3° Domingo de Advento (C)
Lucas 3, 10-18

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Baptista: «Que devemos fazer?». Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo». Vieram também alguns publicanos para serem baptizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?». João respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi prescrito». Perguntavam-lhe também os soldados: «E nós, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo». Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, ele tomou a palavra e disse a todos: «Eu baptizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga». Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a Boa Nova».
Referências bíblicas:
1ª leitura: Sf 3,14-18
2ª leitura: Fil 4,4-7
Evangelho: Lc 3,10-18
CHAMAMENTO À ALEGRIA
José Tolentino Mendonça
Em tempo do Advento, em pleno tempo do Advento, nós sentimos este chamamento à alegria. A alegria, que parece uma coisa fácil, parece um mandamento simples de cumprir. Contudo, a alegria é um mandamento exigente. Os judeus diziam mesmo que de todos os Dez Mandamentos aquele mais difícil de cumprir era o mandamento da alegria, que mandava guardar as festas.
A alegria não é simples. E não é simples porquê? Porque a alegria muitas vezes é fugaz, sentimos que há uma grande preparação mas depois a alegria não permanece. E isso acontece, por exemplo, com o Natal, um certo Natal. Prepara-se tanta coisa, tanto caminho, tanta compra, tanto desejo para o Natal e depois o Natal são aquelas escassas horas que depressa passam, e depois mergulham num contraciclo, numa melancolia, porque afinal tivemos tanta espectativa e depois o Natal não realizou, não se satisfez aqueles desejos mais fundos que estiveram no nosso coração. A alegria é, por isso, uma coisa fugaz.
Depois, muitas vezes a alegria não depende de nós, ou sentimos que não depende só de nós. Podemos querer a alegria mas as situações, às vezes, são marcadas pelo sofrimento ou temos de comungar o sofrimento dos outros e isso não é possível. Ou então pensamos na alegria como um estado de isenção, é porque não nos dói nada que estamos alegres, é porque não nos falta nada que estamos bem, é porque tudo corre conforme imaginamos que nós vivemos a alegria. Ora, isso nunca acontece, ou raramente acontece, porque nós não fazemos uma experiência da vida neutral, é sempre marcada por uma questão, por uma sombra, por uma notícia que chega, por uma contrariedade, por uma contradição e parece que a alegria não é possível.
Contudo, como diz S. Paulo na Carta aos Filipenses, o Senhor pede para celebrarmos a alegria: “Alegrai-vos, de novo vos digo: alegrai-vos.” Então, isto que parece ao mesmo tempo acessível e tão difícil é um mandamento que vem até nós. Porque é que nos havemos de alegrar? Qual é o grande motivo de alegria que nós temos? O grande motivo de alegria é aquele que o profeta Sofonias hoje nos diz, e que também nos é repetido pela boca de João Batista: o motivo da nossa alegria é porque Ele está no meio de nós. É porque Aquele que nasce é o Deus connosco, é Aquele que, de facto, habita já a nossa própria experiência, mesmo na sua fragilidade, mesmo no que ela tem de mais precário, provisório, opaco, exigente, contraditório. Deus está connosco, há uma aliança que o presente já celebra. Nós podemos tocar a presença de Deus.
Um grande teólogo cristão do século XX e um grande mártir da fé cristã, Dietrich Bonhoeffer, dizia isto: “Deus, como é que vem ao encontro do homem? Deus vem ao nosso encontro não apenas num “Tu”. Não é um “tu”, como encontramos na rua, como encontramos uns com os outros. Deus vem não apenas como um “tu” mas Deus vem como um “isto”.” Isto é, Deus vem como esta vida que nós temos para viver, no meio dela o Senhor está. O tempo do Advento é também o tempo de um reconhecimento de que Ele está connosco, de que Ele está presente, de que Ele já está no meio de nós. E essa é a razão profunda da nossa alegria.
Como fazer isso? Penso que com uma disponibilidade para acreditar, com uma capacidade de ver não apenas com os olhos mas também ver com o coração, com uma capacidade de esperar, de esperar e muitas vezes esperar contra todas as evidências, esperar contra toda a esperança como diz S. Paulo. Confiar Nele, descobrindo-O, tateando-O, presente na vida que nós vivemos. E isso faz-nos perceber o repto que também nos é dito pelas leituras de hoje: “Não vos preocupeis, não temais.”
