XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
João 6, 41-51

Referências bíblicas:
- 1ª leitura: «Com a força desse alimento, andou… até chegar ao Horeb, o monte de Deus» (1 Reis 19,4-8).
- Salmo: Sl. 33(34) – R/ Provai e vede quão suave é o Senhor!
- 2ª leitura: «Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo» (Efésios 4,30-5,2).
- Evangelho: «Eu sou o pão vivo descido do céu» (João 6,41-51)
Naquele tempo, os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu». E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: ‘Eu desci do Céu’?». Jesus respondeu-lhes: «Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Está escrito no livro dos Profetas: ‘Serão todos instruídos por Deus’. Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim. Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram. Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
Quem Jesus acha que é?
Enzo Bianchi
Estamos ainda envolvidos na lectio das palavras proferidas por Jesus na sinagoga de Cafarnaum: palavras suscitadas por reações e perguntas daqueles ouvintes definidos no quarto evangelho como “os judeus”, isto é, aqueles que creem no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, alimentados pela ideologia judaica dominante, forjada pelos chefes religiosos do povo, hostis a Jesus e, depois, responsáveis, junto com os chefes políticos romanos, pela sua condenação.
Na parte do discurso proposta pelo ordo litúrgico para este domingo, acima de tudo, está testemunhada uma murmuração. Jesus havia falado de um pão, dado pelo seu Pai, que veio do céu, um pão capaz de dar a vida ao mundo (cf. Jo 6,32-33). Em seguida, ele mesmo havia se identificado com esse pão: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35), mas essas suas afirmações, aos ouvidos dos seus ouvintes, são uma pretensão louca, escandalosa, inédita.
Por isso, perguntam-se uns aos outros: como pode este homem, Jesus de Nazaré, que parece ser e é realmente um homem, revelar-se como alguém que desceu do céu, portanto que veio de Deus, enviado por ele? Como pode se dizer pão, dizer-se alimento capaz de tirar a fome? A sua pretensão é inadmissível, portanto não receptível, porque atenta contra o senhorio de Deus (cf. Jo 5,18; 10,33).
Justamente a humanidade de Jesus escandaliza, a sua carne e o seu sangue: o seu corpo frágil de criatura o declara terrestre, não descido do céu. Além disso, aqueles judeus têm um conhecimento preciso de Jesus, devido à realidade dos fatos: ele é o filho do carpinteiro de Nazaré, a sua mãe também é bem conhecida, então ele vem simplesmente dessa pequena aldeia da Galileia, não do céu.
Diante dessas contestações e desse desprezo, Jesus reage, pedindo, em primeiro lugar, para se absterem de murmurar; depois, declarando: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai”. Eis o mistério da fé: não basta a inteligência humana, não são suficientes as faculdades humanas para discernir quem é Jesus verdadeiramente, mas é preciso uma ação de Deus, aquele que o próprio Jesus define como seu Pai.
Somente através da acolhida desse dom gratuito é que se pode acessar Jesus, atraídos por essa força divina. Aderir a Jesus, estar envolvido na sua vida é essencialmente graça que acompanha, com uma absoluta preeminência sobre o compromisso pessoal do discípulo. É claro que essa atração do Pai pode ser respondida com consciência, convicção, na liberdade e acessando o amor por Jesus, mas também é possível opor a ela uma recusa, um fechamento.
Mas quando ocorre esse acesso convicto a Jesus, então a comunhão com a sua vida é tamanha que nem mesmo o obstáculo definitivo, a morte, pode vencê-la. De fato, Jesus mesmo, ele, o Ressuscitado, fará ressurgir no último dia quem se confiou a ele compartilhando com ele a sua própria vida. Já estamos no tempo do cumprimento da profecia, e, se os profetas haviam anunciado que Deus mesmo iria instruir o seu povo, eis que essa ação de Deus no hoje se cumpre por meio da presença do Filho na terra, não como instrução para a observância do Lei, mas como instrução voltada à adesão ao homem Jesus (cf. Is 54,13; Jr 31,33-34).
Todos os humanos, não só os filhos da antiga aliança, mas todos os filhos de Adão, toda a humanidade pode escutar a Deus, acolher o seu ensinamento e, portanto, ir a Jesus. Certamente ainda não há a possibilidade de ver a Deus face a face, porque isso nunca foi possível no regime da fé: só o Filho, que é de Deus, viu-o face a face (cf. Jo 1,18) e é a sua narração, a interpretação única e verdadeira, porque quem vê o Filho vê o Pai (cf. Jo 14,9).
