Leituras

  • 1ª Leitura: Sofonias 2,3; 3-12-13
  • Salmo 145
  • 2ª Leitura: 1Corintios 1,26-31
  • Evangelho: Mateus 5, 1-12a

Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los:
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os aflitos, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. 11 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu.»


As Bem-aventuranças, um viver inacabado
José Tolentino Mendonça

A palavra solene do novo legislador

Hoje, no Evangelho nós lemos o texto das Bem-aventuranças. É a página das páginas do Evangelho. É muito interessante o decor, aquilo que Jesus faz antes de dizer o texto: sobe a um monte e senta-se. Jesus sobe ao monte e senta-se, para que de uma forma solene transmita o ensinamento. Uma coisa é aquilo que se diz a andar, outra coisa é a proclamação solene que se faz sentado. S. Mateus conta-nos as Bem-aventuranças como aquela palavra solene que Jesus quer fixar como letra de uma nova Lei, como fundamento de uma nova aliança que fica inaugurada. Então, para nós as Bem-aventuranças são a Lei, são o Decálogo que Jesus nos oferece.

S. Mateus pensou colocar este discurso de Jesus no alto da montanha, onde Jesus está sentado como um legislador. Há claramente a intenção de criar um paralelo entre Jesus e a figura de Moisés, entre a antiga Lei, no Decálogo, nos Dez Mandamentos e a nova Lei com as Bem-aventuranças.

Mas a verdade é que as Bem-aventuranças são mais do que uma lei. Não são apenas uma norma. As Bem-aventuranças são um chamamento, um apelo, a possibilidade aberta de um encontro, mas também um reconhecimento à vida de cada um de nós, àquilo que já é, àquilo que o amor de Deus potencia em nós, àquilo que cada vez mais, progressivamente, se há de manifestar na vida de cada um de nós. Nós somos chamados à felicidade, nós somos chamados à Bem-aventurança.

As Bem-aventuranças, autorretrato de Jesus

Mas, se repararmos bem, as Bem-aventuranças são porventura o mais fascinante e exato autorretrato de Jesus. Em cada uma das Bem-aventuranças é como se nós, cristãos, pudéssemos contemplar um traço, uma característica do rosto de Jesus. Porque foi exatamente assim que O vimos no meio de nós. Foi exatamente assim que O reconhecemos. Pobre em espírito, com uma capacidade de acolher a todos, de precisar de todos.

Nós ouvíamos Jesus a dizer: “Zaqueu! Desce depressa porque Eu preciso de ficar em tua casa.” É esta atitude de Jesus, a atitude de precisar dos outros, de depender dos outros, de abrir o coração ao dom que está muitas vezes sepultado entre as cinzas da esperança da Humanidade. Jesus coloca-se à espera desse dom. Nós vimo-Lo assim pobre, a bater à porta das nossas casas, chamando pelo nosso nome como chamou pelo nome de Zaqueu.

Nós vimo-Lo no meio da multidão. Ele é humilde, humilde e manso de coração. Ele não Se impõe, a Sua voz não se sobrepõe às dos outros, Ele não manda calar. A Sua voz é como a torcida que fumega, é a pequenina luz no meio da floresta do mundo.

Nós vimo-Lo a chorar sobre Jerusalém, a chorar a morte do Seu amigo Lázaro, a chorar a dureza do coração dos homens.

Nós vimo-Lo sedento e faminto de justiça. Nós olhamos para Jesus e encontramo-Lo devorado por uma outra realidade, insatisfeito, inquieto, desassossegado, a querer outras coisas, a desejar mais para cada um, percebendo que o nosso destino não acaba aqui.

Nós vimos Jesus misericordioso. Vimo-Lo deixar todos para ir à procura da ovelha perdida e, quando a encontrou, Ele trá-la aos Seus ombros. Vimo-Lo qual a mulher que procura uma moeda que se perdeu, Vimo-Lo varrer a casa, acender uma luz, vimo-Lo a encontrar a moeda perdida e festeja-la. Vimo-lo à maneira do pai misericordioso tomar a iniciativa de vir ao encontro do filho pródigo.

