Batismo do Senhor (A)
Mateus 3,13-17

- Primeira Leitura: Isaías 42,1-4.6-7
- Segunda Leitura: Atos dos Apóstolos 10,34-38
- Evangelho: Mt 3,13-17
Jesus se manifesta ao povo de Israel
Enzo Bianchi
Termina hoje, com a festa do Batismo, o tempo das manifestações de Jesus: no Natal, ele se manifestou aos pobres, representados pelos pastores; na Epifania, manifestou-se aos gentios; hoje, recebendo de João a imersão no Jordão, ele se manifesta ao povo de Israel.
O batismo é a primeira ocasião em que Jesus, homem maduro, entra na cena pública: ele não se mostra como protagonista de gestos extraordinários nem de um ensinamento, mas sim como um homem plenamente solidário com os homens e as mulheres pecadores. Sim, o caminho empreendido por Jesus desde o início do seu ministério é marcado pelo rebaixamento, pela humildade, pela misericórdia pelos homens e mulheres, e é assim que ele narra Deus (cf. Jo 1,18).
João, o Batizador, começou a sua pregação com o grito: “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo” (Mt 3,2), e muitos judeus aderiram a esse convite, os quais, depois de decidirem em seus corações mudar de mentalidade e produzir frutos de conversão, deixam-se imergir por ele no rio Jordão.
O profeta é exigente: não basta o gesto ritual do batismo para encontrar salvação diante do juízo, nem é suficiente se vangloriar da própria identidade de filhos de Abraão (cf. Mt 3,9-10). Não, é preciso um comportamento que mostre concretamente a vontade de romper com o pecado e de empreender uma vida nova…
Quem acolhe essa pregação? Não os fariseus, nem a casta sacerdotal, nem aqueles que se consideravam justos, mas sim homens e mulheres que se sentiam pecadores ou que estavam manifestamente em estado de pecado, representados no Evangelho pelo binômio “publicanos e prostitutas” (Mt 21,32).
Podemos imaginar uma fila de pessoas, incluindo também aquelas “marcadas a dedo” que vão ao encontro de João para serem imersas no Jordão: pois bem, nesse fila, entra também Jesus, que João recém-anunciou e definiu como “mais forte do que eu, quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (cf. Mt 3,11)!
O fato de Jesus ir ao encontro de João para ser batizado parecerá uma ação escandalosa até mesmo para os cristãos das primeiras gerações, alguns dos quais tentarão minimizar o evento até quase esquecê-lo. No entanto, todos os quatro evangelhos no-lo testemunham com clareza: Jesus se associa aos pecadores ao pedir o batismo a João.
O outro se opõe resolutamente: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” – mas Jesus responde: “Por enquanto deixa como está””, convidando-o a cumprir juntos a vontade de Deus, a sua justiça: e a justiça de Deus é aquela coerência particular com a qual ele pretende realizar a sua misericórdia para com os pecadores, o seu desígnio universal de salvação. João, então, consente e se submete à vontade de Jesus, que, por sua vez, se submete a ele no batismo.
Justamente no momento em que Jesus emerge daquela água carregada dos pecados da humanidade, “o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado’”.
Assim se cumprem as Escrituras (cf. Sl 22,7; Gn 22,1; Is 42,1), e a voz do Pai atesta que a sua justiça se realizou: Deus queria ver Jesus assim, no meio dos pecadores e, precisamente naquele ato de rebaixamento, queria preenchê-lo com o Espírito Santo. É nessa inesperada epifania que nos é dada a oportunidade de captar a unidade da ação de salvação de Deus: o Pai age através do Filho Jesus, conferindo-lhe todo o poder do Espírito.
A festa do batismo de Jesus também é para nós memória do nosso batismo e, ao mesmo tempo, da voz de Deus dirigida a cada um de nós: “Tu és meu filho!”. Cada um de nós é filho de Deus e é causa da sua alegria, se, reconhecendo-se pecador, empreende o caminho de conversão, de retorno a ele. Sobre cada um de nós, desce e repousa o Espírito Santo, se soubermos invocá-lo e preparar tudo para acolhê-lo.
É assim que podemos nos sentir filhos de Deus, capazes de lhe gritar: “Abba, papai amado!” e de viver com as energias do Espírito: energias ocultas que também não deixam de se mostrar eficazes na nossa vida, energias mais fortes do que o pecado e, como veremos um dia, mais fortes até do que a morte.