Nós vivemos, muitas vezes, o tempo do Natal como uma sobreocupação: é uma quantidade de tarefas e andamos como formigas, atarefadíssimos a preparar isto, a preparar aquilo, preocupados com isto e com aquilo. E, no fundo, a grande palavra é não preocupar-se. A grande tarefa é, de facto, acolher, desenvolver essa arte de acolhimento no seu coração, essa capacidade de perceber que o dom é mais do que a preocupação, do que o tráfico mecânico que nos empurra para isto e para aquilo num consumismo que nos consome.
O Natal verdadeiro passa por conseguir aquela paz de que nos fala também S. Paulo na Carta aos Filipenses. Como ele diz numa fórmula tão bela: “E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guarde os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” O objetivo de um cristão no Natal é precisamente avizinhar-se desta paz. Mais do que todas as preocupações que prendem o nosso coração, que o cristalizam, que o capturam muitas vezes em corridas que não levam a nada. Perdermos o medo para podermos acolher esta paz que vem de Deus e que excede tudo aquilo que podemos desejar, aquilo que podemos querer.
O Natal é assim um tempo de acolhimento, um tempo para a hospitalidade de Deus, um tempo para recebermos a sua alegria. É um tempo interior o Natal, é um tempo espiritual. Por isso, mais importante que todo o resto é este caminho interior que cada um de nós faz, no reconhecimento de que Deus vem no “isto” que é a nossa vida, que é aquilo que vivemos, que é o presente do mundo, que é a hora atual da pequena história de cada um de nós e da grande história da vida.
Mas, ao mesmo tempo, o Natal também se reconhece na pergunta que por três vezes ouvimos hoje ser feita a João Batista: “Que devemos fazer?” Perguntaram as multidões, perguntaram os publicanos, perguntaram os soldados: “Que devemos fazer? Que devemos fazer?” O Natal também é um fazer, mas o que é que devemos fazer? Se calhar já estamos a fazer muitas coisas, já temos um programa de ação que faz o dia transbordar, não cabe no dia tudo o que temos para fazer. E, contudo, fica a pergunta: que devemos fazer?
Será que nós estamos a fazer a coisa certa? Será que nós estamos a fazer aquilo que Deus espera que façamos? Será que nós paramos para escutar o que Deus nos pede que façamos? Será que tudo aquilo que fazemos não é uma desculpa, não é um adiar da única coisa que Deus nos pede, neste Natal, que nós façamos? Que devemos fazer? É uma pergunta que também nos prepara, nos prepara para o Natal.
Queridos irmãs e irmãos, continuemos este caminho com ânimo. Hoje acendemos a terceira vela, vamos rezar na ação de graças a oração de S. José, a figura do presépio que nos acompanha neste domingo em comunidade. Vamos pedir para que, passo a passo, dia a dia, nós sejamos capazes de mergulhar mais profundamente no mistério de Deus. E, assim como somos, pobres, inacabados, mas também inquietos, dispersos, encontremos no Menino que nasce uma possibilidade de unidade interior, uma cura das nossas feridas, das nossas mazelas, uma confiança reaprendida, uma esperança que em nós fica a brilhar como a estrela do presépio.
Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo III do Advento 2015
http://www.capeladorato.org
A alegria, apesar de tudo
Marcel Domergue
A alegria da fé
Os textos de hoje, mais ainda que no domingo passado, nos falam da alegria. Temos necessidade de ouvir isto, pois muita gente vê a fé cristã apenas como uma doutrina austera e cheia de obrigações, deveres e proibições. De fato, é muito frequente que as nossas pregações e explicações insistam, de modo unilateral, na moral e no “bom comportamento”. No entanto, para nós, a moral não vem em primeiro lugar: ela é, de qualquer forma, uma consequência perfeitamente natural da fé, quer dizer, da adesão amorosa a Deus por meio da pessoa do Cristo. Diante de meus olhos, o Cristo e não o que faço ou não faço. Paulo gasta um tempo enorme explicando que somos “salvos”, não por nossa observância da lei, mas pela fé. Em outras palavras, é uma questão de relação.
