4° Domingo da Quaresma (A)
João 9,1-41
Referências bíblicas:
- 1ª leitura: 1 Samuel 16,1.6-7.10-13
- 2ª leitura: Efésios 5,8-14
- Evangelho: João 9,1-41 ou 9,1.6-9.13-17.34-38

O que é receber a luz, o que é passar a ver?
É ganhar uma nova visão das coisas
Tolentino Mendonça
Estes domingos, estes três domingos do meio da Quaresma, nós lemos o Evangelho de São João. Evangelhos desde a antiguidade cristã, destinados a explicar aos catecúmenos e a lembrar aos batizados, o significado do seu batismo.
Domingo passado tivemos a explicação do símbolo da água, com o Evangelho da Samaritana.
Este domingo, temos a explicação do símbolo da luz, com a cura do cego de nascença. No próximo domingo, teremos a explicação do símbolo da vida com a ressurreição de Lázaro.
São assim, três grandes símbolos: a água, a luz, a vida que explicam aquilo que é o impacto do dom de Jesus na vida de cada um de nós. Nós precisamos da Luz. Nós precisamos da Luz.
É interessante a situação que o Evangelho de São João nos relata, com a cura deste cego de nascença: há a cura do cego e há depois uma querela jurídica para saber se Jesus tinha ou não legitimidade, para fazer aquele sinal. E depois há o reencontro, o segundo encontro de Jesus com o cego.
O que é que nós vemos nas duas primeira partes, na cura do cego e na querela jurídica que se lhe segue? O cego tem consciência que é cego. Isto é, tem consciência da sua carência, da sua necessidade, da sua real situação.
Aqueles que promovem a querela em torno à cura e à legitimidade de Jesus curar ou não em dia de sábado, veem e não veem ao mesmo tempo, mas não têm consciência da sua cegueira.
E, no fundo, este é o ponto primeiro que o relato evangélico nos coloca:
Será que nós temos consciência da necessidade de Jesus? Será que nós estamos conscientes de quanto precisamos Dele?
Porque às vezes o nosso problema, e foi esse o problema dos fariseus, é perdermo-nos numa autojustificação. Isto é, nós temos explicação para tudo, sabemos tudo, percebemos tudo, vemos tudo, e nesta soberba, Deus não entra no nosso coração porque o nosso coração é pedra, o nosso coração é porta blindada, o nosso coração é um fecho de correr.
Só quando estamos conscientes da nossa fragilidade, e da nossa fraqueza, só quando percebemos até ao fim e até ao fundo, quanto carentes estamos do perdão, da misericórdia e da ternura de Deus é que, de facto, essa misericórdia é derramada nos nossos corações.
Ganhar consciência de que precisamos de ser tocados por Jesus, ser lavados no seu sangue, na água batismal, ser iluminados pela sua luz.
O que é receber a luz, o que é passar a ver? É ganhar uma nova visão das coisas.
Os Evangelhos têm muitas curas a cegos. E essas curas têm um papel simbólico muito importante. Porque a cegueira tem a ver com a nossa maneira de viver. Às vezes nós estamos cegos mas não temos consciência disso. Achamos que continuamos a ver. É uma imagem que já Platão utiliza na Alegoria da Caverna, i.e., nós pensamos que vemos, mas afinal estamos reféns das imagens e dos fantasmas.
Precisamos de ganhar uma nova visão. E essa nova visão, esse novo entendimento, essa nova maneira de compreender as coisas, é a luz que Cristo nos dá.
O Evangelho de São João tem uma particularidade em relação aos outros 3 Evangelhos.
É que, enquanto os outros três foram escritos para pessoas que ouviam pela primeira vez falar de Jesus, digamos, são os Evangelhos do primeiro anúncio, pensa-se que o Evangelho de São João foi escrito para pessoas que já eram cristãs e por isso não se tratava de aprender o b-a-ba sobre Jesus, o início, mas trata-se sim de um segundo encontro, de um aprofundamento da própria fé.
E, por isso, é muito interessante que no Evangelho de São João, as personagens não aparecem uma só vez, aparecem várias vezes, duas ou três vezes. Por exemplo, o Evangelho da Samaritana, ela aparece-nos a falar com Jesus mas depois aparece-nos a falar com as pessoas da sua terra. No Evangelho de Nicodemos, ele aparece-nos à noite a falar com Jesus mas depois aparece-nos com José de Arimateia a perfumar o corpo de Jesus e a sepultar Jesus.
