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Mateus 5,13-16

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Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: “Tua luz brilhará como a aurora” (Isaías 58,7-10)
  • Salmo: Sl. 111(112) – R/ Uma luz brilha nas trevas para o justo, permanece sempre o bem que fez.
  • 2ª leitura: “Fui à vossa cidade anunciar-vos o mistério” do Cristo crucificado (1 Coríntios 2,1-5)
  • Evangelho: “Vós sois o sal da terra (…). Vós sois a luz do mundo” (Mateus 5,13-16)

O evangelho de hoje vem imediatamente depois do relato das Bem-aventuranças. Isto quer dizer que aquelas e aqueles que fazem das Bem-aventuranças o programa da sua vida, são chamados a uma responsabilidade real e atual, ou seja, eles não vão se tornar sal da terra e luz do mundo, no futuro, mas devem sê-los aqui e agora para aqueles que não têm este programa…

1. Uma responsabilidade plena

O evangelho não diz que Cristo é a luz do mundo e que temos que refletir esta luz. O evangelho diz: “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5,14). Ou seja, nós temos a mesma responsabilidade e a mesma dignidade que o Cristo ressuscitado. E o mesmo vale para o sal: “Vocês são o sal da terra” (Mt 5,13). Nós temos, portanto, toda a responsabilidade de dar o sabor de Deus e de Cristo aos outros.

2. Uma responsabilidade individual e coletiva

A responsabilidade não é somente individual; ela é também coletiva: ela se endereça aos primeiros cristãos, à Igreja do primeiro século e, através dela, à Igreja de hoje. Devemos precisar que esse discurso de Jesus que chamamos de Sermão da Montanha, reúne diversos ensinamentos de Jesus que são relidos à luz da Páscoa.

3. O sal e a luz

Os dois símbolos utilizados – sal e luz – são ainda hoje muito significativos. O sal é, ao mesmo tempo, condimento e meio para conservar os alimentos (especialmente os peixes na Palestina). O sal é, portanto, o símbolo do que é precioso e também do que permanece. Da palavra sal vem a palavra salário, isto é, o sal que era dado aos soldados como forma de pagamento. Havia também uma expressão antiga: “comer sal com alguém” – o que significava fazer um pacto de amizade com essa pessoa. O pacto de sal era indissolúvel, de sorte que nem o próprio Deus podia desfazê-lo.

No Templo de Jerusalém utilizava-se muito o sal; havia ali inclusive um armazém de sal. Os animais sacrificados eram salgados e o incenso perfumado continha sal. Os recém-nascidos eram esfregados com sal para significar a sabedoria e a pureza moral que se desejava à criança. Antigamente, nos batizados católicos, colocava-se sal na língua das crianças para significar a sua pureza e sua pertença ao Deus da Aliança. Esta prática foi abandonada pela Igreja por motivos de higiene.

Utilizado por Mateus, o sal, que são os discípulos, dá o gosto ao Reino que eles anunciam, no Espírito das Bem-aventuranças, de sorte que se eles perderem de vista sua missão de anunciar o Reino, o sal perde seu sabor; ele não serve para mais nada e as pessoas o pisoteiam (Mt 5,13).

O símbolo da luz é ainda mais rico do que o do sal: a luz ilumina, aquece, guia, agrega, tranquiliza, reconforta. Utilizado por Mateus, o símbolo da luz do mundo nos remete à vocação de Jerusalém, a cidade luz, lugar situado sobre a montanha para atrair todos os povos para Deus e para a vocação de Israel luz das nações. Portanto, a imagem se aplica não ao indivíduo cristão, mas à comunidade cristã definida pelas Bem-aventuranças.