A partir daí, “não vos inquieteis com coisa alguma” diz a segunda leitura. Por quê? A primeira leitura repete três vezes que o Senhor está no meio de nós, que Ele reside em nosso meio e que, em nós, Ele encontra a sua alegria. Precisamos, com certeza, de nos “renovar”, este é o aspecto moral de nossa adesão; mas é o seu amor que nos renova e não os nossos esforços. Deixemo-nos invadir por Aquele que, sem cessar, vem bater à nossa porta. Deixemos de nos concentrar no que está aí para ser vendido, abandonado, portanto, e compremos o campo onde o tesouro está enterrado: só o tesouro é que conta. Pensemos somente nele. Com ele, a vida vai recomeçar de um modo diferente. O mundo antigo desapareceu e está aí um mundo novo.
A alegria, apesar de tudo
Já está claro que a alegria é filha da fé. Uma fé que não está fundada na visão, mas na palavra ouvida. Por isso, os nossos textos repetem várias vezes que a verdade está do lado da alegria. As Escrituras não insistiriam tanto nisto se fosse algo assim tão evidente. Esta alegria que nos é anunciada é uma alegria ‘apesar de tudo’; e, também, a partir de tudo, inclusive do que normalmente lhe seria contrário. A penúltima palavra pode ser de dor, mas a última é sempre de alegria. O Cristo vem habitar tudo o que a vida nos oferece e por que temos que passar. Deus não está implicado em nenhuma das causas dos nossos sofrimentos, mas vem assumir para si, conosco, tudo o que nos afeta. Isto é o que significa a crucifixão e ela se abre para uma nova vida, a salvo do poder e da morte. Por isso nossa terceira leitura termina com as palavras “boa nova”.
A alegria que ela busca não é forçosamente exuberante: tem algo a ver com a paz interior, para além de nossas perturbações superficiais. Jesus, após a sua última ceia, de acordo com o quarto Evangelho, repetiu isto para os seus discípulos, imediatamente antes de sua Paixão. Reconfirmemo-nos, diante dos eclipses de nossa fé e da alegria: até mesmo os discípulos, que ouviram Jesus diretamente, atravessaram o deserto da dúvida, o desaparecimento da fé, a perda da alegria. Não esperemos fazer melhor: quando isto nos acontecer, fiquemos à espera de outros amanhãs. “Virá Aquele que é mais forte do que eu”, diz João Batista. Lembremo-nos: a vida está sempre à nossa frente.
“O que devemos fazer?”
As pessoas que vêm fazer-se batizar por João desejam uma nova vida, uma transformação de sua existência e acreditam que o profeta pode trazer-lhes isto: o evangelho diz que “o povo estava na expectativa”. A ponto de se perguntarem se não era ele o Messias. Esta fé só pode ser vivida através de comportamentos novos. Como dissemos, a fé vem primeiro, mas gera uma “moral”: por isso, estas pessoas perguntam a João o que devem fazer daí para frente. Surpresa! Nos conselhos que dá João não lhes diz uma palavra sequer sobre Deus nem sobre o Cristo. Nada de propriamente “religioso”. Uma única prescrição positiva; a de compartilhar. Em seguida, contenta-se com aplicar o decálogo a situações particulares: a dos coletores de impostos, que tinham a tendência a aumentar as contribuições em seu próprio proveito, e a dos militares, que, com facilidade, acresciam a pilhagem ao seu soldo.
João, como vemos, permanece na lei da primeira Aliança que nele se recapitula e se condensa. Trata de limpar o terreno e de deixar o lugar preparado para “Aquele que vem”. O Cristo batizará no fogo que não se apaga e irá queimar em nós tudo o que nos impede de sermos nós mesmos de verdade. João não cria vínculos com os que responderam à sua voz “que grita no deserto”. Ele é lugar de passagem, é o caminho para o Outro. Mais além do Cristo, nada há por esperar, exceto o seu “retorno”. Qualquer outra iniciativa de revelação não seria senão uma regressão, em detrimento de João Batista.
“O que fazer?”
Essa pergunta pede de nós uma resposta urgente
Enzo Bianchi
O Evangelho do domingo passado nos apresentava a vocação de João Batista e a sua missão (cf. Lc 3,1-6). Como ocorrera com os profetas, também sobre ele “caiu”, isto é, “foi dirigida a ele a palavra de Deus” (Lc 3,2), enquanto ele habitava no deserto.
