1° Domingo de Advento (ciclo C)
Lucas 21, 25-28.34-36


o 1° Domingo de Advento (C)

Referências bíblicas:
1ª leitura: Jr 33,14-16
2ª leitura: 1Ts 3,12-4,2
Evangelho: Lc 21,25-28.34-36

«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar. Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da terra. Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».


O Evangelho da Liturgia de hoje, primeiro domingo do Advento, ou seja, o primeiro domingo de preparação para o Natal, fala-nos da vinda do Senhor no final dos tempos. Jesus anuncia eventos desoladores e tribulações, mas precisamente neste momento convida-nos a não ter medo. Porquê? Porque tudo vai correr bem? Não, mas porque Ele virá. Jesus voltará, Jesus virá, Ele prometeu-o. E diz: «Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai as vossas cabeças, porque a vossa libertação está próxima» (Lc 21, 28). É bom ouvir esta Palavra de encorajamento: erguermo-nos e levantemos a cabeça porque precisamente nos momentos em que tudo parece ter acabado o Senhor vem salvar-nos; esperar por Ele com alegria também no centro das tribulações, nas crises da vida e nos dramas da história. Esperar o Senhor. Mas como podemos levantar a cabeça, não nos deixamos absorver pelas dificuldades, pelos sofrimentos e pelas derrotas? Jesus indica-nos o caminho com um forte apelo: «Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados […]. Velai, orando continuamente» (vv. 34.36).

“Velai”, a vigilância. Façamos uma pausa sobre este aspeto importante da vida cristã. Das palavras de Cristo vemos que a vigilância está ligada à atenção: estai atentos, vigiai, não vos distraiais, isto é, permanecei acordados! Vigiar significa isto: não permitir  que o coração se torne preguiçoso e que a vida espiritual se amoleça na mediocridade. Prestai atenção porque se pode ser “cristãos adormecidos” – e nós sabemos: há muitos cristãos adormecidos, cristãos anestesiados pela mundanidade espiritual – cristãos sem ímpeto espiritual, sem ardor na oração – rezam como papagaios – sem entusiasmo pela missão, sem paixão pelo Evangelho. Cristãos que olham sempre para dentro, incapazes de olhar para o horizonte. E isto leva a “adormecer”:  continuar em frente por inércia, caindo na apatia, indiferentes a tudo exceto ao que convém. Esta é uma vida triste, continuar assim… não há felicidade nisto.

Precisamos de estar vigilantes para não arrastar os dias no hábito, para não nos sobrecarregarmos – diz Jesus – com as preocupações da vida (cf. v. 34). As preocupações da vida sobrecarregam-nos. Por conseguinte, hoje é uma boa ocasião para nos perguntarmos: o que torna o meu coração pesado? O que torna o meu espírito pesado? O que me faz sentar na poltrona da preguiça? É triste ver cristãos “na poltrona”! Quais são as mediocridades que me paralisam, os vícios, quais são os vícios que me esmagam e me impedem de levantar a cabeça? E em relação aos fardos que pesam sobre os ombros dos irmãos, estou atento ou indiferente? Estas perguntas fazem-nos bem, pois ajudam a proteger o coração da acídia. Mas, padre, diga-nos: o que é a acídia? É um grande inimigo da vida espiritual, também da vida cristã. A acídia é aquela preguiça que faz precipitar, deslizar na tristeza, que cancela o gosto pela vida e a vontade de fazer. É um espírito negativo, um espírito mau que prende a alma no torpor, roubando-lhe a alegria. Começa-se com aquela tristeza, escorrega-se, escorrega-se, e nenhuma alegria. O Livro dos Provérbios diz: «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida» (Pr 4, 23). Vela sobre o teu coração: isto significa vigiar, despertar! Estai despertos, protegei o vosso coração.

