XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
João 6, 24-35

Referências bíblicas
1ª leitura: «Eis que farei chover para vós o pão do céu» (Êxodo 16,2-4.12-15).
Salmo: Sl. 77(78) – R/ O Senhor deu a comer o pão do céu.
2ª leitura: «Revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus» (Efésios 4,17.20-24).
Evangelho: «Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede» (Jo 6,24-35).
Naquele tempo, quando a multidão viu que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago, subiram todos para as barcas e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus. Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: vós procurais-Me, não porque vistes milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus, marcou com o seu selo». Disseram-Lhe então: «Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?». Respondeu-lhes Jesus: «A obra de Deus consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou». Disseram-Lhe eles: «Que milagres fazes Tu, para que nós vejamos e acreditemos em Ti? Que obra realizas? No deserto os nossos pais comeram o maná, conforme está escrito: ‘Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu’». Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu; meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu. O pão de Deus é o que desce do Céu para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles: «Senhor, dá-nos sempre desse pão». Jesus respondeu-lhes: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede».
TER FOME DE CRISTO
Raymond Gravel
Depois de ter lido, no domingo passado, a narrativa da multiplicação dos pães ou, melhor, a narrativa do dom e da partilha do pão segundo São João, nós começamos hoje, durante três domingos consecutivos, o discurso sobre o Pão da Vida. Esse discurso quer primeiramente nos fazer passar da fome material para a fome espiritual: do pão que acalma a fome do ventre ao verdadeiro Pão que acalma todas as fomes. E esse Pão da Vida é Cristo mesmo. Podemos, então, ver que esse discurso do evangelho de João é o fruto de uma longa reflexão cristã sobre a Eucaristia que está composta pela Palavra proclamada e pelo Pão da Vida partilhado. Mas que mensagens podemos tirar desta primeira parte do discurso de João 6?
As fomes do mundo
Há certamente a fome material, a fome básica de pão, do alimento que todo mundo precisa, e do qual uma de cada dez pessoas carece. Segundo as últimas estatísticas da ONU, seis milhões de seres humanos no mundo sofrem fome. É escandaloso! Enquanto isso, nós ficamos sabendo de todo o desperdiço que produzem os que possuem a riqueza e a capacidade de alimentar os outros. Infelizmente, nós fazemos parte de tudo isso. E, portanto, esse tipo de fome deve ser acalmado mesmo antes de falar em outro tipo de fome. E por quê? Simplesmente pelo ditado que diz: “Não adianta fazer discurso para quem está com fome”. Quando temos fome física, não podemos perceber as outras fomes.
Por outro lado, precisamos definir as outras fomes. Pode ser que essas podem nos fazer tomar consciência do que nós possuímos e nos motivar mais ainda a partilhar e a alimentar os que têm fome. As fomes de liberdade, de ternura, de dignidade, de perdão, de justiça, de amor, de paz e de esperança são fomes humanas que precisamos saciar para poder continuar vivendo, amando e sendo amados. Mas todas essas fomes só podem ser acalmadas, alimentadas, sob o preço dos muitos sacrifícios e sofrimentos de todo tipo que se expressam na imagem do deserto, tanto no Antigo Testamento como no Evangelho. O teólogo Michel Hubaut escreve: “Quem de nós, qual povo, qual igreja, não deveria fazer alguma vez na vida a experiência da travessia no deserto, e descobrir lá a sua pobreza radical, a fim de ficar disponível aos dons de Deus! Travessias do deserto mais ou menos dramáticas: uma prova moral ou de saúde, um período de dúvida, de aridez, de ruptura, uma impressão de caminhar sobre si…”.
