V Domingo de PÁSCOA (ciclo C)
João 13,31-35

Referências bíblicas
- 1ª leitura: “Tendo reunido a Comunidade, contaram-lhe tudo o que Deus fizera por meio deles” (Atos 14,21-27)
- Salmo: 114(115) – R/ Bendirei o vosso nome, ó meu Deus, meu Senhor e meu Rei para sempre.
- 2ª leitura: “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos” (Apocalipse 21,1-5)
- Evangelho: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros” (João 13,31-35)
O AMOR COMO TAREFA
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Em cada Páscoa nós celebramos a verdade central da fé cristã. Essa verdade é esta e muito simples: o Espírito de Jesus ressuscitado habita no meio de nós. Como é que nós sabemos que Ele está vivo? Como é que nós O reconhecemos presente no Emaús da nossa vida e da nossa história? Sabemos porque o Seu Espírito está derramado em cada um de nós. Nós somos, hoje, o Cristo ressuscitado, nós somos o Seu Corpo Místico, nós somos a Sua presença no mundo. Porque Ele ressuscitou e está vivo, porque de junto do Pai Ele enviou o Seu Espírito, derramado, infundido em cada um de nós, para que em cada um de nós Jesus continue presente ao mundo e à história. Por isso, é na nossa vida, são nos nossos membros, nos nossos gestos, nos nossos desejos, nos nossos projetos que nós somos chamados a reencontrar Cristo.
Onde é que O encontraremos? Não é longe daquilo que somos e daquilo que vivemos. Mas nós temos de reencontrar Cristo no estilo da nossa vida, na gramática com que organizamos a nossa vida, nos valores que são o núcleo fundamental das nossas convicções. Aí nós temos de reconhecer Cristo, e Cristo ressuscitado, e temos de abrir mais e mais o nosso coração para que Ele Se torne presente. Ele deixou-nos um mandamento, um mandamento que é absolutamente insólito porque todos os mandamentos e toda a lei chega até um certo ponto.
A lei manda-nos ser justos, manda-nos ser corretos uns para com os outros. E nenhuma lei do mundo pode pedir que nos amemos uns aos outros, nenhuma lei. O amor não cai sobre a alçada da lei. Cai o respeito, cai a tolerância, cai a compreensão, cai a justiça no trato com os nossos semelhantes, mas o amor ninguém nos pode pedir, ninguém nos pode ordenar o amor.
É interessante que mesmo da chamada herança tricolor – liberdade, igualdade, fraternidade – as nossas sociedades liberais continuam o ideal da liberdade e da igualdade, entre aspas, mas o ideal da fraternidade caiu completamente. É como se as nossas sociedades achassem que era um ideal impossível de alcançar. Já não queremos ser irmãos uns dos outros. Queremos ser livres, queremos ser mais indivíduos, queremos ter mais espaço para nós próprios, mas a fraternidade é um ideal completamente em derrota, completamente para trás.
Contudo, Jesus dá-nos um mandamento nessa linha e um mandamento ainda mais exigente: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.” Isto dá muito que pensar, porque muitas vezes nós achamos que devemos amar os outros como amamos a nós próprios. E por isso é muito importante amarmo-nos a nós mesmos para podermos amar os outros. Não está mal pensado. É importante que nos amemos a nós próprios, que nos encontremos, que tenhamos connosco mesmos uma relação equilibrada, amável, cordial para podermos amar os outros. Freud há décadas que nos veio também lembrar isso de outra forma e noutra linguagem.
Às vezes pensamos que temos de amar os outros como o outro me ama. E isso nós vemos no amor maternal, no amor paternal, como o amor incondicional que recebemos do outro tantas vezes é o modelo de amor – aprendemos a amar, aprendemos a retribuir. Então, o amor é uma espécie de resposta amorosa ao amor que nós recebemos, o amor é uma forma de retribuição. Mas não é nem de um nem de outro amor que Jesus fala. Jesus diz: “O Meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Então, sabereis que sois Meus discípulos.” A medida do nosso amor, o modelo do nosso amor, o paradigma do nosso amor é o próprio Cristo. E nós temos de aprender a amar como Ele amou, com aquela disposição, com aquela liberdade, com aquela gratuidade, com aquela capacidade de ser dom, com aquela disponibilidade para ir até ao fim, para dar tudo sem limites. Nós temos de aprender esse amor.
