III Domingo de PÁSCOA (C)
João 21, 1-19


pedro

A ousadia da confiança
José Tolentino Mendonça

Neste tempo Pascal nós lemos em contínuo os Atos dos Apóstolos. Nos Atos dos Apóstolos surge-nos uma imagem ideal ou idealizada de comunidade cristã. Nós vemos os apóstolos que conhecemos dos Evangelhos, como Pedro, que nos Atos dos Apóstolos nos são descritos cheios de coragem, de desassombro, capazes de fazer tudo, de chegar para a primeira linha e com toda a abertura anunciar a sua fé num testemunho, arriscando e sofrendo o próprio martírio.

A Igreja dos Atos é uma Igreja mobilizada, uma Igreja militante, uma Igreja inflamada no testemunho. A imagem que nos aparece do conjunto é a de uma Igreja capaz de colocar a fé em Jesus como centro agregador e transformador de uma nova cultura de relação. Por exemplo, os cristãos da primeira comunidade colocavam tudo em comum e viviam uma espécie de comunitarismo em que tudo era partilhado, suprindo assim as insuficiências, a pobreza e as dificuldades que podiam sentir. É assim um retrato de uma comunidade onde o amor parece que não tem falhas, onde o amor é de facto uma trincheira ativa e ideal.

Depois nós olhamos para a nossa vida e sentimos que não é assim. Por um lado, vemos o ideal que nos é descrito e que nos é pedido, este quase heroísmo que é a santidade dos primeiros apóstolos, e depois olhamos para a nossa vida e vemos tanta fragilidade, tanta imperfeição, às vezes tanta dificuldade em dizer “sim”, tanto temor em testemunhar, em dar um passo, tanto calculismo em abrir o nosso coração e às vezes os cordões da nossa bolsa. Sentimos que há aqui como que um desacerto entre o modelo de fé que os Atos dos Apóstolos nos oferecem e a nossa própria realidade que é muito mais frágil, muito mais indeterminada, muito mais incerta.

É interessante que os Evangelhos vêm em socorro da nossa dificuldade. Hoje, por exemplo, este conjunto de narrativas que nos são lidas no final do Evangelho de S. João são muito, muito claras. Os discípulos vão pescar e não apanham nada. E isto depois de uma noite de esforços, de trabalho, de terem projetos e desejos e depois nada se concretizar – ser o contrário das nossas expectativas é alguma coisa que faz parte da nossa vida e faz parte da nossa experiência de fé.

É importante reconhecer que muitas vezes há uma esterilidade na nossa fé, que nós não conseguimos por nós próprios aquela fecundidade, aquela abundância, aquele testemunho, aquele fervor que nós  gostaríamos. Mas é muito belo porque o Evangelho de João mostra-nos que a fecundidade não depende de nós, é a Palavra de Jesus que lhes manda atirar a rede para outro lado. É confiados nessa Palavra, agarrados nessa Palavra, que os discípulos de todos os tempos veem a sua esterilidade se transformar numa fecundidade.

Então, o importante não é o ponto de partida, não é dizer: “Ah, tu tens o barco cheio. Tu tens as redes cheias. Tu tens as redes vazias.” Isso não importa nada, o que importa é que tu confies na palavra que Jesus diz e para onde Ele te manda lançar as tuas redes tu ouses, ouses mandar as Suas. Esta ousadia da confiança é aquilo que nos é pedido. Nós olhamos para nós e não temos vidas ideais, não temos uma comunidade ideal. Mas a que é que nós somos chamados? A não desistir de acreditar, a não desistir de confiar nesta Palavra que nos é dita: “Atira as redes para ali.” – nós podermos confiar nessa Palavra.

Depois é muito interessante que os discípulos apanham estes 153 grandes peixes mas Jesus aparece numa imagem curiosa, Jesus aparece como cozinheiro. Não apenas como comensal ou anfitrião, mas é Ele que está a assar os peixes na margem do rio naquele amanhecer. E é Ele que lhes dá de comer. É importante nós percebermos que a fé é sempre dom, é sempre um dom recebido, é sempre um convite para acolhermos, para recebermos no nosso coração. E é nesta atitude de acolhimento que nós nos temos de colocar sempre, em todos os tempos, em todos os momentos da nossa vida.

