
P. Manuel João, comboniano
Reflexão do Domingo
da boca da minha baleia, a ELA
A nossa cruz é o pulpito da Palavra
Cinco pães e dois peixes, a receita do milagre!
Ano B – Tempo Comum – 17º domingo
João 6,1-15: “Este é realmente o profeta”
Neste domingo, a liturgia interrompe a leitura do evangelho de Marcos, quando havíamos chegado ao relato da multiplicação dos pães, para incluir a leitura da versão joanina deste milagre. Durante cinco domingos, ouviremos o capítulo 6 do evangelho de João, o capítulo mais longo e um dos mais densos dos quatro evangelhos. A multiplicação dos pães é o único milagre contado por todos os evangelhos. Na verdade, encontramo-lo seis vezes, já que é duplicado em Marcos e Mateus. Isso nos faz entender a importância que os primeiros cristãos deram a este evento tão sensacional.
O capítulo 6 de João é particularmente rico e profundo do ponto de vista simbólico. Este “sinal” (assim João chama os milagres) é meditado e elaborado com grande cuidado, como ele faz com todos os sete “sinais” que recolhe no seu evangelho. No centro do relato encontramos o “pão”, mencionado 21 vezes (de 25 em todo o evangelho de João). No pano de fundo da narrativa e do discurso que se segue na sinagoga de Cafarnaum, encontramos a referência à eucaristia. Lembremos que João não relata a instituição da eucaristia, substituída pela lavagem dos pés. Aqui ele apresenta a sua meditação sobre a eucaristia.
O risco do reducionismo
Antes de nos aproximarmos do texto, parece-me oportuno sublinhar a necessidade de evitar alguns possíveis reducionismos:
1) Concentrar a nossa atenção quase exclusivamente no aspecto milagroso, ou seja, na dimensão histórica, no “facto” em si. Os quatro evangelistas dão versões com detalhes bastante diferentes. Isso nos faz entender que cada um deles já faz uma releitura em função da sua comunidade, por isso o “facto” é entrelaçado com a sua interpretação catequética;
2) Considerar do relato apenas a dimensão simbólica, esvaziando o “sinal” da sua referência histórica, reduzindo-o assim a uma “parábola”. Sem a veracidade do milagre não se explica porque os evangelistas e a primeira comunidade cristã deram tanta importância a este “sinal”;
3) Interpretar o relato exclusivamente em chave eucarística. Todos os evangelistas ligam o milagre à eucaristia, mas a narrativa tem um alcance mais amplo e mais rico. No texto de João 6 a referência explícita à eucaristia aparece apenas no final do discurso de Jesus;
4) Fazer uma leitura unívoca do texto, ou seja, apenas “religiosa” (o milagre como figura do alimento espiritual), ou unicamente “material” (como um simples convite à partilha e à solidariedade).
Alguns elementos simbólicos
1) A nova Páscoa. “Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”. A referência à Páscoa não é apenas uma anotação temporal, mas tem um alcance simbólico. Esta “grande multidão” não vai mais em direção a Jerusalém para celebrar a Páscoa, mas em direção a Jesus. Ele é a nova Páscoa que dá início ao êxodo definitivo da nossa libertação.
2) O novo Moisés. “Jesus subiu ao monte e sentou-se ali com os seus discípulos”. Este subir ao monte (primeiro com os discípulos e depois sozinho) nos lembra Moisés. A comparação é ainda mais evidente se considerarmos que logo em seguida vem o relato de Jesus caminhando sobre o mar (Jo 6,16-21). Jesus é o novo Moisés, o novo profeta e líder do povo de Deus que está prestes a oferecer o novo maná.
3) O verdadeiro Pastor. “Façam-os sentar. Havia muita relva naquele lugar”. Esta anotação, além de ser uma referência à primavera e ao período da Páscoa, nos remete ao salmo 23: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Em verdes pastos me faz descansar”. Jesus, que reúne a multidão ao seu redor e percebe suas necessidades, é o Pastor prometido por Deus (Ezequiel 34,23).