As personagens não aparecem uma vez só, aparecem uma segunda e uma terceira vez.
Também assim com o cego. Ele era mendigo, era cego, foi curado.
Foi curado, mas acreditava que tinha sido um profeta. Não que era o Messias de Deus que o tinha curado. E então, depois daquela querela toda, Jesus encontra-o pela segunda vez.
E diz-lhe: “Acreditas no Filho do Homem?”
E ele pergunta: “Quem é Senhor, ainda não o vi”. Quer dizer, a cura não é apenas a cura da cegueira, é a cura é de uma cegueira espiritual.
E Jesus diz uma coisa absolutamente comovente, conjugada no verbo presente: “É este que fala agora contigo”. E o homem cai de joelhos, e diz: “ Senhor, eu creio”.
Nós estamos a viver o Tempo da Quaresma, nós já somos cristãos há um ano, há cinquenta anos, há mais ou menos tempo. Hoje temos aqui três irmãos nossos catecúmenos que se estão a preparar para receber o batismo no tempo pascal.
O que é verdadeiramente para nós o segundo encontro com Jesus?
O segundo encontro com Jesus é recebermos a luz de uma maneira nova.
A Quaresma tem que ser um sobressalto. Tem de nos tornar mais cristãos, melhores cristãos. Tem de nos dar uma compreensão mais lata do mistério de Cristo e do mistério do próprio homem e do mistério da vida. Com Cristo aprendemos uma nova gramática, um novo dicionário, um novo léxico da própria realidade.
Se antes da Quaresma pensávamos uma coisa, ao chegar à Pascoa o nosso olhar tem que estar lavado. Em Itália, há uma tradição muito bonita, no Véneto, que é na manhã de Páscoa as pessoas vão ao rio lavar os olhos. E nós estamos aqui a lavar os nossos olhos, com esta palavra. Isto é, a lavar o nosso entendimento. A receber esta luz que é o próprio Cristo.
E receber a luz, implica muitas vezes, ver as coisas de uma forma completamente diferente.
Por exemplo, a 1ª leitura, a escolha de David como rei. Este homem, Jessé, tinha doze filhos e naturalmente o que podia ser rei era o mais velho, e no impedimento do mais velho, o filho segundo. Mas Deus vai escolher aquele que nem está em casa. Vai escolher o mais novo, aquele que, do ponto de vista jurídico, não tem direito algum. E Deus vai escolher o mais improvável, que é aquele rapaz chamado David. Deus escolhe o mais improvável, o mais pequenino, aquele que não se espera, o que não está legislado, o que nos surpreende, que não tem a ver com o nosso ponto de vista. Deus escolhe. Deus escolhe fora do nosso baralho e para lá das nossas contas.
E receber a luz de Cristo é nos abrirmos a um novo entendimento. No fundo, nos abrimos às surpresas de Deus. Ao desconcerto do modo como ele atua. À liberdade de Deus ser Deus em nós. À sua vontade que é sempre nova. Nos abrirmos. Nos abrirmos.
Que hoje nos sintamos como o homem cego. Este homem o qual Jesus tem misericórdia e cura, a quem lava os olhos, e a quem diz uma palavra. A quem encontra uma vez e uma outra vez. Uma segunda oportunidade, para lhe dizer: “Acreditas no Filho de Deus?”. Ele é aquele que está a falar connosco neste momento. O que Jesus diz ao cego, diz a cada um de nós : “Sou eu que estou a falar contigo, agora, agora”.
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
EU SOU A LUZ
Marcel Domergue
O cego de nascença
“Outrora éreis trevas”, diz Paulo no início da segunda leitura. Fala de si mesmo também, uma vez que descobriu a sua própria cegueira no caminho de Damasco. O curioso é que esta perda da visão foi também a sua cura. Paulo, antes disso, acreditava de fato ver tudo muito claro. Achava possuir a verdade sobre o Cristo e os seus discípulos. Mas agora vê que, antes, não enxergava nada. É o que diz Jesus aos fariseus, na conclusão do evangelho: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis ‘nós vemos’, o vosso pecado permanece”. Todos nós somos cegos de nascença, sem que esta cegueira possa ser atribuída a qualquer pecado que ou nós ou nossos pais tenhamos cometido (versículo 2). Isto nos obriga a nuançar o que habitualmente chamamos de «pecado original». Só podemos alcançar a verdade de nós mesmos, do mundo e, ainda mais além, a verdade de Deus, através da abertura para este Outro que está aqui, ao alcance de nossas mãos de cegos, presente em todos os outros. Temos de aprender que não nos bastamos a nós mesmos, que só por uma relação verdadeira é que existimos, recebendo-nos de algum outro. É assim que nos fazemos imagens (e ‘imagem’ quer dizer visibilidade) de Deus que, como diz santo Tomás de Aquino, é “relações subsistentes”. É outro modo de dizer que, se recusamos enxergar os outros, não vemos nada.
