XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (B)
Marcos 6,1-6 

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Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra, e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?». E ficavam perplexos a seu respeito. Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa». E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

O trecho evangélico deste domingo nos interroga sobretudo sobre a nossa atitude habitual, cotidiana: atitude que, em profundidade, não espera em nada e, portanto, não espera por ninguém; e, principalmente, atitude que não consegue imaginar que, a partir do cotidiano, do outro que nos é familiar, daquele que conhecemos, pode surgir para nós uma palavra verdadeiramente de Deus.

Não temos muita confiança no outro, particularmente quando o conhecemos de perto, enquanto estamos sempre prontos para crer no “extraordinário”, em alguém que se imponha. Estamos tão pouco munidos de fé-confiança que impedimos que ocorram milagres, porque, mesmo que eles ocorram, não os vemos, não os reconhecemos, e, portanto, eles permanecem como eventos insignificantes, sinais que não alcançam o seu fim.

Essa, em profundidade, é a mensagem do evangelho de hoje, uma página que diz respeito à nossa fé, à nossa disponibilidade a crer. Jesus nascera de uma família comum: um pai artesão e uma mãe dona de casa como todas as mulheres da época. A sua família tinha irmãos e irmãs, isto é, parentes, primos, uma família numerosa e ligada por fortes laços de sangue, como ocorria no Oriente.

Desde pequeno, como todo menino judeu, Jesus ajudou o pai nos trabalhos, brincou com Tiago, Joset, Judas, Simão e com suas irmãs; levou uma vida muito cotidiana, sem que nada deixasse transparecer sua vocação e sua singularidade.

Depois, em certo ponto, não sabemos quando, começaram para ele aqueles que Robert Aron chamou de “os anos obscuros de Jesus”, junto às margens do Jordão e do Mar Morto no deserto de Judá, onde viviam grupos e comunidades de fiéis judeus à espera do dia do Senhor, homens dedicados à leitura das Santas Escrituras, à vigília e à oração.

Jesus, em uma certa idade, chegou a esses lugares e lá se tornou discípulo de João Batista (que o definiu como “aquele que vem depois de mim”: cf Mc 1, 7).

Depois, o chamado de Deus e a unção do Espírito Santo o levaram a ser um pregador itinerante do Reino que vem, dando início ao seu ministério na Galileia, a terra em que ele tinha sido criado (cf. Mc 1, 14-15).

E, quando Jesus já tinha um grupo de discípulos que viviam com ele (cf. Mc 3, 13-19), passando de vilarejo em vilarejo para pregar, no dia de sábado, entrou na sinagoga de Nazaré, “sua terra”, a terra de seus pais. Voltou depois de muito tempo passado em outros lugares, e os moradores do vilarejo se lembram dele como “filho de” e “irmão de”.

No momento da leitura do trecho da Torá (parashah) e dos profetas (haftarah), Jesus, sendo um fiel em aliança com Deus, como qualquer outro judeu, e tendo mais de 12 anos, portanto, na qualidade de bar mitzvah, filho do mandamento, sobe ao ambão, lê as Escrituras e comenta a Palavra. Ele não é sacerdote, não é um rabi oficialmente reconhecido – “ordenado”, diríamos nós –, mas exerce esse direito de ler as Escrituras e proferir a homilia.

Ao contrário de Lucas (Lc 4, 16-30), Marcos não especifica nem os textos bíblicos proclamados nem o conteúdo do comentário de Jesus, mas evidencia a reação da assembleia litúrgica que o escutou. Por outro lado, sua fama o precedeu: ele retorna a Nazaré como um rabi, um “mestre” de traços proféticos, capaz de realizar curas, ações milagrosas com suas mãos.

A primeira reação é de estupor e admiração: ele é um bom pregador, tem autoridade, sua palavra toca e parece rica em sabedoria. A pergunta que ele suscita é: “De onde (póthen) recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?”.

Eles se interrogam, portanto, sobre a identidade de Jesus, como já ocorreu na sinagoga de Cafarnaum (cf. Mc 1, 27), e a resposta poderia ser uma adesão a Jesus na fé, reconhecendo que o Espírito Santo age nele (cf. Mc 1, 10; 3, 29-30); ou uma rejeição de Jesus, atribuindo ao demônio a sua força em anunciar a Palavra e em operar prodígios (cf. Mc 3, 22).

