3° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
Lucas 1,1-4; 4,14-21

Referências Bíblicas:
- 1ª leitura: «Todo o povo escutava com atenção a leitura da Lei» (Neemias 8,2-6.8-10)
- Salmo: Sl 18B(19) – R/ Vossas palavras, Senhor, são espírito e vida!
- 2ª leitura: «Vós, todos juntos, sois o corpo de Cristo e, individualmente, sois membros desse corpo» (1 Coríntios 12,12-30 ou 12,12-14.27)
- Evangelho: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura» (Lucas 1,1-4; 4,14-21)
O discurso-programa de Jesus em Nazaré
Marcel Domergue
Prelúdios
Coloquemos o evangelho em seu contexto. Após a pregação de João, temos a seguinte sequência: o batismo, a genealogia de Jesus e as tentações no deserto. O relato do batismo revela-nos a origem divina de Jesus, a sua identidade. A genealogia nos faz conhecer a sua origem humana e, por isso, remonta ao início dos tempos, perfazendo o caminho do conjunto da história bíblica. Temos aí, pois, o Messias – Filho de Deus e Filho do homem. A cena das tentações nos faz descobrir, logo de início, em que consiste ser o Messias, Filho de Deus; ou seja, que rosto irá ganhar o seu messianismo. Então, isto que a justo título ganhou o nome de «vida pública» de Jesus já pode começar. «Pública» quer dizer vivida em presença de testemunhas, e o prólogo que a Liturgia coloca no começo do evangelho de hoje parece aplicar-se particularmente ao que se vai seguir. Para a genealogia, nenhuma testemunha, obviamente, nem para as tentações. Já quanto ao batismo, o relato de Lucas situa-o no anonimato da multidão e o separa da revelação da identidade divina de Jesus. Esta revelação vem situada no contexto de uma oração pessoal e não se dirige a testemunhas, mas somente a Jesus. Temos aqui, agora, na sinagoga de Nazaré, o «discurso-programa» de Jesus. Não foi ele que inventou este conteúdo, pois se trata do cumprimento da profecia de Isaías e, mais ainda, de toda Escritura. No Livro, Jesus descobre tudo o que ele deve ser e fazer.
A lei e a graça
Podemos encontrar cumplicidades entre a primeira e a terceira leituras. Ambas insistem no «dia»: «Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus. Não fiqueis tristes nem choreis (…) comei carnes gordas…» (1ª leitura). Estas palavras poderiam aplicar-se ao Sabbat. E foi precisamente num sábado que Jesus tomou a palavra na sinagoga de Nazaré, terminando assim o seu discurso: «Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.» O mesmo dia da descoberta da Lei é o dia da descoberta da Graça. A Lei exige ser cumprida por atos; a Graça pede para ser recebida na fé. Deus nos «dá a graça», nos perdoa, enquanto que nossa desobediência à Lei nos condena. A Lei nos revela como sermos homens e mulheres de verdade, e o que nos pode desumanizar. Sair do caminho balizado pela Lei significa escolher a morte. Cristo, o despenseiro da graça, vem restaurar em nós o que deteriora a nossa humanidade: podemos interpretar neste sentido a enumeração feita na citação de Isaías. Cristo vem assumir para si tudo o que nos é contrário. A verdade não é que ele tenha suprimido tudo isto, mas, quando estas ações se tornam inimitáveis, ele nos dá o poder de usar as nossas falhas para que amemos mais e que nos tornemos sempre mais imagens de Deus. É precisamente o que fez o Cristo, ao aceitar sofrer todo o mal decorrente da Cruz.
O que é indecente na humanidade
A segunda leitura nos propõe o célebre paralelo que Paulo estabelece entre o corpo humano e o povo crente. A primeira evidência que decorre daí é que nossa unidade não abole a nossa diversidade, mas, ao contrário, alimenta-se dela. As nossas diferenças se acham valorizadas e concorrem para a coesão deste corpo complexo que tem o nome de Igreja. Não podemos ser a uma só vez homem e mulher, pé e mão, professor e enfermeiro. Impossível estar ao mesmo tempo no forno e no moinho. Por que insistir nisso? Porque tendemos todos a nos «culpar» por causa dos outros que fazem coisas admiráveis e que nós mesmos não podemos fazer. Gostaria, no entanto, de ater-me a outro aspecto do texto de Paulo: à sua insistência nas partes do corpo que são mais frágeis e que parecem menos respeitáveis ou menos decentes. E estes são os membros que demandam mais respeito e honradez. Traduzindo: estes membros são as pessoas mais fracas, que devem ser objeto da nossa consideração e que devem mobilizar a nossa atenção. E aqui encontramos o nosso evangelho: para quem veio o Cristo? Não para os «grandes deste mundo», mas para os pobres, os prisioneiros (com ou sem razão), os cegos, de uma cegueira que pode ser física ou moral, os oprimidos… Não nos enganemos: a libertação que o Cristo lhes traz ou vai passar por nós, que somos o seu Corpo, ou permanecerá letra morta.