Então, o que é esta luz que são os discípulos? “As boas obras que vocês fazem” (Mt 5,16), isto é, as boas ações, as boas obras que se traduzem no compromisso com os pobres, os excluídos, os abandonados, a fim de que a justiça seja restaurada. Isso me remete ao profeta Isaías, na primeira leitura de hoje (Is 58,7-10): estamos no tempo do retorno do Exílio, no século VI a.C., e constatamos os estragos da deportação; o templo está destruído, e era lá que eram feitas as liturgias para comemorar a deportação, onde se jejuava, fazia penitência, rezava a Deus, oferecia sacrifícios e mortificações… Mas Deus não escuta; parece surdo aos apelos. A coisa vai de mal a pior…

É então que o profeta que chamamos de Terceiro Isaías intervém para dizer aos crentes que a única maneira de restabelecer a justiça não é pela oração passiva, nem pelo jejum ou pelas mortificações, mas pelo compromisso com os mais fracos, os mais pobres e com a dura das feridas: “Repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58,7). É então, diz o profeta, que “a sua luz brilhará como a aurora, suas feridas vão sarar rapidamente, a justiça que você pratica irá à sua frente e a glória de Javé virá acompanhando você” (Is 58,8). No fundo, o que o profeta Isaías diz é o seguinte: o verdadeiro culto que Deus ouve e que muda qualquer coisa na dura realidade da existência não é a celebração no templo; é o compromisso social…

4. Atualização

O texto do profeta Isaías e o evangelho de Mateus devem ser atualizados, caso queiramos que se tornem Palavra de Deus. Devem traduzir-se em compromisso para sermos também nós sal da terra e luz do mundo. E a única maneira de sê-lo verdadeiramente não é indo à igreja no domingo, mas estando na rua, todos os dias, ali onde vivem as pessoas, ali onde a dignidade humana é ameaçada, ali onde reina a injustiça, ali onde mulheres e homens são rejeitados, ridicularizados e excluídos por causa da sua situação de vida, da sua orientação sexual, da sua nacionalidade, da sua origem, da sua cultura, etc. por aquelas e aqueles que acreditam ser os detentores da verdade sobre Deus e o mundo. Eles desvirtuam o sal que devem ser tirando o sabor de Deus para as pessoas que eles encontram e escondem a luz debaixo do alqueire das suas certezas e da sua negação da liberdade dos outros.

O célebre teólogo protestante Karl Barth escreveu: “O cristão é um homem feliz”. E por que esta alegria inebriante? Simplesmente, porque nós nos dirigimos para a terra de Deus, independentemente das peripécias do caminho… E acrescenta: “Mesmo se a estrada é difícil e cruel, mesmo se o sofrimento já lhe não permite mais rir ou sorrir, resta-lhe a lembrança do que vai ser e a pequena filha Esperança se põe a brincar”. É porque ser sal da terra é testemunhar alegremente a nossa esperança no Reino em construção e em devir. Ser luz do mundo é engajar-se no restabelecimento da justiça, no Espírito das Bem-aventuranças e na prática cotidiana do grande mandamento do AMOR que liberta e salva. Depois disso podemos ir à igreja no domingo para celebrar com os outros o nosso compromisso.

O sal que perde seu gosto é a recusa de testemunhar, e a lâmpada debaixo do alqueire é a recusa de se comprometer com o caminho da liberdade; é a recusa de dar os pés e as mãos ao grande mandamento do Amor… E isso não tem nada a ver com a prática religiosa na igreja… Esta é importante, certamente, mas secundária em relação ao testemunho e ao engajamento.

Terminando, gostaria simplesmente de citar o Papa Francisco que convida os cristãos para o compromisso: “Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de todo o resto. Curar as feridas , curar as feridas… E é necessário começar de baixo”.

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“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo.” Essas duas pequenas frases que seguem as Bem-aventuranças – é importante lembrar – são postas na boca de Jesus, aquele que só pôde dizer sobre si mesmo: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas” (Jo 8,12). Ou seja, é Jesus Cristo o sal da sabedoria, o sal que dá sentido à vida humana sobre a terra; é ele “a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9). Portanto, nenhum fundamentalismo pode nascer dessas palavras do Senhor, se as mantivermos e as observarmos como palavras que vêm dele: nós, cristãos, só podemos ser sal e luz graças à comunhão com ele renovada todos os dias; somente se as nossas ações belas e boas glorificarem ao Pai de Jesus Cristo e Pai nosso, se carregarem o seu peso sobre a terra, mostrando que Deus, ele que é “nossa luz e nossa salvação” (cf. Sl 27,1), inspira-nos e quer estar presente através de nós entre os homens e as mulheres.

