6° Domingo
Tempo Comum (A)
Mateus 5,17-37


Cristo Maestro

Leituras

  • 1ª leitura: O Senhor “não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar” (Ecl 15,16-21)
  • Salmo: Sl. 118(119) – R/ Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!
  • 2ª leitura: “Falamos da sabedoria escondida que, desde a eternidade, Deus destinou para nossa glória” (1Cor 2,6-10)
  • Evangelho: “Ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo…” (Mt 5,17-37 ou 20-22.27-28.33-34.37)

A lei do amor
Marcel Domergue

Para além da Lei

À exceção do mandamento que prescreve “honrar pai e mãe”, ou seja, amar a vida que, atravessados pelo amor que vem de Deus, nossos pais nos deram, todas as outras prescrições do decálogo são proibições. É estranho, porque «a Lei e os profetas» podem enfim se resumir no duplo mandamento, positivo, de amar a Deus e ao próximo (ver, por exemplo, Mateus 22,37-39). Aquelas proibições enumeram as condutas que nos fazem sair do amor, mas não nos falam em como amar. O que, de fato, não é algo que se ordene: se eu amo por obediência, é a mim mesmo que eu busco, a minha perfeição, e não o outro. Quero ser irrepreensível. Há somente uma precisão positiva: amar ao próximo «como a si mesmo». Resta, contudo, saber quando e como amamos a nós mesmos verdadeiramente. Quanto a isto, podemos cometer muitos erros.…Afinal, ficamos sabendo que amar-nos a nós mesmos consiste, na verdade, em dar a própria vida para que outros vivam, e que assim, aliás, é que nos tornamos verdadeiramente vivos. A Páscoa de Cristo é a revelação disto. No Calvário, do lado dos homens, a Lei foi violada e, do lado de Cristo, tornou-se obsoleta, foi superada. Resta-nos encontrar a maneira de «dar a própria vida». São as circunstâncias e os acontecimentos da nossa história que irão dizer. Ainda uma vez, vemos que não há modo de se prescrever como amar; cabe a nós descobri-lo, ao longo dos nossos encontros com os outros. Aí, então, estaremos para além da Lei, mas sempre em sua linha. Poderia se dizer que o amor nos dá comportamentos contrários às proibições da Lei, mas não é o bastante: os comportamentos são apenas a expressão exterior daquilo pelo qual somos habitados.

Sob o regime do Amor

Há um contraste, porém: depois de ter-nos dito que nenhuma letra será tirada da Lei até que tudo seja cumprido, Jesus põe-se a agravar as prescrições. Não acrescenta nada a elas, mas passa dos comportamentos exteriores às disposições interiores que as comandam. Estes comportamentos proibidos pela Lei são de fato a expressão de uma perversão do amor em profundidade. Passa-se do «fazer» isto ou aquilo ao «sê-lo». Paulo vai falar em passar da Lei à fé. Neste novo regime, o que a Lei prescreve é mais bem-observado do que sob o antigo. Só que não é mais em nome da Lei que se age conforme o que ela exige, mas sob a regência da escolha de fazer o outro existir; ou de deixá-lo existir. Esta escolha não é totalmente espontânea. Sua origem não se encontra em nós mesmos: ela vem da acolhida em nós de um amor que vem dum outro lugar. É resultado desta nova Aliança, que vem substituir a que estava fundada na Lei e sob a qual era vivida. Mais tarde, ficamos sabendo que esta nova Aliança se conclui pelo acolhimento do Espírito, que é o próprio Deus infundido em nós. Mas, como não poderíamos ser semelhança de Deus se perdêssemos a nossa liberdade, não é de uma vez por todas que o Espírito vem tomar posse de nós. Ele nos é dado a cada instante, e a cada instante é que devemos identificá-Lo, oferecendo-Lhe a nossa adesão. Em três pequenas parábolas, a do «teu irmão que tem alguma coisa contra ti», a do processo iminente e a da ameaça de guerra, aprendemos que a reconciliação é mais importante do que o culto religioso e que a recusa em acabar com os nossos conflitos nos conduz finalmente à catástrofe. A vida está do lado do Amor.

