2° Domingo da Quaresma (A)
Mateus 17,1-9


Referências bíblicas

  • 1ª leitura: A vocação de Abraão, pai do povo de Deus (Gênesis 12,1-4)
  • Salmo: Sl. 32(33) – R/ Sobre nós, Senhor, venha a vossa graça, venha a vossa salvação!
  • 2ª leitura:  Deus nos chama e nos faz brilhar. (2 Timóteo 1,8-10)
  • Evangelho: “O seu rosto brilhou como o sol” (Mateus 17,1-9)

    Queridos irmãs e irmãos,
    Nós ouvíamos hoje no livro do Génesis o início da história de Abraão, que é o pai dos crentes e reconhecido tanto no Judaísmo como no Cristianismo. Mesmo na tradição Islâmica, Abraão é considerado o primeiro dos crentes, aquele que começou a aventura da fé.

    Abraão é um protagonista improvável dessa história, e isso dá que pensar. Porque, se tivéssemos de escolher uma personagem para pensar a história da salvação, para viver a aventura da fé, sair da sua terra e ir para um lugar que não conhece, passar por tantas situações, porventura nós escolheríamos um personagem diferente, escolheríamos um jovem. Alguém com a força vital, com a abertura, com a capacidade de sonhar, de deslumbramento que uma aventura como estas exige. E, contudo, aquele a quem Deus escolhe e diz: “Olha, sai da tua terra, da tua parentela e vai para a terra desconhecida que tu não sabes onde que eu te vou indicar, olha para o céu e conta o número das estrelas, a tua descendência será ainda maior.” Aquele a quem Deus diz isto é um ancião, é alguém que tinha pensado da sua própria vida: “Vou arrumar as botas, estou no parque de estacionamento da vida, os meus dias estão contados, agora isto já não é para mim.” É esta personagem improvável que Deus vai buscar para começar a aventura da fé.

    Por isso, porventura cada um de nós se sente um pouco uma personagem improvável. Quer dizer, se Deus tem de fazer viver alguma aventura, com certeza que no outro, na outra nós descobrimos qualidades que evidentemente nos faltam. E contudo, a história da salvação faz-se assim, com protagonistas improváveis. Em horas em que não se espera, da forma que não se conta, aí vem o apelo de Deus meter-se connosco, a chamada de Deus tocar à nossa porta e a dizer sai de ti e vai para o lugar que eu te indicar.

    O que é que Abraão aprende nessa espécie de nomadismo, de itinerância, de rutura com a vida sedentária que ele levava, com seu contexto sociológico e familiar? O que é que Abraão aprende quando passa a ser um viajante, passa a viver na estrada? Ele aprende a confiança. Porque a terra para onde Deus o manda ele não sabe onde é, não é um destino já fixo, já esclarecido. No fundo, ele tem de viver cada dia confiado, agarrado, suspenso como se a sua vida dependesse disso, suspenso dessa Palavra. Isso é que é a fé, a fé não é dizer, eu vou daqui para ali e sei bem o que deixo e sei bem para onde vou. A fé é viver na exposição, é viver no desabrigo, é viver na dúvida, é viver na incerteza, é viver no aberto; mas é viver com confiança, é viver agarrado a uma Palavra.

    Por isso, o verbo imperativo que no episódio da Transfiguração aparece bem sublinhado é: escutai-O, escuta, escuta. O que é escutar? Escutar não é apenas ouvir com os ouvidos é ouvir com o coração. É amarrar-se àquela Palavra como Ulisses se amarrou a um mastro para não ouvir os cantos das sereias. É viver ligado àquela Palavra, é fazer a sua vida depender deste ato de escuta fundamental que nos forma e nos arquitetura, é isto o caminho da fé.

    Queridos irmãs e irmãos, nós estamos a viver este tempo da quaresma. É um tempo desafiante para cada um de nós e é um tempo de desinstalação, é um tempo também de esforço, também de sacrifício, um tempo de mudança. Essa mudança só acontece quando nós permanecemos fiéis a uma Palavra, nos amarramos, nos agarramos a essa Palavra e persistimos nela. E não é uma força que vem de nós, é uma força que o próprio Cristo nos vai dando e que nós vamos descobrindo em cada dia. Mas é preciso expor-se, é preciso aceitar ir, é preciso correr o risco, é preciso aventurar-se. E depois, Ele revela-se, como diz S. Paulo na Carta a Timóteo: “Sofre comigo, porque isto não é uma graça que nós tenhamos em nós mas é a graça manifestada em Cristo.” E é dessa graça que nós recebemos a força.