Essas palavras também podem provocar escândalo, mas aqui estamos no coração da fé cristã: ir a Jesus significa encontrar um homem, com uma humanidade plena, com uma carne frágil, significa encontrar um homem que vive entre os outros, tem sentimentos humanos, fala uma língua humana, encontra os seres humanos, põe-se ao seu serviço, instrui-os, cuida deles e os cura.
É nessa sua humanidade que podemos ver a Deus e, portanto, cumprir o caminho que nos leva a aderir a ele. Sim, porque, como Jesus disse: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Então, retorna à boca de Jesus pela terceira vez a afirmação solene: “Eu sou (Egó eimi) o pão da vida, o pão vivo”. Quem fala é Egó eimi, o Nome santo de Deus revelado a Moisés (cf. Ex 3,14), e define a sua identidade como pão, alimento para a vida.
Mas aqui devemos prestar muita atenção e, acima de tudo, não acabar dividindo “o pão da vida” de Jesus, o homem Jesus, o Filho de Deus feito carne. Nunca se deve desconectar o Cristo, o Filho, das suas palavras e do pão que ele deu ao mundo: seria um atentado à plenitude da identidade de Jesus! E não devemos nos deixar enganar pelo paralelismo que ele instaura entre o pão que desce do céu e o maná, porque só o movimento do céu à terra o justifica.
O maná que Deus dera aos pais no deserto depois da saída do Egito era, sim, um dom, mas para saciar a fome; não era um alimento que pudesse lhes oferecer a salvação, tanto que os destinatários daquele dom, depois, morreram sem entrar na terra prometida.
“O pão descido do céu”, em vez disso, aquele que o Pai dá, é o próprio Jesus Cristo e é decisivo para a vida eterna. Quem participa no banquete desse pão – que o hino litúrgico para a festa do Corpo do Senhor define como panis vivus et vitalis – vive a vida eterna. Assimilar esse pão que é Jesus Cristo significa receber o antídoto contra a morte, começando a viver uma vida diferente da mortal, a própria vida do Filho de Deus.
É claro, devemos admitir: essas palavras de Jesus no quarto evangelho nos dão vertigem se as acolhemos com fé, enquanto nos escandalizam se não sentimos uma profunda e secreta atração por Jesus, despertada por Deus. Deus não nos força, nem mesmo se impõe, estendendo-nos o dom do Filho no seu amor por Deus e pelo mundo (cf. Jo 3,16), mas nos faz uma oferta para que saibamos responder-lhe na liberdade e por amor.
E justamente em virtude dessa acolhida do dom daquele que desceu do céu “por nós e para a nossa salvação” e que deu a sua vida inteira, o seu corpo, a sua carne, o seu sangue e o seu espírito como dom gratuito e para todos, vigiemos para sermos sempre capazes de crer, adorar e confessar Jesus como nosso único Senhor.
Nessa ótica, somos chamados a nunca separar a eucaristia da cristologia, com o risco de coisificar o sacramento e de empobrecê-lo da imensidão do mistério.
Esse sexto capítulo do Evangelho segundo João, ao insistir na única identidade daquele que é o Filho do Pai descido do céu, daquele que é palavra de Deus e é pão, alimento de vida eterna para quem crê, torna-nos firmes na fé cristã, para a qual a fé eucarística é imanente.
Que alimento dou à minha vida?
Generosidade e beleza ou intolerância e insensatez?
Ermes Ronchi
Eu sou o pão vivo descido do céu. Poder da linguagem de Jesus, o seu mistério e a sua história exprimidas não com raciocínios mas por imagens: pão, vivo, descida, céu. Quatro palavras e quatro metáforas, cada uma generativa enquanto rica de movimento, de experiência, de sabor e de horizontes. Não explicam o mistério, mas fazem-no vibrar na tua vida, mistério jubiloso a desfrutar e a saborear.
O pão de que se fala não é aquela mão de água e farinha passada pela mó e pelo fogo, mas tem muito mais: é o símbolo de tudo aquilo que é bom para ti e te mantém vivo.
