2° Domingo
Tempo Comum (A)
João 1,29-34

Referências bíblicas
- 1ª leitura: “Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Isaías 49,3.5-6)
- Salmo: Sl.39(40) – R/ Eu disse: Eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade.
- 2ª leitura: “Para vós, graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 1,1-3)
- Evangelho: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (João 1,29-34)
É ELE!
Marcel Domergue, SJ
O filho e o escravo
Do que nos fala a primeira leitura? Quem é o servo em questão? Primeiro, o texto diz que é Israel. Depois, o servo torna-se o próprio profeta. E fica por aí? Quando lemos «Eu te farei luz das nações para que minha salvação chegue até os confins da terra», parece que, além do profeta, perfila-se uma outra FIGURA: a do Messias. Estas expressões, aliás, são reutilizadas nos Evangelhos para falar do Cristo, a começar por Lucas 2,32.
Assim se vai encaminhando o cumprimento das Escrituras, através de sucessivas figuras que se encaixam, retomando cada uma a precedente e levando-a a um grau superior. Jesus, por fim, é quem será o servo por excelência. Irá recapitular todo o Israel e o auge de seu momento profético, mas num excedente intransponível. A palavra foi deixada para o final do evangelho: Filho de Deus.
Na Bíblia, o filho e o servo são personagens opostas, como se pode ver em Gálatas 4,1-7. Eis que, agora, ficamos sabendo que as duas personagens coincidem e que só se pode ser Filho, imagem do Pai, fazendo-se servo. A palavra «servo» não está no evangelho, mas sim a palavra «cordeiro», que remete a Isaías 53,7, descrevendo a figura e a função do servo de Deus. E em que consiste ser servo? Palavra praticamente desaparecida do nosso vocabulário?
O Cordeiro Servo
Não ouso pedir para que leiam Isaías 52,13-15 e 53,1-12. Veriam aí que o Servo, no versículo 7 comparado a um cordeiro, como foi dito, leva sobre si o pecado do mundo, os erros da multidão, assunto retomado neste evangelho. Mas o que representa o cordeiro? Figura um tanto desconcertante, e até mesmo irritante, quando deriva para a afetação?
Para bem compreender, perguntemo-nos primeiro em que consiste o pecado do mundo. Esta palavra designa toda forma de violência, que tem como cume o homicídio. Lembremos que a violência homicida pode ser praticada em todos os domínios: social, econômico, sexual…
Cada vez que um ser humano é reduzido ao estado de objeto, de lucro ou de prazer, estamos na linha do homicídio: o homem reduzido totalmente ao estado de objeto é exatamente o cadáver. O mesmo que o cordeiro, diante dos predadores de todo tipo; um animal que se tosquia, que se abate e se devora. O Cristo-cordeiro carrega, padece e vence o pecado do mundo, porque se pôs à mercê de todos os predadores.
Por isso, inconscientemente, nós o desejamos. Preferiríamos que superasse a violência por um acréscimo de violência, empreendimento, aliás, insensato, uma vez que só poderia redobrar a violência. Para não mais ficarmos chocados com o escândalo da cruz, é preciso que, primeiro, tomemos consciência da nossa própria violência, a fim de repudiá-la. A isto, chamamos de «conversão».
A vitória do Cordeiro
Este Cordeiro que devoramos, eis que se torna para nós não um veneno mortal, mas alimento para uma vida eterna. Isto, precisamente, é o que significa a Eucaristia. Em Apocalipse 5,1-14, lemos que somente o Cordeiro que foi abatido (por nós) é digno de romper os selos do Livro e de decifrá-lo. Que Livro é este? A sequência do texto nos traz seu conteúdo: trata-se das catástrofes que atingem a humanidade.
O Livro da história humana, das nossas alegrias e das nossas lágrimas, dos nossos conflitos e reconciliações. Através disto, que, à primeira vista, parece ser um absurdo, totalmente privado de sentido, é que se vive a história de Deus com os homens; esta história de que a Bíblia é o testemunho.