E, nesse estupor superficial, eis que surge outra pergunta: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?”.

Na realidade, trata-se de uma interrogação que contém uma nuance difamatória. Jesus – pensa-se – exerceu apenas a profissão de carpinteiro, portanto não está autorizado a ensinar; além disso, é o filho de Maria, seu pai é conhecido, embora não seja nomeado, e seus familiares são bem conhecidos, ainda residem no vilarejo. Então, o que ele pretende, o que quer? Por que deveria ser “outro” ou alguém com uma missão especial?

Sim, Jesus era um homem como os outros, apresentava-se sem traços extraordinários, parecia frágil como todo ser humano. Tão cotidiano, tão modesto, sem qualquer coisa que, na sua forma humana, proclamasse a sua glória e a sua singularidade, sem um “cerimonial” composto de pessoas que o acompanhassem e o tornassem solene e munido de poder ao aparecer no meio dos outros.

Não, demasiadamente humano! Mas se não há nada de “extraordinário” nele, por que acolher a sua mensagem? Com toda a probabilidade, Jesus sequer tinha uma palavra sedutora, não se comportava de modo a ser admirado ou venerado. Era humano demais e, por isso, “ficaram escandalizados por causa dele” (eskandalízonto en autô), isto é, sentiam, justamente naquilo que viam, naquela sua humanidade tão cotidiana, um obstáculo a ter fé nele e na sua palavra.

Por isso, homologam-no a eles mesmo, reduzem-no à sua estatura, e Jesus se torna para eles uma pedra de tropeço, um escândalo que impede um encontro de salvação. Eles se orgulham de conhecer Jesus humanamente, “segundo a carne” (2Cor 5, 16), mas, na realidade, impedem a eles mesmos o seu verdadeiro conhecimento.

Então, esse retorno ao vilarejo natal foi um fracasso. Jesus compreende isso e ousa proclamá-lo em voz alta: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. Sim, foi isto aconteceu: justamente aqueles que pretendiam conhecê-lo, como concidadão, próximo ou familiar, chegam a não reconhecer sua verdadeira identidade e acabam desprezando-o.

Marcos já havia notado que, no início da sua pregação, seus parentes tinham vindo para pegá-lo e levá-lo embora, dizendo que ele estava louco, fora de si mesmo (éxo: cf Mc 3, 21); mas agora são todas as pessoas de Nazaré que emitem esse julgamento negativo sobre ele: sua atitude é demasiadamente humana, pouco sagrada, pouco ritual; ele não responde aos cânones previstos para discernir nele um enviado de Deus, o Messias esperado.

Jesus, então, põe-se a curar os doentes lá presentes, impõe-lhes as mãos e cura apenas alguns, mas é como se tivesse não tivesse operado prodígios, porque o milagre ocorre quando a testemunha está disposta a passar da incredulidade à fé.

Em Nazaré, em vez disso, todos permaneceram incrédulos, e por isso Marcos sentencia: “ali não pôde fazer milagre algum” (ação de poder, dýnamis).

Jesus é reduzido à impotência, não pode agir na sua força, não pode nem fazer o bem, porque falta o requisito mínimo, a fé nele por parte dos presentes. Em que Jesus havia errado? Em relação àqueles “seus”, ele caminhava muito à frente dos outros, mantinha um passo rápido demais, via longe demais, tinha a parrhesía, a coragem de dizer aquilo que os outros não diziam, ousava pensar aquilo que os outros não pensavam, e tudo isso permanecendo humano, humaníssimo, demasiadamente humano!

Nesse episódio do Evangelho de Marcos, Jesus aparece como a sabedoria incompreendida; o profeta não acolhido justamente por aqueles a quem foi enviado, desprezado por aqueles que lhe são mais próximos; o curador que não pode fazer o bem porque isso lhe é impedido pela não acolhida da sua ação que dá salvação.

