «sair» (versículo 43), palavra que faz pensar no Êxodo em que Israel retomou o seu nascimento.
Missionários da vida
Romeo Ballan, MCCJ
A vida é o tema comum das leituras deste V Domingo: a via que vence os sepulcros, como profetiza Ezequiel (I leitura); a vida que nos é dada por meio do Espírito Santo que habita em nós, como insiste Paulo (II leitura); a vida nova que é o próprio Jesus (Evangelho): “Eu sou a ressurreição e a vida” (v. 25). Vemos um crescendo temático em direcção à Pascoa, aumentam os sinais: água, luz. Vida… Com boa pedagogia, a Igreja acompanha os fiéis a caminho da Pascoa, instruindo-os com catequeses baptismais, próprias para os catecúmenos que se preparam para receber o baptismo, e aos fiéis baptizados que renovarão as suas promessas. No III Domingo, o símbolo era a água, no diálogo entre Jesus e a Samaritana; Domingo passado o tema central era a luz, na cura do cego de nascença; hoje o sinal é a vida, com a ressurreição de Lázaro. Os três sinais são acompanhados de afirmações insistentes de Jesus acerca da sua identidade e da sua missão, com palavras que lembram a autodefinição de Deus a Moisés, no Êxodo: “Eu sou” (Ex 3,14). Jesus faz sua esta definição divina afirmando: Eu sou o Messias, Eu sou a luz do mundo, Eu sou a vida.
Nestes três Domingos são muitas as referências ao sacramento do Baptismo, seja nas leituras bíblicas como nos textos litúrgicos (antífonas, orações, prefácio…). Nas jovens Igrejas missionárias, e não só, a noite de Páscoa assume uma particular solenidade pela celebração dos sacramentos da iniciação cristã a numerosos catecúmenos, adultos e jovens. São festas que enchem o coração e a vida dos missionários, dos pastores das Igrejas locais e das comunidades cristãs.
A ressurreição de Lázaro encontra-se a metade do Evangelho de João (o 12º de 21 capítulos), mas é sobretudo o seu centro temático: pode-se considerar, provavelmente, a mais alta manifestação de Jesus como “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”.
– É verdadeiro homem, motivado por sentimentos fortes: é amigo de Lázaro e das suas irmãs de Betânia, fica perturbado, comove-se profundamente, rompe em pranto, reza intensamente ao Pai, grita em altos brados… Com as suas lágrimas Jesus dá razão às nossas, em circunstâncias semelhantes.
– E é verdadeiro Deus: mostra o seu amor e o seu poder restituindo a vida ao amigo morto, para que a gente acredite que Ele foi enviado pelo Pai (v. 42). Assim, o milagre estrondoso pôe em evidência três valores ligados entre si: amor, fé e vida. Porque: “só há vida onde houver amor” (Gandhi).
Na sua realidade divino-humana, Jesus realiza a sua missão como proximidade, fazendo-se próximo, como o samaritano (cfr. Lc 10,34), a quem sofre, trazendo uma solução aos problemas. Mas é necessário ir ao encontro do Salvador que se aproxima, como as duas irmãs Marta e Maria (v. 20.29), com coração aberto. Somente desse encontro nasce a salvação. Porque só “no Senhor está a misericórdia e com ele é grande a redenção” (Salmo responsorial). Também neste caso se verificam reacções opostas. De um lado, as súplicas confiantes das duas irmãs que obtêm um milagre extraordinário de Lazaro que regressa à vida, e muitos Judeus acreditam em Jesus (v.45); do outro lado, até perante tal evidência, os inimigos de Jesus fecham-se progressivamente, decidem matá-lo (Jo 11,46-53) e pensam em eliminar também a Lazaro (Jo 12,10).
“Não estamos nesta terra para proteger um museu, mas para cultivar um jardim cheio de flores e de vida” (B. João XXIII). O projecto original e permanente de Deus é a vida: “A glória de Deus é o homem vivo”, isto é que o homem viva (S. Ireneu). Jesus veio para dar-nos não uma vida raquítica, empobrecida, medíocre, subdesenvolvida… mas uma vida em abundância(cfr. Jo 10,10). Uma vida para o presente e para o futuro! Num mundo duramente marcado por mortes injustas, precoces, inocentes, todo o cristão – a ainda mais o missionário – é chamado a fazer uma escolha clara e definitiva pela vida: a acolher, promover, defender, anunciar, descobrir os pequenos sinais da sua presença, proteger os seus rebentos, levá-la à sua plenitude… A defesa e a promoção da vida são temas prioritários no magistério recente dos Papas, como se vê também no apelo de Bento XVI aos operadores de actividades caritativas. Água, luz, vida… são dons a viver e sobretudo a partilhar e a comunicar aos outros. Somos todos chamados a ser missionários da vida!