Daí que tudo encontra um sentido, uma direção; tudo se encaminha para um termo. E este termo é o dom do Espírito de Deus, feito aos homens; este Espírito que nos torna conformes ao Filho. No evangelho, vemos que o Espírito desce até o Cristo e permanece sobre ele. Mas já não estava ali?
Claro que sim, porém devíamos saber que esta vinda do Espírito é permanente e reproduz-se a cada instante. É um acontecimento sempre antigo e sempre novo, tendo em vista as situações novas. Jesus, agora, vai assumir seu enfrentamento aos poderes das trevas, representado na cena das tentações (ausente em João). Na hora das trevas é que a luz se levantará e que o Espírito será emitido.
O batismo cristão, um batismo de compromisso…
Raymond Gravel
Após o relato do Batismo do Senhor do Evangelho de Mateus, agora vem o de João. Ao contrário de outros relatos de batismo, em que é Jesus que se vê investido pelo Espírito, aqui em João é João Batista quem vê, e vendo, testemunha a identidade daquele que foi até ele: “Este é o Filho de Deus” (Jo 1,34). Mas este relato é profundamente teológico e devemos ter isto presente para compreendê-lo corretamente, para interpretá-lo corretamente e para melhor atualizá-lo… Caso ignorarmos a teologia do evangelista João, podemos correr o risco de passar à margem da sua mensagem. São João serve-se do acontecimento do batismo de Jesus feito por João Batista e que é contado pelos outros evangelistas: batismo de água e de conversão, para anunciar um batismo novo, dado, desta vez, pelo Cristo ressuscitado: batismo do Espírito, do Pentecostes, do engajamento cristão na Igreja de Cristo. Mas por que este relato?
1. João tem sua maneira de fazer as coisas. Ele escreve seu evangelho depois dos outros, e assim como eles, após a ressurreição do Senhor, e ele projeta, de uma maneira mais que evidente, sobre a vida de Jesus, a luz deste depois. Para compreendê-lo corretamente, devemos observar dois traços particulares:
Na época do evangelista João (final do 1º século, começo do segundo), ainda existe uma comunidade batista, concorrente do cristianismo, fiel ao Batista morto. É por isso que o evangelista João não diz claramente que João Batista batizou Jesus, para não colocar Cristo em situação de inferioridade em relação ao Batista.
O evangelista João não estava preocupado com o que o Batista pensava sobre Jesus. Na verdade, ele coloca nos seus lábios o que todo cristão deve crer e ao qual deverão se unir os batistas. Veremos um pouco mais adiante que alguns discípulos batistas seguirão Jesus (Jo 1,35-51).
2. Para os seus discípulos, o Batista designa Jesus, primeiramente, como o Cordeiro de Deus, uma expressão carregada de lembranças bíblicas e lendárias: podemos pensar aqui no cordeiro pascal que redime o povo eleito da escravidão do Egito. Também, nas lendas judaicas, o Moisés que o Faraó, horrorizado, viu em sonho, como um cordeiro sobre o prato de uma balança, é aqui, Jesus, o novo Moisés, aplastando com seu peso as forças do mal. Na Bíblia, encontramos também o cordeiro que Deus reservou, desde a criação, para ser sacrificado no lugar de Isaac (Gn 22,13). Finalmente, em aramaico, a palavra talya significa, ao mesmo tempo, servo, como na primeira leitura de hoje (Is 49,3.5-6), e cordeiro levado ao matadouro, segundo o quarto Cântico do Servo (Is 53,7). É evidente que João Batista não pôde designar Jesus como Cordeiro de Deus; é o evangelista João que o faz dizer isso.
3. Além disso, o próprio Batista confessa sua fé cristã: como homem, Jesus veio atrás de João Batista, isto é, como seu discípulo: “Este é daquele de quem eu falei: ‘Depois de mim vem um homem…’” (Jo 1,30a). Mas na realidade, ele estava na sua frente: “‘(Este homem) que passou na minha frente, porque existia antes de mim’” (Jo 1,30b). Para compreender corretamente este existia, devemos reler o prólogo de São João: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1), e a afirmação de Jesus: “Antes que Abraão existisse, eu sou” (Jo 8,58). O Eu Sou é o nome que Deus se dá a si mesmo, para Moisés, na revelação do Sinai (Ex 3,14-16).