A grande força da identidade cristã está sempre aqui. E este tempo, o tempo da Igreja, é para nós um tempo de aprendizagem. Nós somos aprendizes, estudantes, discípulos de um amor assim. Aquilo que é o nosso móbil, o horizonte de sentido da nossa vida é podermos alcançar um amor assim. E sentimo-nos felizes e sentimo-nos livres e sentimo-nos autênticos e sentimo-nos cristãos quando, às vezes por momentos, por um momento, por um dia feliz nós somos capazes de um amor assim, quando em pequenos ou em grandes gestos nós somos capazes de repetir a lição amorosa de Jesus Cristo: “ É este o mandamento que vos deixo.”
Queridos irmãos, a herança de Jesus é esta: é nos dar como tarefa o amor, como mandamento o amor. Aquilo que nenhuma constituição, nenhuma lei, nenhuma ordem nos pede é o que Cristo exige, reclama do nosso coração. Por isso, nós somos um povo mobilizado para o amor, e para um amor que tem a sua medida no amar sem medida, na capacidade de doação, na capacidade de entrega. Será que nós vivemos isto? Será que nós estamos disponíveis para isto?
A grande aventura cristã não é uma aventura ideológica. Os discípulos não tinham muito para dizer. Imaginemos Pedro: Pedro fez aquele caminho com Jesus, mas aquele pobre pescador, do lado de Tiberíades, o que é que ele tinha para dizer aos atenienses que sabiam muito mais de filosofia do que ele? O que é que ele tinha para dizer aos mestres judeus que tinham lido mil vezes a Bíblia mais do que ele? O que é que ele tinha de dizer aos Romanos que inventaram o direito e que eram uma civilização muito superior? O que é que ele tinha para dizer? Não tinha nada. Para dizer verdadeiramente, para anunciar uma novidade excitante de pensamento não tinha nenhuma. A única coisa que ele trazia era este mandamento: “Eu dou-vos um mandamento novo.”
É essa a grande novidade, é isso que é inédito na história do mundo, na pequena história de cada um de nós: recebermos este mandamento e fazermos dele o ponto de partida da nossa vida, o ponto de mudança, o ponto de radicação do nosso viver, podermos acreditar que é aí que se joga verdadeiramente a nossa felicidade. E o que nós vemos de extraordinário no Cristianismo das origens é como isso toca verdadeiramente, por isso as multidões diziam: “Vede como eles se amam.” Porque é esse amor que se torna o distintivo cristão. Por isso, um homem como Paulo de Tarso é capaz de chegar àquelas cidades helenísticas romanas e começar a criar comunidades que são absolutamente inéditas, absolutamente insólitas, porque são comunidades formadas por homens e mulheres, por judeus e gentios, por escravos e por homens livres, por ricos e proletários, todos juntos numa comunidade a escutar a palavra e a celebrar a eucaristia.
O mundo grego, na perfeição que é – o Fernando Pessoa dizia: “nunca mais nos livraremos dos gregos” e é verdade no sentido da dívida que temos para com eles – no auge da sua imensa sabedoria e criatividade, não foi capaz de criar uma comunidade assim. O mundo romano, no seu saber – e nunca mais nos livraremos deles porque eles criaram um instrumento tão extraordinário como o Direito, por exemplo, para lá da língua – não foi capaz de criar um mundo assim.