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Não à guerra entre nós
José Antonio Pagola

Os judeus falavam com orgulho da Lei de Moisés. Segundo a tradição, foi mesmo Deus quem a ofereceu ao Seu povo. Era o melhor que tinham recebido Dele. Nessa Lei apresenta-se a vontade do único Deus verdadeiro. Aí podem encontrar tudo o que necessitam para ser fiéis a Deus.

Também para Jesus a Lei é importante, mas já não ocupa o lugar central. Ele vive e comunica outra experiência: está a chegar o reino de Deus; o Pai procura abrir o caminho entre nós para fazer um mundo mais humano. Não basta ficarmos com cumprir a Lei de Moisés. É necessário abrir-nos ao Pai e colaborar com Ele para fazer uma vida mais justa e fraterna.

Por isso, segundo Jesus, não basta cumprir a lei que ordena “Não matarás”. É necessário, também, arrancar da nossa vida a agressividade, o desprezo pelo outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata, cumpre a lei, mas se não se liberta da violência, no seu coração não reina todavia esse Deus que procura construir connosco uma vida mais humana.

Segundo alguns observadores, está-se a estender na sociedade atual uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade. Cada vez são mais frequentes os insultos ofensivos proferidos só para humilhar, desprezar e ferir. Palavras nascidas da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança.

Por outra lado, as conversações estão frequentemente tecidas de palavras injustas que distribuem condenações e semeiam suspeitas. Palavras ditas sem amor e sem respeito, que envenenam a convivência e fazem mal. Palavras nascidas quase sempre da irritação, da mesquinhez ou da baixeza.

Não é este um facto que se dê só na convivência social. É também um grave problema na Igreja atual. O Papa Francisco sofre ao ver divisões, conflitos e confrontos de “cristãos em guerra contra outros cristãos”. É um estado de coisas tão contrário ao Evangelho que sentiu a necessidade de dirigir-nos uma chamada urgente: “Não à guerra entre nós”.

Assim fala o Papa: “Doí-me comprovar como em algumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, consentimos diversas formas de ódios, calunias, difamações, vinganças, ciúmes, desejos de impor as próprias ideias à custa de qualquer coisa, e até de perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos evangelizar com estes comportamentos?”. O Papa quer trabalhar por uma Igreja em que “todos podem admirar como vos cuidais uns aos outros, como vos dais alento mutuamente e como vos acompanhais”.

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O amor é mais forte do que a lei
Enzo Bianchi

“Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento.” Essas palavras de Jesus, que abrem o trecho do Evangelho de hoje, à primeira vista, contrastam com as que ele pronuncia repetidamente logo depois: “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos… Eu, porém, vos digo”. Mas é isso mesmo?

Ao longo de toda a sua vida, Jesus meditou a Torá, a Lei de Deus, não para destruí-la ou negá-la; pelo contrário, ele a reconheceu e viveu como judeu fiel, como autêntico “filho do mandamento” (cf. Lc 2,41-43). No entanto, ele se colocou perante a Torá como aquele que conhece a intenção do Legislador (cf. Mt 19,8) e, portanto, está autorizado a interpretá-la com autoridade, a fim de fazer dela não uma fonte de escravidão, mas sim de liberdade para todos os homens e mulheres.

Jesus não se opôs à Lei, mas sim às suas interpretações redutivas dadas por escribas e fariseus, aqueles homens religiosos que “coavam o mosquito e engoliam o camelo” (cf. Mt 23,24): isto é, eles praticavam uma leitura legalista e literalista da palavra de Deus contida nas Escrituras, dispersando a vontade de Deus em uma miríade de preceitos, que tornavam impossível a sua observância e a privavam do seu centro.

Por isso, Jesus pediu a seus discípulos, em vista do reino dos céus, “uma justiça maior” – em qualidade, não em quantidade – “que a dos mestres da Lei e dos fariseus”, ou seja, uma fiel obediência à vontade de Deus revelada na Lei, por ele cumprida com a sua interpretação radical.

Jesus recorre a uma série de exemplos para mostrar essa sua interpretação: nós lemos alguns deles hoje; outros, no domingo que vem. Acima de tudo, ele radicaliza o mandamento: “Não matar” (Ex 20,13; Dt 5,17), corrigindo uma leitura restritiva dele, que o entende como relativo apenas ao ato material do homicídio. Em vez disso, Jesus amplia o seu olhar para a intenção do ser humano, que muitas vezes se traduz em palavras coléricas e violentas, mas que, de um modo igualmente frequente, permanece fechada no coração como um fogo mortífero.

