2° Domingo do Tempo Comum (ciclo C)
João 2,1-11


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Referências bíblicas

  • 1ª. leitura: “Assim como a noiva é a alegria do noivo, tu também és a alegria de teu Deus” (Is 62,1-5).
  • Salmo: Sl. 95(96) – R/ Cantai ao Senhor um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos!
  • 2ª leitura: “Um só e o mesmo Espírito distribui os seus dons a cada um conforme quer” (1Cor 12,4-11).
  • Evangelho: “Este foi o início dos sinais de Jesus. Ele o realizou em Caná da Galileia” (Jo 2,1-11).

Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, __ ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam __ chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.

Compreender na sua profundidade o relato joanino das bodas de Caná não é uma operação fácil, mesmo que ele seja lido muitas vezes, especialmente por ocasião da celebração do matrimônio cristão. A verdadeira pergunta que surge, de fato, é: “Que bodas são essas?”. E também: “Quem é o noivo, quem é a noiva?”.

O verdadeiro protagonista, com efeito, é apenas Jesus, e os diversos personagens – a mãe, os discípulos, os servos – são apresentados apenas em referência a ele. Os dois cônjuges que celebram essas bodas nunca aparecem, e o noivo ao qual o mestre-sala se dirige não fala sequer para dar uma resposta. Desse modo, o quarto evangelho quer nos revelar que Jesus, tendo reunido a comunidade dos discípulos chamados a si no capítulo anterior, celebra as bodas com ela, a noiva com quem estreita a nova aliança nupcial.

Continua sendo muito significativo que “a mãe de Jesus”, nunca chamada pelo seu nome de Maria neste Evangelho, “já estava lá” (ên ekeî), como presença que precede tanto Jesus quanto os discípulos convidados àquelas bodas. Já está lá, porque é, acima de tudo, filha de Sião, a figura de Israel que aguarda a hora do Messias, e significativamente está lá “no início dos sinais” de Jesus, como estará lá junto à cruz, no cumprimento de todos sinais operados por Jesus (cf. Jo 19, 25).

João também especifica que essas bodas acontecem no fim da semana inaugural do ministério simbólico de Jesus, três dias depois dos quatro dias indicados anteriormente. Assim, o dia das bodas é o terceiro dia, dia que evoca a epifania do Senhor no Sinai e a celebração da aliança entre Deus e o seu povo (cf. Ex 19, 10.16), dia da glória de Jesus, dia em que ele se revelou como Senhor ressuscitado e vivo (cf. 1Cor 15, 4).

E eis que todos já estão no banquete nupcial, mas falta o vinho! Nessa situação de falta de um elemento necessário para a festa, a mãe de Jesus, atenta a esse desenvolvimento, intervém junto ao filho dizendo-lhe: “Eles não têm mais vinho!”. Desse modo, ela afirma uma situação real e, ao mesmo tempo, convida Jesus respeitosamente a fazer alguma coisa.

Se não há vinho, como as bodas poderão ser celebradas com a alegria necessária para a festa? Muitas vezes, penso que, se a Igreja, assim como a mãe de Jesus, no meio da humanidade, desempenhasse mesmo que apenas essa função de indicar ao Senhor que “não tem mais vinho”, não tem alegria, isso já seria, de sua parte, cumprir um ministério essencial…

Nas Escrituras, o vinho, é acima de tudo, promessa de Deus mesmo, dom da bem-aventurança e da alegria feita ao seu povo. É o vinho que alegra o coração do homem (cf. Sl 104, 15), mas também o coração de Deus (cf. Jz 9, 13: ‘Elohim), e é precisamente o vinho que marcará o banquete escatológico prometido, através do profeta, a todos os povos da terra, aquele banquete em que se celebrará a libertação definitiva da morte (cf. Is 25, 8): “O Senhor dos exércitos vai preparar no alto deste monte, para todos os povos do mundo, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos refinados” (Is 25,6).

É o vinho que celebra o clima do amor entre o noivo e a noiva na “adega” [cella vinaria] (Ct 2, 4) do Cântico dos Cânticos, vinho que descerá como rebentos das colinas da terra abençoada (cf. Gl 4, 18).

É o vinho da gratuidade, que faz transcender a vida sob o sinal da necessidade do pão (cf. Sl 104, 15), em um excesso que chama o homem e a mulher para fora de si. Por isso, na refeição deixada por Jesus como seu memorial, estão o pão necessário e o vinho gratuito (cf. Mc 14, 22-24 e par.; 1Cor 11, 23-25), porque o humano deve sempre afirmar um e outro, sentir-se criatura necessitada, mas também capaz de criação, de beleza, de canto e de dança.