Nós vimos Jesus puro de coração, puro de coração. O contrário do cinismo, o contrário do niilismo, o contrário do pessimismo, o contrário das reservas, das defesas, da autossuficiência. Vimo-Lo transparente, vimo-Lo autêntico, vimo-Lo simples como uma criança a cada momento.

Conhecemos Jesus como Aquele que constrói a paz, Aquele que derruba murros de inimizade e aproxima corações desavindos. Vimo-Lo sofrer e sofrer de uma forma radical, oferecendo-Se Ele mesmo em sacrifício, de forma radical, por amor da justiça.

De maneira que estas palavras são para nós cristãos, antes de tudo, o retrato de Jesus impresso no nosso coração. Mas são o Seu retrato para nós sabermos como transformar o nosso rosto para nos tornarmos semelhantes a Ele.

As Bem-aventuranças, um viver em tensão

Olhemos para as Bem-aventuranças. As Bem-aventuranças falam de um viver em tensão, mas numa tensão positiva. Falam de um viver inacabado. Os “pobres em espírito” vivem numa tensão, porque a pobreza em espírito pede de nós uma desmontagem, uma simplificação do nosso coração complicado, da nossa cabeça estranha, das suas associações. Os pobres em espírito pedem um desarmamento do coração que está sempre disposto a tornar-se uma arma de combate. Pobre em espírito o que é? É aquele que se torna simples, que aceita ser pobre, que aceita ser pequeno. E isso é uma escolha, é uma escolha. O que é que são os humildes? São aqueles que se humilham, são aqueles que se fazem pequenos, são aqueles que aceitam o último lugar, que procuram o último lugar. São aqueles que não querem erguer a voz, que não se querem sobrepor aos outros, mas aceitam dar o primeiro lugar aos outros. E escolhem esse lugar humilde, ínfimo, como o seu lugar na vida.

Olhemos para os que choram, para os que estão inconsolados, aqueles que são sensíveis ao sofrimento do mundo. Às vezes nós perdemos a capacidade de chorar. De chorar as dores uns dos outros, de chorar as coisas autênticas, de chorar os problemas do mundo – tornamo-nos insensíveis na nossa capa que nos isola e nos protege, deixamos de chorar. Há quanto tempo não choramos pelo sofrimento dos outros? Não chorar apenas as nossas dores mas chorar os sofrimentos do mundo? “Bem-aventurados os que choram”.

Olhemos para os que têm “fome e sede de justiça”. Isto é, aqueles que querem mais, aqueles que não estão satisfeitos. Aqueles que não dizem: “Bem, para mim tenho, para mim chega, tenho que proteger isto.” Mas aqueles que no seu coração sentem o desejo de uma justiça para todos, sentem o desejo de um mundo melhor, de um mundo mais íntegro. Aqueles que têm uma ambição que não se esgota na sua felicidade, mas querem de facto um mundo iluminado, um mundo onde o amor não seja uma utopia mas seja uma realidade condividida, uma ética partilhada.

Bem-aventurados os misericordiosos.” Nós percebemos como é tão difícil ser misericordioso. Porque a misericórdia não é apenas a justiça, a misericórdia é um excesso de amor, é um excesso de gratuidade, é um excesso de generosidade, é viver na lógica do dom, na lógica da doação. A misericórdia é ir além do que nos é pedido. A misericórdia não é apenas cumprir o nosso dever, é dar tudo quanto temos. A misericórdia é essa abertura do coração para que saia o amor, para que saia de facto o amor.