    Hoje, por exemplo, celebramos o episódio da Transfiguração. O que é a Transfiguração? É Jesus tentar passar aos discípulos uma imagem que os console, que arranque do seu coração acobardado o medo da cruz, o medo do que vai acontecer. Porque, nesta altura do campeonato, os discípulos já estão a ver que aquilo não vai dar certo e que vai acabar sobrando para eles. Eles já perceberam que os sonhos que tinham de um ser coronel, o outro ser general, herdar isto, herdar aquilo dum reino muito terreno nada disso vai acontecer. Eles estão a perceber que as autoridades vão liquidar Jesus e estão completamente apavorados, não sabem o que vão fazer, querem abandoná-Lo, mas ao mesmo tempo também não conseguem. Ficam com os pés pesados quando se trata de acompanhar Jesus. O episódio da Transfiguração é para lhes dizer: “Podem confiar, Eu Sou Aquele que o vosso coração sabe mas o vosso pensamento ainda não chegou lá, Eu Sou Esse, podeis confiar.”

    É muito bela esta narrativa de S. Mateus, quase que a pedagogia de cura, de transformação que Jesus faz com os discípulos. É uma pedagogia em três passos. Jesus aproximou-se deles quando eles estavam caídos por terra cheios de medo. Jesus aproximou-se deles, passo um; tocou-os, passo dois; e falou-lhes, passo três. “Levantai-vos e não temais.” E são, no fundo, estes três passos que Jesus faz com a vida de cada um de nós, com a vida caída, a vida sucumbida, a vida assustada, a vida que não sabe se caminha para a Páscoa ou se volta para trás, a vida que não sabe se consegue chegar à cruz ou não, a vida que se acobarda, a vida que fica a meio caminho, suspensa entre tantas questões, a vida de todos nós.

    Jesus aproxima-se, sintamos a proximidade de Jesus. Jesus não nos enjeita, Jesus não nos recusa porque não temos a força, não temos a graça, não temos a luz que devíamos ter, não temos a verdade que se espera, não temos isto. Não, isso não é um impedimento, Ele aproxima-Se de nós tal como somos. Tal como estamos, Ele aproxima-Se de nós.

    E depois toca-nos, toca-nos. Isto é, toca o nosso coração. Sintamo-nos tocados pelo amor de Jesus, e tocar é assumir, e tocar é incorporar, e tocar é levar aos ombros, e tocar é levar ao colo, e tocar é carregar o peso da nossa vida. Jesus toca-nos, toca-nos. Isto é, abençoa-nos, trata-nos com amor, cuida das nossas feridas como o Bom Samaritano cuidou das feridas do homem caído. Ele cuida de nós, Ele toca-nos, não nos repele, Ele vem ao nosso encontro, e um encontro de verdade, um encontro profundo.

    E depois, fala-nos. A palavra é muito importante porque é esta experiência que nós fazemos aqui, dominicalmente, que é cada um de nós é recriado por esta Palavra. A Palavra que vem da Sagrada Escritura, a Palavra de Deus é uma palavra que nos transforma. Nós experimentamos a força performativa desta Palavra que nos faz outros, que nos renova, que nos abre horizontes. Então, Jesus diz: “Levanta-te”. É muito importante este verbo “levantar-se” porque em grego diz-se ‘egeiren‘, que é a mesma palavra para dizer ressurreição. Aquilo que Mateus vai contar no Domingo de Páscoa é que Jesus Se levantou do túmulo. ‘Egeiren‘ é a mesma palavra que Jesus diz aos discípulos, “Levanta-te”, e é a mesma palavra que Ele diz hoje a cada um de nós: “Levanta-te, ressuscita, vive como um ressuscitado, levanta-te!” É essa palavra que Ele nos diz: “Levanta-te.” Tem de haver um levantamento na nossa vida, tem de haver um acordar, tem de haver um pôr-se de pé.

    Cada um saberá o que é que isso significa, o que é que isso representa, mas Ele vem dizer-nos isso, mas diz-nos isso e possibilita isso. ‘Egeiren‘, levanta-te. E cura o medo do nosso coração. Levanta-te e não tenhas medo.