É isso que espera por qualquer pessoa que tenha recebido um dom de Deus, mesmo que apenas uma migalha de profecia: torna-se insuportável, e assim domina a convicção de que é melhor não lhe dar confiança… Jesus “admirou-se com a falta de fé deles” (apistía), e, mesmo assim, permanece firme: continua com fidelidade a sua missão, em obediência Àquele que o enviou, indo para outros lugares, sempre pregando e fazendo o bem.

Mas sem receber fé-confiança, Jesus não consegue nem converter, nem curar, nem fazer o bem.

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O Evangelho que lemos na liturgia deste domingo (Mc 6, 1-6) fala-nos da incredulidade dos concidadãos de Jesus. Depois de ter pregado noutras aldeias da Galileia, Ele regressa a Nazaré, onde tinha crescido com Maria e José, e num sábado começa a ensinar na sinagoga. Muitos que o ouviam perguntam: «De onde vem toda esta sabedoria? Mas, não é ele o filho do carpinteiro e de Maria, isto é, dos nossos vizinhos que conhecemos bem?» (cf. vv. 1-3). Perante esta reação, Jesus afirma uma verdade que também se tornou parte da sabedoria popular: «Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e em sua própria casa» (v. 4). Dizemos isto muitas vezes…

Detenhamo-nos na atitude dos concidadãos de Jesus. Poderíamos dizer que eles conhecem Jesus, mas não o reconhecem. Há uma diferença entre conhecer e reconhecer: com efeito, esta diferença faz-nos compreender que podemos conhecer várias coisas sobre uma pessoa, ter uma ideia, confiar no que os outros dizem sobre ela, talvez até encontrá-la de tempos a tempos na vizinhança, mas tudo isto não é suficiente. Eu diria que se trata de um conhecimento comum e superficial, que não reconhece a singularidade dessa pessoa. É um risco que todos corremos: pensamos que sabemos muito sobre uma pessoa, e o pior é que a rotulamos e fechamos nos nossos preconceitos. Do mesmo modo, os compatriotas de Jesus conhecem-no há trinta anos e pensam que sabem tudo! «Mas não é este o rapaz que vimos crescer, o filho do carpinteiro e de Maria? Mas de onde lhe vêm, estas coisas». A desconfiança… na verdade, nunca repararam quem é realmente Jesus. Limitam-se à exterioridade e rejeitam a novidade de Jesus.

E aqui entramos diretamente no cerne do problema: quando deixamos prevalecer o conforto do hábito e a ditadura dos preconceitos, é difícil abrirmo-nos à novidade e deixarmo-nos surpreender. Controlamos: com o hábito, com os preconceitos… Muitas vezes acabamos por procurar a confirmação das nossas ideias e esquemas de vida, das experiências e até das pessoas, para nunca termos de fazer o esforço de mudar. E isto também pode acontecer com Deus, precisamente para nós crentes, para nós que pensamos conhecer Jesus, que já sabemos tanto sobre Ele e que é suficiente repetirmos as mesmas coisas de sempre. E isto não é suficiente, com Deus. Mas sem abertura à novidade e acima de tudo – escutai bem – abertura às surpresas de Deus, sem espanto, a fé torna-se uma ladainha cansada que morre lentamente e se torna um hábito, um hábito social. Eu disse uma palavra: espanto. O que é o espanto? O espanto é precisamente quando o encontro com Deus acontece: «Encontrei o Senhor». Mas leiamos o Evangelho: muitas vezes, as pessoas que encontram Jesus e o reconhecem, sentem-se maravilhadas. E nós, mediante o encontro com Deus, devemos seguir por este caminho: sentir maravilha. É como o certificado de garantia de que esse encontro é verdadeiro, não é habitual.