E se este tempo pascal é também um tempo de formação e de envio em missão da própria Igreja, quais devem ser as nossas atitudes fundamentais de testemunhas do Ressuscitado? A primeira é a dependência de Jesus, nós sermos dependentes da sua Palavra. E a segunda é percebermos que Ele é o dom, que Ele é a dádiva. Por isso, precisamos de abrir o nosso coração àquilo que Ele nos dá.

Queridos irmãs e irmãos, um cristão é uma consequência, é uma consequência não é uma causa. Nós vivemos na dependência de Jesus, por isso é tão importante a vida de oração: o espaço que nós damos à oração na nossa vida, o espaço que nós damos ao aprofundamento da Palavra de Deus, ao mergulhar no  conhecimento de Jesus, ao estarmos em silêncio perante a Sua Cruz, ao ligarmos o nosso coração ao Seu coração. Isso é tão decisivo! Porque aquilo que nos distingue não é uma capacidade de fazer, não é uma perfeição. Aquilo que nos distingue é vivermos do acolhimento. É esta espécie de vida ligada, conectada continuamente a Jesus, é isso que nos define como mulheres e homens cristãos.

É muito interessante o diálogo que Jesus tem com Pedro, este diálogo final. Na tradução portuguesa parece de facto um bocado estranho, parece um diálogo de surdos porque Jesus está a insistir a perguntar a Pedro: “Pedro, tu amas-Me?” E Pedro responde sempre: “Senhor, sabes que Te amo.” E o Senhor parece que está simplesmente a repetir a pergunta. De facto, a tradução é sempre muito limitada porque há aqui um jogo de palavras que é muito importante. Temos aqui um jogo entre duas palavras gregas, o verbo agapao que quer dizer “amar” e o verbo phileo que também quer dizer “amar” mas quer dizer mais “gostar”.

Ágape é aquele amor incondicional, aquele amor fusional, aquele amor absolutamente radical. E o phileo é o amor dos amigo, que também é um amor radical, que também é um grande amor, mas é mais um gostar. É um amor que não dá aquele passo para a radicalidade última.

Então, o jogo de palavras é este: Jesus pergunta a primeira vez “Simão, tu amas-Me?” e pergunta com este “Tu amas-Me com este amor incondicional, com este agape, amas-Me?” E Pedro responde “Senhor, eu amo-Te.”, mas quer dizer “Senhor, eu gosto de Ti, eu gosto de Ti.” A palavra que ele usa é phileo e pela segunda vez o Senhor pergunta: “Simão, tu amas-Me, com este amor incondicional, com este agapao?” E Simão volta a responder: “Senhor, tu sabes que eu gosto de Ti.” e responde com o phileo. De maneira que um pergunta uma coisa e o outro responde outra, não é exatamente: “-Tu amas-Me? – Eu amo-Te.” Há aqui uma distinção da gradualidade entre a pergunta e a resposta.

E depois, a grande surpresa é na terceira pergunta de Jesus. Porque na terceira pergunta é como se Jesus desistisse de perguntar a Pedro “Pedro, tu amas-Me com este amor incondicional, com este amor radical?”  e adapta-Se ao verbo que Pedro estava a usar e pergunta-lhe: “Pedro, tu amas-Me? Tu gostas de Mim?“ E usa mesmo o verbo, phileo. Então nós percebemos a tristeza de Pedro. Pedro, conhece a fragilidade. Ele escolhido para ser o primeiro de entre os apóstolos, ele sabe que é capaz de trair, que é capaz de negar. Este Pedro que está no diálogo com Jesus é um Pedro que viveu a sua própria miséria, a sua fragilidade mais extrema, que sabe como sozinho não consegue, não consegue sustentar aquilo que Deus merece, aquilo que Deus espera completamente de nós. Pedro sabe isso e não consegue dizer “Eu vou amar-Te com esse amor incondicional, sempre.” e diz “Sabes que eu Te amo, mas amo-Te como posso amar.”