E acrescentemos um ingrediente essencial: o segredo para estar vigilante é a oração. Com efeito, Jesus diz: «Velai, orando continuamente» (Lc 21, 36). É a oração que mantém acesa a lâmpada do coração. Especialmente quando sentimos que o entusiasmo se arrefece, a oração reacende-o, porque nos reconduz para Deus, para o centro das coisas. A oração desperta a alma do sono e concentra-a no que é importante, na finalidade da existência. Até nos dias mais movimentados, não negligenciemos a oração. Estava a assistir ao programa “À Sua Imagem” uma bela reflexão sobre a oração: ajudar-nos-á, vê-lo far-nos-á bem. Pode servir-nos de ajuda a oração do coração, repetir frequentemente pequenas invocações. No Advento, habituai-vos a dizer, por exemplo: “Vinde, Senhor Jesus”. Apenas isto, dizer: “Vinde, Senhor Jesus”. Este tempo de preparação para o Natal é bonito: pensemos no presépio, no Natal, e digamos de coração: “Vinde, Senhor Jesus, vem”.  Repitamos esta oração ao longo do dia, e o espírito permanecerá vigilante! “Vinde, Senhor Jesus”: é uma oração que podemos recitar três vezes, todos juntos. “Vinde, Senhor Jesus”, “Vinde, Senhor Jesus”, “Vinde, Senhor Jesus”.

E agora oremos a Nossa Senhora: ela, que esperou pelo Senhor com coração vigilante, nos acompanhe no caminho do Advento.

Angelus 28.11.2021

O primeiro domingo do Advento marca também o início de um novo ano litúrgico, em que, domingo após domingo, a Igreja celebra e revive o mistério de Cristo morto e ressuscitado, dinâmica de salvação sempre presente em todos os eventos da vida de Jesus, desde o seu nascimento até a sua vinda gloriosa no fim dos tempos.

Neste ano, o Evangelho que será lido decursivamente é segundo Lucas, que nos apresenta Jesus acima de tudo como profeta que anuncia a vinda de Deus ao nosso meio na humildade, na fraqueza, na misericórdia infinita que lhe foi inspirada pelo seu Pai, um Pai com entranhas de amor maternas.

Havíamos concluído a leitura litúrgica de Marcos com o anúncio da vinda gloriosa do Filho do homem (cf. Mc 13,26-27), e hoje o mesmo evento é posto diante dos nossos olhos na versão lucana. Sim, esse evento final e definitivo, depois do qual há apenas o reino de Deus que se instaura sobre toda a criação e sobre toda a humanidade de todos os tempos e de todas as terras, é o Advento (adventus), que significa “vinda”.

Eis, então, o discurso escatológico de Jesus: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas” (cf. Is 65,8). Jesus se serve da linguagem apocalíptica, própria de uma corrente espiritual que tentava fazer renascer nos fiéis a esperança, sobretudo em tempos de provação, de perseguição e de trevas. Na opressão, quando parece até que a história escapa das mãos de Deus, há mais do que nunca uma revelação, um levantar do véu (esse é o sentido literal de apokálypsis, apocalipse) por parte de Deus, que age, é Kýrios, Senhor, e leva a cumprimento o seu desígnio de salvação.

No fim da história, os três espaços em que vivemos – terra, céu e mar – sofrerão um processo de renovação que poderá parecer um retorno ao caos primordial: em vez disso, será um parto, uma nova criação em que o cosmos será transfigurado, para se tornar morada do Reino.

As imagens desse fim podem nos assustar, mas tentemos decodificá-las com inteligência. O sol, a lua e as estrelas, para os gentios, eram ídolos, deuses, e eram adorados como potências divinas. Naquele dia da vinda do Filho do homem, essas criaturas celestes, portanto, serão demitizadas e destronadas para sempre, porque somente o Senhor, nosso Deus, será Deus e Rei do universo.