Esclarecida essa verdade fundamental, acredito que essas afirmações de Jesus podem nos inspirar uma reflexão sobre aquela que eu gosto de definir como “diferença cristã”, ou seja, uma existência, um comportamento diferente em relação àqueles de quem não se define como cristão.

E isso não por uma obstinada vontade de distinção, mas porque a vida dos cristãos, sendo modelada a partir da de Cristo, é de fato outra, diferente da vida mundana: nenhum desprezo pelos homens e mulheres, nossos irmãos e irmãs, nenhum encastelamento orgulhoso em uma cidadela para olhar de cima a cidade do mundo e julgá-la pecadora como Sodoma, mas sim a lúcida consciência de sermos chamados a “estar no mundo sem ser do mundo” (cf. Jo 17,11-16).

Nesse sentido, o Novo Testamento delineia em muitas páginas um anticonformismo cristão, inspirado na dinâmica da comunhão e do amor, assim resumida por Paulo: “Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso modo de pensar, para que possais discernir qual é a vontade de Deus” (Rm 12,2).

Os cristãos estão no mundo, no meio das pessoas, solidários com elas; vivem uma responsabilidade plena para com a sociedade, são cidadãos de pleno direito da pólis, mas não devem se conformar com as modas, com a lógica do tempo, não devem viver mundanamente.

Não se conformar com a mentalidade deste mundo significa ter a coragem de uma vida que sabe discernir os ídolos alienantes e sabe combatê-los, de uma vida marcada precisamente pela diferença cristã: em um mundo marcado pela indiferença, a única possibilidade de vencer essa indiferença consiste em apresentar uma diferença compreensível e eloquente, capaz de dar uma contribuição peculiar à sociedade em busca de ideias para a edificação de uma cidade que seja verdadeiramente para o homem e a mulher.

Essa diferença, além disso, está intimamente ligada ao “estilo” da nossa vida, que para nós, cristãos, é tão importante quanto o conteúdo da mensagem: estilo de estar no meio das pessoas, estilo ao realizar a evangelização e a missão, estilo no encontro com os fiéis de outras religiões ou com os não crentes.

Isso não significa privilegiar a forma sobre o conteúdo, nem prestar atenção nas aparências, e não na substância, mas sim perceber que a própria credibilidade do anúncio depende do “como” é anunciada a boa notícia do Evangelho. É significativo a esse respeito que, nos evangelhos, encontra-se na boca de Jesus uma insistência maior no estilo do que no conteúdo da mensagem, que é sempre sintético e preciso: “Não façam como os hipócritas” (cf. Mt 6,2.5.16); “Vão como ovelhas no meio de lobos” (cf. Mt 10,16); “Aprendam de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

Sim, o estilo com que o cristão está na companhia das pessoas é determinante: dele depende a própria fé, porque não se pode anunciar um Jesus que narra Deus na mansidão, na humildade, na misericórdia e fazer isso com estilo arrogante, com tons fortes ou até mesmo com atitudes mundanas.

Certamente, hoje, nós, cristãos, compreendemos o Evangelho melhor do que ontem: como dizia o Papa João XXIII disse: “Não é o evangelho que muda, somos nós que o compreendemos melhor”, e justamente por esse motivo é maior a nossa dívida com a humanidade.

Consequentemente, ou somos capazes da diferença cristã na sociedade e somos sal, no sentido de sabermos lhe dar sabor, somos luz, porque acolhemos e refletimos a luz de Cristo na companhia das pessoas; ou somos aquele sal do qual Jesus disse que, tendo perdido o sabor, “servirá apenas para ser pisado pelos homens”, somos aquela luz que se ofusca precisamente enquanto pretende iluminar os outros.

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Sal ou luz?