Quer dizer, toda a cultura, toda a riqueza, todo o engenho, toda a arte não foi capaz de criar uma comunidade de homens e mulheres indistintos que se juntam à volta de uma mesa e se amam, e se consideram irmãos. Agora a pergunta é: a nossa sabedoria para que é que nos serve? A nossa riqueza para que é que nos serve? Aquilo que temos, aquilo que trazemos, aquilo que construímos para que é que nos serve? Para que é que nos tem servido? Para que é que nos tem servido se não for para juntarmos à volta da mesa do amor, à maneira de Jesus Cristo, os nossos irmãos? E quando se diz: “Os nossos irmãos” em linguagem cristã diz-se “qualquer um, qualquer uma”. Isto é, quando formos capazes de amar qualquer homem, qualquer mulher como um irmão nosso, aí nós sentimos verdadeiramente que a lição de Jesus Cristo se torna efetiva em nós.
Para que é que nos serve a nossa vida, as nossas batalhas, as nossas conquistas, o que sabemos e o que ignoramos, o que temos e o que não temos se não for para isso? “Deixo-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei, nisso reconhecerão que sóis Meus discípulos.”
O novo comandamento
Marcel Domergue sj
Os tortuosos caminhos da glória
Judas tinha acabado de sair, ou seja, acabado de romper com a comunidade dos discípulos, para ir participar como traidor da condução de seu Mestre à morte. Tratava-se de provocar a destruição de Jesus. Com a intenção de forçá-lo a agir, enfim, no sentido de tomar o poder? Alguns sustentam que sim, mas nenhum texto vem corroborar esta interpretação psicológica.
Jesus vai ser detido, caluniado, rejeitado, suprimido, excluído do mundo dos vivos. E, no entanto, este caminho de decadência transforma-se em caminho de glória! Só “agora”, após a saída de Judas, “foi glorificado o Filho do homem, e Deus foi glorificado nele”. Mas o que é a glória? Podemos responder: a honra, o poder, a vida em plenitude. Mas, resumindo isso tudo, podemos acrescentar: a verdade.
De fato, trata-se de alguma forma da “reputação” de Deus entre os homens; da maneira pela qual O vemos. A nossa visão de Deus é, porém, mais ou menos falseada por aquela antiga mentira, que nos apresenta Deus como um egoísta transcendental: um Deus que nos engana, por medo de que nos tornemos “como ele”. Alcançar a sua imagem e semelhança seria punido com a morte.
Cristo, a verdadeira “imagem do Deus invisível”, é quem vai sofrer esta morte, não como uma punição “em nosso lugar”, mas como o ato intransponível de amor, que o faz desposar o nosso infortúnio. Deus, então, será glorificado em Cristo. Irá, por fim, revelar-se tal qual Ele é: Amor, dom de Si mesmo. O Mentiroso foi desmentido.
O Filho glorificado
E tudo se realiza num ato só. Por que o Pai é glorificado? Porque este a quem chamamos de Filho, e que se faz um só com Ele, entrega livremente a sua vida aos que querem tirá-la. Daí, ficamos sabendo que a vontade de Deus consiste em submeter-se à vontade do homem. E esta exigência do amor conclama a reciprocidade: ao final do percurso, o homem desposará, por sua vez, esta decisão de amor.
Desde o ponto de partida, o homem Jesus fez sua, esta vontade do Pai: fazer-se em alimento para o homem. É o que se revela em Getsêmani, mas que já havia sido anunciado desde o início do evangelho de João: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra” (4,34). Resumindo, o que aprendemos na cruz é que há somente uma vontade para o Pai e para o Filho, ou seja, que Ambos se fazem Um só. Daí a expressão “Filho de Deus” ganha um novo sentido e vamos acabar dizendo que Jesus é Deus; Deus em nossa carne.
A Ressurreição não aparece mais, então, como uma espécie de milagre surpreendente, mas sim como uma necessidade: Jesus está vivo, é o Vivente, e as mortes que promovemos não são mais fortes que ele. O Cristo Jesus aparece na glória da vida de Deus porque esta glória é sua por origem. O paradoxo é que esta glória manifestou-se mediante a aceitação da perda da glória. Perdendo-se por nós e para nós é que Deus nos ensina o que é ser Deus.