Mais uma vez, é o evangelista João que coloca na boca do Batista esta confissão de fé cristã; de sorte que o evangelista precisará, por duas vezes, que o Batista não conheceu Jesus: “Eu também não o conhecia. Mas vim batizar com água, a fim de que ele se manifeste a Israel” (Jo 1,31) (é o batismo da água e da conversão); “Eu também não o conhecia. Aquele que me enviou para batizar com água, foi ele quem me disse: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e pousar, esse é quem batiza com o Espírito Santo’” (Jo 1,33) (é o batismo no Espírito Santo: a Confirmação).
N.B. Alguns exegetas se perguntam como João Batista pôde dizer que não conheceu Jesus, uma vez que ele era, segundo Lucas, seu primo. A exegese nos mostra, pois, que, no evangelho de Lucas, o parentesco de Batista e de Jesus é teológico, assim como o desconhecimento de um e de outro é também teológico, no Evangelho de João.
4. João Batista torna-se, portanto, a testemunha do Cristo ressuscitado: “E João testemunhou: ‘Eu vi o Espírito descer do céu, como uma pomba, e pousar sobre ele” (Jo 1,32). Para o evangelista João, o verbo pousar expressa a presença de Deus, permanente e inalienável. Por esta manifestação do Espírito, trata-se do Messias anunciado pelos profetas, como o homem dotado da plenitude do Espírito (Is 11,2; 61,1). Se o evangelista João faz do Batista a testemunha do Ressuscitado, é para dizer aos batistas da sua época, que também eles deveriam reconhecer o Cristo como Filho de Deus e que também eles devem receber o batismo do Espírito. Para isso, eles têm o testemunho de João Batista e devem encontrar pessoalmente o Cristo através da Igreja, ou seja, através dos seus discípulos que vivem por ele e para ele.
Isso é muito exigente para os cristãos; eles têm a responsabilidade de manifestar o Cristo aos outros, e a única maneira de fazê-lo é saber-se transformados e santificados pelo Cristo: “Vocês que foram santificados em Jesus Cristo e chamados a ser santos, juntamente com todos os que invocam em todo lugar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Cor 1,2). Esse vocês de São Paulo não é reservado aos ministros ordenados da Igreja; designa todas e todos aqueles que pertencem a Jesus Cristo pelo Batismo e pela Confirmação. É através delas e deles que os outros podem encontrar pessoalmente Jesus Cristo ressuscitado, aquele que veio de Deus e que voltou para ele, entranhando-nos numa comunhão íntima com o Pai. O batismo cristão não é, portanto, somente um batismo de conversão: um batismo de água, mas também um batismo de compromisso: um batismo no Espírito Santo.
A Palavra de Deus, hoje, convida-nos a lançar um olhar sobre Deus, sobre Jesus Cristo e sobre nós mesmos, a fim de testemunhar a nossa fé, a nossa esperança e o amor que nos habita e que nos faz viver. O nosso olhar sobre Deus e sobre o Cristo ressuscitado deve refletir em nós mesmos a luz do amor e da fé que vê lá onde os outros não veem nada: isso se traduz pela esperança: “Sim, serei glorificado aos olhos do Senhor; Deus é a minha força” (Is 49,5).
Segue uma bela história contada por um missionário leigo, Raoul Follereau, que ilustra bem o poder de um olhar de amor: “Num leprosário do fim do mundo, um único doente havia mantido seus olhos claros e a força de sorrir diante da vida. Como explicar esse fenômeno? A religiosa que cuidava dos leprosos, percebeu que um olhar sorridente de uma mulher aparecia todos os dias na janela desse leproso doente. Era sua esposa que vinha todos os dias expressar-lhe sua ternura e seu amor. O leproso disse à religiosa: Quando eu a vejo, eu sei que estou vivo”. Maravilha de olhar que faz viver, luz do Amor e da fé que vê lá onde outros não veem nada. Assim como para o profeta Isaías, esse doente era glorificado aos olhos de sua mulher; ela era sua força e sua razão de viver.