Portanto, não há celebração de bodas sem vinho, e a mãe de Jesus intervém por isso. Mas a resposta enigmática de Jesus se dá através de palavras que criam uma distância, que lhe pedem para ficar no seu lugar, porque, como mãe física de Jesus, não pode reivindicar nada: “O que há entre mim e ti, ó mulher?”.

Em outras palavras, Jesus está lhe dizendo que, se há uma relação primária dela com ele, não é o fato de tê-lo gerado fisicamente, mas é uma relação mais profunda e decisiva com o próprio Deus.

Depois, acrescenta: “Minha hora ainda não chegou!”. Essa também é uma palavra enigmática, que talvez se refira à hora que nem ele mesmo nem sua mãe podem decidir. É e será a hora de Jesus como e quando o Pai a quiser, e Jesus receberá o sinal do próprio Pai.

Por isso, Maria, como mãe, mostra-se imediatamente discípula que escuta, obedece ao filho e pede que os outros façam o mesmo: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Acima de tudo, a mãe se manifesta como discípula e, por isso, pede que sejam reservados a Jesus escuta e obediência, nada mais. Ela não tem mensagem própria, não pode dizer outras palavras, porque é uma mulher de fé, capaz de escuta, obediente ao Senhor: é a primeira discípula entre os discípulos, que convida todos a se tornarem discípulos de Jesus!

Nesse ponto, Jesus dá um sinal em que antecipa a sua hora, que ainda não veio, mas que chegará apenas na cruz, onde se celebrarão bodas de sangue. Os servos da mesa logo lhe obedecem: trazem seis jarros cheios de água, que era usada para a purificação. Essa água, que, de acordo com os Padres da Igreja, é sinal de toda a economia da antiga aliança, por causa da presença de Jesus, torna-se a bebida messiânica da nova aliança.

É significativo que o mestre-sala, aquele que presidia a mesa, na realidade, “não sabia de onde (póthen) vinha aquele vinho”, enquanto os servos que obedeceram a palavra de Jesus sabem que esse vinho messiânico vem dele. Assim, “ocorreu a manifestação (ephanérosen) da glória de Jesus”, e os discípulos creram nele. O sinal de Caná é simbólico: bodas e aliança entre Jesus e a sua Igreja.

Aquela água tão abundante, mais de 600 litros, torna-se o vinho para as bodas! Quantidade e qualidades excepcionais dizem que esse vinho, e mais do que um simples vinho, é o vinho do amor dado por Jesus aos seus, é o amor que não pode mais faltar. Nós ainda hoje continuamos bebendo aquele vinho de Caná que nos foi dado por Jesus, e à sua mesa, quando celebramos o encontro com ele, a adesão a ele, a fé nele, celebramos as bodas entre ele e a comunidade cristã, a Igreja, seu corpo.

Assim como nas bodas os dois se tornam “uma só carne” (Gn 2, 24; Mc 10, 7.8; Mt 19, 5.6; Ef 5, 31), assim também na eucaristia os fiéis se tornam corpo de Cristo, Senhor e Noivo, Noivo que se dá totalmente à sua comunidade, à sua noiva.

Por que a metáfora das bodas é tão poderosa e intrigante? Porque, mais do que outras, expressa a verdade da encarnação: corpos que se tornam um só corpo, comunhão e comunicação no canto do amor, na sóbria embriaguez do vinho. A nossa linguagem humana é limitada, especialmente quando quer fazer alusão a realidades invisíveis, e então recorre às realidades mais humanas, humaníssimas: comer, beber vinho, o encontro dos corpos na celebração do amor recíproco e do pertencimento recíproco.

Somos sempre convidados ao banquete de Caná, não para procurar um noivo e uma noiva que não estão lá, mas para sermos coenvolvidos nesse encontro entre Cristo, Senhor e Noivo, e a sua comunidade. Trata-se de ir a Caná,

  • de tentar ver com olhos de fé,
  • de escutar as palavras da fé,
  • de executar as palavras ditas por Jesus,
  • de degustar o vinho do Reino
  • e de tocar, sim, de tocar o corpo de Jesus.