João é o profeta que não só leva a Palavra (pro-phétes) ao povo, mas também é aquele que veio para indicar a própria Palavra de Deus já presente, feita carne (cf. Jo 1,14) em Jesus de Nazaré, seu discípulo.
Na fé, João sabe que a palavra de Deus não cairá sobre Jesus, não será dirigida a ele, porque ele é a própria Palavra de Deus: o precursor, portanto, anuncia ao povo a conversão em vista desse encontro e do possível reconhecimento de Jesus.
O que João pede na sua pregação? O evento que se realiza é extraordinário, único em toda a história: Deus está entre os seres humanos, homem entre os homens, tão homem a ponto de precisar de um mestre (João), de uma comunidade de irmãos (a do Batista), para “vir ao mundo” na sua subjetividade adulta capaz de tomar e de dirigir a palavra.
Assim como ele havia sido gerado por Maria, educado por ela e por José, assim também ele precisara de um “tempo obscuro” no deserto para ser iniciado na sua missão. Sim, tudo ocorre na simplicidade da vida humana cotidiana, e assim também aquilo que o Batista pede na sua pregação pertence à vida cotidiana.
Para que o povo seja preparado para o encontro com Aquele que vem, João não exige que se façam sacrifícios e holocaustos, que se vá várias vezes ao templo para participar das solenes liturgias, que se respeitem calendários litúrgicos ou que se façam jejuns particulares, mas pede ações muito humanas.
Eis, portanto, as suas respostas às perguntas que as multidões lhe fazem, perguntas que todo ser humano, de todas as gerações, sempre renova na história: “O que devemos fazer? O que fazer?”.
Acima de tudo, ele diz às multidões: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”. Eis o que é preciso fazer em vista da vinda do Senhor: compartilhar o essencial, isto é, comida, roupa, casa. Isso é suficiente para dizer que alguém se converteu, fez metánoia, mudou sua vida em vista do encontro com o Senhor que vem.
João nos surpreende, porque não pede aquilo que uma certa pregação eclesiástica pede ainda hoje: liturgias, novenas, exercícios piedosos… De fato, estes são instrumentos, apenas instrumentos para adquirir uma caridade maior, para ser mais facilmente capaz de compartilhar os bens elementares necessários para viver.
Esta é a ação que se segue à conversão: depois de ter encontrado Jesus, Zaqueu dará a metade dos seus bens aos pobres (cf. Lc 19,8), e assim a salvação entrará na sua casa (cf. Lc 19,9); os judeus de Jerusalém, tendo-se tornado cristãos, compartilharão os bens (cf. At 2,44; 4,32), e assim nenhum deles passará necessidade.
Nós, cristãos, assim como todas as pessoas religiosas, preocupamo-nos, em vez disso, muito frequentemente, com regras de pureza, enquanto o Evangelho nos pede para nos preocuparmos em compartilhar o que temos em casa, o que é nosso, com quem tem necessidade: então, estaremos na verdadeira pureza (Lc 11,41), porque agiremos como puros, retos de coração.
Depois, há algumas categorias específicas de pessoas, presentes no auditório de João, que lhe fazem a mesma pergunta: “O que devemos fazer?”. É o caso dos publicanos, coletores de impostos em aliança com o poder imperial e frequentadores dos pagãos. A eles, o Batista não pede coisas extraordinárias, nem pede para abandonarem a sua profissão, mas que a vivam na justiça. Para esses funcionários tentados pelo abuso, pelo assédio financeiro, pelo roubo ao exigir os impostos, basta praticar uma grande virtude: a justiça.
Os militares também são atraídos por João, homem tão inerme, sem defesa, destinado a ser morto justamente por eles, executores das ordens dos poderosos deste mundo, daqueles que oprimem e dominam as pessoas pobres e se fazem chamar até de benfeitores (cf. Lc 22,25). E o que João pede aos militares? Não que desertem, porque na sua função há uma tarefa necessária, a de garantir a liberdade e a ordem de qualquer convivência social. Não: ele pede para renunciarem à violência. Como é fácil a violência quem tem armas, como é fácil fazer denúncias falsas, como é fácil – uma vez que os salários são normalmente baixos – retaliar as pessoas, usando a imunidade profissional concedida à polícia e às forças da ordem: quando se é mais forte, torna-se muito fácil esmagar os fracos…
João, portanto, prega uma conversão que pede uma mudança concreta da vida cotidiana, uma mudança que muda profundamente as relações interpessoais, e ninguém está excluído desse caminho de conversão.