Essas palavras ou esses propósitos já são pecado, porque expressam de outro modo aquilo que se tem medo de realizar concretamente: “Com a voz e com o desejo comete-se um homicídio, mesmo que não se levantem as mãos contra o próximo”, como anotou São Gregório Magno.

Ainda sobre o tema das relações com os outros, Jesus acrescenta que a reconciliação fraterna é uma condição indispensável para celebrar a liturgia na verdade. Em suma, é melhor não participar da eucaristia do que participar dela desmentindo nos fatos aquilo que se celebra com o rito…

“Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’ (Ex 20,14; Dt 5,18). Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (e, sobre o adultério, em relação ao divórcio, Jesus retorna imediatamente depois, com uma afirmação que deve ser lida à luz do raciocínio mais amplo presente em Mt 19,1-9).

Essas palavras tão claras, seguidas pela exortação a cortar os membros do nosso corpo que nos são causa de escândalo, não precisam de comentário. Gostaria apenas de observar que elas são uma oportunidade oferecida a cada um de nós para nos interrogarmos sobre a nossa própria relação com a sexualidade e, portanto, mais uma vez, com o outro: a verdadeira perversão, de fato, muito antes de se traduzir em atos concretos, é aquela que induz a conceber o outro, a partir do olhar voraz que se lança sobre ele, como mera possibilidade de encontro sexual.

Em outras palavras, Jesus coloca diante dos nossos olhos o longo caminho para chegar a aprender a arte de amar e de viver a sexualidade em plenitude.

Por fim, Jesus comenta o preceito: “Não jurarás falso, mas cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor” (cf. Ex 20,7; Dt 5,11; Lv 19,12), radicalizando essa proibição: “Não jureis de modo algum”.

De fato, ele conhece bem a fraqueza das pessoas e sabe que, do mesmo modo em que elas “não podem tornar branco ou preto um só fio de cabelo”, elas se esforçam para manter fé nos juramentos, feitos em nome de Deus ou de si mesmos.

Mas Jesus estende a interpretação do mandamento bíblico até à responsabilidade de toda palavra proferida pelas pessoas: “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”. E assim corta pela raiz o grave risco que afeta a todos nós, o de uma comunicação dupla, mentirosa, que impede todo caminho autêntico de comunicação.

A radicalidade de Jesus, portanto, é a de quem, enquanto remonta à intenção daquele que doou a Lei, exorta os seus discípulos a vigiarem sobre a intenção, sobre a pureza do seu coração como fonte da verdadeira justiça. Será também ele, o Puro de coração por excelência (cf. Mt 5,8), que dirá: “É do coração que vêm as más intenções: crimes, adultério, imoralidade, roubos, falsos testemunhos, calúnias. Essas coisas é que tornam o homem impuro” (Mt 15,19-20).

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Lei, liberdade e sabedoria
José Tolentino Mendonça

Queridos irmãs e irmãos,

Nas três leituras que hoje proclamamos há uma palavra que emerge e que, de certa forma, estrutura a organização interna de cada um dos três discursos que nós escutámos.

Sem dúvida que no Evangelho de S. Mateus, nesta extraordinária passagem em que Jesus aparece revestido de uma força ética extraordinária, como o novo Moisés a falar, a refletir sobre a Lei, trazendo para a vivência da fé uma espessura moral, uma espessura ética, não basta acreditar, é preciso praticar, é preciso concretizar. Neste discurso de Jesus, sem dúvida a palavra é a Lei. E o confronto com a Lei é um confronto importante para compreendermos Jesus e para nos compreendermos a nós próprios. Porque a Lei tem uma função. A Lei organiza, a Lei baliza, a Lei protege, a Lei esclarece as situações, a Lei oferece-nos as linhas com que cosemos de uma forma equilibrada a vida, aquilo que é o equilíbrio entre os nossos direitos e os nossos deveres. De maneira que a Lei tem a sua importância. Mas a Lei pode ser uma máscara, a Lei pode ser uma cápsula, a Lei pode ser uma desculpa. Porque nós dizemos: “Eu cumpro a Lei.” E cumprimos a aparência da Lei, o formalismo da Lei. Nós sabemos como todas as leis – e esse é o seu grande pecado – assentam num formalismo muito grande de procedimentos, que muitas vezes funcionam como se tivessem vida própria e como se tudo se esgotasse ali. Como se a justiça fosse unicamente os procedimentos ligados à justiça mas não a justiça verdadeira, não a justiça em si.