4) O novo maná. “Recolham os pedaços que sobraram, para que nada se perca”. O maná não devia ser recolhido para o dia seguinte, exceto para o sábado (Êxodo 16,13-20). Aqui, no entanto, Jesus recomenda recolher os pedaços que sobraram. Não tanto para que nada se desperdice, mas como uma alusão à eucaristia. “Eles os recolheram e encheram doze cestos”, tantos quantas as doze tribos de Israel, como as horas do dia e os meses do ano.
Dois pontos de reflexão
1) Converter-se a uma visão global do Reino. Notamos, antes de tudo, que Jesus se preocupa não apenas com a fome espiritual das pessoas, mas também com a fome física. Não podemos ignorar que, além da fome da Palavra, há também uma fome dramática de pão no mundo. O Reino de Deus diz respeito à totalidade da pessoa. No entanto, em nossa mentalidade persiste uma visão dualista da vida, uma separação entre a esfera espiritual e a material. “As pessoas vão à igreja para rezar; para comer, cada um volta para sua casa e se arranja!”: esta é a nossa lógica, muito prática! E era a dos apóstolos, como vemos na versão do relato do evangelho de Lucas, onde eles dizem a Jesus: “Está ficando tarde, manda a multidão embora para que vá às aldeias e campos ao redor para encontrar hospedagem e comida”. Jesus, no entanto, parece carecer de senso prático e lhes responde: “Vocês mesmos deem a eles de comer” (Lucas 9,12-13). A Igreja não pode se alienar das condições em que a humanidade vive, “caída nas mãos dos ladrões”!
2) Da economia do comércio para a do dom. “Onde poderemos comprar pão para que estes tenham de comer? Ele disse isso [Jesus a Filipe] para testá-lo”. Por que ele pergunta justamente a Filipe? Porque é um tipo prático e esperto (veja Jo 1,46; 14,8-9). De facto, ele faz as contas rapidamente: “Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço!” Duzentos denários era muito, considerando que um denário era o salário diário de um trabalhador. Neste ponto, intervém André, seu amigo e conterraneo, já que Jesus havia perguntado “onde” se podia encontrar pão: “Aqui está um rapaz que tem [para vender?] cinco pães de cevada e dois peixes”, mas percebendo o absurdo, acrescenta rapidamente: “mas o que é isso para tanta gente?”. Mas 5+2 dá 7, o número da plenitude. Para Jesus é mais do que suficiente. E o milagre acontece!
Hoje em dia, vemos poucos milagres desse tipo. Como Gideão, poderíamos nos perguntar: “Onde estão todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram?” (Juízes 6,13). Mas se hoje não ocorrem “milagres”, não é porque “o braço do Senhor se encolheu” (Isaías 59,1). Ele gostaria de realizar muitos milagres: o milagre de acabar com a fome no mundo, de fazer desaparecer as guerras que matam seus filhos e filhas e desfiguram sua criação, de instaurar definitivamente um mundo novo onde reina a paz e a justiça… No entanto, há um problema. Deus, depois de criar o homem, decidiu não fazer mais nada sem a cooperação dos homens. O Senhor gostaria de realizar milagres, mas faltam-lhe os ingredientes que só nós podemos oferecer. Faltam-lhe os cinco pães de cevada e os dois peixes, que insistimos em querer vender, em vez de compartilhá-los.
Para a reflexão semanal
1) Quais são os “cinco pães de cevada e os dois peixes” que o Senhor está me pedindo para mudar minha vida?
2) Que lógica predomina na minha vida: a do acúmulo ou a da solidariedade?
3) Para meditar:
– “Se compartilhamos o pão do céu, como não compartilharemos o da terra?” (Didaqué);
– “O pão do necessitado é a vida dos pobres, quem o priva dele é um assassino. Mata o próximo quem lhe tira o sustento, derrama sangue quem nega o salário ao trabalhador.” (Sirácida 34,25-27);
– “No mundo há pão suficiente para a fome de todos, mas insuficiente para a ganância de poucos” (Gandhi).
Pe. Manuel João Pereira Correia MCCJ
Verona, 25 de julho de 2024