Em reação a essas suas palavras, cria-se um clima de grande expectativa no povo de Israel, a ponto de surgirem perguntas sobre ele: “Quem é esse João? É um profeta? É o Profeta (cf. Dt 18,15.18)? É Elias redivivo?”. Assim que João se dá conta desses pensamentos presentes entre os seus ouvintes, ele logo proclama com clareza: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”.
Entre as duas imersões, os dois batismos, há continuidade, mas também diferença. Ambos significam despojamento do homem velho marcado pela lógica do pecado e renascimento do homem novo, mas o batismo de João é apenas uma antecipação do definitivo: um é imersão na água; o outro, no fogo do Espírito Santo.
Este último batismo, a imersão realizada por Jesus, é aquele que a comunidade dos discípulos receberá no dia de Pentecostes (cf. At 2,1-11), quando será tornada novo povo de Deus mediante a nova aliança, porque a Lei será escrita nos corações (cf. Jr 31,31-33), e o Espírito novo habitará um coração novo (cf. Ez 11,19; 36,26). E, justamente por anunciar essa imersão no fogo do Espírito Santo, João, em conformidade com as Escrituras às quais obedece, deve anunciar que Aquele que vem, Aquele que é o mais forte, será juiz, tendo nas mãos o ventilabro do juízo, da separação entre trigo e palha, entre justos e injustos.
E, como atesta Lucas, “João anunciava ao povo a Boa Nova”: já ele, João, anuncia a mesma boa notícia de Jesus. Porém, é preciso dizer que esse seu discípulo, Jesus, por ele anunciado e apresentado a Israel, vai decepcioná-lo ao realizar a sua missão: será diferente e não será aquele juiz que João previra.
João, portanto, se equivocou? A sua pregação foi uma ilusão (cf. Lc 7,18-19; Mt 11,2-3)? Não, mas Deus a realizará somente no fim dos tempos: por enquanto, cabe a João cumprir toda justiça (cf. Mt 3,15), e a Jesus, anunciar e fazer misericórdia. E João, no cárcere, aceita, mais uma vez, em plena obediência, renovar a sua aventura da fé. Sim, como dirá Jesus, “entre os nascidos de mulher ninguém é maior do que João” (Lc 7,28; cf. Mt 11,11).
Por fim, não nos esqueçamos de que este domingo, no meio do tempo do Advento, se chama de “Gaudete”, devido à primeira palavra que ressoa para a assembleia no início da liturgia eucarística. “Gaudete”, isto é, “alegrem-se”, é o convite ou, melhor, o mandato dirigido pelo Apóstolo Paulo aos cristãos de Filipos: “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. (…) O Senhor está próximo!” (Fp 4,4-5).
Portanto, devemos nos alegrar porque a vinda do Senhor está próxima; porque, mesmo que ele demore, ele não mente, e nós o encontraremos o mais breve possível.
Se temos essa fé firme, então a nossa vida é inundada de alegria e de exultação! Há, talvez, algo mais alegre do que o encontro com o Senhor Jesus Cristo? Não, ele é a alegria, é o nosso futuro, é a vida eterna!
Para um Natal partilhado e missionário
Romeo Ballan, mccj
À primeira vista, estamos perante duas mensagens contrastantes: o convite insistente à alegria (I e II leitura), e o apelo exigente a uma mudança de vida, à conversão (Evangelho). O contraste é só aparente, como se pode depreender dos textos de hoje. Aliás, alegria e conversão andam juntas, porque o Senhor é a raiz das duas: a conversão ao Senhor gera alegria e fraternidade.
A linguagem de João Baptista (Evangelho) é dura, parece antiquada, inaceitável hoje: ousa fazer advertências severas às forças da ordem, aos cobradores de impostos, a todos… Chama todas as categorias de pessoas a mudar o seu modo de viver. João aparecera no deserto, nas margens do rio Jordão, «pregando um baptismo de conversão e de perdão dos pecados» (Lc 3,3). O evangelista Lucas refere, sem tirar nem pôr, a linguagem dura do Precursor, que sacode os seus ouvintes, chamando-lhes «raça de víboras»: convida-os a dar «frutos dignos da conversão», a dar bons frutos, para não acabar lançados no fogo (Lc 3,7-9). O que é esta conversão? Quais os frutos?