O sal se perde nos alimentos que lhe tomam emprestado o sabor. Assim como o fermento na massa, ele se torna invisível. Podemos ver nesta imagem os discípulos do Cristo imersos no mundo. A maior parte deles não tem condição de fazer ouvir a sua palavra nem de agir conforme a sua identidade de cristãos, mas o que dá gosto à terra, e ao mundo, é a caridade. Esta caridade que, mesmo sem dizer de onde vem, pode contribuir para dar um rosto humano às nossas relações, às nossas instituições, às nossas sociedades. Se o sal… Se todo o sal do mundo perdesse o seu poder de salgar, não haveria remédio, pois nada além dele é capaz de salgar. Esta é a grandeza e a responsabilidade dos discípulos de Jesus: não há nenhum «produto em substituição». O amor, assim como Jesus o manifestou na Páscoa, é a última chance da terra. Não somos discípulos de Cristo para nós mesmos apenas, para a nossa própria «salvação»: somos discípulos para os outros, para a terra. A terra tem todo o direito de nos rejeitar, se lhe recusamos o sabor devido. E esta não é uma situação confortável: podemos ser rejeitados e esmagados com os pés seja porque «salgamos» seja porque não «salgamos».

A luz do mundo

Enquanto o sal mistura-se invisível aos alimentos, a luz não se pode esconder; ao contrário, ela mesma se mostra. A luz do mundo é Cristo (João 9,5). Significa que, tomando por referência as suas palavras e a sua maneira de ser, encontramos os bons caminhos, em vez de errarmos ao acaso. Ele também é luz, porque vem confirmar a dignidade do homem e dar-lhe alegria. Formando um só bloco com o Cristo, porque, crentes, somos o corpo que o Espírito lhe dá, temos a missão de difundir a sua luz. Não somente pela palavra que esclarece, mas, luz para os olhos: é preciso que «os homens vejam as nossas boas obras». Para serem boas, estas obras devem ser feitas por si mesmas, porque são boas, ou seja, para que sirvam aos outros e não para serem vistas; porque, então, deixariam de ser boas. A mensagem evangélica deve chegar até às extremidades da terra. Não se trata nem de proselitismo nem de busca de influência, mas de «fazer ver». E não importa como: a 2ª leitura nos diz que a maneira de anunciar o Evangelho deve ser calcada no conteúdo do anúncio.

Sal ou luz?

As imagens do sal que se perde na massa e da lâmpada que se coloca no candeeiro podem parecer contraditórias. Até porque, um pouco mais adiante, no Discurso da Montanha, Jesus vai prescrever que não se deve agir para ser visto pelos homens (Mateus 6,1-18). Mas que tudo deve permanecer «no segredo». A primeira resposta que me vem ao espírito é que todo discípulo, alternadamente, conforme as circunstâncias, deve se fazer sal ou luz. Mas vamos mais longe: as mesmas «boas obras» são as que devem ao mesmo tempo ser sal e luz. São «sal», quando não as fazemos para nos fazer ver. São luz, pois que devem conduzir os homens a «dar glória», não a nós, mas ao «nosso Pai que está nos céus». Não tem nada ganho, enquanto os homens não voltarem à origem das nossas boas obras. Outro detalhe, as pequenas parábolas do sal e da luz estão no plural: «Vós sois o sal (…) Vós sois a luz» Jesus parece dirigir-se aos discípulos enquanto estes formam um corpo, uma comunidade. Mas, no capítulo 6, lemos: «quando deres esmola» (versículo 2), «quando orares» (versículo 6), «Tu, porém, quando jejuares» (versículo 17). Ou seja, a comunidade dos discípulos deve brilhar aos olhos dos homens, mas cada um deve se diluir no corpo, como o sal.