E o que é fantástico é que não é Pedro que se adapta ao verbo de Jesus mas é Jesus que Se adapta ao verbo de Pedro, é Jesus que vem ao encontro de Pedro e diz: “Pedro, tu amas-Me? Tu gostas de Mim?” Fica triste por Jesus Se ter de adaptar a ele, por não ser capaz de coisas maiores, dele não ser capaz de dar mais, de dar tudo, de se dar completamente, dar um amor garantido, um amor sem falhas. Ele fica triste e diz: “Senhor, Tu sabes tudo, tu sabes que eu Te amo, sabes tudo. Sabes a nossa vida, sabes tudo.” Jesus adapta-Se à capacidade de Pedro, Jesus vem em socorro da capacidade de Pedro. Jesus aceita o amor com que Pedro o pode amar como Jesus aceita o amor com que cada um de nós o pode amar. Jesus aceita esse amor mas Jesus não deixa de dizer a Pedro: “Pedro, segue-Me, segue-Me.”

Se calhar o amor com que nós amamos é um amor imperfeito, é um amor inacabado, é um amor pouco esclarecido, é um amor exíguo, é um amor insuficiente. Não é um amor isento, não é um amor completamente purificado, mas Jesus não deixa de dizer: “Com o amor com que Me podes amar, segue-Me, segue-Me. “ (…)

Jesus vem ao encontro da fragilidade do amor com que Pedro o pode amar mas não desiste de lhe dizer: “Segue-Me, segue-Me.”

Queridos irmãs e irmãos, estamos em tempo pascal. É um tempo para sentir Jesus ressuscitado nas nossas vidas. Ele reabilita a mulher e o homem que nós somos, Ele dá força à nossa vida, Ele enche-nos de confiança, enche-nos do Seu Espírito e diz: “Segue-Me, segue-Me.” Que nada seja um impedimento para nós o seguirmos. “Ah, mas a perna dói-me, a alma dói-me, ou não tenho isto, falta-me aquilo, não correspondo, não sou, não posso.” – que nada (como estás, como és, com aquilo que vives) seja obstáculo a este desafio que o Senhor nos faz. “Segue-Me, segue-Me”, faz a experiência, faz a experiência do seguimento. E é esta palavra que permite também às nossas vidas a experiência feliz da Páscoa.

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O que os apóstolos podiam esperar do Ressuscitado? Eles não tinham a consciência clara: haviam fugido, o haviam abandonado, haviam se deixado tomar pelo medo, alguns o haviam traído, quase ninguém estava sob a cruz. Talvez imaginavam que, se Jesus tivesse aparecido, ele os teria repreendido e criticado. Ao invés disso, o Ressuscitado, apresentando-se a eles, não julga o comportamento que eles tiveram, não crítica, não condena, não lhes joga na cara as recordações dolorosas da sua fraqueza, mas conforta e consola.

As únicas palavras de crítica dirigidas tanto aos discípulos de Emaús (Lc 24, 25), quanto aos apóstolos (Mc 16, 14), não se referem ao fato de que eles o abandonaram e que, depois de tantas promessas, tantas palavras altissonantes (morremos, contigo, iremos ao teu encontro) revelaram-se não confiáveis; referem-se, ao contrário, à sua pouca fé.

Eles deveriam ter acreditado nas Escrituras, nas suas palavras e no Testemunho daqueles que o tinham visto ressuscitado. Jesus, que quer o bem desses pobres apóstolos atordoados, perdidos, confusos, humilhados, interiormente abalados pela certeza de serem tão fracos, não leva em conta a sua fragilidade, mas os consola e os levanta.

Detenhamo-nos sobre alguns exemplos de discípulos consolados.

O primeiro está no relato de João 20,11-16: Maria Madalena que chora ao sepulcro porque se despedaçou o laço terreno com o Mestre. Jesus não a repreende, mesmo que as suas lágrimas se devam à falta de fé, à incompreensão do mistério do Ressuscitado. Muito delicadamente, interpela a mulher, entra na dor que ela vive a partir da sua situação confusa: “Por que choras? A quem procuras?”. Depois, ouve a resposta estranha e equivocada: “Diga-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo”. Então, a chama pelo nome, “Maria!”, uma palavra que a enche de consolação e lhe permite reconhecê-lo em verdade e plenitude.