Abrir os olhos
Seria tarefa tremenda, se tivéssemos de chegar à visão através de nossas próprias forças. E tarefa destinada ao fracasso, uma vez que o esforço para ver com clareza não nos deixaria sair do nosso isolamento. Na realidade, a luz nos vem de fora, deste outro que encontramos em nosso caminho. Tomemos consciência disto: não compliquemos demais a vida, já que basta abrirmo-nos a nós mesmos para que possamos receber: a nossa criação só vai achar espaço quando viermos a ocupar apenas uma ausência, um vazio a ser preenchido. Não podemos ser nada além do que não seja aquiescência à obra de Deus que vem nos fazer surgir do nada. Esta tomada de consciência já é uma saída da cegueira. Nascer e abrir os olhos são fatos que andam juntos. No evangelho, os fariseus se tornam cegos por não reconhecerem a visita do Filho de Deus em sua humanidade. Assim, em razão de uma escolha mais ou menos deliberada da nossa parte, a irrupção do Cristo em nossas vidas pode nos afundar nas trevas: «Era a luz verdadeira que ilumina todo homem; veio ao mundo (…), mas o mundo não o reconheceu. Veio para os seus e os seus não o receberam » (João 1,9-11). Esta recusa encontrará sua expressão última na hora em que «houve treva em toda a terra» (Mateus 27,45). Mas, aí também, as trevas só se apoderam do mundo para apagar as falsas luzes que nos seduzem. Cria-se, assim, um lugar perfeito para uma nova luz, a luz da Ressurreição.
Rumo à plena visão
Olhando mais de perto, o relato da cura do cego de nascença nos faz descobrir um dos aspectos da criação e do que chamamos de redenção, em outras palavras, a totalidade da obra de Deus em nosso favor. Notemos que o cego ainda não tinha visto Jesus, até mesmo pouco após a sua cura (ver o versículo 12). Por isso, foi preciso esperar um segundo encontro. O cego não havia pedido nada a Jesus e o milagre não foi atribuído à fé deste homem, ao contrário de tantos outros casos nos evangelhos. Ficou, assim, posta em evidência a gratuidade da ação de Deus: não tivemos de fazer nada, para virmos à existência; nada podemos fazer para virmos à luz e existirmos, na verdade. Só o que podemos fazer é receber. No entanto, se esta verdade está na relação, no intercâmbio, no diálogo, um encontro entre quem dá e quem recebe se faz necessário. Daí a visita de Jesus a este homem que, dali em diante, será um solitário, pois acaba de ser banido da comunidade. «Acreditas no Filho do homem?», pergunta-lhe Jesus. O filho é quem é gerado por uma mulher e um homem; já com maiúscula, é o resultado perfeito da humanidade, ali onde o Filho do homem encontra o Filho de Deus. Crer nele é sair da finitude e da cegueira. «Quem é ele?», pergunta o cego já curado. «Tu o estás vendo», responde Jesus, pois agora o homem vê. «É aquele que está falando contigo». Ver, ouvir e, a partir daí, crer. É neste rumo que caminhamos, ainda que, por enquanto, só possamos ver de modo confuso, como num espelho defeituoso (1 Coríntios 13,12).
Também nós somos cegos?
Enzo Bianchi
No caminho para a Páscoa, depois do tema da água viva que Jesus Cristo dá a quem nele crê, a Igreja nos faz meditar sobre a luz ou, melhor, sobre a iluminação, ação realizada por Jesus para que possamos ver e ser resgatados da escuridão.
O longo relato da cura de um cego de nascença é, na realidade, a narração de um processo em diversas etapas promovido contra Jesus. Um processo contra aquele que é “a luz do mundo” (Jo 8,12), a luz que veio ao mundo, aquela que ilumina todo ser humano, mas uma luz não reconhecida e não acolhida por aqueles a quem foi enviada (cf. Jo 1,4-5.9-12).