Imagens de Deus

Eis-nos aqui, pois, imagens de Deus; quer sejamos o Samaritano, que vai em socorro do ferido, ou o próprio ferido – pensemos em Cristo na cruz – que espera que voltemos os olhos para ele. Esta atenção mútua, recíproca, é que nos faz existir. Por ela é que somos de fato, verdadeiramente, imagens de Deus, que é troca, paternidade e filiação. Espírito que vai e vem, que se dá e se recebe. Esta é a luz que faz existir todo homem na medida em que aceita ser iluminado. Para compreender a compatibilidade dos nossos textos, na aparência contraditórios, podemos notar que as comandas de segredo (capítulo 6) estão no singular: «Quando rezares… Quando deres esmola». Já o evangelho de hoje, ao contrário, fala no plural: «Vós sois o sal da terra (…) Vós sois a luz do mundo». Talvez seja arrojado concluir que este evangelho de hoje se dirige às coletividades, às Igrejas, enquanto que o capítulo 6 dirige-se a nós enquanto indivíduos: se busco a admiração para mim mesmo, eu me isolo, colocando-me acima dos outros, ponho-me à parte. Ora, a relação de benquerer é que me faz imagem da Trindade, e que me dá, portanto, verdade e existência. «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles», diz Jesus em Mateus 18,20. «No meio deles»: podemos traduzir «neles». O espetáculo da nossa união é que pode ser o «sal da terra» e a «luz do mundo». Mas, confessemos, ainda estamos bem longe do que se esperava. O benquerer mútuo que nos torna semelhantes a Deus supera, aliás, os limites das nossas Igrejas: ele deve se estender até às extremidades do mundo. Nenhum homem, nem mesmo o mais perverso, deve ser excluído dele. Na Cruz, Deus nos amou até no pior excesso da nossa perversão.

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Queridos irmãs e irmãos,

É interessante notarmos na força plástica das imagens que Jesus hoje utiliza: Ele recorre à imagem do sal e à imagem da luz. São imagens muito curiosas porque, tanto o sal como a luz, atuam numa espécie de fusão com a realidade. O sal tem de desfazer-se, deixa de ser sal para tornar aquilo em que ele se desfaz salgado. A luz também é assim, nós não vemos exatamente o ponto da luz, mas vemos a iluminação que ela provoca.

Há assim nestas imagens uma espécie de desafio a nos aproximarmos da realidade, corpo a corpo, pele a pele de maneira que já não possamos olhar como se fosse uma realidade outra, como se fossemos espectadores. Mas estando dentro, sujando as mãos, sentindo que somos uma coisa só. Com o quê? Com o mundo, com a realidade, com a história.

A nossa fé não nos deixa como espectadores da vida, olhando para aquilo que acontece como se o mundo fosse uma realidade estranha à vivência da nossa fé e distante daquilo que Deus pede e espera de cada um de nós. Não, Deus desafia-nos a abraçar o mundo, a abraçar a vida, a abraçar as circunstâncias da história e a sentir que este lugar de contradição, este lugar de desafio, este lugar de luta é também o lugar onde o sal pode ser aquilo que é, pode salgar, e a luz pode ser aquilo que é, pode iluminar. Um cristão precisa de mundo, um cristão precisa de vida, uma fé precisa de concretude. A nossa fé não pode ficar uma realidade abstrata ou uma zona de conforto tão íntima, tão nossa, tão pessoal, tão privada que deixe de exercer um poder transformador.

A nossa fé é chamada a exercer um poder transformador: o poder do amor em relação à realidade. Não podemos ficar, como dizia o Péguy, como aquelas pessoas tão preocupadas por não sujar as mãos na realidade que acabam por ficar sem mãos, sem saber para que é que servem umas mãos. Eu não sei se como cristãos nós sabemos para que é que servem as nossas mãos, para que é que servem os nossos olhos, para que é que servem os nossos ouvidos, para que é que serve a nossa boca, para que é que serve o nosso coração. Para que é que esta máquina humana serve em termos evangélicos, em termos daquilo que o Senhor espera de nós?

Hoje o profeta Isaías e o Salmo 111 que nós proclamamos colocam-nos no centro da nossa atenção a figura do pobre. De facto, o Cristianismo tem desde sempre o desafio de ir ao encontro do pobre. O nosso Cristianismo fica incompleto se não tem uma dimensão social, se não emprestamos à nossa fé uma concretude, um desafio também que se realiza no encontro com os mais pobres, no encontro com o irmão que sofre, no encontro com o irmão que é carente, na pessoa do irmão que passa pelas dificuldades de uma vida.

