“O poder de Deus não elimina o sofrimento do mundo por decreto. Assim, o Deus forte de Jesus Cristo não é aquele que impede toda dor, mas que entra na dor e que caminha conosco também na hora da dor”.
O artigo é de Luciano Fazio, matemático pela Università degli Studi de Milão, especialista em previdência pela Fundação Getulio Vargas e consultor externo do DIEESE para assuntos previdenciários. É também autor de O que é previdência do servidor público (Loyola, 2020).

Luciano Fazio
07 Janeiro 2026
Cortesia de
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À primeira vista, falar de um “Deus fraco” pode parecer um despropósito. Com efeito, as tradições de várias religiões e o imaginário humano tendem a identificar Deus com a força absoluta: onipotente, invencível e dominador da natureza e da história. Frequentemente, nos é apresentado um Deus forte que tranquiliza, protege e impõe ordem. Também a Bíblia — no Antigo Testamento — reproduz essa imagem do Senhor dos Exércitos, que garante vitórias ao povo “eleito”. No entanto, quando olhamos para Jesus Cristo, essa imagem não “encaixa”. Nele, a revelação de Deus é retificada e aprofundada: “Ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho, que está junto do Pai, é quem o tornou conhecido” (João 1,18).
Nos Evangelhos, Jesus revela um Deus que não se impõe por meio do poder político, militar ou religioso. Esse tipo de força é explicitamente rejeitado: Jesus recusa as tentações do domínio, afasta-se da lógica dos impérios e critica uma religião baseada no prestígio e na exclusão. Assim, Deus não aparece como o soberano que controla tudo do alto. Não é o “Senhor dos Exércitos”, mas o Emmanuel, o Deus que caminha com os fracos. Não é um Deus que intervém continuamente com milagres na história dos povos e das pessoas. Para quem anseia por esse tipo de Deus, ele pode parecer um Deus ausente.
Não são apenas os Evangelhos que nos dizem isso, mas também a experiência de nós, cristãos de hoje, que temos de constatar como Deus não intervém no mundo “a nosso serviço”. Contrariamente à frase que não poucos expõem em adesivos pregados em seus carros, o nosso não parece ser o “Deus fiel”. Ele não é aquele que age sempre que o invocamos; não é um Deus a nosso uso e consumo. Não foi assim nem mesmo para o Filho. Sim, Jesus Cristo, na cruz, foi desafiado a mostrar o poder de Deus por líderes religiosos, soldados e até mesmo por um dos criminosos crucificados ao seu lado, que zombavam dele, dizendo que, se ele fosse o Filho de Deus, deveria salvar a si mesmo e descer da cruz. Mas Deus não agiu… Ele não se faz presente como o gênio da lâmpada quando alguém a esfrega. Chama-nos a conviver não apenas com sua presença, mas também com sua ausência.
Aqui emerge o paradoxo do cristianismo. Em Jesus, Deus manifesta-se na fraqueza. Jesus nasce e vive pobre (muito longe da prosperidade que alguns dizem advir de quem seguir a Deus), aproxima-se dos marginalizados e termina numa cruz — um escândalo para os crentes. Não é fácil aceitar o Filho de Deus que morre injustamente por meio de um instrumento humilhante de tortura, símbolo máximo da impotência humana. Entretanto, a cruz não é um acidente de percurso nem um fracasso do plano divino. É a revelação de que Deus não salva pela força onipotente dele, mas pelo amor levado até o extremo.
A ressurreição confirma esse paradoxo. Deus não vence a morte anulando a cruz (que simboliza todo o mal deste mundo), mas passando por ela. O poder de Deus não elimina o sofrimento do mundo por decreto. Assim, o Deus forte de Jesus Cristo não é aquele que impede toda dor, mas que entra na dor e que caminha conosco também na hora da dor.
Essa revelação tem consequências éticas e espirituais profundas. Seguir Jesus significa abandonar a idolatria da força — econômica, política ou religiosa — e reconhecer que a verdadeira grandeza está no serviço, na misericórdia e na solidariedade com os vulneráveis. O cristão é chamado a testemunhar, na história, esse Deus “fraco” que se deixa ferir, mas nunca deixa de amar. O Deus forte é aquele que tem a coragem de ser fraco por amor.
Hoje, no Brasil, é forte a tentação de querer acreditar em um deus forte, triunfal e “fiel”. Esse deus, no entanto, não parece ser o Deus revelado por Jesus Cristo, mas um deus ilusório, construído para responder aos nossos desejos, preencher os nossos vazios e afugentar inseguranças e medos.
O Deus de Jesus é aquele do Pai Nosso, que não está a meu serviço. Pelo contrário: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade. (…) e não nos deixei cair em tentação”.