
José Manuel Reis
Dez 19, 2025
Cortesia de
https://claustro.carmelitas.pt
A azáfama natalícia começou bem cedo. Há muito tempo que as montras se iluminaram e que a publicidade fez questão em recordar a proximidade do Natal, anunciando todo o tipo de produtos para o “natal perfeito”, parecendo querer tornar realidade o verso de Ary dos Santos, afirmando que o Natal “É quando um homem quiser”.
Mas estará verdadeiramente presente o espírito de Natal? Disse o Papa Francisco: “Estamos próximos do Natal: teremos luzes, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz”. Como continua premente esta denúncia!
Na verdade, este espírito de Natal, promovido pela sociedade comercial, tem pouco da comemoração daquele dia longínquo em que um menino nasceu na simplicidade de um estábulo em Belém, anunciando, na voz do anjo, uma mensagem profunda dirigida ao coração de cada ser humano: “Paz na terra aos homens”.
Contudo, atualmente, verifica-se precisamente o oposto dessa mensagem, pelo que este clima mercantilista apenas escamoteia a realidade vivida em cada dia.
Mundialmente, assistimos a guerras constantes, muitas delas em nome da religião, e o terrorismo marca presença diária afetando a vida normal até do cidadão comum. Tudo porque continua a vigorar o ódio, a ganância, a sede de poder, o desrespeito e usurpação dos direitos do outro.
Por seu lado, a sociedade, vista no global, “veste-se” de festa, adorna o ambiente (entra-se até numa concorrência para ver quem constrói a maior árvore ou consegue “a mais visitada e imponente iluminação”), trocam-se prendas nas instituições e organizam-se almoços/jantares, generalizam-se os formais desejos circunstanciais de Boas Festas. Contudo, no dia a dia, as pessoas continuam a ser vistas como objetos (mera força de trabalho), a exploração dos mais fracos é uma constante, com os seus direitos elementares a serem esquecidos, a frieza das relações humanas é uma realidade cada vez mais presente, passa-se por cima de tudo e todos. As prendas tornam-se, por isso, objetivo em si mesmo, mera oportunidade de afirmação social, num espírito de competição para ver quem dá/tem a melhor (mais cara) prenda, ou descargo de consciência para os comportamentos diários esvaziados de sentimentos pelo outro e de qualquer conteúdo, humano ou cristão, fazendo lembrar aqueles que, ignorando completamente as pessoas no dia a dia, se apressam a aparecer, compungidos, com ramos de flores no funeral.
Também as famílias se deixam levar por este clima em que o acessório toma o lugar do fundamental. Corre-se para comprar prendas, enchendo centros comerciais, grandes superfícies e artérias comerciais das cidades e vilas, não resistindo ao apelo constante ao consumo desenfreado, numa tentativa de compensar ou fazer “esconder” realidades que contradizem estes gestos: o esquecimento/abandono dos mais idosos, a falta de tempo para os filhos e para o outro, as muitas relações assentes no interesse, marcadas pela indiferença, pela incompreensão, pela infidelidade nas suas mais variadas formas.
Mas não sejamos radicais nem pessimistas, não percamos a esperança. Vamos continuar a acreditar que a confraternização e as prendas são importantes quando são momentos e símbolos que traduzem os sentimentos profundos que unem as pessoas.
Sigamos, pois, o conselho do papa Francisco dirigindo-se às crianças com os seus “Bambinelli”, ou seja, o Menino Jesus que será colocado no Presépio em suas casas: “Quando rezarem em casa, diante do Presépio com os vossos familiares , deixem-se atrair pela ternura do Menino Jesus, nascido pobre e frágil no meio de nós, para nos dar o seu amor. Este é o verdadeiro Natal. Se tirarmos Jesus, o que permanece do Natal? Uma festa vazia. Não tirem Jesus do Natal: Jesus é o centro do Natal, Jesus é o verdadeiro Natal, Jesus é o verdadeiro Natal, entenderam?”
Comecemos, pois, uma verdadeira mudança, a assunção desse espírito fraternal surgido do presépio, vendo o outro como irmão e não como um rival. Façamos deste Natal o início do reconhecimento do verdadeiro espírito da fraternidade, em que o outro é visto, sempre, cada dia, como o nosso próximo, continuando o movimento, humanamente revolucionário, do menino de Belém.