Concluindo, diante da leitura desse relato de São João, devemos reconhecer que a presença de Jesus Cristo hoje, não pode ser estática e congelada numa hóstia exposta para adoração; sua presença é bem ativa e atuante através dos cristãos que o encontraram e que se tornam sacramento, isto é, sinais da sua presença no mundo.
«Eis o Cordeiro…»:
um anúncio denso de Missão
Romeo Ballan, mccj
Continua a epifania, a manifestação de Jesus. Depois da estrela dos magos e do baptismo no Jordão, é ainda João Baptista que aponta com insistência Jesus como o Cordeiro de Deus (Evangelho). João foi crescendo no seu conhecimento de Jesus: inicialmente não o conhecia (v. 31.33)), ou conhecia-o provavelmente apenas como seu parente. Agora proclama-o Cordeiro de Deus (v. 29), cheio do Espírito, ou melhor aquele que baptiza no Espírito Santo (v. 33), Filho de Deus (v. 34). João Baptista declara-o presente: «Eis o cordeiro de Deus…», aquele que carrega sobre si e, desse modo, tira o pecado do mundo (v. 29); isto é, todos os pecados. Jesus não utiliza aqui mecanismos jurídicos exteriores como a remissão, o perdão, o indulto ou amnistia, mas o baptismo no Espírito Santo, a introdução no coração das pessoas de um dinamismo novo, o Espírito (v. 33)), a força do amor, a única energia vencedora sobre todo o mal humano. Precisamente porque só o amor transforma e cura o coração.
O segundo canto do Servo de Javé (I leitura) contém uma prefiguração temática do Baptismo de Jesus. É Ele o verdadeiro “talya” (termo aramaico usado por João Baptista para significar cordeiro e servo): é o cordeiro pascal, imolado, que tira, carregando-os sobre si, os pecados do mundo inteiro; é o servo, chamado desde o seio materno (v. 5), que se torna luz das nações, com uma missão universal de salvação que ultrapassa as fronteiras nacionais para chegar até aos confins da terra (cf. v. 6; Lc 2,30-32; Actos 13, 47). O salmo responsorial canta a disponibilidade de Jesus – e da Igreja evangelizadora – em assumir esta missão sem fronteiras: «Eu venho, Senhor…!»
A expressão, «Cordeiro de Deus», usada por João Baptista, é densa de evocações bíblicas e de aplicações missionárias. Evoca, antes de mais, o cordeiro pascal, cujo sangue foi sinal de salvação do extermínio na noite da saída do Egipto (Ex 12, 23); evoca, além disso, a imagem do Servo sofredor e silencioso, que carregava os pecados da multidão (cf. Is 53, 12); por fim, a expressão do Baptista remete para o sacrifício de Abraão, no qual Isaac foi poupado e o próprio Deus providenciou o cordeiro para o sacrifício (Gn 22, 7-8): não o unigénito filho de Abraão, mas o unigénito Filho do próprio Deus. É possível que João Baptista, talvez educado na escola dos Essénios de Qumran, tivesse essa ampla compreensão da expressão “cordeiro de Deus”. Tinham-na também, embora em diferente medida, muitos israelitas piedosos, entre os quais, certamente, Maria, João Baptista…
A progressiva descoberta e identificação com Jesus fazem de João Baptista um modelo para a Igreja missionária e, nela, para todo o evangelizador e evangelizadora: João acredita em Jesus, reverencia-o, anuncia-o presente, dá testemunho dele até ao derramamento do sangue. A Igreja continua a apresentar Jesus com as palavras de João; fá-lo na Eucaristia-comunhão: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» e no anúncio e serviço próprios da missão. A mensagem missionária da Igreja será tanto mais eficaz e credível na medida em que for – como em João Baptista – fruto de liberdade, austeridade, coragem, profecia, expressão de uma Igreja serva do Reino, decidida em «fazer causa comum» (São Daniel Comboni) com os sofrimentos e as aspirações profundas da família humana. Só assim, tal como para João Baptista, a palavra do missionário estará na origem de novos discípulos de Jesus (cf. Jo 1, 35-37).
