Tanto para criar como para ler uma obra de arte, é necessário um banco de imagens, consideravelmente grande, acumulado no acervo da nossa memória. Esse acervo, tanto maior será quanto mais amplo for o nosso conhecimento artístico, histórico, antropológico, teológico, doutrinal, espiritual, etc.
Uma imagem vale por mil palavras.

Alexandra Lisboa
10 febbraio 2026
Cortesia de
https://claustro.carmelitas.pt
Na linguagem verbal, se o vocabulário for reduzido, torna-se difícil o diálogo a partir de um certo nível de complexidade; da mesma forma, nas artes visuais, se o nosso imaginário se reduzir a meia dúzia de ideias ou conceitos, a imagem que pretendemos ler poderá ficar reduzida a poucas palavras e não às mil como diz o nosso provérbio. Ou talvez a nenhuma tornando-se inacessível e, muitas vezes, desinteressante.
Quando pretendemos ler uma Pintura Rupestre, estando a chave de leitura perdida para sempre, reconhecemos os símbolos, mas não entendemos o seu significado total, naquele contexto, nem o seu propósito nem a sua função; mas, em outras situações, pode dar-se o caso da chave de leitura estar à mercê, ser conhecida e atual mas ser de tal modo ignorada que o que a imagem representa deixa de pertencer ao imaginário pessoal, como é o caso de muita da arte sacra hoje em dia: identificamos os personagens, reconhecemos algumas cenas mas não conseguimos ir muito mais além disso. O vocabulário diminui porque não se conhece a realidade a que diz respeito, a leitura torna-se reduzida e, naturalmente, irrelevante.
A imaginação é uma das faculdades do espírito humano mais fascinante; está intrinsecamente ligada à memória, uma outra potência espiritual que Santo Agostinho, no Livro X das Confissões, revelava como um lugar infinito de armazenamento de experiências sensitivas, conhecimentos abstratos e a própria noção de Deus. A imaginação é, pois, a capacidade de criar imagens no espírito recorrendo ao manancial da memória; quanto mais recheado estiver o Palácio da Memória[1] maior é a atividade mental nas transações entre inconsciente e consciente.
A criatividade é outro ingrediente necessário para que a obra nasça. Se a imaginação não é por si mesma criatividade, esta não existe sem a imaginação. Porque a obra que vai nascer, qualquer que seja o tipo de obra, não está, ainda, materializada. É, antes de tudo, imagem no espírito do artista, imagem ainda incerta, instável e volátil, que necessita do primeiro traço no papel – ou gesto de modelação ou entalhamento na madeira ou cinzelagem na pedra ou no metal ou impressão de luz – para começar a concretizar-se e, depois desse, muitos outros traços cada um deles como que agarrando a imagem que está eminentemente a escapar. A criatividade é, pois, esse gesto de agarrar aquilo que ainda está no limbo da imaginação.
O imaginário, esse manancial de memória, constrói-se, preferencialmente de coisas belas e significativas e deveríamos aceitá-lo em primeiro lugar como legado, oferecido, mas também conquistado, acrescentado e por fim transmitido.
Tanto para criar como para ler uma obra de arte, é necessário um banco de imagens consideravelmente grande, acumulado no acervo da nossa memória. Esse acervo, tanto maior será quanto mais amplo for o nosso conhecimento histórico, antropológico, artístico, teológico, doutrinal, espiritual etc, etc, etc.
Gostaria de propor um exercício de leitura de uma obra de arte e para tal iremos fazê-lo a partir de uma das mais belas peças da História da Arte e que mais facilmente é reconhecível – uma Anunciação. Para não nos ficarmos apenas pela sua leitura formal, aquela que apenas identifica a cena pelas personagens, tentarei uma leitura mais integrada, mesmo sabendo que muito ficará por dizer.
Esta peça que aqui apresento é conhecida por Anunciação de Cortona, de Fra Angélico, um frade dominicano que teve como característica principal imprimir um espírito orante nas suas composições pictóricas e opções cromáticas. Muitas das suas pinturas mais conhecidas eram afrescos pintados na parede das celas dos frades do seu mosteiro.
Estima-se que esta pintura tenha sido pintada cerca de 1430. É um retábulo composto por uma cena central e uma predella, isto é, um friso horizontal, situado na zona inferior, com pequenas cenas narrativas da vida da Virgem Maria que ajudam a compor a leitura da narrativa central. Embora tenha todos os elementos característicos do início do Renascimento, marcado pela forte presença da arquitetura e da perspetiva com um ponto de fuga único, mantém a elegância das linhas do Gótico e a sobriedade das cores Terra Sienna. É uma têmpera sobre madeira de 175 X 180cm originalmente projetada para o Altar Mor da Igreja de Gesù, em Cortona, e que agora se encontra no Museu Diocesano de Cortona.