Ainda estes dias estive fora na Colômbia, conheci lá um escritor, Andrés Felipe Solano, que escreveu um texto muito singular. Ele trabalhava numa revista, tipo Granta, e a revista fez-lhe uma proposta meio maluca que foi ele deixar seis meses a cidade onde vivia e a vida que levava, ir para outra cidade da Colômbia, Medellín, e aí, trabalhar numa fábrica têxtil e viver unicamente com o salário mínimo. Não é que antes ele levasse uma vida rica, os jovens aos 30 anos que escrevem aqui e ali também contam os tostões. Mas se ele tivesse de entrar num táxi não tinha de pensar duas vezes, ou se tivesse de ir comer fora não era um problema, ou se lhe apetecesse comprar um livro ou um disco fazia-o tranquilamente. Mas quando ele se muda para Medellín e passa a viver com o salário mínimo percebe que isso é completamente impossível. E muitas vezes, como ele diz, tem de pensar qual é a coisa que deve escolher: ou comprar lâminas para a barba, ou comprar o remédio para a gripe porque o salário não chega para as duas coisas. Ele diz uma coisa que não me saiu da cabeça desde que a li, ele diz que viver do salário mínimo para a maior parte de nós seria como uma experiência de guerra. Se, de repente, tivéssemos de viver apenas com salário mínimo não sei se nos aguentaríamos. E contudo, temos uma boa consciência em relação ao salário mínimo na nossa sociedade. E muitas vezes são as questões financeiras, a engenharia financeira e económica que pesa, e claro, tudo isso tem o seu peso. Mas não esqueçamos, não percamos de vista a vida das pessoas, a vida dos nossos irmãos mais pobres.

Nesse sentido, a palavra do profeta Isaías é verdadeiramente uma palavra profética: “Se repartires o teu pão com o faminto, se deres pousada aos sem-abrigo, se levares roupa a quem não tem de vestir, se não voltares as costas ao teu semelhante as tuas feridas não tardarão a sarar.” Nós temos de nos perguntar se muitas das nossas feridas, muitos dos nossos dilemas, muitos dos nossos conflitos, muito desta vida que não nos satisfaz também não é fruto de uma vida trancada em si própria, autossuficiente e indiferente àquilo que poderíamos realmente fazer: ir ao encontro dos outros.

Uma coisa que se aprende, por exemplo, na Comunidade de Santo Egídio, e eles são também um texto profético para a Igreja do nosso tempo, é a amizade com os pobres, o valor da amizade com os pobres. Não é apenas fazer assistência social, não é apenas ter o sentido da justiça, isso é o mínimo. Mas é ter amizade com os pobres, cada um de nós conhecer pobres, ter amizade, tratar como da família.

Por isso, uma nota que eu vi que me emocionou também, e temos também de dizer essas coisas, foi a fotografia que ontem o Expresso trazia: o Presidente da República a comer na mesa de um casal de sem-abrigo que refez a sua história. Um Presidente da República não tem apenas de comer nas grandes mesas, nos grandes lugares, ele tem de ir também ao encontro destas vidas últimas. E isso também constituí para nós um desafio a mudarmos muitas vezes as nossas trajetórias e a sermos capazes de nos colocar no lugar dos outros, nos sapatos dos outros, para percebermos a nossa própria marcha, o nosso próprio caminho.

Se o sal não serve para salgar é inútil, ele terá de ser deitado fora. Se a luz não servir para iluminar, porque é que ela é luz? E nós temos com sinceridade, com humildade, mas ao mesmo tempo com confiança e sem descorçoar, também de nos perguntar: o que é que eu tenho feito do meu sal? O que é que eu tenho feito da minha luz?

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É um princípio universal de pedagogia que «as palavras movem e os exemplos arrastam»; que «um gesto vale mais do que mil palavras». Jesus confirma-o no seu programa, anunciado nas Bem-aventuranças (veja-se domingo passado) e em todo o discurso da montanha. Como bom pedagogo e pregador prático e eficaz, Jesus explica-o tomando os exemplos diários do sal e da luz (Evangelho). O sal dá sabor aos alimentos, caustica feridas, conserva alimentos; mas se perde a força e o sabor (isto é, a sua identidade), não serve para mais nada e é deitado fora; o sal insípido é um contra-senso (v. 13). O mesmo se diga da luz: é feita para iluminar as pessoas, a casa, o caminho, as coisas… A lâmpada, o candelabro, a cidade situada sobre o monte (v. 14-15) são outras imagens que clarificam a mensagem de Jesus: a luz é feita para brilhar; uma luz tapada ou escondida não serve a ninguém. O sal e a luz, por sua natureza, tendem a expandir-se e irradiar a sua presença; encerram portanto uma ideia de universalidade.