SOMOS NOVA CRIAÇÃO
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Nós celebramos no Batismo de Jesus a Sua investidura. Isto é, a tomada de consciência de Jesus da Sua própria missão. Naquelas palavras que se escutam do céu, “Tu és o Meu Filho muito amado, em Ti coloco o Meu amor”, Jesus descobre o caminho, o sentido e o horizonte dos Seus próprios passos.
Estes primeiros domingos, na sequência do final do tempo de Natal, trabalham também em nós a nossa própria investidura. Isto é, o que é que nós somos na história da salvação? Qual é o nosso papel? Qual é o nosso lugar? De que missão estamos nós investidos? Qual é a nossa identidade profunda?
É no fundo esse trabalho identitário, da ordem do nosso próprio ser e da relação que temos com a história da salvação, que hoje também nos é colocado como desafio na Palavra que escutamos. Temos na história da Igreja um modelo claro na figura de Paulo. No arranque da primeira Carta aos Coríntios que hoje nós lemos, a saudação inicial e o início de ação de graças, vejamos o bilhete de identidade de Paulo. Como é que ele se apresenta? Isto é, que consciência Paulo tem de si e da sua missão? Ele diz: “Paulo, por vontade de Deus escolhido para apóstolo de Cristo Jesus, à Igreja de Deus que está em Corinto, aos que foram santificados em Cristo chamados à santidade, com todos os que invocam em qualquer lugar o nome do Senhor Jesus.”
Paulo entende-se a si mesmo como escolhido, eleito por vontade de Deus para ser apóstolo, para ser missionário, mensageiro de Jesus Cristo. Ele pensa a comunidade à qual se dirige, neste caso a comunidade de Corinto, como mulheres e homens que foram transformados por Cristo, foram santificados por Cristo.
Na consciência de Paulo a nossa vida não é só aquilo que nós construímos, a nossa vida não é só o resultado das nossas ações, dos nossos projetos. A nossa vida, antes de tudo, é uma vida modificada, é uma vida transformada pelo próprio Cristo: “Aos que foram santificados por Ele.” E santificados quer dizer colocados de parte para ser especialmente trabalhados, elaborados, modelados por Cristo.
Então, o grande desafio no início deste tempo é cada um de nós descobrir-se em Cristo, descobrir o que é na ação de Cristo, naquilo que Cristo faz em nós. Talvez seja uma surpresa para nós próprios a descoberta que podemos fazer da nossa própria vida. Porque a nossa vida não é só isto que está confiado às nossas mãos, a nossa vida é infinitamente mais preciosa do que aquilo que podemos pensar porque a nossa vida não é só a nossa vida. A nossa vida é este lugar santificado por Cristo, é este lugar que recebeu a vida de Cristo, é este lugar habitado, insuflado, transfigurado pelo espírito do ressuscitado.
Cada um de nós passou a valer muito mais, e é assim que cada um é chamado a olhar para a sua própria vida, com um valor que não deriva apenas de mim mesmo mas com um valor que deriva da ação de Cristo em mim. Eu descubro-me mulher e homem, nova criatura, “nova criação” como S. Paulo também dirá. Um cristão é uma nova criação a partir da Páscoa de Jesus. Então, nós somos novas criaturas, não somos o homem velho, a mulher velha que insiste dentro de nós com as manias de sempre, as dificuldades de sempre, os limites de sempre, esta espécie de círculo vicioso que muitas vezes é o nosso quotidiano. Não somos apenas isso, somos uma realidade transfigurada, transformada pelo próprio Cristo, somos nova criação.
É interessante que Paulo se coloque na linha dos profetas de Israel. Hoje nós lemos o profeta Isaías. É interessante que os profetas de Israel entendiam a sua missão, a sua vocação, como alguma coisa que já aconteceu no seio materno. Isto é, não é numa determinada altura da nossa vida adulta que nos sentimos vocacionados ou competentes, ou desafiados a realizar um determinado serviço. Não, os profetas entendiam a sua vocação e missão como alguma coisa que desde sempre tinha estado no pensamento de Deus e Deus preparou-nos desde sempre.
Queridos irmãos e irmãs, o grande desafio neste início deste ano, neste novo entendimento de nós próprios e daquilo que somos também é um desafio a relermos a nossa história. Se calhar, olhando para a nossa própria biografia nós encontramos coisas certas e incertas, encontramos o bem e o mal, encontramos a incompletude. Mas sobretudo nós somos desafiados a encontrar o movimento da Graça de Deus, o fio da Sua misericórdia, do Seu amor, que são eternos para connosco e que desde sempre nos ampararam. Nós estamos aqui porque o Senhor nos trouxe pela mão, porque na Sua misericórdia o Senhor chamou pelo nosso nome. Mesmo que nós pensemos que estamos aqui porque viemos fazer companhia a alguém ou viemos por uma razão fortuita qualquer, isso não existe. Nós estamos aqui porque o Senhor nos trouxe até aqui, porque Ele nos conduziu até este dia, até esta hora. E com que amor o Senhor está a trabalhar cada um de nós, com que gentileza, com que expressão da caridade divina Deus está a formar, Deus está a modelar, a nossa história. Está a modelar para nós sermos capazes de apontar para Jesus. Qual é a missão do cristão no meio do mundo, no interior da história? É apontar para Jesus e é dizer aquilo que João Batista disse: “Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.”