    Queridos irmãs e irmãos, é este encontro que transforma a nossa vida. É natural o que nós sentimos, o que nós vivemos muitas vezes é o que temos para viver, é o que nos calhou em sorte, é o que está no nosso caminho. Não vamos julgar, não se trata disso, mas trata-se agora de saber o que é que eu vou fazer com isto. O que é que eu vou construir? Qual vai ser agora o meu caminho? É muito importante estes três passos que Jesus celebra com cada um de nós. Por isso, cada um de nós sinta que cada um destes passos acontece com o tempo e com a perceção necessária ao seu coração. Cada um de nós sinta que Jesus Se avizinha da sua vida, da sua história, que Jesus toca o corpo das nossas feridas e que Jesus nos oferece a Palavra restauradora, recriadora: “Levanta-te, não temas.”

    José Tolentino Mendonça
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    A voz que foi ouvida pelas testemunhas da Transfiguração pronuncia as mesmas palavras ditas pela voz vinda do céu, no Batismo de Jesus. Nos dois casos, trata-se de uma declaração de identidade: «Este é o meu filho amado». E da afirmação de que todo o amor de Deus o acompanha em seu itinerário pessoal, e também o habita, para reunir todos os homens: «Nele ponho todo o meu amor».

    Por que reiterar estas afirmações? É que, no Batismo, tratava-se de investir Jesus de autoridade, para que seus ouvintes acolhessem os ensinamentos que viriam em seguida. Mas na Transfiguração o contexto é diverso: imediatamente antes desta imagem de glória, Jesus havia informado os discípulos que deveria ir até Jerusalém onde seria levado à morte.

    Era preciso que os discípulos ficassem sabendo que, mesmo aí, no horror da Paixão, permaneceria sendo o Filho amado e que o rosto da dor coincidiria com o rosto fulgurante da glória. Esta dimensão pascal estava com certeza inscrita no Batismo, como se tem dito, mas, de qualquer forma, à distância; já, agora, não dá mais para recuar.

    Para dizer a verdade, o acontecimento pascal aparece diretamente apenas na última linha da nossa leitura, mas está subjacente a todo o relato. Meditemos sobre isto, pois temos muita dificuldade em descobrir, no horror de seu suplício, todo o amor de Deus para com Cristo e, através dele, para conosco. Que fique bem entendido, Deus não é o autor da cruz nem das nossas diversas desgraças, mas vem sim nos reunir e nos «glorificar» em toda parte em que a vida nos coloca.

    O rosto de luz

    Com o rosto fulgurante de Jesus, pensamos forçosamente em Moisés descendo da montanha em que Deus lhe tinha dado as «dez palavras» da Aliança. Seu rosto resplandecia a tal ponto que devia escondê-lo, para não amedrontar os «filhos de Israel» (Êxodo 34,29-35).

    Paulo retoma este tema em 2 Coríntios 3,4-18. Explica que, sob a antiga Lei, a verdade gloriosa estava velada, mas que, em Cristo, o véu cai. Esta luz é contagiosa, pois, também «nós todos que, com a face descoberta, contemplamos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados».

    Passamos do regime de condenação ao regime de JUSTIFICAÇÃO (versículo 9). Este texto de Paulo insiste muito no caráter passageiro da primeira Aliança. E, justamente, o relato da Transfiguração nos põe na presença de Moisés e de Elias, a Lei e os profetas, figuras que recapitulam todo o Antigo Testamento.

    Cristo veio cumprir, superar, a Lei e preencher as promessas da profecia. Ele realiza a passagem do transitório ao definitivo, ao futuro representado ali pelos três Apóstolos, os mesmos que vamos encontrar no Getsêmani, no limiar da Paixão.

    Por que somente estes três? Em Gálatas 2,9, Paulo diz que foi fazer com que sua ação junto aos pagãos fosse aprovada por «Tiago, Pedro e João, os notáveis tidos como colunas»; colunas da Igreja, bem entendido. Estamos, assim, às portas de um futuro revelado como pleno de glória.

    Rumo ao último Êxodo

    De glória sim, e da luz, que se ergue nas trevas… Mas eis que os personagens entram numa nuvem que é a uma só vez luminosa e obscura, pois ela os cobre com a sua sombra. Obviamente, logo se pensa na nuvem que apareceu tantas vezes no Êxodo para manifestar a presença divina.

    Em particular no capítulo 40, versículos 32-36, uma das passagens em que a nuvem é vista sobre a Tenda da Reunião. Estas múltiplas referências ao Êxodo mostram muito bem que, aqui, estamos nas vésperas do último Êxodo, aquele definitivo: o Êxodo que não mais atravessará o deserto, mas sim o que este deserto representava, ou seja, a morte.