O agir de Jesus é um modelo estupendo de consolação que, passando por cima de todos os defeitos, capta o melhor da pessoa. Ele sabia que Maria o amava e, pronunciando o seu nome, ressuscita a chama do seu amor.

O segundo exemplo refere-se aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Enquanto o episódio de Madalena representa a passagem do pranto à exultação, o dos discípulos de Emaús representa a passagem da confusão à clareza. Os dois não choram, mas estão perdidos, desiludidos porque Jesus não reconstruiu o reino de Israel; estão tristes com a morte do Mestre e, ao mesmo tempo, abalados pelas notícias de algumas mulheres que afirmam que o Senhor está vivo. Jesus aproveita a ocasião da sua desilusão e da sua confusão para explicar as Escrituras, aquecer o coração e levá-los para diante da mesa eucarística.

Aqui também, com infinita paciência, ele age positivamente, os ilumina e o faz compreender o sentido, a unidade, a ordem, a coerência, a logicidade, a necessidade dos textos sagrados. É uma espécie de lectio divina, que esclarece e aquece o coração. Os dois discípulos, sem entender quem era aquele que falava com eles, se diziam com espanto: reencontramos a paz, a serenidade, o conforto; os bloqueios que nos entristeciam foram superados, e aquelas que pareciam ser desgraças, agora sabemos lê-las como situações providenciais. Jesus realiza uma consolação tipicamente bíblica, que consiste em explicar, a partir das Escrituras, a razão de uma história, de um episódio.

Ainda em Lucas 24, o Ressuscitado aparece aos discípulos (vv. 36-42). É a passagem do medo à alegria. De fato, eles estão cheios de medo; a própria hipótese de que Jesus ressuscitou os assusta, e eles quase temem ser rejeitados, ouvirem dizer: não os conheço mais, vocês são incoerentes, mentirosos, fanfarrões.

Jesus, aqui também, não pronuncia nenhuma das palavras que eles temiam. Com imensa paciência, faz-se reconhecer: olhem, sou eu, toquem-me, deem-me de comer; ele se esforça para colocá-los à vontade, apresentando-se como um deles, próximo deles, como amigo.

Extraordinária, enfim, é a manifestação de Jesus aos discípulos no lago de Tiberíades e a conversa com Pedro, onde a passagem é da vergonha à confiança (Jo 21, 1-19). O Ressuscitado não critica ninguém: estando à margem do lago, aconselha como fazer uma boa pesca e assim enche o coração dos discípulos de satisfação humana, quase sublinhando que ele está sempre disposto a lhes ajudar.

Ainda alguns anos antes, Pedro tinha experimentado isso no lago de Tiberíades, quando tinha jogado as redes ao largo segundo a palavra do Senhor.

Quando os discípulos retornam para a orla, Jesus lhes oferece de comer, sem dizer nada, para não apressar as coisas, para fazer com que eles consigam se refocilar e repousar depois de terem trabalhado toda a noite. É um toque muito delicado.

Posteriormente, por três vezes, faz a Pedro a pergunta: “Pedro, tu me amas?”, que permite implicitamente que Pedro remonte à sua traição, sem nenhuma censura.

Ao contrário, ele lhe entrega o mandato, renovando-lhe totalmente a confiança: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas”.

Essa é verdadeiramente consolação real: não aproveitar da humilhação alheia para zombar, pôr de lado, mas sim reabilitar, restaurar a coragem, restaurar a responsabilidade. Para consolar assim, eu penso que é preciso ser como Jesus, isto é, ter em si uma grande alegria, um grande tesouro, porque então é fácil comunicá-lo. O Senhor, que tem o tesouro da sua vida divina, faz cair a consolação como um bálsamo, gota a gota. E nós, na certeza de estar em comunhão com ele, podemos fazer cair a consolação gota a gota, sem críticas nem presunção.