Esse relato é paradoxal, porque nos testemunha que quem é cego, quem não vê, ao encontrar aquele que é a luz do mundo, torna-se “capaz de ver”, enquanto quem vê, ao encontrar Jesus, fica deslumbrado a ponto de se revelar cego, incapaz de ver. Esse trecho, além disso, é altamente cristológico, apresenta muitos títulos atribuídos a Jesus, títulos que dão ritmo à passagem da cegueira à visão, das trevas à luz, da ignorância à fé testemunhada. Mas, como sempre, escutemos o texto com humilde obediência.
Tendo saído do templo de Jerusalém, onde celebrou a festa de Sucot, das Cabanas, festa outonal na qual se invocava a água como dom de Deus para a vida plena, Jesus vê junto à piscina de Siloé um homem acometido de cegueira desde o nascimento. Como em tantos outros relatos de milagres, esse doente não invoca Jesus nem lhe pede a cura, mas é Jesus quem, ao passar, vê e discerne um homem necessitado de salvação.
Os discípulos que estão com Jesus também veem esse cego, mas com um olhar diferente. Conhecem a doutrina tradicional que liga automaticamente a doença e o pecado, não sabem ver acima de tudo o sofrimento de um homem, mas tentam espionar seu pecado. Por isso, perguntam imediatamente a Jesus: “Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais”.
Jesus, que não vê o pecado, mas sim o sofrimento e o grito de ajuda nele presente, declara que aquela doença é ocasião para a manifestação do Deus que intervém e salva. Seu olhar é diametralmente oposto ao olhar culpabilizante dos discípulos, um olhar que expressa um interesse pelo sofrimento humano e uma vontade de cura conforme o desejo de Deus.
Diante do mal, nós, humanos, sobretudo nós, pessoas que creem, buscamos uma explicação, queremos identificar a culpa e o culpado. Ao contrário, Jesus rejeita este olhar, o olhar dos discípulos, não propõe nenhuma explicação para aquela cegueira, para o mal sofrido pelo cego, e, com uma reação de compaixão muito humana, aproxima-se do cego e começa a agir para suprimir o mal e fazer a vida triunfar.
Jesus se diz “enviado” para fazer as obras de Deus, e isso é possível “enquanto é dia”, enquanto ele está no mundo, entre os homens, como luz que as trevas não podem ofuscar (cf. Jo 1,5). Ditas essas palavras, faz um gesto de cuidado e terapêutico: amassou um pouco de pó com sua saliva e a espalhou nos olhos do cego. Desse modo, repetiu o gesto com o qual Deus criou Adam, o terrestre, moldando-o a partir do pó da terra (cf. Gn 2,7).
Não é um gesto de magia, mas sim um gesto muito humano: o homem cego se sente tocado por Jesus, sente seus dedos e a lama em seus próprios olhos, sente que pode pôr sua confiança em quem o “viu” e o reconheceu como uma pessoa necessitada.
E, assim que Jesus lhe manda ir se lavar na piscina adjacente – conhecida como de Siloé, ou seja, do enviado de Deus –, ele obedece, vai e depois volta a Jesus capaz de ver. Ao contrário de Naamã com Eliseu (cf. 2Re 5,10-12), ele crê nas palavras de Jesus como palavras poderosas e eficazes, e assim encontra aquela visão que nunca teve.
O quarto Evangelho descreve a cura em apenas dois versículos, sem entrar em detalhes. De fato, trata-se de um “sinal” (semeîon), mais que de um milagre (dýnamis): não é o fato em si que deve chamar a nossa atenção, mas o que deve ser buscado é seu significado e, sobretudo, quem está na origem do sinal.
Mas esse fato, essa ação desencadeia um processo contra Jesus, um processo à revelia, porque ele não está mais presente ao lado do homem curado. O processo é articulado em quatro cenas, mas no fim é Jesus quem anuncia o verdadeiro processo em curso, no qual se revela quem vê e quem é cego.
A primeira cena (vv. 8-12) tem como protagonistas os vizinhos, aqueles que costumavam encontrar o cego, que se dirigem a ele, agora curado. Eles se interrogam sobre o que ocorreu com o cego, se é realmente a mesma pessoa. E ele reivindica com força a própria identidade: “Sou eu, que antes era cego e agora vejo”. Seus interlocutores lhe perguntam o que aconteceu, e ele lhes conta aquilo que o homem chamado Jesus fez e disse. Então, tomados pela curiosidade, perguntam-lhe onde está esse Jesus, para podê-lo encontrar, mas ele não sabe responder.