Reviver o amor pascal
Aqui se pede um comentário. Deus, por certo, revela-nos muito bem o que Ele é, e Jesus diz exatamente: “Quem me viu, viu o Pai” (João 14,9). Entretanto, se sente a necessidade de dizê-lo, é porque isto não nos salta aos olhos. Paulo dirá que, por ora, “vemos em espelho e de maneira confusa” (1 Coríntios 13,12). Quem é este Jesus? Como é ele de verdade? Não terminaríamos nunca de responder a estas perguntas… Por isso, exatamente, é que não paramos de comentar os evangelhos e que os teólogos continuam a acumular volumes de escritos.
Deus, mesmo tendo se revelado em Cristo, permanece sempre para além das nossas percepções. Ele está aí, entregue em nossas mãos, mas a maneira atual que temos de “possuí-Lo” é buscando-O. Mas isto é tudo? Não. As últimas linhas do evangelho de hoje nos falam do “mandamento novo”. Jesus se foi e os homens não terão mais diante dos olhos a sua humanidade reveladora do Pai. Agora, só podemos ver Jesus através do testemunho dos evangelhos. Mas um livro por mais inspirado que seja não é suficiente.
Para tornar sensível a presença atual de Cristo, é preciso também o testemunho vivo que possamos dar dele: o nosso amor mútuo. Amor que, forçosamente, não reside nos sentimentos, mas que reproduza a sua atitude para conosco: “Tende entre vós (ou em vós) as mesmas atitudes de Cristo Jesus” (Filipenses 2,5). Paulo continua recapitulando a obra pascal. Onde houver um amor como este Deus aí está.
Amar como Jesus
Marcel Domergue, sj
O Pai e o Filho do homem são glorificados
Quer no Antigo quer no Novo Testamento, e, portanto, também na Liturgia, o tema da glória ocupa um lugar de destaque. Isto porque representa o resultado da obra divina. Devemos dizer imediatamente que, assim como todas as realidades que pretendem significar o que acontece em Deus e com Deus, este cumprimento deu-se «já e ainda não». Do mesmo modo que para a vinda de Cristo «os tempos se cumpriram», mas ainda esperamos a sua volta «no final dos tempos».
Paulo diz que «na esperança estamos salvos» (Romanos 8,24). Mas não esqueçamos que a esperança é certeza. Glorificar a Deus, «dar-lhe glória» é desde já reconhecer ser Ele o amor absoluto, sem mistura nem reserva; um amor de tal ordem que temos de acreditar n’Ele sem sequer poder imaginá-Lo. Deste amor temos somente uma prova: Cristo, o único justo, a única imagem do Deus invisível que deu sua vida pelos injustos. Sua vida, que é vida divina, a estes injustos, nós, que quiseram tomá-la. Mas em vão! Pois ele justamente nos deu isto de que queríamos nos apoderar. Nosso gesto predador encontrou-se, assim, sem objeto. Não há como apoderarmo-nos do que nos é dado; só podemos recebê-lo. O amor incompreendido torna-se então passível de ser conhecido.
Ora, o tema da glória comporta exatamente este aspecto, de conhecimento e de reconhecimento da nossa parte: para a fé, dar glória a Deus é proclamar que Ele é amor e somente amor. «Dar glória»: o verbo «dar», aqui, significa que o dom precede o nosso louvor, expressando o nosso retorno para Deus, a nossa origem. Damos o que recebemos, para que isto nos seja restituído, numa troca que não se interrompe mais. Em Gênesis 28,12, Jacó vê os «Anjos» descendo até ele e subindo de volta para Deus, numa escada que une a terra ao céu.