Então, sentiremos que ele está esperando beber logo conosco o vinho novo do Reino (cf. Mc 14, 25 e par.): ele o bebeu na terra, deixou-o a nós como dom eucarístico, mas vai bebê-lo de novo conosco na terra nova, no céu novo (cf. Is 65, 17; 66, 22; 2Pe 3, 13; Ap 21, 1).

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As bodas

A união entre o homem e a mulher é altamente significativa. Revela inicialmente a incompletude de cada um e de cada uma de nós. Manifesta, além disso, que a nossa verdade se encontra no outro ou, falando de outro modo, que existir significa relacionar-se.

A relação nupcial está no cume das relações, é a aliança por excelência. Por isso a Bíblia diz: «Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou: homem e mulher ele os criou» (Gn 27). Assim, quando falamos da Trindade, queremos significar que Deus em Si mesmo é Aliança.

É necessária a união do homem e da mulher para que o humano seja imagem de Deus. E, no entanto, esta união é somente uma figura e uma etapa. O humano irá de fato superar o seu estado de imagem, para participar da natureza divina.

Estas bodas entre Deus e o homem irão encontrar sua expressão nas bodas do Cristo com seu povo. João começa o seu evangelho com as bodas de Caná e termina, quase, o seu Apocalipse com as Núpcias do Cordeiro (Ap 19,6-9). No quadro das bodas humanas é que Jesus vai realizar o sinal que antecipa as núpcias da humanidade com Deus. A água primordial (cf. Gn 1,2) torna-se o vinho do final, figura do sangue da Aliança. Assim o relato de Caná em 11 versículos recapitula em Cristo e por Cristo tudo o que acontece com a humanidade.

Maria

Seu nome sequer é citado no relato de Caná. Maria é simplesmente chamada de «mãe de Jesus» e de «mulher», termo usado correntemente nos evangelhos quando referido a um personagem feminino (por exemplo, em João 8,10). Não podemos, no entanto, deixar de ver nela a figura da mulher por excelência. Não é por acaso que, em João, somente vamos encontrá-la no início (Caná) e no final, ao pé da Cruz, quando recebe uma nova maternidade, a maternidade do novo corpo de Cristo: o povo que João representa (Jo 19,25-27).

Também na cruz não é citada nenhuma palavra de Maria. Em Caná, é ela quem sinaliza a falta do vinho: assim como em toda figura bíblica, as bodas humanas devem ser superadas pela realização daquilo que prometem; elas estão em estado de falta. Os esposos, mesmo sem saber, já chegaram ao fim das suas reservas. Jesus responde à sua mãe que sua hora, a hora do vinho, a hora do sangue, ainda não havia chegado.

A Cruz será o verdadeiro leito nupcial de Deus com a humanidade, pois é aí que, em Cristo, Deus irá chegar ao limite extremo da condição humana. Ele, então, terá esposado tudo de nós. Mas para isso foi preciso que o ser humano tivesse pronunciado o sim nupcial, tivesse manifestado o seu acordo. Podemos colocar em paralelo o sim de Maria na Anunciação, «faça-se em mim segundo a tua palavra!» (Lc 1,37), e a recomendação que ela faz aos servidores em Caná: «Fazei tudo o que ele vos disser».

“Fazei tudo o que ele vos disser”

Esta fórmula é herdada de Gênesis 41,55: o Faraó utiliza-se dela para prescrever aos Egípcios que se dirijam a José. Não foi por acaso que João a tenha retomado: em Gênesis, tratava-se da falta do pão; em Caná, da falta do vinho. Como não pensar na última Ceia, abertura da Paixão pela qual Jesus será glorificado? Aí sim, a sua hora havia chegado. E de fato, em seu «discurso após a Ceia» (Jo 13,31), Jesus diz aos seus discípulos: «Agora o Filho do homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele».

O que vai glorificar a Jesus e a Deus é a manifestação ao mundo do seu amor absoluto; amor mais forte do que a morte. No final do Cântico dos Cânticos, poema revelador de Deus a partir do amor nupcial, está escrito que «o amor é forte como a morte» (8,6); com Cristo, ficamos sabendo que a morte não pode nada contra o amor, o que a Ressurreição vai tornar explícito. Pois o Cântico já o pressentia: «As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo» (8,7). Portanto, é superando todo o medo que podemos comprometer-nos a fazer «tudo o que ele vos disser».

Encontramos na primeira leitura uma fórmula impressionante: «Como o jovem desposa a donzela (pensemos nos esposos de Caná), assim teus filhos te desposam». Incesto? É, antes, a certeza de que somos destinados a nos fazermos um só com a fonte da nossa vida, com a fonte de toda a vida.