Bem-aventurados os puros de coração.” Nós que vivemos a fazer contas, calculistas em relação ao poder, em relação à opinião que temos sobre os outros, não queremos ser apanhados em falso em coisa nenhuma. Bem-aventurados os puros de coração, aqueles que são capazes de se tornar puros. Porque, não é apenas o que nós somos quando erámos crianças. Uma criança é isto tudo, mas é isto tudo porque é criança. As Bem-aventuranças é um texto para adultos, isto é, adultos que se tornam espiritualmente como crianças. E isso é um verdadeiro renascimento, é uma verdadeira conversão que é necessária, é uma saída da nossa zona de conforto e um viver verdadeiramente como filho de Deus.

Bem-aventurados os que promovem a paz”, aqueles que estão sempre preocupados em que se faça a paz. Na pequena escala, na grande escala mas cuidam da paz. Às vezes sabemos que uma palavra incendeia, sabemos que um comentário ou um silêncio acabam por agravar um conflito. Bem-aventurados os que promovem a paz, os que se oferecem diariamente, quotidianamente como artesãos da paz. Bem-aventurados aqueles que são capazes de sofrer por amor da justiça. Os que são capazes de pagar um preço pelas atitudes de amor, pela ética cristã que procuram viver. Bem-aventurados esses.

Ora, quando nós lemos as bem-aventuranças, que Lei nova é que Jesus nos dá? É uma lei que nos diz: não fiques instalado, não fiques cristalizado, não penses que é reforçando o teu egoísmo ou reforçando o teu individualismo que tens o gosto do Reino de Deus, que tens a compreensão, que tens a experiência do Reino de Deus. A experiência do Reino de Deus vem como? Vem se tu te tornares pobre de coração e não soberbo. A experiência do Reino de Deus vem se te tornares gentil, delicado, humilde, pequenino. A experiência do Reino de Deus vem se tu fizeres teus os sofrimentos do teu semelhante. A experiência do Reino de Deus vem se tu tiveres fome e sede de justiça, se isso não te bastar, se tu não pensares apenas no teu conforto mas olhares para a cidade com uns olhos capazes de a transformar, se tu usares de misericórdia, se tu mantiveres a pureza de coração e se estiveres disponível para pagar o custo essencial destas opções evangélicas. A estes Jesus diz: “É vosso o Reino de Deus, sereis consolados, sereis retribuídos, sereis saciados pelo próprio Deus.

Ao formular as bem-aventuranças, Mateus, diferentemente de Lucas, preocupa-se em traçar as linhas que devem caracterizar os seguidores de Jesus. Daí a importância que têm para nós nestes tempos em que a Igreja deve ir encontrando o seu próprio estilo de vida no meio de uma sociedade secularizada.


Uma Igreja mais evangélica
José A. Pagola

Não é possível propor a Boa Nova de Jesus de qualquer forma. O Evangelho se difunde somente a partir de atitudes evangélicas. As bem-aventuranças nos indicam o espírito que há de inspirar a atuação da Igreja enquanto peregrina a caminho do Pai. Temos de escutá-las em atitude de conversão pessoal e comunitária. Somente assim poderemos caminhar para o futuro.

Feliz a Igreja “pobre de espírito” e de coração simples, que atua sem prepotência nem arrogância, sem riquezas nem esplendor, sustentada pela autoridade humilde de Jesus. Dela é o reino de Deus.

Feliz a Igreja que chora com os que choram e sofrem, ao ser despojada de privilégios e poder, pois poderá partilhar melhor a sorte dos perdedores e também o destino de Jesus. Um dia será consolada por Deus.

Feliz a Igreja que renuncia a impor-se pela força, pela coação ou pela submissão, praticando sempre a mansidão do seu Mestre e Senhor. Herdará um dia a terra prometida.

Feliz a Igreja que tem fome e sede de justiça dentro de si mesma e para o mundo inteiro, pois procurará a sua própria conversão e trabalhará por uma vida mais justa e digna para todos, começando pelos últimos. A sua ânsia será saciada por Deus.

Feliz a Igreja compassiva que renuncia ao rigorismo e prefere a misericórdia antes que os sacrifícios, pois acolherá os pecadores e não lhes ocultará a Boa Nova de Jesus. Ela obterá de Deus a misericórdia.