Desse poder de Deus sobre o cosmos e sobre a história, já houve um sinal na hora da morte em cruz de Jesus, quando “já era mais ou menos meio-dia, e uma escuridão cobriu toda a região até às três horas da tarde, pois o sol parou de brilhar” (Lucas 23,44-45): ou seja, todas as criaturas foram perturbadas por aquele evento da morte do “justo” (Lc 23,47), porque eram testemunhas da morte do seu Senhor.

Naquele dia (o dia do Senhor), a humanidade viverá esse drama cósmico, histórico e existencial: sentirá angústia (synoché), experimentará uma situação sem saída, uma situação de desorientação e confusão (aporía). Mas essas são as dores do parto da nova criação que, em vez de multiplicar o medo, devem nos advertir e desestabilizar as nossas certezas mundanas sobre as bases do cosmos e da história.

Portanto, Jesus anuncia aqui essa epifania de Deus no fim da história e dos tempos, um fim que chegará de repente. Não se trata de um amanhã distante, de um evento que dirá respeito à hora em que, por causas intrínsecas ao universo, ele terá um fim assim como teve um início: não, é um evento próximo, que pode nos pegar de surpresa. Repentinamente, sem que nenhum de nós possa prevê-lo, “o Filho do Homem aparecerá numa nuvem com grande poder e glória” (cf. Dn 7,13), e a sua presença se imporá sobre todo o universo.

Ninguém poderá escapar dessa visão que revelará a plena identidade de Jesus. Esse homem, Jesus de Nazaré, que “passou fazendo o bem” (Atos 10,38), que foi condenado a uma morte violenta e ignominiosa, ele que era inocente e justo, capaz de amar e de perdoar até ao fim (cf. Lc 23,34), pois bem, esse homem, que já está em Deus em plenitude e na glória, se revelará como Kýrios, Senhor e Salvador da humanidade, Juiz do mal e do bem feitos na história.

Escreve o vidente João, retomando as palavras do profeta Zacarias (cf. Zc 12,10): “Ele vem com as nuvens; e o mundo todo o verá, até mesmo aqueles que o transpassaram” (Ap 1,7; cf. também João 19,37). Note-se: todos o reconhecerão nas feridas das mãos, dos pés e do lado, feridas que não desaparecem no corpo espiritual do Ressuscitado, como aparece nas suas manifestações aos discípulos depois da ressurreição (cf. Lc 24,40; Jo 20,20.27); feridas que os humanos lhe infligiram todas as vezes que feriram e atingiram o outro, o irmão, o pobre, o inocente, o último, o sem voz e sem dignidade reconhecida.

Essa é a parusia, a presença manifesta do Crucificado ressuscitado na glória de Deus. É um evento que se impõe, um evento do qual ninguém escapa, um evento temível, mas também misericordioso, porque quem aparece é aquele que já levou o pecado do mundo, é aquele que veio se sentar à mesa dos pecadores (cf. Lc 7,34), é aquele que veio para buscar e salvar quem estava perdido (cf. Lc 19,10).

O que fazer, portanto, à espera daquele dia? Vigiar, estar atentos, observar a realidade na qual estamos imersos, habitar a vida concreta do nosso tempo. O agricultor que vive entre as árvores frutíferas, que as conhece, as observa e as cuida, também compreende, a partir da figueira, o andamento das estações. Quando o broto dessa planta, logo que desponta no inverno, incha, cresce e parece pronto para se abrir, então o agricultor entende que o verão está chegando. Assim, quando nós lemos em profundidade eventos do nosso tempo e realidades dos nossos lugares, podemos discerni-los como “sinais”, isto é, indícios capazes de indicar algo: sinais dos tempos (cf. Mt 16,3) e dos lugares que os discípulos de Jesus devem se exercitar a interpretar, para compreender como e aonde vai a história guiada por Deus e como os seres humanos se opõem a esse caminho (cf. Lc 21,29-33).