Mas para nós podermos dizer isto com autenticidade, nós próprios devemos antes ter experimentado na nossa própria vida essa radicalidade de vida nova que Jesus coloca dentro de nós. É porque nós saboreamos, porque nós tingimos as nossas vestes no Sangue do Cordeiro, é porque nós nos atiramos para os pés de Jesus, é porque nós reconhecemos Nele Aquele que nos salva, Aquele que dá sentido à nossa história que nós podemos dizer uns aos outros: “Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Ele é o Salvador, Ele é Aquele que devia vir.”
Queridos irmãs e irmãos, há uma história para escrever. Nós temos de olhar para o tempo que nos é dado como uma oportunidade para escrever uma história. E uma história que seja, não uma história de maldição, não uma história de fatalismo, não uma história de desistência mas uma história de salvação em que olhamos para Jesus com confiança, com esse salto que é a fé e dizemos: “Senhor, Tu és o Cordeiro que me salva, Tu és aquele que repara o mundo, Tu és aquele que dá sentido à nossa vida sobre o mundo.”
Este tempo, queridos irmãs e irmãos, é por isso de uma grande responsabilidade. Que cada um de nós sinta o seu lugar, o seu papel, a sua missão. E aqui o Senhor atua em cada um de nós. Às vezes eu posso perguntar: “O Senhor atua em mim, um homem carregado de pecados? Não sei nada, não posso nada, o Senhor será que pode falar em mim?” Ora, se o Senhor falou através da burra de Balaão, não vai falar através de mim? Se o Senhor falou através das pedras, através da natureza, através da luz e da noite o Senhor não pode falar através de mim? Cada um de nós sinta que a sua fragilidade não é um obstáculo. A nossa miséria não é um impedimento. O Senhor é capaz, o Senhor pode, o Senhor transforma a nossa vida, o Senhor faz de cada um de nós instrumentos da Sua paz, instrumentos do Seu amor.
Por isso, a grande oração é aquela que hoje é proclamada pelo Salmo 39, que hoje nos é dado como palavra de Deus. O salmista, neste salmo que se acredita composto pelo rei David, diz: “Não vos agradaram sacrifícios nem oblações, mas abristes-me os ouvidos. Não pedistes holocaustos nem expiações, então clamei: aqui estou!”
Queridos irmãs e irmãos, que cada um de nós no seu coração diga isto: “Senhor, abre-me os ouvidos. Senhor, aqui estou para fazer a Tua vontade.”
Pe. José Tolentino Mendonça, Batismo do Senhor
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org
A Missão nasce no Baptismo
Romeo Ballan, mccj
O Baptismo de Jesus nas águas do Jordão é uma das três epifanias, ou manifestações mais significativas, que a liturgia da Igreja canta na solenidade da Epifania do Senhor, junto com a manifestação aos magos vindos do Oriente e ao milagre nas bodas de Cana. Também o baptismo é uma presença e uma manifestação missionária de Jesus. Liturgicamente, celebramos hoje uma festa-ponte entre a infância de Jesus e a sua vida pública. Mas há mais: desde o seu início, a pregação missionária dos Apóstolos sobre a vida de Jesus começava “desde o baptismo de João até ao dia em que Ele foi elevado aos céus” (Actos 1,22). A dimensão universal desta epifania emerge de maneira concreta das leituras de hoje.
Assim o confirma Pedro (II leitura) em casa do centurião Cornélio em Cesareia. Superada com dificuldade a resistência inicial – sua e da sua comunidade eclesial – Pedro visita Cornélio, acolhe-o e defende o seu ingresso na Igreja, afirmando uma verdade fundamental para a missão e para a teologia da salvação oferecida a todas as pessoas, mesmo se não oficialmente cristãs: “Deus não faz distinção de pessoas, mas acolhe a quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença” (v. 34-35).