Jesus aplica estas imagens, tiradas do uso diário, às «boas obras» (em grego, as obras belas» dos seus seguidores, os quais, inseridos no mundo, são chamados a conservar e a dar o gosto e o sabor do Evangelho às realidades da vida de cada dia; a ser pontos de referência para quem vagueia na obscuridade, desorientado, à procura do caminho. Naturalmente, adverte-nos Jesus, a motivação e o objectivo das boas obras não é a vaidade satisfeita do discípulo, mas a glória do Pai (v. 16). A luz é o próprio Cristo, «luz para se revelar às nações» (Lc 2, 32; LG 1). Mas a luz de Cristo não brilha no mundo se os discípulos não forem eles mesmos luz. O discípulo tem-e-é luz somente se o segue a Ele (Jo 8, 12: aclamação ao Evangelho). Jesus estima e confia nos seus discípulos, confia-lhes a missão de ser sal e luz: sem eles a terra não teria sabor nem gosto, o mundo estaria nas trevas; a vida humana seria insípida, obscura, sem sentido. Jesus pede aos seus seguidores para partilhar o dom mais precioso que têm: a sua esperança, capaz de dar sabor à vida e de dar um pouco de luz a quem vive a noite da provação.

Comentando a imagem do candelabro, S. João Crisóstomo dizia: «Não te digo para abandonar a cidade ou para romperes as tuas relações sociais. Não, permanece na cidade: é aí que deves exercitar a virtude… Daí derivará um bem considerável». É uma mensagem inteiramente missionária, válida para todas as situações de evangelização: trata-se do valor do testemunho de vida, que, segundo o Concílio (cf. AG 11-12), é «a primeira forma de evangelização» (RMi 42), como recorda João Paulo II ao apresentar as vias da missão. .

Em muitos casos o testemunho é a única forma possível de ser missionários, sobretudo nos contextos de minoria cristã e de perseguição; por vezes é possível apenas ser grão de trigo que cai na terra e morre no sulco; o fruto virá, mais tarde (cf. Jo 12, 24). Nos anos ’60, que foram particularmente difíceis para a Igreja no Sudão (expulsões, restrições, prisões…), aos missionários que se interrogavam que fazer, a Congregação de Propaganda da Fé respondeu em nome do Papa com uma mensagem resumida em «três P»: presença, paciência, prece. Se acrescentarmos também pobreza, temos a síntese completa do testemunho. Quando este vai até ao martírio, a luz do amor e do perdão brilha mais luminosa, enriquecida pela força da intercessão.

A I leitura indica bem duas vezes quais são as «boas obras» agradáveis ao coração de Deus: saciar o faminto, vestir o nu, abrigar o sem abrigo, erradicar a opressão… (v. 7.9). As obras de misericórdia têm uma sua linguagem, fazem brilhar a luz no meio das trevas (v. 8.10); serão o teste para o juízo final (Mt 25). Estas obras – unidas ao empenho pela paz, pela justiça, pelos direitos do homem, pela promoção humana – acompanham desde sempre a missão da Igreja com a sua eloquência típica. Mas com uma condição: o amor é e permanece o motor da missão; ou seja, a gratuidade, sem proselitismos ou outros interesses (cf. RMi 42.60). A própria oração, o louvor orante e o culto só são agradáveis a Deus se forem unidos ao testemunho da caridade e do apostolado (cf. SC 15). As conversões e os baptismos virão depois, como dons do Espírito quando Ele achar por bem.

A actividade missionária, ensina-nos Paulo (II leitura), enquanto testemunho do mistério de Deus e anúncio de Cristo crucificado (v. 1.2), realiza-se com pessoas frágeis e com meios precários, «no temor e na trepidação» (v. 3), apoiada, todavia, «na poderosa manifestação do Espírito Santo» (v. 4), a fim de que a fé dos novos crentes «não se funde na sabedoria humana, mas no poder de Deus» (v. 5). Estamos perante uma página de grande intensidade missionária.