Os judeus puseram-se a murmurar contra Jesus. Mas como? Pretendes ser o pão chovido do céu? Mas vieste como todos da tua mãe e do teu pai. Queres mudar-nos a vida? Fazendo aquilo que faz o pão com o nosso corpo, que se oculta e desaparece no íntimo, e não faz ruído.
Não, o Deus omnipotente teria de fazer algo bem diferente: milagres poderosos, definitivos, evidentes, solares. Mas Deus não faz espetáculo. No fundo é a mesma crítica que também nós murmuramos: que pretensões tem sobre a minha vida este homem de há dois mil anos? Pensará Ele realmente que nos faz viver melhor?
Não murmureis entre vós. Não desperdiceis palavras a discutir Deus, podeis fazer melhor: mergulha no seu mistério. Pão que desce do céu. Nota: desce, por mil estradas, de centenas de maneiras, como o pão no corpo; desce para mim, agora, neste momento, e continuamente.
Esse pão, posso relegá-lo para o repertório das fantasias, mas ele desce incansavelmente, envolve-me de forças boas. Eu estou imerso nele e ele está imerso em mim, e alimenta a minha parte mais bela.
Não murmureis, comei. O trecho do Evangelho deste domingo articula-se em torno do verbo comer. Um gesto tão simples e quotidiano, e no entanto tão vital e poderoso, que Jesus o escolheu como símbolo do encontro com Deus. Narrou a fronteira avançada do Reino dos Céus com as parábolas do banquete, da convivialidade.
O Pão que desce do céu é a auto-apresentação de Deus como uma questão vital para o ser humano. O pão que comes faz-te viver, e então vives de Deus e comes a sua vida, sonhas os seus sonhos, preferes aqueles que Ele preferia. Dentada de céu.
Surge uma pergunta: de que coisa alimento alma e pensamentos? Estou a comer generosidade, beleza, profundidade? Ou nutro-me de egoísmo, intolerância, miopia do espírito, insensatez do viver, medo?
Se acolhermos pensamentos degradados, estes tornam-nos como eles. Se acolhemos pensamentos de Evangelho e de beleza, estes transformar-nos-ão em guardiães da beleza e da ternura, o pão que salvará o mundo.
Ermes Ronchi
http://www.snpcultura.org
“O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”
Marcel Domergue, sj
O contexto deste evangelho
O evangelho de hoje começa já no meio do primeiro discurso de Jesus, sobre o pão da vida. Após a multiplicação dos pães, ocorre, no versículo 25, um diálogo muito tenso entre Jesus e os beneficiários do sinal dos pães (v. 25-34). Haviam estes de fato, ficado muito sensibilizados pela operação de poder, pela grande proeza, mas não buscaram o seu significado. Quando Jesus anunciou-lhes um pão de outra natureza, disseram-lhe: «Senhor, dá-nos sempre deste pão.» Esta passagem constitui de alguma forma uma introdução, à qual corresponderá a conclusão constante nos versículos 60-71: «Esta palavra é dura! Quem pode escutá-la? (etc.)». Ao pedido da multidão (versículo 34), Jesus respondeu com dois discursos sucessivos, ambos começando por «Eu sou o pão da vida» (versículos 35 e 48) e terminando com o anúncio da posse da vida eterna (versículos 47 e 58). No centro de cada um dos discursos, faz-se menção à recusa dos ouvintes (41 e 52). E, em seguida, a conclusão, que foi chamada muitas vezes de «a crise (separação, divisão) de Cafarnaum». Os ouvintes de Jesus, logo após este duplo discurso, vão com efeito se separar. Um pequeno grupo, somente, continuará a segui-lo. Este é o quadro, o contexto, da passagem que lemos hoje, que, aliás, invade o segundo discurso. Por que dois discursos? Porque o primeiro estabelece uma semelhança entre o pão e a palavra, entre o comer e o crer, enquanto o segundo, expressa o objeto desta fé: o dom da carne e do sangue.
Buscando o pleno sentido do sinal
Jesus alimentou a multidão. Esta, vendo satisfeita a sua fome, não buscou nada mais além. Tal como os nove leprosos de Lucas 17 que, satisfeitos por terem recuperado a saúde, não se questionaram sobre quem os havia curado nem sequer voltaram para “dar graças a Deus”. Na verdade, tudo é sinal (comentário precedente), mas é preciso que voltemos do “significante” ao “significado”: se vemos o pão e o comemos, devemos compreender que “Deus está aí e faz-se a Si mesmo como nosso alimento”.