No final, porque é que os concidadãos de Jesus não O reconhecem e não acreditam n’Ele? Mas porquê? Qual é a razão? Podemos dizer, em poucas palavras, que não aceitam o escândalo da Encarnação. Não o conhecem, este mistério da Encarnação, não aceitam o mistério: não o sabem [conhecem?] Mas a razão é inconsciente e sentem que é escandaloso que a imensidão de Deus se revele na pequenez da nossa carne, que o Filho de Deus é o filho do carpinteiro, que a divindade está escondida na humanidade, que Deus habita no rosto, nas palavras, nos gestos de um homem simples. Eis o escândalo: a encarnação de Deus, a sua veracidade, o seu “dia a dia”. E Deus tornou-se concreto num homem, Jesus de Nazaré, tornou-se companheiro de caminho, tornou-se um de nós. “Tu és um de nós”, digamos a Jesus: uma bela oração! É porque um de nós nos compreende, nos acompanha, nos perdoa, nos ama muito. Na realidade, é mais cómodo um Deus abstrato e distante que não se intromete em situações e que aceita uma fé distante da vida, dos problemas, da sociedade. Ou gostamos de acreditar num deus “com efeitos especiais”, que só faz coisas excecionais e proporciona sempre grandes emoções. Pelo contrário, caros irmãos e irmãs, Deus encarnou-se: Deus é humilde, Deus é terno, Deus está escondido, faz-se próximo de nós, habitando a normalidade da nossa vida diária. E assim, acontece a nós como aos concidadãos de Jesus, corremos o risco de, quando ele passa, não o reconhecer. Volto a proferir aquela bonita frase de Santo Agostinho: “Tenho medo de Deus, do Senhor, quando Ele passa”. Mas, Agostinho, porque tens medo? “Tenho medo de não O reconhecer. Tenho medo do Senhor quando Ele passa. Timeo Dominum transeuntem”. Não O reconhecemos, escandalizamo-nos com Ele, pensamos como é o nosso coração em relação a esta realidade.

Agora, em oração, peçamos a Nossa Senhora, que acolheu o mistério de Deus na vida quotidiana de Nazaré, que tenhamos olhos e coração livres dos preconceitos e que olhos abertos ao espanto: “Senhor, que eu te encontre”, e quando encontramos com o Senhor há este espanto. Encontramo-nos com Ele na normalidade: olhos abertos às surpresas de Deus, à Sua humilde e oculta presença na vida quotidiana.

Angelus 4 de julho 2021

«Eu envio-te a um povo rebelde que se revoltou contra Mim… a filhos de cabeça dura e coração obstinado… uma casa de rebeldes» (Ez 2,3-5). Com uma linguagem, que hoje seria imediatamente considerada “politicamente incorrecta”, o Senhor enviou o jovem Ezequiel (I leitura) a ser profeta entre os israelitas (VI séc. a.C.) deportados como escravos para a Babilónia. A linguagem dura indica a difícil missão de ser profeta. Era difícil então; foi-o para Jesus (Evangelho) e para Paulo (II leitura). Ser profeta de Deus, portador do Evangelho de Jesus, foi sempre uma missão árdua em cada época e latitude. Sem a tentação de procurar auréolas de heroísmo, a história oferece provas copiosas de tais dificuldades. As três leituras deste domingo convidam a reflectir sobre o “escândalo do profeta”, apresentando a sua vocação e missão.

O profeta não é nunca um auto-candidato, mas um chamado por Deus, que o envia. Muitas vezes a chamada de Deus acontece por etapas, que ajudam a compreender o sentido e o alcance de uma vocação. Assim aconteceu com Abraão, Moisés, o próprio Jesus, os Doze apóstolos, Paulo e muitos outros. A chamada de Ezequiel tem pelo menos três momentos: em primeiro lugar, a visão do «carro do Senhor» numa cenografia rica de imagens de não fácil compreensão (Ez 1). Segue-se a chamada propriamente dita, expressa em termos directos (I leitura): é Deus que intervém e habita no profeta (v. 2); este põe-se de pé, escuta a voz de Deus que o envia (v. 3.4) àqueles «filhos de cabeça dura e coração rebelde» (v. 4). Mas o profeta – e é o terceiro momento da vocação – não deve ter medo, não se deve deixar abalar por aquela raça de rebeldes, que são como cardos, espinhos, escorpiões… (v. 6-7). Ele apresenta-se a eles, fortalecido pela Palavra que comeu: o rolo da Palavra torna-se a seu paladar doce como o mel. O profeta terá uma «cabeça dura»: não dirá palavras suas, mas apenas as que tiver escutado do Senhor e que tiver acolhido no seu coração. Deste modo ele será sentinela fiel e corajosa no transmitir as mensagens de Deus. Quer o escutem ou não! (Ez 3).