Os desertos
Os desertos não são nunca fáceis de atravessar e de habitar. Podemos até nos negar a entrar neles, mesmo sabendo que são necessários para descobrir e compreender as fomes e para encontrar o alimento que precisamos para saciá-las. No trecho do livro de Êxodo que temos hoje, o povo de Israel, logo que saiu da escravidão do Egito, sentiu saudades dos bons tempos passados na escravidão: “Era melhor termos sido mortos pela mão de Javé na terra do Egito, onde estávamos sentados junto à panela de carne, comendo pão com fartura. Vocês nos trouxeram a este deserto para fazer toda esta multidão morrer de fome!” (Ex 16,3). A liberdade é uma aspiração e uma fome, mas também um deserto e uma prova, onde devemos apreender a ajudarmos uns aos outros e a partilhar. A imagem do maná (pão) e dos codornizes (peixes) que não podemos acumular não será um aprendizado de como vivermos juntos, preocupados uns com outros e de sermos solidários como as pessoas? Esse pão e esses peixes que os evangelhos retomam fazem da multidão anônima um povo de irmãos e de irmãs (cf. o evangelho do domingo passado).
Segundo o autor da carta aos Efésios, os cristãos também têm saudades das suas vidas em épocas passadas, e que Paulo chama de homem velho, onde imperava o cada um por si de uma sociedade em que os que têm boas condições podem aproveitar e se esquecem dos excluídos. Não é assim que devem viver os cristãos: “Não foi assim que vocês aprenderam a conhecer Cristo” (Ef 4,20). Mas, o que aprenderam esses cristãos de Éfeso? No versículo 24, há uma tradução litúrgica que não é boa. Em lugar de dizer: “adotem o comportamento do homem novo…” deveria dizer: “se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vem da verdade” (Ef 4,24). Revestir-se como se reveste uma roupa faz referência ao batismo cristão que fala da nossa pertença ao Cristo da Páscoa e que nos convida a partilhar com aquele ou aquela que está precisando (Ef 4,28).
E no evangelho de João, se a multidão corre atrás de Jesus não é porque primeiramente ela se deu conta que tinha fome do Cristo Ressuscitado, mas sim porque ela aproveitou o dom e a partilha do pão: “Jesus respondeu: ‘Eu garanto a vocês: vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos’” (Jo 6,26). É preciso, então, ensinar a essa multidão que quer seguir Jesus a tornar-se um povo de irmãos e irmãs que se entreajudam e que partilham o Pão de Vida que é Cristo mesmo. Esse pão acalma todas as fomes e as sedes: “Jesus disse: ‘Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem acredita em mim nunca mais terá sede’” (Jo 6,35). Mas atenção! Antes disso, é necessário que todas as pessoas atravessem seus desertos para conhecer as suas fomes. É o preço da liberdade; é o preço do Amor.
Para terminar, eu gostaria de partilhar esta bela reflexão de Michel Hubaut: “A grandeza do homem é de ser um caminhante que deve avançar de um acampamento a outro para tomar consciência da sua fome do Absoluto. Dificilmente escolhemos o nosso deserto! Ele é diferente para cada pessoa. Mas, mais cedo ou mais tarde, é preciso atravessá-lo! Uma verdadeira escola onde eu aprendo a viver, a pensar, a rezar sem preocupar-me em acumular provisões para acolher o maná, o dom quotidiano do Senhor. Despojado de todas as minhas respostas piedosas, superficiais, das minhas antigas seguranças, eu devo cavar as minhas fomes para acolher humildemente um pedacinho de pão, a pequena porção do Evangelho, a pequena Palavra de vida que me impedirá de morrer ou de me desesperar em meu deserto. Quem vem a mim não terá mais fome!”.
Jesus é pão que dá vida
Enzo Bianchi
Depois do sinal da multiplicação-partilha dos pães, Jesus, rejeitando a aclamação mundana por parte da multidão que queria fazê-lo rei, porque ele lhe tinha fornecido alimentos, fugiu em solidão para o monte (cf. Jo 6,14-15), deixando os discípulos que tentavam retornar de barco para a outra margem do mar, rumo a Cafarnaum (cf. Jo 6,16-17). Mas já era noite, e uma violenta tempestade havia se desencadeado sobre o lago.
Naquela situação de dificuldade, os discípulos entreveem Jesus caminhando sobre as águas do lago, vindo na direção deles e são tomados pelo medo. Mas ele diz: “Egó eimi, Eu sou, não tenham medo!”, depois desembarca com eles na terra firme e entra em Cafarnaum (cf. Jo 6,18-21).