PROFETA
Enzo Bianchi
Ao dar forma à boa notícia, ao Evangelho, através da narração, Lucas tem a consciência da sua própria responsabilidade diante de Deus e das pessoas. Diante de Deus, ele deve ser um “servo da Palavra”, capaz de levar em conta outros escritores anteriores a ele e com mais autoridade do que ele: “as testemunhas oculares”, aquelas que viveram na intimidade e na vida pública com Jesus (cf. At 1, 21-22); diante das pessoas, ele sente o dever de responder àqueles primeiros cristãos da sua comunidade, dando-lhes uma palavra como alimento capaz de nutrir e confirmar a sua fé.
Por isso, ele compôs aquele que chamamos de terceiro evangelho, recorrendo com cuidado à tradição apostólica, mas, ao mesmo tempo, escrevendo com as suas capacidades e a sua sensibilidade a cristãos de língua grega nos anos 70-80 da nossa era.
O Evangelho é um canto a quatro vozes, quatro relatos, quatro memórias: mas o canto polifônico continua sendo apenas um canto, e um só é o Evangelho feito carne, homem (cf. Jo 1, 14), Jesus de Nazaré.
Lucas é muito cuidadoso ao testemunhar a presença do Espírito de Deus em Jesus. Jesus – que é a Palavra de Deus (cf. Jo 1, 1) – e o Espírito Santo são “companheiros inseparáveis” (Basílio de Cesareia), portanto, onde Jesus fala e age, lá está também o Espírito.
Nos capítulos anteriores do Evangelho, aqueles relativos à vinda ao mundo do Filho de Deus, Lucasmostrou que ele foi concebido no ventre de Maria graças ao poder do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35), e a sua aparição pública como discípulo de João Batista, que o imergiu no Jordão, foi selada pela descida sobre ele do Espírito Santo (cf. Lc 3, 22).
Precisamente esse Espírito conduz Jesus ao deserto, onde ele é tentado pelo demônio (cf. Lc 4, 1-2a), e o acompanha – é o início do nosso trecho litúrgico – quando ele retorna à Galileia, a sua terra, da qual havia se afastado para ir ao deserto e pôr-se no seguimento do profeta batizador.
Com essa insistência, Lucas pretende fazer com que o leitor compreenda que Jesus é “inspirado”, que a sua fonte interior, a sua respiração profunda é o Espírito de Deus, o Sopro do Pai. Ele não é um profeta como os outros, sobre os quais o Espírito descia momentaneamente, porque, nele, o Espírito repousava, parava, habitava (cf. Jo 1, 32), enchia-o daquela força (dýnamis) que não é poder, mas participação na ação e no estilo de Deus.
E o que Jesus faz no seu retorno à “Galileia dos gentios” (Mt 4, 15; Is 8, 23), terra periférica e impura? Vai “ensinar nas sinagogas”. Para iniciar a sua missão, ele não escolheu nem Jerusalém nem o templo, mas aquelas humildes salas onde os fiéis se reuniam para escutar as Sagradas Escrituras e oferecer o seu serviço litúrgico ao Senhor.
Nas sinagogas, aos sábados, faziam-se orações, depois se lia a Torá (uma perícope, uma parashah do Pentateuco), a Lei, em seguida rezavam-se Salmos e, como comentário da Torá, proclamava-se um trecho (haftarah) tirado dos Profetas. Não era uma liturgia diferente daquela que nós, cristãos, ainda hoje fazemos todos os domingos.
Jesus já é um homem de cerca de 30 anos, não pertence à linhagem sacerdotal, portanto não é um sacerdote, é um simples fiel filho de Israel, mas, tendo-se tornado, aos 12 anos, “filho do mandamento” (cf. Lc 2, 41-42), está habilitado a ler publicamente as Sagradas Escrituras e a comentá-las, fazendo a homilia.