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1. Neste Domingo II do Tempo Comum, temos a graça de ouvir e ver a grandiosa cena do Evangelho de João 2,1-12, vulgarmente conhecida como «bodas de Caná», em que Jesus transforma em vinho excelente cerca de 600 litros de água. Caná é uma aldeia situada a uns seis quilómetros a nordeste de Nazaré. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom (kalós) e Último, cuidadosamente guardado até Agora (héôs árti), mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem (diákonoi) (João 2,9b), mas o chefe-de-mesa (architríklinos) «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» (João 2,9a).

2. E, na verdade, aquele saber ou não “DE ONDE” (póthen) era, aqui anotado pelo narrador, é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, morna, à deriva, sem calafrios e sem Deus, que vive em plena orfandade. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro,/ se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos, pois, por esta autoestrada repleta de sinalizações para Deus, pois ela vem de Deus, e por ela vem Deus, por amor, ao encontro dos seus filhos.

3. Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «“DE ONDE” (póthen) me conheces?». Em João 2,9, o nosso texto de hoje, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «“DE ONDE” (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher da Samaria que não sabe “DE ONDE” (póthen) tira Jesus a água viva. Em João 6,5-7, é Filipe que chumba no teste que lhe faz Jesus, ao confessor que não sabe “A ONDE” (póthen) ir comprar pão para dar de comer a umas trinta mil pessoas. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá “DE ONDE” (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei “DE ONDE” (póthen) venho; vós, porém, não sabeis “DE ONDE” (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos “DE ONDE” (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis “DE ONDE” (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos a Jesus, em João 19,9: «“DE ONDE” (póthen) és Tu?».

4. Demoremo-nos, pois, um pouco com o chefe-de-mesa, uma vez que é a ele que Jesus manda os servos levar o vinho novo (João 2,8). O chefe-de-mesa prova o vinho novo, e confessa a sua ignorância acerca da sua origem: de facto, «não sabia “DE ONDE” era», diz-nos o narrador (João 2,9a). A sua pergunta é, portanto, esta: «“DE ONDE” é este vinho»? Estranho é que o seguimento do texto nos mostre que o chefe-de-mesa passe ao lado da sua própria pergunta. Ele, que não sabia, podia ter perguntado aos servos, que sabiam (João 2,9b), porque tinham recebido e executado as ordens de Jesus (João 2,7-8). Em vez de se dirigir a eles, o chefe-de-mesa opta, todavia, por se dirigir ao noivo. E em vez de formular a sua pergunta acerca da origem daquele vinho, acaba simplesmente por manifestar o seu espanto pelo estranho procedimento adotado, contrário a todos os usos e costumes vigentes, de servir primeiro o vinho reles, deixando para o fim o vinho bom! (João 2,10).

5. É fácil constatar que esta figura do chefe-de-mesa nos é apresentada no papel de pivot no que se refere ao andamento da festa; em relação ao vinho novo e bom que lhe é levado pelos servidores, manifesta desconhecer a sua proveniência; prova-o, como lhe competia, mas não esboça qualquer vontade de querer saber mais acerca dele; limita-se a manifestar a sua estranheza pelo facto de o ritual antigo ter sido alterado. O elenco destes traços figurais leva-nos a concluir que a figura do chefe-de-mesa representa bem as autoridades judaicas tradicionais, mas também todos os senhores do mundo, todos muito habituados, bons conhecedores das convenções, mas nada sensíveis à novidade que é visível em Jesus, nada sensíveis às pessoas e aos factos, que simplesmente lhes parecem saídos na roda do destino.

6. Os servos, que recebem e cumprem as ordens de Jesus, que dão o vinho novo e bom a provar aos judeus tradicionais e a toda a humanidade, são os discípulos de Jesus, que sabem a proveniência de Jesus, e sabem também discernir o «significado» deste primeiro «sinal» (sêmeíon) que Jesus fez» (João 2,11). O IV Evangelho apresenta, de resto, no seu corpo, sete sinais que requerem interpretação. Já vimos o primeiro. O segundo é a cura de uma criança gravemente doente, expressamente referido como segundo sinal (João 4,43-54). Vêm a seguir a cura de um paralítico (João 5,1-9), a multiplicação dos pães para cinco mil homens (João 6,1-15), Jesus a caminhar sobre as águas (João 6,16-21), a cura de um cego de nascença (João 9,1-12) e a ressurreição de Lázaro (João 11,1-44).