Habitados pela glória de Deus
A glória de Deus vem nos visitar e, assim, também nós somos «glorificados». Como isto se dá? Em Cristo, é claro. É o «Filho do homem», último e definitivo fruto da humanidade, que vai ser glorificado. E nós somos chamados a nos fazermos um só com Ele; a tornarmo-nos o seu «corpo». Assim, a glória de Deus encherá todo o universo. Isto significa que o amor, este outro nome de Deus, habitará todas as coisas. Será preciso muito tempo para que todos os homens lhe abram suas portas.
«Os tempos se cumpriram» significa que, em Cristo, tudo já nos foi dado. Mas este «tudo» não pode se tornar nosso sem o nosso consentimento. Enquanto esperamos, o Filho do homem antecipa este término, dando sua vida e fazendo-se assim, totalmente, um corpo só com o Amor que funda todas as coisas e ao qual chamamos de «Deus». Na Páscoa, completou-se o que chamamos de «Encarnação»: o Filho, tendo-se tornado plenamente humanidade e emprenhado de todos os homens, entra nesta glória que é a radiação de Deus.
Não vamos, pois, buscar a glória de Deus nem longe nem alto demais. Ela está aqui: a terra está cheia dela; ela nos habita. Claro que só através da fé podemos tomar consciência da presença desta glória divina. Estamos habituados a ver o sol se levantar, as estações se sucederem, as colheitas amadurecerem abundantes, a vida se gerar e germinar, e pensamos ter dito a última palavra qualificando tudo isto como «fenômenos naturais». Temos razão, mas a fé nos dá acesso à face escondida da natureza, à glória que lhe serve de fundamento. Da mesma forma que o Cristo é «glorificado» e que, nele, a natureza vive passando pela morte com vista a um renascimento. A glória tem a última palavra.
O amor, presença de Cristo
Podemos nos surpreender ao ouvir Jesus dizer para os discípulos «Por pouco tempo ainda estou convosco.» E ainda insiste: «Vós me procurareis e, como eu havia dito aos Judeus, agora também vo-lo digo: para onde vou, vós não podereis ir» (passagem omitida no texto litúrgico). De fato, ele tinha de atravessar sozinho a sua Paixão. Mas há algo mais aí: Jesus, dali em diante, não estará mais ao alcance nem das mãos nem dos olhos dos seus discípulos; estes não mais ouvirão sua palavra diretamente.
Isto acaso significa que não lhes estará mais presente? Certamente que não! Lembremos suas últimas palavras conforme Mateus: «Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.» Muitas outras passagens nos falam desta proximidade do Cristo ressuscitado: tornamo-nos um só com Ele. O discurso de depois da última Ceia, de onde se tirou este evangelho, repete isto de diversas formas. Insistência, aliás, que significa não ser isto algo que nos salte aos olhos.
Devemos repetir que a presença de Cristo daí em diante só nos será perceptível pela fé. E mais, ela se realizará somente através dos outros ou, mais exatamente, ela nos habitará quando aceitarmos nos unir a eles para formarmos um só corpo. E este corpo, então, se tornará o seu Corpo. Lembremos Mateus 18,20: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles» (ver também João 14, 23).
Tudo isso está em plena coerência com o «novo mandamento» dado pelo Cristo em seguida ao anúncio da sua partida: é o amor que constrói o Corpo. Onde e quando existe o amor, Deus está aí; o Cristo está aí. Não é o que nos diz a Trindade? Ser Deus relações? O amor é o que religa e que alia. Deus é isto.
O amor fraterno: força explosiva, contagiante, missionária
Romeo Ballan, mccj
O Evangelho apresenta-nos dois momentos contrastantes, humanamente irreconciliáveis. Durante a última Ceia, Jesus fala com insistência da sua «glorificação»: fala disso pelo menos cinco vezes (v. 31-32). Judas acaba de sair do Cenáculo e entra naquela trágica noite (v. 30), levando no coração o seu mistério. O contraste é paradoxal: faltam apenas algumas horas para a detenção e morte na cruz, e todavia Jesus obstina-se em falar de glorificação. A sua glorificação é o momento da morte-ressurreição, como o grão de trigo que cai na terra e morre para dar fruto (cf. Jo 12,24.20-21). Ser grão de trigo é o seu bilhete de identidade. Estranha glória na loucura da cruz! Com a sua morte-ressurreição Jesus revela quanto é grande o amor de Deus que salva todos.