Outros homens, atentos à Lei, levam o cego aos fariseus, os observantes especialistas da Torá, para que julguem a obra de Jesus (vv. 13-17). Com efeito, especifica o autor, “era sábado o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego”. Segue-se, portanto, a pergunta: “Um homem que infringe a proibição de trabalhar no dia de sábado e, portanto, um pecador pode fazer uma boa ação?”. A resposta parece óbvia: “Não, ele não vem de Deus!”. É isso que os fariseus gostariam de ouvir do homem curado, que, ao contrário, responde: “É um profeta”, mais um passo rumo à descoberta da identidade de Jesus. Ele está progredindo na fé…
Segue-se a terceira cena (vv. 18-23): ao não aceitarem a declaração do homem curado, esses homens religiosos mandam chamar seus pais e os interrogam sobre a cegueira de seu filho. Tomados de medo, preferem não ler, não interpretar o que aconteceu com seu filho. Dizem que ele era cego de nascença, que agora vê, mas não sabem como isso pôde acontecer. Por isso, descarregam sobre ele a responsabilidade: “Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo”.
E eis a quarta e última cena (vv. 24-34). Aqueles fariseus chamam novamente o homem curado e o convidam a escutar a solidez de sua doutrina. Tentam convencê-lo, porque eles “sabem”, têm a autoridade para discernir que Jesus é um pecador e, portanto, não pode fazer nada de bom. Mas o homem curado confirma, com bom senso: “Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”.
Mas essas palavras não são suficientes, razão pela qual eles insistem em interrogá-lo, pedindo-lhe que conte mais uma vez o que aconteceu. Em resposta, ele ironiza: “Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos dele?”.
Segue-se a reação indignada daqueles homens religiosos, que desprezam e insultam o homem. A pretensão desses fariseus, especialistas nas Escrituras, é a de “saber”, de conhecer a tradição à qual querem permanecer fiéis: portanto, não podem admitir que uma boa ação possa ser realizada mediante uma violação do sábado. Esse saber, esse conhecimento que pretendem possuir os impede de reconhecer uma “novidade”, que, porém, se manifesta mediante a emergência do bem. Só o passado é normativo para eles, e eles o qualificam como uma tradição de autoridade: por isso, não sabem nem querem saber a origem de Jesus. O homem que era cego, porém, agora vê, isto é, sabe: ele sabe que foi curado por Jesus, sabe que Deus não escuta o pecador, mas sim quem faz a sua vontade. Ele, portanto, é expulso da comunidade dos observantes fiéis da Lei, expulso como todos aqueles que reconheciam Jesus como Messias (cf. v. 22).
Nesse ponto, eis que se revela o verdadeiro processo em curso. Sabendo que aquele homem havia sido expulso da sinagoga, Jesus vai procurá-lo e, ao encontrá-lo, faz-lhe uma pergunta, da qual nasce o diálogo que constitui o ápice desta página:
– “Acreditas no Filho do Homem?”
– “Quem é, Senhor, para que eu creia nele?”
– “Tu o estás vendo; é aquele que está falando contigo.”
– “Eu creio, Senhor!”. E prostrou-se diante de Jesus.
Eis a abordagem da fé: o homem chamado Jesus (v. 11), o profeta (v. 17), aquele que vem de Deus (v. 33), o Filho do homem (v. 35), é o Kýrios (v. 38), o Senhor. Jesus então, tendo conhecido essa fé, diz em voz alta: “Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos”.
A reação daqueles fariseus mostra que eles entenderam o que está em jogo. Com efeito, perguntam-lhe: “Também nós somos cegos?”. E Jesus conclui, com autoridade: “Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece”. Ver um sinal realizado por Jesus e não reconhecer o bem que ele representa, não reconhecer que Deus está na origem de seu agir significa ser lançado fora, estar nas trevas, não ver.
Só resta nos perguntar se nós também somos cegos na fé: cremos, talvez, que vemos, mas não reconhecemos quem é a luz, Jesus Cristo?
O cego de nascença: vê, acredita, anuncia
Romeo Ballan, mccj
O caminho em direcção à Páscoa encontra-se marcado por grandes temas catequético-baptismais: o tentador a vencer, o rosto de Cristo a contemplar, os símbolos da água, a luz, a vida. No Evangelho deste Domingo é central a figura de Jesus-luz: é Ele que vê e vai ao encontro do cego, espalha-lhe lama nos olhos, e o manda a lavar-se na piscina de Siloé (que significa Enviado). O cego vai, lava-se, e regressa capaz de ver (v. 1.6-7). O sinal é claro, mas só para quem sabe ver. É mesmo aquele milagre tão evidente de Jesus que se torna um sinal de contradição: do mesmo acontecimento partem duas reacções (do cego e dos fariseus) em direcções opostas.