Paulo é modelo de profeta, escolhido pelo Senhor para uma missão de primeiro anúncio do Evangelho aos pagãos. Uma missão que ele realizou com determinação, generosidade, amplitude de horizontes geográficos e culturais, no meio de provações de todo o género, como relata nos textos que precedem o trecho de hoje (II leitura). Foi uma missão corajosa, mas vivida, ao mesmo tempo, na humildade e fraqueza, com um espinho na carne (v. 7). Suplicou insistentemente para que fosse libertado desse espinho, mas por fim compreendeu que a graça do Senhor estava nele (v. 8-9). E mais ainda, que a missão é mais forte e mais autêntica quando se realiza na fraqueza: nas afrontas, dificuldades, perseguições, angústias sofridas por Cristo (v. 10). Porque desse modo, manifesta-se claramente que missão e vocação são obra de Deus e não invenções humanas. A experiência histórica dos missionários e das Igrejas por eles fundadas e sustentadas dão provas deste paradoxo, no qual só o mistério de Cristo lança um pouco de luz.

Pareceria lógico que pelo menos a missão profética do Filho de Deus em carne humana fosse clara para todos, aceite sem rejeições nem contestações. Pelo contrário, precisamente na sua pátria, entre os seus, Jesus foi incompreendido (Evangelho) e, mais tarde, na cidade santa de Jerusalém foi eliminado numa conspiração urdida pelos seus adversários religiosos e políticos. Em Nazaré a gente, admirada (v. 2), oscila entre várias interpretações: põe-se pelo menos cinco interrogações acerca da identidade de Jesus (v. 2-3), passando da estupefacção ao escândalo, à inveja e até à rejeição daquele concidadão, que se mostra demasiado divino (sabedoria, prodígios…), mas, ao mesmo tempo, demasiado humano (carpinteiro, um entre os demais, de família bem conhecida…). Dada a incredulidade de muitos, Jesus, contra a sua vontade, é obrigado a conter-se: cura apenas alguns doentes (v. 5).

Apesar do fechamento e da incompreensão daqueles habitantes, Jesus responde com um duplo sinal: 1. percorre as aldeias em redor, comove-se ao ver as gentes, ensina-lhes muitas coisas (v. 6 e 34); 2. chama os Doze e envia-os dois a dois, dando-lhes também «poder sobre os espíritos impuros» (v. 7). Também os Doze, chegado o tempo da sua vocação plena pelos caminhos do mundo, viverão as mesmas experiências do seu Mestre: encontrarão reconhecimento e aceitação, mas, muitos mais frequentemente, incompreensões e perseguições, suspeições e desprezo, juntamente com enfermidades e defeitos pessoais. São as alternas vicissitudes da vida dos missionários, chamados a seguir os passos de Jesus, que tinha predito: «Se me perseguiram a mim, também vos perseguirão a vós; se observaram a minha palavra…» (Jo 15,20). E sempre com a certeza de Paulo: o poder de Cristo e do seu plano de salvação «manifesta-se plenamente na fraqueza» (2Cor 12,9). Deus quer que, através da fraqueza dos instrumentos humanos, se manifeste mais claramente o seu poder. É este o escândalo do profeta; é o escândalo vencedor da cruz.

(…) Quando nós fazemos uma viagem ou recebemos alguém de fora parece que temos uma disponibilidade maior para acolher a profecia, para acolher os sinais. Isso é uma grande oportunidade que Deus nos dá, fazer uma viagem, ter um tempo de férias, conhecer outra realidade.