Os discípulos de Jesus, aqueles que creem nele, portanto, não deverão se abater, mas sim “levantar a cabeça”, assumir a postura da pessoa a caminho, em posição ereta, sustentado pela esperança. Imagem extraordinária: o humano em pé, com a cabeça levantada na parrhesía, na franqueza e na convicção de que aquilo que acontece é para a sua salvação; o humano que não teme e, portanto, caminha seguro rumo ao Senhor que vem. É a postura do humano em oração diante de Deus, que deseja o encontro com quem ama; é a postura da sentinela que, de pé, vigia, presta atenção, perscruta o horizonte para estar pronta para gritar para a cidade que o Senhor vem, está prestes a chegar e a se manifestar na glória (cf. Is 62,6-7).

E como os discípulos e as discípulas de Jesus devem viver essa vigília, essa espera do “dia do Senhor”? Com a vigília e a oração! A vigília significa estar desperto, atento, sem ficar presa do entorpecimento espiritual, resultado de uma vida distraída, de corações sobrecarregados pelas preocupações mundanas e por uma busca de prazeres que atordoam.

Sem essa vigilância, é impossível manter uma orientação na vida e permanecer à espera da vinda do Senhor, porque outras coisas se tornam objeto das nossas expectativas: a vigília é uma verdadeira luta espiritual! E, junto com a vigília, a oração, que é estar diante de Deus, é discernimento da sua presença em nós, é manifestação da adesão a Cristo que se vive cotidianamente; mas é também invocação, cheia de desejo, da vinda do Senhor e do seu Reino, quando “Deus será tudo em todos” (cf. 1Cor 15,28).

Nós, cristãos, realmente esperamos esse evento ou não acreditamos nele, considerando-o nada mais do que um mito? Mas é sobre essa vinda do Senhor na glória que se decide a nossa fé cristã, a qual não é apenas uma ética ao estar no mundo, não é só a adesão a uma história da salvação, mas é esperança certa da vinda do Senhor: aquele que veio na fraqueza da carne humana em Belém virá gloriosamente na plenitude de Deus e Senhor, para fazer céu e terra novos (cf. Is 65,17; 66, 22; 2Pe 3, 13; Ap 21, 1).

O Advento, portanto, nos convida a redespertar a espera d’Aquele que vem, convida-nos a invocar: “Marana tha (1Cor 16,22)! Vem, Senhor Jesus (Ap 22,20), vem logo!”.

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A felicidade de esperar
Como alcançar essa felicidade?
Raymond Gravel

Celebrar o Advento

Que podemos dizer? Essa palavra, que significa chegada, vinda, espera, convida-nos à esperança, isto é, ao desejo de que esse mundo novo, tão esperado depois de séculos, aconteça. Mas o que esperamos exatamente? O Senhor? Não! Ele já veio e ele está ainda aqui! Uma senhora escreve: “O Advento… Esperar o Senhor quando ele está ainda aqui? Esperá-lo… não será melhor reconhecê-lo, descobrir seu rosto nos sinais dos tempos, nas belezas e nas luzes do nosso mundo, apesar das fealdades e das sombras?” Sim, é isso o Advento: não é esperar o Senhor, ele já está aqui. Mas é reconhecê-lo, hoje, no nosso mundo. E como reconhecê-lo? Vejamos o que São Paulo e São Lucas nos dizem.

Crescimento no amor

São Paulo, na sua primeira carta aos Tessalonicenses, escrita no ano 51 d.C., convida os cristãos desta comunidade para o amor entre eles e para com a humanidade: “Que o Senhor os faça crescer e aumentar no amor mútuo e para com todos, assim como é o nosso amor para com vocês” (1Ts 3,12). Mas esse amor só é possível na aceitação das nossas diferenças e no respeito a nossa dignidade humana. Como poder amar o outro, diferente de nós, se não aceitamos que ele seja o que ele é? Se cada um possui a sua verdade e tenta impô-la aos outros, o amor não é possível. É o começo da guerra das religiões, é a fonte de todas as desigualdades, é o começo da opressão, é o drama do ostracismo e da exclusão.