    Exatamente por isso Lucas, em sua versão da Transfiguração, escreve que Moisés e Elias falavam com Jesus a respeito de «seu êxodo que se consumaria em Jerusalém». Assim como no decurso da travessia do deserto, Pedro quer erguer as tendas. Ora, erguer a tenda é querer instalar-se, é interromper a marcha.

    Será que o que quer é bloquear ou retardar a passagem do antigo para o novo? Opa! Todos nós buscamos repousar no já adquirido, no que já está aí. Não queremos deixar o lugar em que a glória se manifesta. Mas lá em baixo, ao pé da montanha, serpenteia a estrada que leva a Jerusalém.

    Da mesma forma que em Mateus 16,21-23, no capítulo precedente, portanto, Pedro não quer partir para esta viagem até à cidade que mata os profetas. «Vou erguer três tendas»… Mas por que exigir silêncio sobre a Transfiguração, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos? Porque somente então se poderá compreender que pela Cruz é que vem a Glória.

    Marcel Domergue
    http://www.ihu.unisinos.br


    Um aperitivo do céu
    Raymond Gravel

    A cada ano, no segundo domingo da Quaresma, nós temos como evangelho um outro clássico da Quaresma: o relato da transfiguração, de acordo com o evangelista do ano. Hoje, é o de Mateus. Esse relato da transfiguração, assim como aquele da tentação, nos diz certamente alguma coisa sobre o Cristo ressuscitado, mas também dos cristãos. Projetando sobre Jesus de Nazaré a tentação e a transfiguração, Mateus nos mostra esta dupla realidade no Cristo Jesus: sua humanidade e sua divindade. Ao mesmo tempo, nós participamos desta dupla realidade de Cristo. Ao dizer de Jesus, no momento da sua transfiguração, que: “o seu rosto brilhou como o sol…” (Mt 17,2b), o evangelista disse anteriormente que: “Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43), o que significa para Mateus que a realidade do cristo é também a nossa… o que fez Santo Irineu dizer, no segundo século da nossa era: “Se Deus se fez homem é para que o homem seja feito Deus”.

    Nesse segundo domingo da Quaresma, que mensagens podemos tirar da Palavra de hoje?

    1. O humano e o divino se tocam

    Com Jesus na montanha é toda a Igreja que se encontra aí para ser transfigurada; PedroTiago e João representam os discípulos de Jesus, a Igreja, e a montanha é o lugar do encontro de Deus. Mas a pergunta que se coloca é a seguinte: quando isso acontece? A resposta é simples: quando paramos para escutar o Ressuscitado: “Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz” (Mt 17,5b). Escutar o Cristo é viver o Evangelho: o amor incondicional, o perdão ilimitado, a acolhida e a abertura aos excluídos, não julgar, a partilha e a doação da sua vida aos outros, a justiça, o respeito e o reconhecimento da dignidade de todos. Quando nós vivemos isso, nós somos transfigurados pelo Cristo, de sorte que, sem mesmo nomeá-lo, as pessoas nos reconhecem como seus irmãos e irmãs, da mesma família que ele: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35).

    Por outro lado, o deserto nunca está longe. Pedro gostaria de ficar na montanha: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (Mt 17,4). O evangelista Marcos, que é menos polido que Mateus, acrescenta: “Pedro não sabia o que estava dizendo” (Mc 9,6a). Não podemos permanecer na montanha; as mulheres e os homens têm necessidade do deserto para se converter, purificar, reassumir e transformar. Nós somos permanentemente confrontados no deserto com as múltiplas tentações, onde devemos escolher entre o material e o espiritual, entre parecer e ser, e entre o poder de possuir ou o poder de servir. Mas, após esta subida à montanha da transfiguração, após sentir o gosto da presença do Ressuscitado, o deserto é mais fácil de atravessar; ele nos humaniza mais para melhor nos divinizar. É lá, penso, que o humano toca o divino.

    2. O Cristo ressuscitado é Palavra, Verbo de Deus

    Com Jesus transfigurado na montanha, encontramos Moisés e Elias que conversam com ele (Mt 17,3). Mateus nos diz, pois, que o Cristo ressuscitado resume em si a Antiga Aliança: a Lei e os Profetas, através de Moisés e Elias. Por essa razão, no momento da teofania, Moisés e Elias desaparecem: “Os discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus” (Mt 17,8). O que significa que a Antiga Aliança caducou; Cristo é verdadeiramente sinal da Nova Aliança que Deus estabelece com seus discípulos, a Igreja… Ele é, ao mesmo tempo, a nova Lei e a nova Palavra de Deus.