7. «A mãe de Jesus estava lá», diz-nos logo de entrada o narrador (João 2,1). Sintomático que, tendo ela sido apresentada como «mãe de Jesus» por duas vezes (João 2,1 e 3), pouco depois Jesus a trate por «mulher» (João 2,4), e não por «mãe». Este singular tratamento por «mulher» em vez de «mãe» tem sido muitas vezes visto como ríspido, distante e nada afetuoso da parte de Jesus. O mesmo tratamento por «mulher», e não por «mãe», aparece no Calvário também nos lábios de Jesus (João 19,26). Na verdade, esconde-se, neste tratamento por «mulher», um verdadeiro tesouro. A «mulher» é muitas vezes na Escritura o símbolo do Povo de Deus, e, mais concretamente de Sião-Jerusalém personificada como Esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus, o Esposo (Isaías 54,5-7; 62,1-5), e como mãe embevecida dos filhos de Deus (Isaías 49,21; 60,1-4).

8. «Não têm vinho!», observa a mãe de Jesus, falando para Jesus (João 2,3). É uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! A resposta de Jesus: «O que há entre mim e ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora» (João 2,4), tem sido igualmente vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. Na verdade, é uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom de voz com que é dita. Tanto pode ser, de facto, uma resposta ríspida e de rutura, como pode ser, ao contrário, uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial de Jesus. É como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, Aquela que atravessa em contraluz toda a Escritura Santa, que trouxeste até aqui nos teus braços a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu sabes bem que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus, nunca chamada Maria no IV Evangelho, entendeu bem esta resposta (nós, pelos vistos, é que não). Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!».

9. Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete, a Eucaristia, em que somos nós os convidados: «Fazei isto em memória de Mim!».

10. «Estava lá a mãe de Jesus», como «estavam lá seis talhas», grandes e vazias (João 2,6). Mãe e Mulher da esperança, talhas vazias, mas que serão cheias de esperança até ao cimo. Delas jorrará o vinho novo e bom, até agora guardado para nós. Tempo novo e pleno do Amor de Deus. É Ele que servirá o banquete de carnes suculentas e vinhos deliciosos (Isaías 25,6).

11. O banquete Novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. É sabido que a tradição judaica descrevia com muito vinho o tempo da vinda do Messias, referindo que, nesse tempo, cada videira teria mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago daria 460 litros de vinho! Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? Não esqueçamos que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

12. A página de hoje do Antigo Testamento é Isaías 62,1-5. Um simples relance de olhos por esta sublime paisagem textual de Isaías é suficiente para fazer ressaltar os acordes com o Evangelho de hoje. A cidade de Jerusalém (personificação de Israel), depois de experimentar o abandono e a desolação do Exílio, é agora olhada como uma noiva, desposada com Deus, seu Criador que, para o efeito, a recria, dando-lhe um nome novo, linguagem genesíaca (Génesis 1,1-4). E a alegria nupcial voltará a iluminar o rosto da cidade. É ainda dito, dentro do mesmo colorido, que a cidade-noiva será uma coroa (ʽatharah) nas mãos do Senhor, como o Livro dos Provérbios refere que «a esposa é a coroa (ʽatharah) do marido» (Provérbios 12,4). Belíssima linguagem nupcial, elevada dignidade para Jerusalém e para nós.

13. A comunidade cristã não pode ser vaidosa, autorreferencial, egoísta e individualista, como parecia ser Corinto, aos olhos de São Paulo (1 Coríntios 12,4-11). A comunidade bela e harmoniosa funciona como um corpo, é composta de irmãos, e todos têm em vista o bem comum. Os dons de cada um são para proveito de todos, e não para própria vanglória. Por isso, os dons são diferentes, é o Espírito que os distribui, e, postos em comum, servem para edificar a comunidade bela e harmoniosa. Como é hoje oportuno fazermos esta verificação nas nossas comunidades.

14. Comunidade bela e harmoniosa. Sujeito adequado e preparado pelo Espírito para cantar o «cântico novo» cujos tons nos dá hoje o Salmo 96, um Salmo que nos põe a cantar a Realeza de YHWH e as suas maravilhas. O melhor antídoto para o nosso culto tantas vezes apenas formal é uma fé coral que nos faz olhar, não tanto para o passado, mas para o futuro, para a notícia boa de um Deus que vem com um grande SIM para o nosso mundo. O «cântico novo» não nos põe a cantar hoje como ontem, mas hoje como amanhã.

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