E assim acontece que, naquele sábado, justamente na sinagoga em que a sua fé havia sido alimentada desde a infância, quando morava em Nazaré, mediante as liturgias comunitárias, Jesus sobe ao ambão e, abrindo o rolo que lhe é dado, lê a segunda leitura, o trecho previsto para aquele sábado: o capítulo 61 do profeta Isaías. Esse texto é a autoapresentação de um profeta anônimo que testemunha a sua vocação e a sua missão:
O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me consagrou com a unção (échrisen)
para anunciar a Boa Nova aos pobres;
enviou-me para proclamar a libertação aos cativos
e aos cegos a recuperação da vista;
para libertar os oprimidos
e para proclamar um ano da graça do Senhor (Is 61, 1-2a).
Quem é esse profeta sem nome apresentado por Isaías? Qual é a sua identidade? Qual será a sua missão? Quando será a sua vinda tão esperada? Essas certamente as perguntas que surgiam diante da leitura desse texto.
Jesus, depois de ler o trecho, deixando de fora os versos finais anunciavam “o dia da vingança do nosso Deus” (Is 62, 2b), comenta-o com pouquíssimas palavras, assim resumidas por Lucas:
Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir.
Hoje, hoje (sémeron) Deus falou e realizou a sua Palavra. Hoje, porque, quando um ouvinte acolhe a palavra de Deus, é sempre hoje: é aqui e agora que a palavra de Deus nos interpela e se realiza. Não há espaço para adiamento: hoje! É precisamente Lucas quem forja essa teologia do “hoje de Deus”. Por nada menos do que 12 vezes no seu Evangelho ressoa esse advérbio, “hoje”, das quais estas são as mais significativas:
– pela revelação feita pelos anjos em Belém (cf. Lc 2, 11);
– pela revelação por obra da voz celeste no batismo (cf. Lc 3, 22; variante que cita Sl 2, 7);
– no nosso trecho, como afirmação programática (cf. Lc 4, 21);
– durante a viagem de Jesus a Jerusalém (cf. Lc 13, 32.33);
– como anúncio da salvação feito por Jesus a Zaqueu (cf. Lc 19, 5.9);
– como palavra dirigida a Pedro como anúncio da sua negação (cf. Lc 22, 34.61);
– como salvação oferecida até na cruz, a um dos dois malfeitores (cf. Lc 23, 43).
Hoje, para cada um de nós, é sempre hora de escutar a voz de Deus (cf. Sl 95, 7d), para não endurecer o coração (cf. Sl 95, 8) e, assim, poder captar a realização das suas promessas. A palavra de Deus, na sua potência, ressoa sempre hoje, e “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Lc 8, 8; Mc 4, 9; Mt 13, 9).
Hoje se escuta e se obedece à Palavra ou a se rejeita; hoje se decide o juízo pela vida ou pela morte das nossas histórias; hoje é sempre palavra que podemos dizer como ouvintes autênticos de Jesus: “Hoje vimos coisas prodigiosas” (Lc 5, 26). E também podemos dizê-la depois de um passado de pecado: “Hoje eu recomeço”, porque a vida cristã é ir “de início em início através de inícios que nunca têm fim” (Gregório de Nissa).
Jesus, portanto, é o profeta esperado e anunciado pelas Sagradas Escrituras, o profeta último e definitivo, mas ele não proclama isso abertamente, mas deixa que seus ouvintes compreendam a sua identidade, fazendo discernimento sobre as ações que ele realiza, acolhendo a novidade da boa notícia por ele anunciada.
Jesus é o Cristo, o Messias ungido por Deus (échrisen), não com uma unção de óleo, mas através do Espírito Santo; é o enviado para levar o Evangelho aos pobres, sempre à espera da justiça; para proclamar a libertação aos prisioneiros de todo poder; para dar a vista aos cegos; para libertar os oprimidos de todas as formas de mal; para anunciar o ano da graça do Senhor, o tempo da misericórdia, do amor gratuito de Deus.
Uma missão profética que Jesus inaugurou com sinais e palavras, mas uma missão confiada aos discípulos ao habitarem a história na companhia dos seres humanos. Sim, essas palavras de Jesus podem nos parecer uma promessa nunca realizada, porque os pobres continuam gritando, os oprimidos e os prisioneiros continuam gemendo, e nem mesmo os cristãos sabem viver a misericórdia de Deus anunciada por Jesus. Mas essa liturgia da Palavra, que teve em Jesus não só o leitor e o intérprete, mas sobretudo aquele que a cumpriu e realizou, ilumina todo o seu ministério: de Nazaré, onde ele a inaugurou na sinagoga, em Jerusalém, onde na cruz levará a cumprimento a sua missão.
