“É precisamente em um tempo desesperador, aparentemente sem esperança, que o Evangelho sugere o caminho da esperança como um exercício de imaginação e criatividade, como confiança no futuro, como uma profecia de algo novo que podemos começar a imaginar e construir”, escreve Paolo Naso, em artigo publicado por Riforma, revista semanal das igrejas Batista Evangélica, Metodista e Valdense, 09-01-2026.

08 Janeiro 2026
Cortesia de
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O fim do ano velho e o início do novo são sempre uma oportunidade, talvez um pouco ingênua, para tentar fazer um balanço e expressar alguma esperança ou, pelo menos, algumas boas resoluções. Em um nível pessoal e familiar, como sempre, todos terão vivenciado seus momentos de alegria e desespero, mas essa é a dinâmica da vida. Agora, por um momento, queremos nos deter em algumas considerações mais gerais.
2025 foi o ano das guerras. A BBC relata isso, citando cerca de cinquenta conflitos de intensidade variável: do Sudão ao Sudeste Asiático e ao Caribe. As vítimas, em uma estimativa conservadora, foram mais de 240.000. Uma em cada quatro pessoas no mundo foi afetada de alguma forma por um conflito. Acima de tudo, é claro, está o conflito na Ucrânia, que, desde 24 de fevereiro de 2022, dia da invasão pelas forças armadas de Moscou, já ceifou mais de 500.000 vidas.
Os números devem ser considerados com muita cautela, mas são os que a BBC e outros observadores internacionais consideram mais confiáveis: 160.000 vítimas em Kiev, mais de 350.000 em Moscou, com uma escalada de 40% nos últimos meses. Putin tem pressa em conquistar o máximo de território possível antes de chegar à mesa de negociações, que, até o momento, apesar das proclamações triunfais e anúncios de trégua, ainda não se abriu. E quem paga o preço por esse aumento do esforço de guerra são, como sempre, os jovens soldados arrancados de seus lares, famílias, empregos e estudos em nome de esforços nacionalistas e patrióticos.
Quanto à outra guerra travada entre Israel e os palestinos em Gaza, estamos diante de uma trégua, mas, para citar Tácito, “eles criaram um deserto e chamam isso de paz”. A Faixa é um monte de escombros e, pior ainda, os ataques direcionados a alvos específicos continuam. Enquanto isso, grupos armados de judeus fundamentalistas estão ameaçando palestinos na Cisjordânia com o objetivo declarado de tomar suas terras. Essa ação é ilegal e condenada pela comunidade internacional, mas tolerada, senão acobertada, pelo governo israelense.
2025 também foi um ano ruim para a democracia. Nos últimos anos, o número de governos democráticos no mundo tem diminuído constantemente, marcando uma tendência preocupante em nível global: um terço dos países é governado por sistemas autoritários. Além disso, em 20% dos países onde eleições são realizadas, há um declínio acentuado na participação. Mas mesmo em países com uma longa tradição democrática, como os Estados Unidos, há sinais de mudanças autoritárias, como demonstrado pela intolerância do governo Trump para com os outros poderes que deveriam equilibrar o executivo: o Congresso e o judiciário. Ou para com a imprensa de oposição.
O problema não é exclusivo dos Estados Unidos: nos últimos cinco anos, aliás, aproximadamente 85% da população mundial vivenciou um declínio na liberdade de imprensa em seus próprios países. Mesmo em países com uma longa tradição de salvaguardar o jornalismo livre, as transformações financeiras e tecnológicas forçaram veículos de comunicação, especialmente aqueles que atendem às comunidades locais, a fechar. Agora, até mesmo a informação é um negócio e não parece mais responder às regras da ética profissional e à busca pela verdade, mas sim às do mercado e, portanto, a conquistar posições favoráveis ao poder político.
A situação não é melhor quando se trata de direitos civis e liberdade de pensamento e consciência. Em seu relatório de 2025, a Anistia Internacional denuncia a proliferação de violações de direitos, citando os tiroteios contra estudantes manifestantes em Bangladesh, os ataques racistas contra os rohingya em Mianmar, a catástrofe climática da COP30 com suas repercussões sobre os direitos de populações indígenas inteiras que sofrem os efeitos do aquecimento global. Além disso, as novas restrições impostas no Afeganistão contra as mulheres; a criminalização das relações entre pessoas do mesmo sexo no Malawi, Mali e Uganda; a repressão da chamada “propaganda LGBT” na Bulgária, Rússia e Geórgia.
É difícil acreditar que, até 2026, quase que por mágica, todos esses problemas desaparecerão, que a paz vencerá, a justiça triunfará e os direitos humanos serão reconhecidos em todos os lugares. Sabemos que não será esse o caso, mas é justamente esse o objetivo de fazer um balanço: o esforço para entender o que podemos fazer, cada um de nós, para melhorar o equilíbrio social de nossas vidas.
O teólogo Brunetto Salvarani escreve sobre isso em um livro recente intitulado “A Esperança, a Coisa Difícil”, publicado pela Pauline Press. É precisamente em um tempo desesperador, aparentemente sem esperança, que o Evangelho sugere o caminho da esperança como um exercício de imaginação e criatividade, como confiança no futuro, como uma profecia de algo novo que podemos começar a imaginar e construir.
Mesmo em questões enormes como paz, democracia e direitos humanos. Nesse espírito e com essa intenção, ainda faz sentido dizer “os melhores votos para o ano novo”!