Mas como falar no crescimento do amor se as religiões ignoram a fé que tem como fundamento o amor? Lembremo-nos do que São Paulo nos diz sobre o amor: “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria” (1Co 13,1-3).

E eis aqui a definição que é dada: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Co 13,4-7). E o amor é tão importante que, na sua conclusão, São Paulo acrescenta: “Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor” (1 Co 13,13). Para nós, cristãos, que celebramos mais uma vez o Advento, lembremos que Cristo veio e que ele está ainda aqui, é a encarnação perfeita do Amor, e nada pode detê-lo, nem mesmo os homens e os povos e – eu acrescentaria – nem mesmo a Igreja que pretende falar em seu nome.

O Amor tem por nome Cristo Jesus

São Paulo, na sua primeira carta aos Tessalonicenses, escrita no ano 51 d.C., convida os cristãos desta comunidade para o amor entre eles e para com a humanidade: “Que o Senhor os faça crescer e aumentar no amor mútuo e para com todos, assim como é o nosso amor para com vocês” (1Ts 3,12). Mas esse amor só é possível na aceitação das nossas diferenças e no respeito a nossa dignidade humana. Como poder amar o outro, diferente de nós, se não aceitamos que ele seja o que ele é? Se cada um possui a sua verdade e tenta impô-la aos outros, o amor não é possível. É o começo da guerra das religiões, é a fonte de todas as desigualdades, é o começo da opressão, é o drama do ostracismo e da exclusão.

Mas como falar no crescimento do amor se as religiões ignoram a fé que tem como fundamento o amor? Lembremo-nos do que São Paulo nos diz sobre o amor: “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria” (1Co 13,1-3).

E eis aqui a definição que é dada: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Co 13,4-7). E o amor é tão importante que, na sua conclusão, São Paulo acrescenta: “Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor” (1 Co 13,13). Para nós, cristãos, que celebramos mais uma vez o Advento, lembremos que Cristo veio e que ele está ainda aqui, é a encarnação perfeita do Amor, e nada pode detê-lo, nem mesmo os homens e os povos e – eu acrescentaria – nem mesmo a Igreja que pretende falar em seu nome.

O Amor tem por nome Cristo Jesus

Neste trecho de teor apocalíptico do evangelho de Lucas que temos hoje, o autor que escreve entorno dos anos 85-95 d.C. viveu as grandes mudanças que ele anuncia. No ano 70 d.C., Tito e as legiões romanas saquearam Jerusalém, roubaram, incendiaram e reduziram a Terra Santa a um anexo do Império. Doravante, não é mais Jerusalém o coração da Igreja, mas sim Roma, lá de onde Pedro e Paulo vêm semeando o Evangelho sob o preço da própria vida. Alguns cristãos da comunidade de Lucas não compreenderam ainda o que acabava de acontecer. Eles têm a impressão que a ruína de Jerusalém é, ao mesmo tempo, a ruína do cristianismo e o fim da Igreja. E a questão que eles se perguntam é a seguinte: Será que Jesus não se enganou? Será que ele não cometeu algum um erro?

Esse texto de Lucas quer reorientar a situação. Ele focaliza as coisas e convida aos cristãos de seu tempo a acordar. Se Jesus fala aos seus discípulos da sua vinda, é porque ele já veio e está entre eles. Então, o que está sendo anunciado é uma inversão completa que deve acontecer com a sua vinda, que se caracteriza pelo nascimento de um mundo novo, na manhã da Páscoa, através das catástrofes, as desgraças e dos dramas da história com os quais eles foram confrontados. É uma boa nova que Lucas anuncia: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e ergam a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima” (Lc 21,28).