Tal foi também a vocação missionária de Paulo, apóstolo apaixonado por Jesus Cristo: nomeia-o bem 4 vezes nos 3 versículos da II leitura. A sua ampla saudação a todos os santificados (baptizados) torna-se novamente actual na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-25 de Janeiro). O Ecumenismo e a Missão constituem um binómio vital e irrenunciável para a Igreja de Jesus. Também o tempo litúrgico dito comum, no qual entrámos, é sempre um tempo forte e específico para a missão, porque esta é a natureza mesma da Igreja: a missão não está reservada a algumas circunstâncias, festas ou recolha de fundos, mas é inerente à vida da Igreja e dinamiza todas as suas actividades.
João revela e anuncia Aquele que vem
Enzo Bianchi
Primeira Leitura – Isaías 49,3.5-6
Este trecho do Antigo Testamento, escolhido paralelamente ao do Evangelho segundo Mateus, é um “cântico”, o segundo “cântico do Servo do Senhor”, entre os quatro incrustados como pérolas do livro de Isaías (cf. Is 42,1-7; 49,1-7; 50,4-9; 52,13-53,12).
Trata-se de oráculos que parecem formar um livreto independente do restante da pregação do profeta. Neles, entrevê-se e descreve-se um Servo do Senhor (‘ebed ‘Adonaj) anônimo, cuja identidade não é revelada. Ele foi chamado pelo Senhor, como pessoa representativa do pequeno resto de Israel, e lhe é confiada uma missão junto ao povo de Deus, a de resgatar e reunir os exilados, mas também uma missão universal, que diz respeito a todos os povos, à humanidade inteira.
Esse servo será “luz das nações” (cf. também Is 42,6), levará a salvação até aos confins da terra e será reconhecido também pelos governantes da terra (cf. Is 49,7). Os discípulos de Jesus interpretaram essa profecia como um anúncio do Servo do Senhor Jesus de Nazaré.
Evangelho – João 1,29-34
Terminado o tempo litúrgico das manifestações do Filho de Deus que se fez homem e veio entre nós, antes de retomar a leitura cursiva do Evangelho segundo Mateus, o ordo litúrgico nos faz nos deter mais uma vez em uma epifania de Jesus, uma revelação a Israel por meio de João Batista (Ano A), uma revelação aos primeiros discípulos por meio do chamado (Ano B), uma revelação da aliança nupcial entre o Noivo Messias e a Igreja em Caná (Ano C).
O evangelho deste domingo nos apresenta a revelação que João Batista recebe de Deus e transmite fielmente às pessoas que vão ao seu encontro para escutá-lo. Jesus é um discípulo de João, segue-o (opíso mou: Jo 1,27), segundo o Evangelho segundo Lucas é um primo nascido pouco depois dele (cf. Lc 1,36).
João também é um dom que só Deus podia dar (cf. Lc 1,18-20), mas não conhece a identidade mais misteriosa e profunda de Jesus, como confessa: “Eu não o conhecia”, em paralelo com as palavras que havia dirigido às multidões: “No meio de vocês, existe alguém que vocês não conhecem” (Jo 1,26). Só uma revelação de Deus pode lhe fazer conhecer quem Jesus verdadeiramente é, para além de ser alguém que “vem depois de mim” (Jo 1,26), como o Batista o define.
Antes de ser um profeta, alguém que fala em nome de Deus, João é um ouvinte de sua palavra, treinado para discernir a ação de Deus, e por isso viu o Espírito Santo descer do céu e pousar sobre Jesus como uma pomba para permanecer sobre ele. Sim, porque a escuta torna possível a “visão”, a experiência do Espírito Santo que levanta o véu, revela e dá a conhecer por graça o incognoscível.