O acontecimento do Baptismo do Senhor projecta uma grande luz sobre a identidade e a missão de Jesus (Evangelho). Nele, manifesta-se a Santíssima Trindade: o Pai proclama-o seu “Filho amado” (v. 17); o Espírito desce sobre Ele (v. 16). A missão de Jesus é prefigurada já no primeiro cântico do “Servo do Senhor” (I leitura), com uma tarefa que ultrapassa os limites de Israel e chega até às nações (pagãs) como luz e salvação (v. 16). A sua é uma missão que evita a publicidade e o espectáculo (v.2); em vez disso, será de sustento, recuperação e valorização dos mais frágeis (v. 3.7); contanto sempre com a força daquele que o “tomou pela mão” (v.6). Trata-se de um programa entusiasmante, capaz de encher a vida de toda a pessoa que seja capaz de amor e de ideais generosos. Podemos lembrar aqui a famosa meditação sobre o Reino, que S. Inácio de Loyola coloca ao início da segunda semana dos seus Exercícios espirituais. Além disso, convém recordar que o programa do Servo se refere seja a pessoas individuais, seja também a uma comunidade ou mesmo um povo.
No Evangelho, Jesus fazendo sua a missão do Servo e sentindo-se, ao mesmo tempo, filho e irmão, põe-se em fila com os pecadores, junto com todos, espera a sua vez para receber, também Ele, inocente, o baptismo de João Baptista para o perdão dos pecados. Manifesta-se aqui a total solidariedade que Jesus sente para com todos os membros da família humana, à qual pertence de pleno direito. Uma solidariedade que vai até ao ponto de que “não se envergonha de os chamar seus irmãos” (Eb 2,11). É muito profundo o comentário de S. Gregório de Nazianzo, descrevendo a cena do Baptismo: “Jesus sobe das águas e eleva consigo o cosmos inteiro” (Ofício das Leituras). Ele é verdadeiramente o Servo solidário e sofredor, o Cordeiro que carrega consigo os delitos de todos (cf Is 53,4-5.12). E mesmo assim, é sempre Ele o filho predilecto, no qual o Pai misericordioso se deleita!
A estupenda reflexão teológica do Nazianzeno encontra uma coincidência geográfica no lugar onde se presume que se tenha realizado o baptismo de Jesus. O lugar poderia ser Bet-Araba, o mesmo baixio do rio por onde Josué fez entrar o povo na Terra prometida (Jos 3,14 s.). Segundo os geólogos, este seria o ponto mais baixo da terra: – 400 m abaixo do nível do mar. Daquela profunda depressão geográfica, Jesus emerge das águas do Jordão, eleva-se ao alto, carregando aos seus ombros a humanidade inteira. A sua oração ao Pai poderia ser aquela que encontramos no salmo De Profundis: “Do profundo abismo a Ti grito, ó Senhor… Porque junto do Senhor está a misericórdia é com ele é grande a redenção” (sal 130, 1.7). A proximidade solidária daquele Servo, Filho e Irmão, verdadeiro Deus e homem, está na base do compromisso missionário, que para todo cristão nasce e se funda sobre o Baptismo, o sacramento que nos introduz na vida da Trindade e da Igreja.
O CÉU ABERTO E DEUS AQUI TÃO PERTO
Antonio Couto
1. Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, protegida e perseguida, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.
2. Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade Missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinóticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…
3. O Primeiro Domingo do «Tempo Comum», porta de entrada no nosso tempo existencial e celebrativo, coincide sempre com a Festa do Batismo do Senhor Jesus no Jordão, este ano narrada em Lucas 3,15-22.
4. Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Lucas: A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expetativa e se pergunta se João não será o Messias esperado. B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias). C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes Antipas (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Batismo de Jesus! D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento. Escreve: «A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Batismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Batismo de Jesus, com a intenção clara de que seja o Espírito Santo a batizar Jesus (veja-se a rutura entre Lucas 3,20 e 21). O Evangelho de Lucas é também chamado o Evangelho do Espírito Santo; daí, o protagonismo dado ao Espírito Santo. E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e batizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira ação de Jesus batizado com o Espírito: Jesus em Oração, tema caro a Lucas (é também chamado o Evangelho da Oração), e, no contexto do Batismo, exclusivo de Lucas! F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira coreografia celeste: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo: a pomba sai da Palestina em setembro/outubro e regressa com a Primavera), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 2,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).
5. A partir do Batismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Batizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Batizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Batizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adotivos (Gálatas 4,4-7).
6. Pelos motivos expostos, o Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.
7. Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que hoje temos também a graça de ouvir, que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.
8. Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.
9. Há ainda a registrar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão.
10. E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.
11. O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Atos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Batismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.
12. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que se dirige ao Filho no Batismo do Jordão e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».
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