É por amor que esse mundo novo nasceu na manhã da Páscoa, e é no amor que ele pode desenvolver-se e crescer. O exegeta francês Jean Debruynne escreve: “Aí está a verdadeira Boa Nova, aí está o verdadeiro caminho da vinda de Jesus. Não é o caminho das ruínas, das angústias e do caos, é o caminho do homem de pé, do homem acordado, do homem rezando como um vigia. Jesus vem. Ele não vem somente numa manjedoura, ele vem no coração das nossas realidades, mesmo se elas têm o sabor da desgraça. Jesus vem porque ele está já no coração da nossa vida. Nada, nem mesmo o medo, pode arrebatá-lo”.

Eu vos desejo um feliz tempo de Advento!

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A boa-nova de Jesus, hoje, no início do ano litúrgico, vem iluminar três situações da existência humana e cristã: a realidade em que vivemos, a resposta da fé, o percurso do cristão.

1. O evangelista Lucas – que será nosso companheiro de viagem no novo ciclo litúrgico – usa expressões carregadas (Evangelho) ao apresentar a situação real da humanidade «oprimida por tantos males» (oração colecta): fala de angústia, ansiedade, agitação, morte, medo, perturbação… (v. 25-26). São males que não se referem directamente ao fim do mundo, mas à situação actual da humanidade, com todas as suas formas de negatividade, provocadas sobretudo pelo pecado, que contamina todas as relações humanas: com Deus, consigo mesmos, com os outros, com o cosmos.

2. A humanidade, mergulhada no mal e no pecado, é incapaz de se salvar a si mesma, precisa de um Salvador que venha de fora. Jesus, Filho de Deus e Filho do homem, é o Salvador que vem. Tem o poder de Deus para debelar qualquer mal do mundo (v. 27). Não há, na verdade, nenhum mal, caos ou situação negativa que sejam mais fortes do que Ele. Esta é a boa-nova: a libertação do mal é possível, melhor está próxima. Basta olhar para Ele com confiança. «Erguei-vos e levantai a cabeça» (v. 28). O Senhor que vem tem a pujança do rebento que brota (I leitura), da vida que se renova, de um mundo novo. A vinda do Senhor é sempre boa-nova; Ele só tem «promessas de bem» (v. 14).

3. Este sonho de Deus é possível com uma condição (Evangelho): há um percurso a fazer de vigilância e de oração (v. 36), para que o coração não se torne pesado pela dispersão e preocupações da vida (v. 34); para se comportar de modo a agradar a Deus (II leitura); para «crescer e abundar na caridade uns para com os outros e para com todos» (v. 12). Os textos litúrgicos deste domingo contêm um vigoroso convite à vigilância, à oração e à esperança, que são atitudes típicas do tempo do Advento. A expectativa do Senhor que salva não será uma ilusão, será satisfeita. A Sua vinda – em cada dia e particularmente no Natal – é sempre uma surpresa grata, certa, alegre.

A liturgia faz-nos viver na expectativa do Senhor Jesus que vem e que voltará, fazendo-nos reviver eficazmente a Sua primeira vinda no Natal: É esta, de facto, a força especial dos sacramentos da Igreja, que tornam presente em cada dia os mistérios cristãos que tiveram lugar no passado. Deste modo, a história é totalmente recuperada e torna-se história de salvação no hoje de cada cristão. Para isso é preciso que a expectativa se torne atenção ao Senhor que vem; ou seja, preparação paciente de um coração bem-disposto e purificado, sensível às necessidades dos outros, pronto a partilhar com outros a sua experiência de Jesus Salvador.

Nós, os cristãos, que já acreditamos em Cristo, sabemos quem é o Salvador que vem, ao passo que os não-cristãos – que são ainda a maior parte da humanidade (cerca de dois terços) – aguardam ainda o primeiro anúncio de Cristo Salvador. Por isso, o Advento é um tempo litúrgico muito propício para despertar nos cristãos a consciência da responsabilidade missionária. Já o Recomendava o Papa Pio XII há mais 50 anos, convidando à oração e ao empenho missionário, especialmente durante o Advento, que é o tempo da expectativa da humanidade.