A grande crítica que Jesus vem fazer ao espírito legalista da religião do seu tempo é que usavam a Lei para desobrigar-se do amor. Eu cumpro a Lei, como cumpro a Lei já não tenho de fazer mais nada. E muitas vezes fico a cumprir a Lei para que os outros vejam que eu cumpro a Lei, mas no meu coração não fui transformado por uma ideia de justiça, por uma ideia de misericórdia, por uma ideia de amor. Por isso, os legalismos são de sua natureza muito hipócritas, muito dúplices, porque ao mesmo tempo estão protegidos naquela cápsula de aparente legalidade e que ata as mãos e cria uma espécie de desmobilização moral, desmobilização ética na própria vida.

Isso é um discurso e uma crítica que Jesus faz que é também muito importante para a nossa maneira de viver a religião. Porque muitas vezes é uma aparência de religião, é uma aparência de justiça, é alguma coisa que em vez de nos mobilizar, de nos comprometer, de nos radicalizar no amor e na misericórdia pelo contrário tornamo-nos fregueses. Estamos à vontade no Templo, estamos à vontade com as coisas da religião, mas não mergulhamos no seu espírito como pergunta, como caminho, como uma exigência de amor que nunca está completamente saciada, nunca está completamente satisfeita e por isso me obriga a viver numa tensão. Aquilo que Jesus diz é: “Eu não vim eliminar a Lei, eu não vim ab-rogá-la. Eu vim exigir que ela fosse plenamente cumprida.” E ela só é cumprida quando tocar, não apenas a pele, mas quando tocar o espírito, quando nos mover por dentro, quando não nos bastar cumprir apenas a forma mas sentirmos a necessidade de mergulhar no fundo.

Os exemplos que Jesus dá são exemplos tocantes, exemplos até incómodos para nós. Porque se a exigência da Lei começa, de facto, no nosso desejo, na nossa maneira de ver, na nossa maneira de olhar, na nossa maneira de nos relacionarmos com os outros, nesse lugar (que aparentemente ninguém vê, ninguém sabe) que é o nosso coração, se é aí que tudo começa, se é aí que se decide a justiça então, de facto, nós metemo-nos em trabalhos sem fim. Mas é isso que Jesus vem fazer, porque Jesus não vem apenas para satisfazer uma regra, a regra número um da expectativa messiânica. Jesus veio para salvar o Homem, para transformá-lo, para tocar o seu coração. É isso que nós temos de sentir, rompendo muitas vezes com o caminho mais cómodo da nossa vida que é o caminho da Lei, que nos deixa muitas vezes isentos e neutros em relação a deveres mais profundos, a atitudes mais radicais, a transformações porventura mais necessárias, mais comprometedoras, que no fundo são aquelas que Jesus diz que fazem acontecer o Reino na nossa vida. Porque nós podemos cumprir todas as regras, todos os mandamentos e depois no fim Jesus dizer: “Não te conheço, não te conheço.”

O que é que nos torna conhecidos por Jesus? É essa verdade de fundo, é essa radicalidade, é o contrário de um certo descomprometimento, de um certo alívio que o cumprimento de uma regra nos dá e depois nos demite da coisa fundamental. Da coisa fundamental que é o encontro, da coisa fundamental que é a construção de uma relação verdadeira, da coisa fundamental que é ir até ao fim, cumprir até ao fim este chamamento ao amor e ao dom que Jesus faz a cada um de nós.

Na leitura de Ben Sira a palavra que emerge é a palavra liberdade. O autor de Ben Sira é muito claro: “Depende de ti, depende da tua vontade, depende da tua liberdade o seguimento que fazes de Deus. Deus coloca diante de ti o fogo e a água: a escolha é tua.” Nós temos de sentir isto: que a escolha é nossa. Por isso, o nosso viver tem de ser um viver desperto, e temos de sentir que estamos a escolher dia a dia, na forma como vivemos nós estamos a escolher. Parece que só estamos a ir ali ou a cumprir aquilo, parece que é apenas a máquina da vida a funcionar mas não é. Por trás dela estão as nossas escolhas, está a nossa liberdade. E a experiência da fé é também uma experiência de liberdade.