Feliz a Igreja de coração limpo e conduta transparente, que não encobre os seus pecados nem promove o secretismo ou a ambiguidade, pois caminhará na verdade de Jesus. Um dia verá Deus.

Feliz a Igreja que trabalha pela paz e luta contra as guerras, que junta os corações e semeia a concórdia, pois contagiará a paz de Jesus que o mundo não pode dar. Ela será filha de Deus.

Feliz a Igreja que sofre hostilidade e perseguição por causa da justiça sem evitar o martírio, pois saberá chorar com as vítimas e conhecerá a cruz de Jesus. Dela é o reino de Deus.

A sociedade atual necessita conhecer comunidades cristãs marcadas por este espírito das bem-aventuranças. Somente uma Igreja evangélica tem autoridade e credibilidade para mostrar o rosto de Jesus aos homens e mulheres de hoje.

Cada um de nós deve decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um deve escutar a sua própria verdade. Para mim, não é o mesmo acreditar em Deus que não acreditar nele. Para mim, faz bem realizar o caminho por este mundo sentindo-me acolhido, fortalecido, perdoado e salvo pelo Deus revelado em Jesus.

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Na sequência de epifanias, ou progressivas manifestações de Jesus (ver domingos precedentes), as Bem-aventuranças (Evangelho) são o programa da sua missão, a carta magna do povo da nova Aliança, uma espécie de constituição do Reino de Deus, valor a procurar sobre todas as coisas (Mt 6, 33). Antes de ser uma mensagem ética de comportamentos, as Bem-aventuranças são uma afirmação teologal do primado de Deus, dos seus critérios e escolhas, muitas vezes em contraste com os caminhos dos homens. Na realidade as Bem-aventuranças são uma reafirmação do primeiro mandamento: «Eu sou o Senhor teu Deus, não terás nenhum outro Deus além de mim». A avidez de riqueza, de poder, a violência, a prepotência e a opressão … são contrárias ao programa escolhido por Jesus. Ele decidiu fazer crescer o seu Reino com pessoas que optam pela pobreza, pela mansidão, pela pureza de coração, pela busca da paz, pela misericórdia, pela reconciliação, pela suportação do mal e da injustiça… As Bem-aventuranças têm um forte conteúdo escatológico; repropõem-nos a prioridade do anúncio do Deus vivente, o convite essencial a confiar em Deus. Porque «só Deus basta» (Santa Teresa de Ávila).

Jesus viveu as Bem-aventuranças, e só as propõe depois de as ter vivido. Elas são o seu auto-retrato, traçam o seu perfil interior de verdadeiro Deus em carne humana. Antes de ser um programa pregado no cimo do monte (v. 1), as Bem-aventuranças são a sua autobiografia, revelam a sua identidade íntima, o seu estilo, as suas escolhas vitais. Contemplando a vida de Deus pobre, manso, puro, misericordioso, sedento de amor e de justiça, operador de paz, perseguido e sofredor… é possível reconstruir todo o Sermão da Montanha, começando pelas Bem-aventuranças.

O autor da carta aos Hebreus, na sua reflexão bíblica e teológica, explica o sentido destas escolhas de Jesus: «Ele, renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia, e sentou-se à direita do trono de Deus» (Heb 12, 2). Por isso o discípulo é convidado a correr, com perseverança, sem se cansar ou desanimar, «tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé» (ibidem). Também Jesus procurava a sua felicidade, como o faz qualquer outro ser vivo. E encontrou-a na escolha das Bem-aventuranças. Este foi o seu caminho, e portanto deve ser também o nosso. No programa das Bem-aventuranças, Jesus fala de si, mas, ao mesmo tempo, fala de nós, descreve o estilo da nossa vida de discípulos. Fala de uma mudança radical. As Bem-aventuranças são, de facto, uma reviravolta completa dos critérios humanos; um desconcertante remar contra a maré! Tomá-las a sério e vivê-las – como fez Jesus – gera um salto de qualidade na vida do mundo: uma autêntica revolução no amor!