Do desconhecimento ao conhecimento: essa foi a dinâmica da fé de João, que sempre se fez perguntas sobre Jesus, até fazê-las ao próprio Jesus (cf. Mt 11,2-3; Lc 7,18-20), e sempre escutou, prestando obediência e dando testemunho da luz que veio ao mundo (cf. Jo 1,6-9).
Por duas vezes, ele confessa: “Eu não o conheço”, mas sabe reconhecê-lo. A Igreja também deveria sempre recordar e saber viver essa atitude de João, porque ainda hoje Jesus Cristo está presente na humanidade que não o conhece: assim como um rabdomante reconhece a presença da água, assim também a Igreja deve reconhecer a presença de Cristo na humanidade, nas culturas, na história. Trata-se sempre de escutar a voz do Senhor, de “ver” a humanidade no seu hoje, de discernir o Cristo sempre presente na humanidade moldada segundo a sua imagem de Filho de Deus (cf. Col 1,15-17).
Quando João “vê” Jesus vindo ao seu encontro, confessa em voz alta: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”. O “eis” inicial indica frequentemente uma revelação (cf. Is 7,14; 42,1 etc.). Acima de tudo, Jesus parece um cordeiro, título presente apenas na literatura joanina (quarto evangelho e Apocalipse), mas não um cordeiro guerreiro que assume a defesa do rebanho, triunfando sobre os inimigos, segundo o imaginário difundido na apocalíptica judaica daquele tempo, mas um manso cordeiro que carrega e tira o pecado do mundo.
As duas palavras “cordeiro” e “pecado” não estão muito presentes na nossa língua, embora as cantemos em todas as liturgias eucarísticas. São palavras cheias de significado, que devem ser conhecidas. O cordeiro é sinal da mansidão, da não agressividade, do fato de ser vítima em vez de carnífice. Ele também recordava aos judeus o cordeiro pascal, sinal da libertação, e o cordeiro imolado todos os dias no templo, para obter a absolvição e o perdão dos pecados do povo. Também podia lembrar o Servo do Senhor descrito por Isaías e Jeremias como um animal inocente, perseguido e morto (cf. Is 53,7; Jr 11,19). Na literatura joanina, “cordeiro de Deus” é um título relativo a Jesus, que, na inocência de quem não pecou, na mansidão de quem nunca cometeu violência, assume sobre si e, assim, tira de nós o peso das nossas más ações, a injustiça de que todos somos responsáveis. Essa é a libertação radical que nos trouxe Jesus, o Cordeiro da Páscoa única e definitiva, o Cordeiro que nos reconcilia com Deus para sempre.
João, portanto, dá testemunho dele porque essa é sua missão. Por isso, ele proclama a própria experiência: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele”. Essa experiência corresponde a uma palavra recebida antecipadamente de Deus: “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo”. Ele só havia imergido na água para preparar a vinda do Senhor: o Senhor também imergirá, mas no fogo do Espírito Santo (cf. Mc 1,8 e par.). E o testemunho ressoa com força: “Sim, eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”. Esse é o verdadeiro conhecimento de Jesus por parte de João, conhecimento não adquirido de uma vez por todas, mas a ser sempre renovado, como recordam os outros Evangelhos (cf. Mt 11,2-6; Lc 7,18-23).
E isso também vale para nós: nunca devemos pensar em ter um conhecimento, uma imagem de Jesus definitivamente adquirida por nós, mas devemos sempre renová-la com assiduidade ao Evangelho. Caso contrário, se prevalecerem as nossas projeções sobre ele, Jesus também pode ser um ídolo para nós. Não basta afirmar: “O que temos de mais caro no cristianismo é Jesus”. É preciso que seja o Jesus que é Evangelho e o Evangelho que é Jesus!
O risco é confessar um Jesus nosso ídolo, fabricado por nós. Somente a confissão de que não conhecemos Jesus plenamente nos leva a conhecê-lo, invocando sua revelação por parte de Deus.