Os grandes crentes, as grandes mulheres, os grandes homens crentes são exploradores da liberdade. Muitas vezes até são libertinos do espírito, completamente libertários, são pessoas fora da caixa, fora do sistema, mais apaixonados por uma trajetória de liberdade e uma liberdade singular que os faz ser a cada momento. Nós caminhamos arrumadinhos no rebanho e muitas vezes esquecemos que a fé é, de facto, uma aventura de liberdade em que nós temos de dizer: ”Eu quero, eu estou aí, eu vou, eu sigo.“ Não é apenas o caminhar sonolento do ir por ir. Não, é uma decisão que me compromete, é uma decisão que eu repito a cada momento, é um “sim” que é um “sim” e é um “não” que é um “não”. E esta clareza, esta limpidez que a liberdade nos dá é fundamental para construirmos também um itinerário de fé.

Na Carta de S. Paulo aos Coríntios neste trecho a palavra que emerge é a palavra sabedoria. Podem imaginar que Paulo está a dizer isto em Corinto que era a segunda cidade grega. Era uma cidade que rivalizava com Atenas, fica a cento e poucos quilómetros de Atenas, para sul. É claro, não tem a grande escola de Platão, de Aristóteles, mas tinha também ali outros filósofos, os cínicos por exemplo partiam muito de Corinto, e havia ali também uma sabedoria, uma quantidade de templos. De maneira que a palavra mágica no mundo grego é a palavra “sophia”, a palavra sabedoria. Todos andavam à procura de uma sabedoria, todos pregavam uma sabedoria, todos viviam galvanizados por uma sabedoria. E Paulo também fala de uma sabedoria, mas fala de uma sabedoria diferente, fala da sabedoria de Deus. Aquela sabedoria que habita o interior de Deus. Paulo poderia ter perdido a cabeça por causa desta frase que ele diz: “Esta sabedoria nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu.” Por esta frase Paulo podia ser morto logo ali. Porque dizer isto é dizer, por exemplo, que o imperador de Roma não conheceu a sabedoria. Como é que é possível? O imperador? Acreditava-se que ele era o filho de deus, que ele era o homem mais sábio, que ele detinha tudo e Paulo diz: “Não, os príncipes deste mundo não conheceram a sabedoria. Porque se tivessem conhecido a sabedoria não teriam crucificado o Senhor da sabedoria, o Senhor da glória.”

Então, esta sabedoria de Deus, esta sabedoria da profundidade de Deus é uma sabedoria que nos é revelada e traduzida por Jesus Cristo no seu mistério pascal, na sua morte, na sua ressurreição. Há uma sabedoria, há um conhecimento, há uma ciência na cruz, no mistério da cruz.

É essa ciência, essa arte, essa nova forma de entendimento da realidade, essa chave de compreensão do mundo a que nos temos de agarrar, temos de pedir a Deus que nos dê essa sabedoria. Que não é apenas aquela sabedoria que encontramos nos nossos membros, na nossa carne, no nosso corpo, na nossa inteligência. Desde o braço que sabe fazer isto à inteligência que tem as ideias, ao corpo que parece que anda por si. Há uma sabedoria que nós já encontramos instalada nos nossos membros mas é outra sabedoria. Nós temos de pedir esta que não temos, esta que vem de Deus, esta que o Espírito instala em nós, esta que tem no mistério pascal de Cristo o seu núcleo fundamental, o seu núcleo mais ardente.

Por isso, Paulo está a pregar numa terra de filósofos, domingo passado ele dizia: “Eu estou aqui, no meio de vós com temor e tremor.” Mas há uma só coisa que Paulo vai pregar: a Cruz de Cristo como mistério de sabedoria de Deus. Isto é uma transformação, é uma reviravolta da história, é uma maneira completamente nova, é uma rutura de pensamento, mas é isso que nós precisamos – essa transformação, essa rutura que o Espírito nos permite revelando-nos a ciência da Cruz, a sabedoria da Cruz.

Vamos pedir ao Senhor que estas três palavras: a palavra “Lei”, a palavra “Liberdade”, a palavra “Sabedoria” nos acompanhem. E que o Senhor nos ajude a vivê-las, nos ajude no processo de conversão, nos ajude num caminho autenticamente cristão.

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org