Mas o evangelho de hoje fala-nos do contrário. Fala-nos, às vezes, da nossa dificuldade de perceber na vida de todos os dias, e com os interlocutores que nos são mais próximos, perceber como Deus se manifesta, como Deus nos visita. Jesus visitou Nazaré, e lá fez vários sinais, mas porque Ele era o filho do tal e da tal, e porque Ele era o parente do outro e da outra, não o quiseram escutar. E isso para nós constitui um desafio muito grande que é: como valorizarmos, naquilo que é mais próximo, nas vozes que já nos são mais habituais, no mundo mais conhecido, no nosso espaço doméstico, na nossa vida quotidiana, como valorizamos o Deus que nos visita? E como manter o nosso coração aberto?
Porque, às vezes, o que acontece é que antes da pessoa abrir a boca nós já sabemos, já nem queremos ouvir, já percebemos tudo, ou achamos que percebemos tudo. E a verdade é que perdemos muito se trancamos o coração a este Deus que nos visita não só no extraordinário, mas que nos visita também no ordinário, na vida de todos os dias, e às vezes, no difícil dos dias, no difícil dos dias.

A história de S. Paulo, da Segunda Carta aos Coríntios que hoje nós lemos, é um texto verdadeiramente admirável porque Paulo estava em dificuldade. Ele escreve metaforicamente dizendo que era como um “anjo de Satanás que o esbofeteava”. Era uma situação difícil que ele estava a sofrer e, contudo, Deus diz-lhe: “ Mantém-te forte, descobre a graça de Deus mesmo no meio da dificuldade, mesmo no meio da crise.” Deus não diz: “Não, não estás a viver isso.” Não, estás a viver, a dificuldade existe, a dificuldade existe, a dificuldade existe, o problema está aqui. A questão é: “Conta com a Minha graça aí, no meio da tua dificuldade e no meio do teu sofrimento, a Minha graça revela-se.” E isto parece um oximoro, uma coisa que nunca se vai compreender, que é o oposto: a fraqueza e a força.

O que parece um oximoro torna-se o caminho da nossa vida: “Quando sou fraco, então é que sou forte.” Isto é: descobrir nesta experiência da fragilidade, da vulnerabilidade – que é no fundo uma experiência que todos temos de fazer, faz parte das nossas vidas, por uma razão ou por outra, em todas as idades nós fazemos esta experiência da vulnerabilidade – como torná-la também uma oportunidade para compreender melhor a presença de Deus na nossa vida, compreender melhor a graça de Deus, perceber que não é o fim mas há coisas importantes que se vivem também em ocasiões que são muito difíceis de suportar e de viver.

Como nos lembra o profeta Ezequiel: “Deus não desiste, Deus não desiste.” Nós somos visitados por Deus, Deus não desiste das nossas vidas. E não é a rebeldia, ou a dureza de coração, ou a nossa cabeça dura que impede Deus continuamente de enviar-nos a Sua graça, enviar-nos os Seus profetas que toquem o nosso coração e deixem uma palavra de esperança.

Vamos pedir nesta eucaristia que o Senhor nos dê por um lado o olhar para o extraordinário, para um desejo muito grande de ir além do nosso quintal, do nosso mundo. Mas também que Ele nos ajude a olhar para o nosso pequeno mundo, para a nossa vida de todos os dias, para o nosso universo habitual com os olhos de quem se deixa surpreender e tocar.

Que o Senhor não permita que sejamos impermeáveis em relação aos outros que nos estão próximos e à vida que vivemos, mas nos dê um olhar de quem olha a vida pela primeira vez, de quem repara nos detalhes, de quem mantém um coração muito grato, muito agradecido, por aquilo que em cada dia e com os interlocutores habituais da nossa vida recebe. Porque é sobretudo através desses canais que Deus nos fala. Que no fundo do nosso coração sintamos que Deus não desiste. Deus não desiste de manifestar o Seu amor, de manifestar a Sua ternura, de manifestar a nossa esperança, manifestar a esperança nas nossas vidas.

Vamos colocar no altar as razões da nossa gratidão. Hoje a nossa comunidade tem também a alegria de poder juntar-se em oração e ação de graças pelos 90 anos da Ester, agradecer muito a Deus a sua vida, tudo aquilo que através dela o Senhor tem feito chegar à sua família, aos seus amigos. Pedir que o Senhor a conserve na saúde e na graça. E agradecer o dom da vida de cada um de nós que é o lugar extraordinariamente expressivo do amor e da misericórdia do Pai.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo XIV do Tempo Comum

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