    Por outro lado, a Igreja é agora chamada a anunciar o Evangelho em todas as circunstâncias: “Participe do meu sofrimento pelo Evangelho, confiando no poder de Deus” (2 Tm 1,8b). Nós não merecemos esta vocação, diz São Paulo; nós a recebemos de graça, no Cristo Jesus: “Ele nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não por causa de nossas obras, mas conforme seu próprio projeto e graça. Esta graça nos foi concedida em Jesus Cristo desde a eternidade” (2 Tm 1,9). Imagine a grande gratuidade do amor de Deus por nós. De onde vem a ideia de que alguns dentre nós não serão salvos? Quem somos nós para duvidar da graça, da gratuidade da salvação em Jesus Cristo?

    3. A fé: um risco e um desafio

    No momento em que Paulo escreve sua carta a Timóteo, este está preso; esta segunda leitura, da qual temos um trecho hoje, foi redigida algumas semanas antes da sua condenação em Roma, quando seria decapitado. Nós estamos, portanto, em plena época da perseguição cristã: a fé é um risco a assumir e um desafio a enfrentar. Não há outras formas de perseguições e de exclusões ao querer anunciar e viver o Evangelho? Se em Quebec, por exemplo, há tantas pessoas que se tornaram indiferentes à fé cristã e refratárias à Igreja, não seria por que a Igreja não mais anuncia o Evangelho? Quando a Igreja condena, rejeita e exclui pessoas, ela não anuncia o Evangelho. Felizmente, com a chegada do Papa Francisco sentimos uma brisa suave e de mudança… Já era tempo…

    Por outro lado, ainda há muitos em nossa Igreja que acreditam ser os detentores da verdade, que julgam, condenam e excluem, em nome da doutrina e da regra, todos aqueles e aquelas que ousam embrenhar-se por caminhos ainda inexplorados, para enfrentar o desafio de anunciar o Evangelho hoje. Aqueles que participam dos sofrimentos e vivem na esperança de que Deus os salvou, apesar do que dizem os outros. Quantas vezes nós vimos e ouvimos pessoas testemunharem seus sofrimentos em relação à Igreja à qual elas dizem pertencer. Pessoalmente, isso me dói profundamente, porque eu penso sinceramente que esses cristãos não fazem outra coisa senão anunciar e viver o Evangelho de outra maneira… desajeitadamente, às vezes, mas sempre com sinceridade. Uma coisa é certa: em nome do Evangelho pode-se denunciar situações de injustiça, pode-se criticar as regras, as decisões ou tomadas de posição… Por outro lado, não se pode atacar as pessoas e procurar destruí-las ou excluí-las. Isso é contrário ao espírito do Evangelho e é muitas vezes a causa do afastamento e do abandono da Igreja de muitos crentes.

    Fico triste de ver que em algumas igrejas não se interpela mais as pessoas, elas não são mais alimentadas com a Palavra, continua-se a infantilizá-las e não se leva mais a mensagem de esperança do Cristo ressuscitado. Não esqueçamos, sobretudo, que nós temos a responsabilidade de anunciar o Evangelho em todas as circunstâncias. Devemos descer da montanha para ir ao deserto; devemos não apenas dizê-lo, mas também fazê-lo, para que o humano possa tocar o divino. A fé é sempre um risco a tomar e um desafio a enfrentar. E, como disse São Paulo, na segunda leitura de hoje, o caminho da fé comporta seus sofrimentos e suas dificuldades. Se nós esperamos, antes de tomar esse caminho, que não haja mais riscos a viver, provas a vencer, nem mais desafios a enfrentar, nunca vamos nos engajar no caminho da fé, e retardaremos o processo da ressurreição que deve se estender a toda a nova criação iniciada com o Cristo Pascal. Enraizados na Palavra, o anúncio do Evangelho sempre é possível… E a transfiguração não é apenas um aperitivo do céu que nos aguarda?