Olhos fixos em Jesus e na sua missão
Romeo Ballan, mccj
O evangelista Lucas afirma claramente que não pretende escrever um romance, mas um livro de história, com base em factos reais e verificáveis. Quer dar aos seus leitores uma garantia total acerca da figura central do livro que se prepara para escrever. Não pretende inventar factos, cenas ou mensagens; quer relatar (Evangelho) apenas «acontecimentos que se realizaram entre nós» (v. 1), transmitidos por pessoas «que foram disso testemunhas oculares desde o início e se tornaram testemunhas da Palavra» (v. 2). Para o evangelista são os factos que inspiram as palavras; os ministros da Palavra partem dos factos. Com documentos na mão, depois de ter «investigado cuidadosamente tudo desde as origens», Lucas está em condições de redigir um «resumo ordenado» assente na vida de Jesus. Com rigor e honestidade, com base em testemunhos oculares e credíveis, Lucas assegura aos seus leitores a «solidez dos ensinamentos» que receberam (v. 3-4).
Lucas tem um claro projecto catequético e missionário: reforçar a fé de quem já acredita e dar certezas a todos os que andam à procura, àqueles que se estão a aproximar e estão a caminhar em direcção a Jesus, como figura histórica e fulcro da fé. O Evangelho de Jesus está fundado em factos reais; nos quais não há espaço para invenções humanas, ou criações mitológicas. «A fé bíblica não é a adesão a uma série abstracta de teoremas teológicos, mas a aceitação da irrupção de Deus e da sua palavra no tecido histórico dos acontecimentos humanos, na “casa” de carne das nossas genealogias, na “tenda” de carne da incarnação de Cristo… Cristo é o centro e a explicação do nó intrincado das nossas gerações, das nossas esperanças, das nossas vicissitudes» (G. Ravasi).
Com as explicações acerca do método de investigação, a intenção do autor e a finalidade da obra, Lucas oferece um guia de leitura do seu Evangelho e introduz-nos no programa de vida e na mensagem do seu protagonista, Jesus de Nazaré. Precisamente na sinagoga da sua aldeia de infância e de juventude, aos trinta anos Jesus inaugura a sua missão pública, assumindo em primeira pessoa o programa profético de Isaías (61, 1-2): também Ele, «com o poder do Espírito» (v. 14), sente-se mandatado para levar aos pobres a boa nova» aos oprimidos a libertação e a todos um ano de graça (v. 18-19). São as linhas programáticas da missão de Jesus: depois, serão os milagres de cura, as palavras de misericórdia, o acolhimento aos pecadores e aos excluídos… a definir nos factos o rosto humano de um Deus que é misericordioso palra além de qualquer medida.
Jesus enche completamente a cena na sinagoga: como anota Lucas, os olhos e os ouvidos de todos «estavam fixos sobre Ele». Jesus não se detém a comentar o texto de Isaías, mas proclama a sua plena realização. É o momento do hoje de Deus para o cumprimento das Escrituras (V. 20-21). É legítimo pensar que, quando Jesus pronunciou a palavra “hoje”, tenha efectuado também o gesto que indicava o seu corpo, a sua pessoa, como lugar do cumprimento de todas as Escrituras: hoje, aqui, em mim, perante vós que me fixais nos olhos… Para Jesus, foi um momento de plena identificação como enviado-missionário do Pai! O ano de graça já começou. De ora em diante os sinais da misericórdia e da proximidade de Deus ao lado de quem precisa, estarão sempre patentes. A começar por Jesus, para prosseguir depois na história missionária da Igreja por toda a parte e em todas as épocas.
Também o povo de Israel fez a experiência da actualidade permanente da Palavra de Deus, quando a redescobriu depois do exílio e esta foi proclamada solenemente perante toda a assembleia (I leitura) na praça pública, provocando conversão e alegria. Hoje, a eficácia e a visibilidade da Palavra são exigidas de forma urgente em campo ecuménico (II leitura), para que todos os crentes em Jesus, convocados pela Palavra e alimentados por um só Espírito» (v. 13). Formem o único corpo de Cristo, rico de múltiplos dons, unidos em harmoniosa vitalidade, animados pelo ímpeto missionário, «para que o mundo acredite» (Jo 17, 21).