À luz deste amor divino que ultrapassa todas as medidas, percebe-se a grandeza do mandamento novo (v. 34), que Jesus deixa aos seus «filhos-discípulos» como distintivo de reconhecimento: «amai-vos uns aos outros, como eu vos amei» (v. 34-35). A insistência de Jesus acerca do amor recíproco – repete-o três vezes em dois versículos – tem as características de um testamento importante acerca de um mandamento que Ele, com razão, define como «novo».
O Antigo Testamento prescrevia: «amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lv 19,18). Jesus vai mais longe:
1. Em primeiro lugar, a Sua medida não é mais apenas o «como a ti mesmo», com as incertezas e os erros próprios do egoísmo, mas o «como eu vos amei»; com a certeza e a medida incomensurável do amor divino.
2. Depois, o amor que Jesus propõe é novo, porque é completamente gratuito: não procura razões para amar, ama mesmo quem não o merece ou não pode retribuir, ama até quem faz o mal…
3. Trata-se de um mandamento novo, porque «nunca ninguém antes de Jesus tentou construir uma sociedade baseada num amor como o seu. A comunidade cristã é posta assim como alternativa, como proposta nova a todas as sociedades do mundo, às sociedades baseadas na competição, no mérito, no dinheiro, no poder. É este amor que há-de “glorificar” os discípulos de Cristo» (F. Armellini). É um novo princípio associativo, uma força especial de agregação. «Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos…» (v. 35): o amor recíproco e gratuito tem uma força irresistível, contagiante e explosiva de irradiação missionária. O amor recíproco alimenta-se no perdão, na reconciliação, no sofrimento, na auto-doação, na recusa da violência, na obra de paz…
Só o amor é capaz de inspirar e tecer relações novas e vitalizantes entre as pessoas; só a revolução do amor é capaz de transformar as pessoas e, por conseguinte, as instituições. Assim o ensinava também Raoul Follereau, «apóstolo dos leprosos e nómada da caridade»: «o mundo tem apenas dois destinos possíveis: amar ou desaparecer. Nós escolhemos o amor. Não um amor que se contenta com lamentações sobre os problemas dos outros, mas um amor de luta, um amor-revolta. Pela sua vinda, pelo seu reino, nós lutaremos sem descanso e sem cessar. É preciso ajudar o dia a despontar».
Quem assume este desafio, aceita a utopia de «um novo céu e uma nova terra» (II leitura), entra na «morada de Deus com os homens» (v. 3), onde não haverá lágrimas, morte, gemidos (v. 4), graças à fé Naquele que tem poder de «renovar todas as coisas» (v. 5). Implícita uma sociedade que se funda e tem como objectivo a civilização do amor. A própria missão de Paulo e Barnabé (I leitura) tinha este objectivo: abrir «aos gentios a porta da fé» (v. 27), exortar os discípulos a «permanecer firmes na fé porque temos de sofrer muitas tribulações para entrar no reino de Deus» (v. 22). Esta primeira grande viagem missionária de Paulo (Actos 13-14) é uma página intensa e estimulante de metodologia missionária: pelo modo como a comunidade cristã de Antioquia escolhe os missionários a enviar, pela coragem (parresía) de Paulo e Barnabé em anunciar o Evangelho de Jesus aos judeus e aos gentios, pela criação de novas comunidades eclesiais e a designação de alguns presbíteros como seus guias, pelas novas fronteiras geográficas de evangelização para além dos territórios habituais do Antigo Testamento e dos Evangelhos, pelo confronto com a comunidade de Antioquia ao seu regresso, pela contínua confiança no Senhor que acompanha sempre os Seus… Numa palavra, um modelo de praxis missionária!