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Respira-se ar fresco, ar de universalidade e de missão no mundo. O terceiro encontro de Jesus ressuscitado com o grupo dos discípulos (Evangelho) dá-se não já no Cenáculo de Jerusalém, a portas fechadas, mas ao ar livre, nas margens do lago da Galileia, numa manhã de primavera. A questão é que aquela pesca milagrosa pós-pascal e a missão que Jesus confia a Pedro são narradas com uma linguagem própria da experiência mística, com rica simbologia, e com notas de profunda afectividade. Assim é possível colher a mensagem na sua globalidade: o regresso ferial à pesca, o número de sete pescadores, o mar, o facto de pescar, a noite infrutífera, a alba, o Senhor na margem, a pesca abundante, o fogo para a refeição, o banquete; e depois a missão confiada a Pedro com um surpreendente teste sobre o amor, a tríplice entrega do rebanho, o empenho de um seguimento para toda a vida até à morte

O simbolismo místico enriquece a cena e oferece uma compreensão mais plena e universal a respeito. Por exemplo, se o mar é símbolo das forças inimigas do homem, pescar e tornar-se pescadores de homens (Mc 1,17) significa libertar das situações de morte, e a pesca torna-se símbolo da missão apostólica. O sucesso de tal missão, embora arriscada, vê-se nos «153 grandes peixes» (v. 11). De entre as muitas interpretações deste número, sublinho duas: acima de tudo a exactidão contável de uma testemunha ocular, mas também o simbolismo de «50 x 3 + 3», onde o 50 é símbolo da totalidade do povo e o 3 indica a perfeição. Não escapa portanto nenhum peixe. O banquete, ao qual são convidados por Jesus, lembra a conclusão da história da salvação. E na tríplice entrega missionária, Pedro torna-se pastor de todo o rebanho.

As várias aparições do Ressuscitado podem-se classificar em dois grupos: aparições de reconhecimento, nas quais Jesus quer em primeiro lugar dar-se a conhecer como “vivente”, e as aparições de missão, nas quais Jesus dá encargos precisos de aplicação imediata (ide dizer a…) ou de longo prazo (ide por todo o mundo, fazei discípulos de todas as nações…). Desse modo, gradualmente, vai-se delineando para os discípulos o alcance universal do acontecimento “ressurreição”: o Ressuscitado (I leitura) é «chefe e salvador» de todos os povos (v. 31) e esta Bela Notícia deve ser anunciada a todos, por toda a parte! Obedecendo a Deus em vez de obedecer aos homens! (v. 29). Os discípulos começam a fazê-lo de imediato na qualidade de testemunhas dos acontecimentos (v. 32), com coragem, «cheios de alegria, por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus» (v. 41). (*) A Ele, Cordeiro imaculado (II leitura), todas as criaturas do céu e da terra são chamadas a prestar honra e louvor para sempre (v. 12-13).

A experiência do Ressuscitado vai para além das aparições iniciais (Evangelho): prolonga-se no saber reconhecer a presença verdadeira e eficaz do Senhor na quotidianidade simples da vida. «Jesus faz-se reconhecer nos seus gestos, um extraordinário – a pesca milagrosa – os outros muitos simples e familiares. Preparou pão e peixe, e convida-os amorosamente a comer. Toma o pão e dá-lho e faz o mesmo com o peixe, como tinha feito muitas vezes antes. Parece que Jesus, em vez de manifestar toda a sua glória, tenha querido preparar os discípulos para a presença misteriosa, que depois da ressurreição é presença universal: agora Jesus está presente em toda a parte, de maneira divina. Mas também com a mesma humanidade… Os cristãos são chamados a procurar uma glória divina que não é exterior; são chamados a reconhecer Jesus nos seus irmãos… reconhecer Jesus que se faz presente nos mais pobres, nos mais humildes, nos mais necessitados: os cristãos devem reconhecer aí a sua glória, a glória misteriosa do seu Senhor e o poder da sua acção divina, que realiza prodígios através de meios humildes e simples» (Albert Vanhoye).

Acreditar em Cristo ressuscitado desafia-nos a viver a vida quotidiana como ressuscitados, nas opções concretas de cada dia, com fé a amor. É uma vida plena, sobre uma dupla frente de relações: gratidão para com Deus e empenho missionário para com os outros, semeando por toda a parte vida, esperança, misericórdia, reconciliação, alegria… nas diversas situações, lugares, momentos e expressões da existência humana.