Jesus é o sinal por excelência: nele vemos um homem, “o filho de José; sendo bem conhecidos seu pai e sua mãe”. E, a partir de suas palavras e de seus atos, devemos concluir que o próprio Pai o enviou e que ele é o pão vivo que vem de Deus. Mas será que basta reconhecer isto, para chegarmos até o fim do que significa ser este pão-sinal? Vendo em Jesus aquele que vem do Pai, estamos por certo respondendo à questão “de onde ele vem?” É preciso ainda descobrir e aceitar o “para onde ele vai”. Por isso, Jesus responde ao pedido “dá-nos sempre este pão” com os dois discursos de idêntica estrutura, começando ambos, como dissemos, por “eu sou o pão da vida” (v. 35 e 48) e terminando com “a vida eterna” (v. 47 e 58). E, no meio de cada um deles (v. 41 e 52), a recusa dos ouvintes. Este corte que a Liturgia faz (iniciando a leitura de hoje no meio do primeiro discurso) não respeitou estas articulações, mas propõe-nos o essencial do primeiro discurso.
Nutrir-se da Palavra
As palavras chave que marcam este primeiro discurso são, por ordem; “vir a mim”, tomada como equivalente a “crer”, na dupla “ver-crer” (ver Jesus já nos leva a ter fé nele); a vontade do Pai, de ninguém se perder, mas que todos possuam a vida eterna, pela ressurreição. No centro, temos a questão da identidade: quem é Jesus? (que noutro lugar vem formulada como: de onde ele vem?) Enfim, a partir do versículo 45, aparece o tema da escuta: ser instruídos por Deus, ouvir o Pai, receber o seu ensinamento. Este primeiro discurso, portanto, é todo ele comandado pela necessidade de acolher, na fé e pela fé, o que vem do alto, o que vem do Pai. Este acolhimento não é pura passividade, mesmo se, como vimos, não é com nosso trabalho que recebemos este dom: temos sim de nos movermos, temos de “ir até…”. Movimento, no entanto, que consiste em ceder a uma atração que vem de Deus: e este “ceder” não pode se dar sem o nosso consentimento. Mas o Cristo nos foi dado (v. 32) e nós fomos dados ao Cristo (v. 32, 37 e 39). Deus nos criou por seu Verbo, por sua Palavra; nos reunirmos livremente a este Verbo que nos fez ser é entrar na vida que Ele nos deu e que é eterna, uma vez que se trata de sua própria vida. Jesus é esta palavra que sai da boca de Deus e que é o verdadeiro alimento. Ir pra Jesus, escutá-lo e segui-lo, este é o caminho que conduz à vida inalterável de Deus.
A criação, Deus, Jesus e o homem, todos revelados
Tudo o que acaba de ser dito pode parecer metafórico demais. Podemos de fato ver este homem, Jesus, como semelhante ao pão? O que pensar da expressão “descer do céu”? Daí a questão: o que isto exatamente quer dizer? Na minha opinião, este evangelho comporta uma tríplice revelação. Primeiro, sobre as coisas criadas: elas trazem a marca de Deus, a sua imagem; elas nos falam do amor que as fez ser. Há, assim, algo divino no pão de nossas mesas (ver Santo Irineu) e há em Deus “alguma coisa” que torna possível o pão e que o pão revela: que Deus é o verdadeiro alimento do homem. Assim, todas as coisas criadas nos remetem a um mais além que é Deus. Tudo nos fala de Deus, tudo é Palavra. Revelação também sobre Jesus, este homem de Nazaré “de quem conhecemos o pai e a mãe”. Tudo o que existe n’Ele foi criado; Paulo dirá que Ele recapitula em si mesmo todos os seres do céu e da terra. Ele é portanto a presença visível deste Deus-alimento que se dá a nós para nos fazer existir. Revelação, além disso, sobre nós mesmos: a nossa vida “terrestre”, alimentada pelo pão que vem da criação, encontra o seu acabamento perfeito e a sua verdade plena na vida mesma de Deus, “vida eterna”. Então, como alimentar desde já esta vida? Consumindo a palavra de Cristo, esta Palavra que vem do Pai, “indo para Ele”, e deixando-nos “instruir por Deus”. E fazendo esta Palavra, que é o verdadeiro alimento, passar para a nossa carne, isto é, para todas as nossas maneiras de viver.