E eis que, “no dia seguinte” (Jo 6,22) a multidão, que havia comido o pão, põe-se no seu rastro, alcança-o atravessando o lago, por sua vez, em diversas barcas e lhe pergunta com respeito: “Rabi, mestre, quando chegaste aqui?”. Mas Jesus, conhecendo as motivações daquela busca, não responde à curiosidade da multidão, mas revela com autoridade como ela é insuficiente, ambígua e enganosa: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais (semeîa), mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”.
Essa busca faz de Jesus aquele que satisfaz as necessidades humanas e preenche a falta, mas desconhece a sua verdadeira identidade, aquela de quem veio não para dar um alimento que tira a fome material, mas para dar aquilo que nutre para a vida eterna.
Aqueles galileus viram o prodígio, mas não leram nele o sinal, ou seja, aquilo que aquela ação de Jesus significava. Sentiram a saciedade, mas não compreenderam que aquele pão era o dom da vida de Jesus.
Revelada, portanto, a atitude da multidão, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus faz um longo discurso, anunciando o seu tema nas suas primeiras palavras: “Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo”.
Jesus pede aos seus ouvintes um compromisso, revela o dom que ele, como Filho do homem, dá às pessoas e se manifesta como aquele sobre o qual o Pai colocou a sua bênção. Portanto, é preciso se esforçar, pôr-se em ação por um alimento que nutre para a vida eterna. É verdade que é preciso se esforçar para receber do Pai o pão de cada dia (cf. Mt 6,11; Lc 11,3), alimento para o corpo destinado à morte; mas, ao mesmo tempo, Jesus exorta a desejar, isto é, a trabalhar com igual intensidade e convicção em vista daquele alimento que só ele pode dar, o alimento que dá a vida para sempre, a vida que permanece além da morte.
Preste-se atenção: Jesus não despreza o alimento material, mas, sabendo que “não só de pão vive o homem” (Dt 8,3; Mt 4,4), ele exorta a trabalhar com convicção e intensidade em vista daquele alimento que dá a vida para sempre, alimento que só ele, o Filho do homem, pode dar.
De fato, enviando-o ao mundo, o Pai o marcou com o seu selo, pôs nele a sua marca (cf. Hb 1,3), sendo ele “a imagem do Deus invisível” (Col 1,15), o rosto da sua glória, palavra e relato que narra o verdadeiro e único Deus (cf. Jo 1,18).
Mas, mesmo diante dessa revelação da sua identidade, aqueles galileus não compreendem e, então, perguntam a Jesus: “O que fazer? Que devemos fazer para realizar as obras de Deus? Qual mandamento devemos cumprir?”. Jesus, em resposta, revela a obra, o agir por excelência, que também parece uma não ação, algo que, segundo o sentimento humano, carece de concretude: a ação das ações, a ação por excelência que Deus quer e pede é crer, aderir àquele que ele mandou.
A única obra é a fé, diz Jesus. É obra de Deus, porque permite que Deus opere no ser humano, na história, na vida de quem crê. Sim, aqui está a diferença cristã: no coração da vida do fiel, não está a lei, mas sim a fé. Nunca se repetirá isso o suficiente, e não nos esqueçamos de que o primeiro nome dado aos discípulos de Jesus no Novo Testamento após a ressurreição foi precisamente “os crentes” (At 2,44; 4, 32). A fé faz os cristãos, molda os cristãos, salva os cristãos.
Essa verdade central, porém, deve ser bem compreendida: a fé não é um ato intelectual, gnóstico, mas é uma adesão vital a Jesus Cristo, é um estar no seu seguimento, envolvidos com a sua própria vida. Desse modo, são varridas as contraposições intelectuais entre fé e ações-obras, entre contemplação e ação. A obra do cristão é crer, é acolher o dom da fé para assumir a própria responsabilidade, a própria obra, a própria luta, a própria custódia. Só assim se reconhece o primado da graça, do amor gratuito e sempre antecipado do Senhor, que é um dom a ser acolhido com espírito de estupor e de agradecimento, por ser capaz de gerar no fundo do coração responsabilidade e desejo de responder ao dom ou, melhor, ao Doador.