No domingo passado o apelo à conversão prendia-se sobretudo com o regresso a Deus (pode falar-se de uma dimensão vertical da conversão), dispondo o coração a acolher a Sua salvação. Hoje João dá indicações precisas e concretas para uma conversão que toca directamente as relações com os outros (dimensão horizontal). Lucas alude a três grupos de pessoas que, tocadas pela fúria profética do Precursor, lhe perguntam: «Que devemos fazer?» (v. 10.12.14). É uma pergunta cara a Lucas, o qual a refere noutros relatos de conversão: as multidões no Pentecostes, o carcereiro de Filipos, o próprio Paulo no caminho de Damasco (cf. Actos 2,37; 16,30; 22,10). A pergunta indica uma disponibilidade à mudança de vida: é a atitude fundamental em cada conversão e, ao mesmo tempo, é o apelo a uma outra pessoa que saiba responder em nome de Deus. Tal pessoa, habitualmente, dá pelo nome de missionário: seja ele sacerdote, leigo, religioso, professor, catequista…
Os três grupos de pessoas que vão ter com João Baptista são: as multidões (pessoas nem sempre definidas), os publicanos (cobradores de impostos, portanto os odiados colaboracionistas com o império estrangeiro), os soldados (pessoas avessas aos modos duros). São categorias muitas vezes consideradas irrecuperáveis… O Baptista não tem medo delas, acolhe-as e dá-lhes respostas atinentes e concretas, todas relativas às relações com os outros, com o próximo: a partilha das vestes e do alimento (v. 11), a justiça nas relações com os outros (v. 13), o respeito e a misericórdia para com todos (v. 14). Trata-se de relações baseadas no quinto e no sétimo mandamentos.
João vai para além da sua pregação e da sua pessoa, apontando para a intervenção qualitativa do Espírito Santo (v. 16), que será derramado como baptismo de fogo no Pentecostes (Actos 2). Então o Espírito fará novas todas as coisas, renovará sobretudo o coração das pessoas e unirá povos diferentes na única linguagem do amor. Então será possível compreender que a conversão a Cristo exige justiça e compaixão para com todos, comporta a partilha com todos os que têm necessidades. Era assim que João – modelo para os missionários de cada tempo – «anunciava ao povo a Boa Nova» (v. 18). O missionário, por fidelidade a Cristo, é chamado a anunciar esperança, solidariedade.
A adesão pessoal a Cristo e o anúncio do seu Evangelho comportam sempre a alegria, como resulta dos insistentes convites de Sofonias e de Paulo (I e II leitura), e de outros textos litúrgicos. Acima de tudo, porque Deus rejubila de alegria por nós, renova-nos com o seu amor, faz festa connosco e alegra-se por nós com gritos de alegria. Por isso o profeta grita: «Não temas, não desfaleçam as tuas mãos», porque o Senhor é um salvador poderoso (v. 16-18). Paulo volta com insistência ao motivo da alegria do crente: porque o Senhor está próximo, está presente (v. 4-5). Não há motivos para se angustiar, porque podemos sempre recorrer a Ele na oração, que reforça a nossa alegria (v. 5-7).
A alegria do Natal só é verdadeira se partilhada com gestos concretos a favor dos que sofrem. Eis um exemplo actual de entre muitos outros. Numa aldeia do interior, uma família de marroquinos (muçulmanos), foi atingida por uma dupla desgraça (a morte da mãe e de uma criança). O pároco não hesitou em convidar os fiéis a uma recolha de fundos para aquela família (pai e outros filhos órfãos). É uma iniciativa concreta, imediata, eficaz, em vista de um Natal partilhado, verdadeiro, missionário. Só assim há Natal cristão! No coração dos fiéis que aderem a iniciativas deste género renasce verdadeiramente Jesus. Só assim, a fé se reforça e se difunde! Celebrar o Natal quer dizer descobrir que o verbo necessário para construir uma humanidade nova é “dar”: não há maior amor do que dar a vida…; há mais alegria em dar do que em receber… São palavras do Menino que nasce em Belém, dom do Pai, que amou de tal forma o mundo que lhe deu o seu Filho… Para que o mundo tenha vida em abundância!