A Anunciação era um dos temas prediletos de Fra Angélico (n.1395) cujo nome de batismo era Guido di Pietro Trosini; uma das marcas características da entrada no Renascimento a que o frade pintor recorre com grande mestria, e pela qual é muito conhecido, é a opção de enquadrar as cenas bíblicas num espaço arquitetónico, que representa o espaço criado pelo homem, espaço esse que o Anjo rompe para se aproximar de Maria. A coluna que os separa como que estrategicamente a delimitar naturezas diferentes, entre Maria e o Anjo, é também ele rompido pelo manto da Virgem Maria que invade o espaço habitado pelo divino, talvez para nos falar da intimidade de Maria com o próprio Deus; em simultâneo, as pontas das asas do Anjo permanecem num outro espaço, aparentemente exterior, o jardim; é um espaço exterior em relação à arquitetura, contudo um espaço fechado que nos permite contemplar um jardim murado – Horto Conclusus – que representa a pureza e a castidade da Virgem e que sugere a predileção de Deus por Maria. Estilisticamente este jardim mantem-se assumidamente numa linguagem pictórica gótica acentuada pelo detalhe simbólico que orientou a escolha das espécies botânicas que o compõem – rosas brancas que representam a pureza de Nossa Senhora; rosas vermelhas que remetem para a Paixão de Cristo; e uma palmeira que nos permite ler, antecipadamente, a vitória da vida sobre a morte que aqui nesta cena se nos anuncia.
O Anjo interrompe Maria no seu momento orante e contemplativo, e dirige-se-lhe diretamente, acto expresso pelo dedo indicador direito que aponta na sua direção. A outra mão aponta para cima, dizendo-nos que a mensagem vem do Alto; da boca do Anjo é soprada a mensagem – Spiritus Sanctus superveniet in te, (O Espírito Santo descerá sobre ti) – que se pode ver nas estrofes douradas que unem o espaço entre o Anjo e Maria; na estrofe seguinte Maria dá o seu consentimento – Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum (Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra). Nesta estrofe, as letras estão escritas de forma invertida, i. é, de cabeça para baixo, de modo que a mensagem seja lida por Deus e, na terceira estrofe, o Anjo anuncia a ação de Deus sobre Maria, após o seu consentimento – et virtus Altissimi obumbrabit tibi (a virtude doAltíssimo te cobrirá com a sua sombra)[2]. Esta pintura da Anunciação representa esse momento exato em que Maria, depois do seu consentimento, está a conceber do Espírito Santo, assinalado pela Pomba que já paira sobre Ela. Tanto o livro sobre o joelho de Maria, como o medalhão que surge entre os arcos, que se julga ser do profeta Isaías, confirmam que acabou de se cumprir as Escrituras, e a salvação chegou ao mundo. A perspetiva de toda a composição, construída matematicamente e cujo ponto de fuga se posiciona fora da arquitetura, subtilmente nos guia o olhar para uma cena no canto superior esquerdo que justifica a relevância da cena central – Adão e Eva são expulsos do paraíso terrestre, após a primeira rutura entre o Homem e Deus, que é reparada neste momento, precisamente, pela aceitação de Maria.
Toda a luz da cena central, apesar de se passar sob um teto arquitetónico, não se deteta a sua origem; fala-nos da sobrenaturalidade do momento em contraste com a escuridão da cena ao fundo, supostamente num exterior iluminado pelo sol.
Mais detalhes podem enriquecer a leitura da cena que a compõem intencionalmente acrescentando-lhe sentido, tais como uma leitura aprofundada do Horto Conclusus e a cerca que a separa do mundo, da posição das mãos da Virgem, a cor das suas vestes, o teto celeste dentro do espaço arquitetónico, uma porta que se abre para um novo interior, o próprio mobiliário que o compõe bem como um cortina vermelha que subdivide esse interior em um outro interior mais profundo, o trono dourado de Maria, o tapete debaixo dos seus pés e a ausência dele debaixo do Anjo…
Na predella podemos ler, da esquerda para a direita, episódios da vida da Virgem Maria – o Casamento da Virgem Maria, a Visitação, a Natividade, a Apresentação e a Dormição da Virgem. Em cada uma das extremidades da predella, oferecem-se duas cenas da vida de São Domingos – o Nascimento e a Visão da Virgem entregando-lhe o hábito dominicano, numa alusão à Ordem a que pertencia Fra Angélico. Apesar de serem pinturas muito pequenas, o nível de detalhe é inacreditável como com cada uma delas poderemos ter o mesmo nível de conversa que temos com a cena central – haja, para isso, vocabulário visual suficiente no acervo da nossa memória e que a ela possamos aceder treinando-a, treinando-a, treinando-a.
[1] Santo Agostinho – Livro X.
[2] Lucas 1,35.38.
Alexandra Lisboa
Artista plástica
Tanto para criar como para ler uma obra de arte, é necessário um banco de imagens, consideravelmente grande, acumulado no acervo da nossa memória. Esse acervo, tanto maior será quanto mais amplo for o nosso conhecimento artístico, histórico, antropológico, teológico, doutrinal, espiritual, etc.