Crer em Jesus Cristo, o Enviado de Deus ao mundo, significa estar onde ele está (cf. Jo 12,26; 14,3; 17,24), compartilhando com ele a mesma vida, “aonde quer que ele vá” (Ap 14,4), radicalmente e “até o fim” (eis télos: Jo 13,1).
Mas aquela multidão revela a própria identidade: para crer, quer um sinal! Tinham visto o sinal da multiplicação-partilha dos pães, mas, como ele não havia desembocado naquilo que eles queriam, na proclamação de Jesus Rei e Messias mundano, agora exigem outro sinal, como aquele feito por Moisés através do dom do maná (cf. Sl 78,24).
Desse modo, mostram que não são sequer capazes de ler a Torá, porque nela – explica-lhes Jesus – “não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo”.
E assim Jesus revela que se sente chamado não a dar algo, mas a dar tudo de si mesmo! Então, eles pedem a Jesus que lhes dê esse pão e que o dê para sempre. E ele responde com a revelação inédita: “Egó eimi, eu sou o pão da vida”. Portanto, o pão para a vida eterna não é um simples dom da parte de Jesus, mas é Jesus mesmo, que dá toda a sua pessoa.
O que significa essa linguagem que corre o risco de ser compreendida por nós de modo abstrato? Significa que Jesus é alimento, e, nessa primeira parte do seu longo discurso, ele se apresenta como alimento como Palavra, Palavra do Pai, Palavra feita carne (cf. Jo 1,14), Palavra descida do céu, Palavra enviada por Deus aos humanos.
A Palavra de Deus sempre foi lida no Antigo Testamento como alimento, pão que dá a vida à humanidade (cf. Is 55,1-3, Pr 9,3-6 etc.); mas agora essa Palavra, dita muitas vezes e de diversos modos nos tempos antigos aos seres humanos através de Moisés e dos profetas (cf. Hb 1,1), é um homem: é Palavra de Deus humanizada em Jesus de Nazaré. Nesse sentido, Jesus se entrega aos humanos como “pão da vida”, pão que traz a vida.
Essa linguagem é tão vertiginosa que não é possível comentar tais palavras de Jesus: elas devem ser apenas acolhidas em adoração. Jesus, sim, justamente Jesus, um homem, um judeu marginal da Galileia, o filho de Maria e de José, proveniente de Nazaré, é na verdade a Palavra de Deus e, como tal, é alimento, pão para a nossa vida de crentes nele.
Quem pode dizer que é capaz de entender e de sustentar essas palavras? De todos os modos, talvez o Senhor nos peça apenas que tentemos acolher essas palavras; e que façamos isso sabendo que o seu dom, a sua graça nos permite torná-las palavras acolhidas por cada um de nós de modo muito pessoal, isto é, como somente o Senhor pode nos fazer conhecê-las e entendê-las.
Assim, assimilamos o alimento para a vida eterna, segundo a promessa de Jesus: “Quem vem a mim não terá mais fome, e quem acredita em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). Uma promessa paralela àquela feita por Jesus à mulher da Samaria: “Aquele que beber a água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede” (Jo 4,14).
O pão mais que o pão
Marcel Domergue
O prodigioso dom do maná
Poderia Deus ter repreendido os filhos de Israel por suas recriminações. Ao contrário, contudo, renovou as suas liberalidades, empenhando-Se em «fazer chover pão», para que comessem até à saciedade. Da mesma forma, desconsiderou Jesus as murmurações dos Judeus, tendo levado estes a desejarem sempre «o verdadeiro pão vindo do céu».