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    Continua o caminho para descobrir a identidade de Jesus e a sua missão. Domingo passado essa identidade revelava-se no episódio das Tentações. No segundo Domingo da Quaresma temos um outro encontro marcado: a Transfiguração de Jesus sobre o monte Tabor (Evangelho). O acontecimento tem lugar “seis dias depois” (v. 1) dos encontros em Cesareia de Filipe (com a profissão de fé de Pedro, a promessa do seu primado, e o primeiro anúncio da paixão: Mt 16,13-28). Cada um destes acontecimentos ajunta elementos significativos para configurar o verdadeiro rosto de Cristo; a antífona de entrada convida-nos hoje a olharmos de novo para esse rosto: “Procurai o seu rosto. O teu rosto eu procuro, Senhor, não escondas de mim o teu rosto” (Sal 26,8-9). A resposta a esta súplica insistente chega-nos de “um alto monte” (v. 1), onde Jesus foi transfigurado diante de três discípulos por ele escolhidos: “O seu rosto brilhava como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (v. 2). A luz não vem do exterior, mas emana de dentro da pessoa de Jesus. Tem razão Lucas, que no texto paralelo sublinha que “Jesus subiu ao monte para rezar e, enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto” (Lc 9,28-29). É do encontro com o Pai que Jesus sai interiormente transformado; a plena identificação com o Pai resplende no rosto de Jesus (cfr Jo 4,34; cfr 14,11).

    Longe de buscar para si um momento de auto-glorificação gratificante, Jesus quer que os seus discípulos descubram melhor a sua identidade e a sua missão. Com essa finalidade, sobre o monte realiza-se uma manifestação da Trindade através de três sinais: a voz, a luz e a nuvem. A voz do Pai proclama Jesus como seu “Filho, o bem amado. Escutai-o” (v. 5); a  luz emana do próprio corpo do Filho Jesus; a nuvem é símbolo da presença do Espírito. Precisamente naquele contexto de glória, antecipação do seu triunfo final, Jesus fala com Moisés e Elias da “sua partida que se deveria realizar em Jerusalém” (Lc 9,31). Da oração à revelação e contemplação da Trindade, da paixão à glorificação: agora, os discípulos já podem compreender algo mais sobre a personalidade do seu Mestre.

    A verdadeira oração nunca é evasão. Para Jesus a oração era um momento forte de identificação com o Pai e de adesão coerente e confiante ao Seu plano de salvação. Tal caminho de transformação interior é o mesmo para Jesus, para o discípulo e para o apóstolo. A oração, vivida com escuta-diálogo de fé e de humilde abandono em Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário; essa é a única experiência que serve de fundamento à missão. A oração tem o seu ponto mais verdadeiro quando desabrocha em serviço ao próximo necessitado. É esta a dimensão missionária da oração, que Bento XVI enfatizou numa sua catequese quaresmal.

     O apóstolo vive convencido de que o Deus fiel o acompanha em todas as etapas e acontecimentos da sua vida: nos inícios, nos momentos de Tabor e nos momentos de Getsemani… Disso dão testemunho Abraão e Paulo. Permanecem desconhecidas as motivações que levaram Abrão (I leitura) a deixar terra e parentes para se dirigir a um país desconhecido (v.1). Desde então, Abrão, forte na sua fé monoteísta no verdadeiro Deus, tornou-se pai e modelo para cerca de três biliões de crentes (hebreus, cristãos, muçulmanos). Para ele, ao chamamento de Deus – como toda a vocação missionária – exigiu um partir, um êxodo, um abandonar afectos e seguranças para avançar para metas que Deus lhe havia de indicar. Abrão obedeceu, confiando no Senhor (v.4). Também Paulo deixou o caminho de Damasco par uma nova aventura com Jesus, sem se preocupar com os sofrimentos. Por isso ele podia exortar o seu discípulo Timóteo (II leitura): “Com a força de Deus, sofre comigo pelo Evangelho” (v. 8).

    O anúncio do Evangelho de Jesus leva necessariamente a um compromisso tenaz pela defesa e promoção das mais débeis, cuja dignidade humana é frequentemente deturpada e desfigurada com todas as formas de violência, exploração, abandono, fome, doença, ignorância… Toda e qualquer deturpação da dignidade humana é contrária ao projecto original de Deus, o Pão da Vida! O rosto fascinante de Jesus, nosso irmão mais velho, é um prelúdio da sua realidade post-pascal e definitiva; a mesma que nos é prometida também a nós, salvos e chamados com uma vocação santo, segundo o projecto e a graça de Deus (v.9). É sobre esta vocação à vida e à graça que se fundamenta a dignidade de toda a pessoa humana, cujo rosto, por nenhum motivo deve sofrer deturpação. Onde quer que exista um rosto humano deturpado ou desfigurado, é imperiosa e urgente a presença dos missionários do Evangelho de Jesus!