O profeta Sofonias (I leitura) exorta os «pobres da terra» a procurar o Senhor, a justiça e a humildade (v. 3), porque o Senhor reserva uma atenção especial aos pobres e aos oprimidos (salmo). S. Paulo confirma-nos isso, ao escrever aos Coríntios (II leitura) que Deus escolheu o que aos olhos do mundo é louco, fraco, vil e desprezível, nada… «a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus» (v. 27-29). É exemplo disso a comunidade de Corinto, onde «não há muitos sábios, do ponto de vista humano, nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos» (v. 26). A mesma situação quase por toda a parte nas jovens Igrejas missionárias, sobretudo no sul do mundo, onde o anúncio do Evangelho e o crescimento das comunidades cristãs se realizam com meios escassos e pobres, muitas vezes entre pessoas simples e humildes, em situações de minoria, incompreensão, hostilidade. Nas situações de precariedade, frequentes no mundo missionário, revelam-se com maior clareza a força do Evangelho e a gratuidade das Bem-aventuranças. São um tesouro a defender e a preferir a outras propostas mundanas e inquinantes.

É conhecida a admiração de Gandhi (do qual recorre o aniversário do assassinato: 30.1.1948) e de outros líderes espirituais não-cristãos pelas Bem-aventuranças pregadas por Jesus. O programa das Bem-aventuranças exige a conversão interior dos evangelizadores, sem a qual não são possíveis nem a missão ad gentes, nem actividade pastoral, nem verdadeiro ecumenismo. As Bem-aventuranças de Jesus não são apenas um estilo ou um método, mas o conteúdo essencial, o coração do anúncio missionário.


1. Vimos no Evangelho do Domingo passado (Mateus 4,12-23), Domingo III do Tempo Comum, que, tendo partido do Sul para o Norte da terra de Israel, Jesus alumia logo com a sua presença e pregação a sombria região da morte, que é como aparece descrita a região da Galileia. E aí, no coração de Neftali, que é Cafarnaum, passando junto do mar, imperativamente Jesus ordena a quatro pescadores de peixes que o sigam, com a indicação de vir a fazer deles pescadores de homens. Entendendo ou não o significado das palavras de Jesus, aqueles pescadores de peixes largaram logo tudo e imediatamente o seguiram. O texto fechava com a anotação de que Jesus percorria toda a Galileia ensinando, pregando e curando (v. 23). Nos dois versículos seguintes (v. 24-25), que fecham Mateus 4, e que não foram objeto da nossa atenção no Domingo passado por não fazerem parte do Evangelho então proclamado, dizia-se que a sua fama se espalhou por toda a Síria (v. 24), e finalmente que «o seguiam multidões numerosas (óchloi polloí) vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e da Transjordânia» (v. 25). Com esta maneira de reunir à sua volta multidões oriundas de toda a parte, e pregando, ensinando e curando, Jesus ilustra bem a natureza da pesca de homens para a qual tinha chamado aqueles simples pescadores de peixes.

2. Entramos agora na lição do Evangelho do Domingo IV do Tempo Comum, em que continuamos a seguir (seguimento imediato do Domingo passado) o Evangelho de Mateus (5,1-12a). Já sabemos que esta perícope de Mateus é conhecida por «BEM-AVENTURANÇAS», que abre o chamado «Discurso da MONTANHA», que preenche o terreno literário de Mateus 5-7. É o primeiro de cinco grandes Discursos proferidos por Jesus, que constituem a espinha dorsal do Evangelho de Mateus, e que aqui explicitamos para uma melhor compreensão do leitor: 1) o Discurso programático da MONTANHA (Mateus 5-7); 2) o Discurso MISSIONÁRIO (Mateus 10); 3) o Discurso das PARÁBOLAS do REINO (Mateus 13); 4) o Discurso ECLESIAL (Mateus 18); 5) o Discurso ESCATOLÓGICO (Mateus 24-25). Os cinco Discursos são fáceis de identificar, pois, a terminar cada um, encontra-se sempre o mesmo refrão ou marcador: «E aconteceu, quando Jesus terminou estas palavras…» (7,28; 11,1; 13,53; 19,1; 26,1).