As panelas cheias ou a liberdade
Estávamos tão bem no Egito! Murmuravam os Hebreus durante o Êxodo. Vivíamos lá sob um regime de escravidão; o trabalho era duro e não podíamos nos organizar como um povo constituído. Mas isto já foi esquecido: lá éramos bem alimentados e tínhamos onde morar… Nos dias de hoje, alguns povos que viveram sob regimes ditatoriais, como o soviético por exemplo, poderiam dizer: estávamos até bem; não éramos livres, mas o Estado ocupava-se de nosso abastecimento. Agora temos de assumir nossa sobrevivência com obra de nossas mãos… A primeira leitura faz-nos compreender que a liberdade tem um preço: pede que arrisquemos nossa vida no deserto. Hebreus 2,15 fala dos “que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte”. O que é verdade tanto nos campos psicológico, social e político quanto no espiritual. Ao dar a seu povo o maná, Deus embaralhou as cartas: eis aí um pão que vai “cair do céu” sem qualquer outro trabalho que não o de recolhê-lo toda manhã, tão certo como «as panelas de carne» do faraó. Deste modo, passaram a ter agora ‘a liberdade e o pão’, e não mais ‘a liberdade ou a vida’. Mas será que Deus distorceria assim este jogo? Não, pois os Hebreus não podiam estocar o maná. Deviam confiar absolutamente no pão que viria no dia seguinte, sem nenhuma outra garantia que não fosse a palavra de Moisés, a Palavra de um Outro. Suas vidas estavam agora nas mãos de Deus. Mas acreditavam eles que estas mãos de fato fossem benevolentes? Este é o pão da provação. O que, enfim, está posto à prova é todo o dom feito por amor. Quem crê neste dom encontra ao mesmo tempo a vida e a liberdade. Eis-nos aqui, enfim, destituídos de toda certeza, exceto a da fidelidade de Deus.
De que pão se trata? Para que vida?
O pão de Gênesis 3 vinha da terra; aqui temos um pão que “desce do céu”. O pão, vindo da terra, assegurava eventualmente apenas uma vida provisória; o pão do céu comunica uma vida eterna. O pão da terra era obtido somente através do trabalho duro; já o pão do céu não exige trabalho algum: é o pão que o Filho do Homem “dará”. Para recebê-lo, basta crer que ele é dado. Podemos seguir este tema do trabalho nos versículos 27 e 28 e, no versículo 29, temos a passagem do trabalho à fé, que é puro acolhimento do dom (temos seis menções ao dom, neste evangelho). Mas já não era o maná um “pão do céu”? Não, não era o verdadeiro “pão que veio do céu” (v. 32). Era um pão que perece (o maná não passava da noite), era uma figura apenas fugidia do pão “que permanece até a vida eterna” (v. 27). O maná era o pão para o caminho, para as etapas da nossa caminhada para a Terra Prometida. Já o pão que o Cristo nos dá, e que é Ele mesmo, é o pão do fim dos tempos, do final da estrada. Por ele, a vida de Deus vem para dentro de nós e nós entramos nela. Mas não esqueçamos que, para que isto se realize, não é bastante ir comungar na Eucaristia. É preciso que a cerimônia ritual signifique a nossa escolha, de deixarmo-nos habitar e transformar por esta vida de Deus, que tem como característica ser um dom. Vida que deve tornar-se a nossa vida.
O pão mais que o pão
Comer é mais do que comer; o pão é mais do que o pão. “Ficastes satisfeitos porque comestes o pão”, disse Jesus, «não porque vistes sinais». Ou seja, na multiplicação dos pães, a multidão deveria ter compreendido toda a imensa ternura que os envolvia, a cada um, e que os fundava. Aliás, independente até mesmo da multiplicação dos pães, a simples cumplicidade entre nossas vidas e o conjunto da natureza que nos conduz e alimenta deveria provocar o nosso espanto e admiração, sendo quais forem as explicações científicas que se possam oferecer. Repitamos com Santo Irineu: “Uma vez que (…) somos nutridos pela criação (…), ele (o Cristo) confirmou (ao dar sua carne e seu sangue) que o cálice que vem da criação era o seu sangue, pelo qual ele fortifica o nosso sangue; ele confirmou que o pão que vem da criação era o seu corpo, pelo qual ele fortifica o nosso corpo.” O mistério da criação e o mistério da nossa elevação até à vida de Deus são uma só coisa. O primeiro é o sinal do segundo. O dom de si mesmo que o Cristo nos fez vem “confirmá-lo”. A multiplicação dos pães, com efeito, foi um sinal pascal. E, pela Páscoa, ficamos sabendo que o universo, de uma forma ou de outra, vive desde sempre o gesto pascal: é de sua própria Substância que Deus nos faz existir e nos alimenta. E, assim, tudo é sinal de uma realidade última, que ainda não percebemos plenamente.