O cego avança, gradualmente, para a descoberta do rosto-identidade de Jesus: de simples homem, a profeta, homem de Deus, Senhor… até se prostrar com fé: “Creio, Senhor!” (v.38). O cego já chegou à conversão: todo iluminado, no corpo e no espírito. Enquanto o cego progride na descoberta de Jesus, os fariseus, ao contrário, fecham-se cada vez mais à luz, não acreditam no testemunho do cego curado, reduzem-no ao silêncio e atiram-no para fora (v.34). A obstinação do coração conduz à cegueira interior. Infelizmente, a fé também se pode perder! Só quem aceita que a verdade lhe transforme a vida não terá medo da luz, do amor, do serviço… Vale a este propósito, o voto de S. Agostinho, bonito mesmo em latim: “Servum te faciat caritas, quia liberum te fecit vertias” (a caridade te faça servo, pois que a verdade de fez livre).
“Mais luz!”: foram as últimas palavra de Johann W. Göthe. Jesus, com a palavra e o sinal, traz a luz nova que esclarece mesmo a realidade do pecado presente no mundo. O pecado é aquela vasta zona obscura, em que vivem as pessoas ainda não iluminadas pelo Evangelho. Nessa zona obscura não se entende o sentido da doença, da dor, da desgraça, males que frequentemente estão ligados a pecados pessoais. Emblemática a este propósito é a história de Job. Os próprios apóstolos são um bom exemplo desta mentalidade: ao verem o cego de nascença, perguntam ao Mestre: “Quem pecou, ele ou os seus pais?” (v.2). Este é um esquema tipicamente pré-cristão do problema do sofrimento: identificar a dor ou a doença com o pecado, com o mau olhado, o malefício, o mau agoiro de alguém… É uma mentalidade muito espalhada, mesmo em ambientes cristãos, típica de pessoas ainda insuficientemente evangelizadas. Penso nos meus anos de trabalho missionário na R. Dem. do Congo, onde os problemas e o medo do ndoki (em língua lingala, o mau olhado e coisas semelhantes) estavam sempre na ordem do dia: muitos cristãos, incluídos alguns catequistas, ainda não se tinham libertado disso completamente. Também na América Latina e na Europa tenho visto situações semelhantes. Toca-se com a mão o facto que o paganismo (com as suas extensões) é sinónimo de treva, medo, vingança, manobras tenebrosas … que serpenteiam abundantemente também entre os cristãos, de todas as latitudes. O coração humano nunca se converte completamente. A acção missionária da Igreja não se contenta com uma evangelização superficial, mas deve apontar ao coração das pessoas e aos valores das culturas, como bem ensina Paulo VI.
É possível sair desta mentalidade paganizante somente fazendo um caminho de conversão permanente, aceitando interiormente e até ao fim a Cristo que disse: “Eu sou a luz do mundo” (v. 5), “a verdade vos fará livres” (Jo 8, 32). É a exortação clara de S. Paulo (II leitura) a comportar-se como filhos da luz (v.8; cfr Mt 5,14), a não participar nas obras infrutuosas e vergonhosas das trevas (v. 11-12), mas a olhar para Cristo: “Desperta … e Cristo te iluminará” (v. 14). Cristo é a luz, é Ele o Enviado (v. 7) do Pai, o banho no qual nos imergimos com o baptismo.
A luz de Cristo ajuda a entender o sentido da doença e da dor, como se aprende com o testemunho paciente e silencioso de tantas pessoas doentes, mas interiormente serenas. A fé é uma luz nova que permite colher a mensagem de vida presente na dor, a oportunidade de purificação e de salvação, para si e para os outros. A fé leva a confiar em Deus, o Pastor que nos guia nos caminho seguros (Salmo responsorial). Ele tem vias e critérios diferentes dos nossos (I leitura): “o Senhor vê o coração” (v. 7) das pessoas, como se vê na escolha de David. Era o mais pequeno, um pastor (cfr Lc 2,8), mas Deus faz dele um rei. Os critérios de Deus são surpreendentes: cura o cego, um mendigo (v. 8), um expulso (v. 34), revela-se a ele, faz dele um crente, uma testemunha, um anunciador convicto (v. 30-33). Como tinha feito com a Samaritana (cfr. Domingo passado). Deus surpreende-nos: prefere escolher os últimos para fazer crescer o seu Reino no mundo.