3. Voltando atrás e fazendo as contas, seguem então Jesus quatro pescadores, e também as multidões assinaladas na cena anterior, no final de Mateus 4. O texto que se segue imediatamente (Mateus 5,1-2), que introduz o Discurso programático de Jesus na Montanha, diz assim:

«Vendo então as multidões (óchloí) subiu à montanha, e tendo-se sentado, vieram ter com Ele os seus discípulos (hoi mathêtaí autoû). Abrindo então a sua boca, ensinava-os (edídasken autoús), dizendo».

Não espanta que Jesus veja as multidões, pois já foi dito que o seguiam desde o último versículo do Capítulo anterior (4,25). Deve admirar-nos mais a presença dos discípulos, pois até é a primeira vez que Mateus emprega este nome no seu Evangelho. Na cena anterior (4,18-22), Jesus chamou quatro pescadores, a quem indicou uma nova missão, mas não lhes foi aplicada a qualificação de discípulos. E a próxima vez em que o nome aparecer, estaremos já em Mateus 10,1, falando-se aí de «os seus doze discípulos», de quem se indicam os nomes (10,2-4). E o certo é que, entre os doze, estão lá os nomes dos quatro pescadores, e também o nome de Mateus, entretanto chamado por Jesus em Mateus 9,9, sem que receba aí a qualificação de discípulo. Mesmo sem sabermos como se passou de quatro para doze, e dada a presença do nome discípulos em 5,1 e 10,1, é de supor que em 5,1, com o nome discípulos, se tenha em vista os doze discípulos, até pela importância do ensinamento que Jesus vai fazer na Montanha, e que se destina em primeiro lugar aos seus discípulos, pois é dito que vieram ter com Ele, e que os ensinava (edídasken), estando o pronome claramente em vez do nome discípulos, e o verbo no imperfeito, que implica duração, ensino continuado. Os discípulos formam, portanto, o primeiro círculo do ensinamento de Jesus. A anotação da presença das multidões (óchloi) é importante. E é também a elas, como que num segundo círculo, que se dirige o ensinamento de Jesus. De tal modo que, no final do inteiro Discurso da MONTANHA, em 7,28-29, é-nos mesmo dada a conhecer a reação das multidões que «estavam maravilhadas pelo seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os seus escribas». Não convém perdermos já as multidões de vista, pois é dito numa passagem idêntica, em 9,36, que «vendo as multidões (óchloi), sentiu compaixão (esplagchnístê) delas», que soa ao contrário de 8,18, em que se lê: «vendo uma multidão (óchlos), ordenou que partissem para a outra margem». «Vendo uma multidão» motiva separação. «Vendo as multidões» motiva compaixão por elas. É seguramente o caso das multidões que seguem seguem Jesus desde 4,25, e que estão agora, em 5,1, debaixo da vista dele a escutar os seus ensinamentos. É também Jesus a ensinar os seus discípulos como pescar homens.

4. Está a acontecer o Evangelho. Jesus vê as multidões, sobe à montanha, os seus discípulos dirigem-se para Ele, Ele senta-se, abre a sua boca, e ensina demoradamente. Tudo expressões que indicam a postura de Mestre Judaico, e também a solenidade deste início do ensinamento público de Jesus. Seja qual for a Montanha, ela aparece determinada com artigo definido (tò óros), o que deixa entender que se trata de uma Montanha concreta e conhecida (a tradição indica o Tabor), o que interessa é verificar a altura, a qualidade, a tonalidade e a intensidade que há que colocar no desempenho deste novo ministério de pescar homens. É dessa altitude, dessa MONTANHA, que Jesus diz a rapsódia mais bela e encantatória e revolucionária das «FELICITAÇÕES» ou «BEM-AVENTURANÇAS». É verdade. Há certas maravilhas que só se podem dizer nas alturas e compreender nas alturas, perto do céu, como que à altura e velocidade de cruzeiro. Destas FELICITAÇÕES envolve-nos, de facto, a sua cadência encantatória ainda antes dos seus conteúdos. Para entrar no coração destas fragrâncias, é preciso levantar o coração (sursum corda), e ir com os pássaros que Deus alimenta em pleno voo.

5. É por nove vezes que se ouve a palavra FELIZES. Felizes, felizes, felizes, declaração por nove vezes ouvida, aí está a tonalidade encantatória destas felicitações! Sintomático é que estas Felicitações não se destinem aos triunfadores, aos ricos e aos bem-sucedidos, mas aos pobres (1), aos aflitos (2), aos mansos (3), aos que clamam por justiça (4), aos misericordiosos (5), aos puros de coração (6), aos fazedores da paz (7), aos perseguidos (8) e aos amaldiçoados por causa de seguirem Jesus (9). À primeira vista, parece que Jesus está a ler o mundo ao contrário. Mas não. Trata-se de uma Retórica estupenda para nos fazer ver que somos nós que andamos virados do avesso! Nós, quem? Nós, os importantes, os ricos, os senhores do mundo! Sendo nove as Felicitações, reparar-se-á que no centro (n.º 5) está a MISERICÓRDIA. Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS: aos misericordiosos (eleêmones), será feita misericórdia (eleêthêsontai) (Mateus 5,7). Entenda-se: aos que fazem misericórdia, será feita misericórdia por Deus! De notar ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «FELIZES» ou «BEM-AVENTURADOS» se diz ’ashrê, termo que qualifica, não os beatos, mas os pioneiros, aqueles que lutam e abrem caminhos novos e bons e belos e de vida nova e boa e bela para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Ao longo da história, foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos e belos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente, anestesiado e medicado, e tantas vezes violento, em que vivemos. Quanto lodo é preciso retirar do coração humano! Ou, dito de outra maneira, quanta pedra é preciso partir, pois são muitos os corações de pedra, para usar a metáfora de Ezequiel 36,26.

6. Os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati), aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é baixa de rûah (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23) ou abatida de rûah (dake՚ê-rûah) (Salmo 34,19; Is 57,15), isto é, sem espaço físico, económico, social, cultural ou psicológico. Não precisam de se afirmar. Sentem-se os últimos da sociedade. Todavia, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí ou tapeinoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados entre paredes douradas, num círculo restrito de amigos, mas somos nós todos unidos e reunidos numa imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie. Não são os que vivem em paz, mas os que fazem a paz (v. 9). Habitam debaixo do teto da casa de Deus, abertos a Deus, de quem sabem e sentem que recebem tudo. Não sabem o que é a autossuficiência. Só sabem o que é a auto insuficiência.

7. A profecia de Sofonias (2,3; 3,12-13) faz ressonância desta nova e bela maneira de viver, trazendo para primeiro plano aqueles que dão lugar a Deus, que estão abertos à ação de Deus, os pobres e os humildes, que tudo recebem de Deus, e em Deus encontram refúgio, sossego e felicidade, entrando assim na rota de cruzeiro das FELICITAÇÕES!

8. E São Paulo, na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios (1,26-31), faz-nos voltar completamente para Deus, para sabermos quem somos: «Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que fostes chamados por Deus» (1 Coríntios 1,26). Se não ouvirmos Deus a chamar por nós, se não ouvirmos Deus a dizer o nosso nome, isto é, a criar-nos e a cuidar de nós, se não formos irmãos, é certo que não sabemos quem somos, não sabemos qual é a nossa identidade!

9. É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

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