12º Domingo do Tempo Comum (B)
Marcos 4,35-41

Nesse dia, quando chegou a tarde, Jesus disse a seus discípulos: «Vamos para o outro lado do mar». Então os discípulos deixaram a multidão e o levaram na barca, onde Jesus já se encontrava. E outras barcas estavam com ele.
Começou a soprar um vento muito forte, e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já estava se enchendo de água. Jesus estava na parte de trás da barca, dormindo com a cabeça num travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram:
“Mestre, não te importa que nós morramos?”. Então Jesus se levantou e ameaçou o vento e disse ao mar:
– “Cale-se! Acalme-se!”
O vento parou e tudo ficou calmo. Depois Jesus perguntou aos discípulos:
“Por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?”
Os discípulos ficaram muito cheios de medo e diziam uns aos outros: “Quem é esse homem, a quem até o vento e o mar obedecem?”.
Fé e amor para relançar a Missão
Romeo Ballan mccj
Uma pergunta insistente percorre todos os 16 capítulos do Evangelho de Marcos, desde o início ao fim: «Quem é Jesus?» Também no trecho do Evangelho de hoje, Marcos põe nos lábios dos discípulos a pergunta: «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?» (v. 41) Os numerosos milagres de cura e a doutrina nova, ensinada com autoridade por um Mestre tão surpreendente (1,27), confluem em dois momentos salientes, com a profissão de fé em Jesus por parte de duas testemunhas coincidentes. De facto, a meio do Evangelho de Marcos, temos a afirmação solene do discípulo Pedro: «Tu é o Cristo» (8,29); e no fim, o centurião pagão, aos pés da cruz, declara: «Na verdade este homem era o Filho de Deus» (15,39). Uma afirmação que recebe confirmação imediata no acontecimento da ressurreição! (16,6).
O Evangelho de Marcos, embora na sua brevidade e concisão, é uma resposta cabal àquela pergunta inicial sobre a identidade de Jesus, com uma mensagem global e envolvente. «O catecúmeno no Evangelho de Marcos – o cristão hoje, cada um de nós – é convidado a compreender que Deus está para tomar posse da sua vida e vai ao seu encontro com uma misteriosa iniciativa, que ele é chamado a aceitar» (Carlos Maria Martini). Marcos, na sua temática evangelizadora, dedica pouco espaço aos discursos e às parábolas de Jesus, preferindo dar relevo aos episódios da vida e aos milagres, que ele sabe relatar sempre com vivacidade de imagens e emoções.
Vê-se isso claramente no milagre da tempestade acalmada (Evangelho): a grande tormenta, a barca já cheia de água, o grito desesperado dos discípulos, Jesus que dorme tranquilamente com a cabeça na almofada, a popa… Mas a Jesus basta uma palavra para fazer cessar o vento. Acaba o medo dos discípulos, mas permanece o «grande temor» (v. 41) por ter visto uma manifestação do Senhor. A narração, rica de elementos para a catequese, culmina com a oração aflita dos discípulos ao Mestre e com a sua profissão de fé n’Ele, ao qual até o vento e o mar obedecem (v. 41). Desse modo, reconhecem-lhe o poder divino, próprio d’Aquele que fixou um limite ao mar (I leitura) e quebrou o orgulho das suas ondas (v. 11).
Na cultura de muitos povos, o mar (com a sua pujança, os cetáceos, dragões marinhos…) é visto muitas vezes como antagonista da divindade, símbolo de forças negativas, inimigas do homem. Contrariamente, o Deus da Bíblia é mais poderoso que o mar, domina-o. Por isso, a cena evangélica de hoje continha quer uma mensagem de consolação para as primeiras comunidades cristãs que começavam a experimentar a perseguição, mas também um convite aos catecúmenos a confiar em Cristo e na sua nova proposta de vida. Ele é sempre o Emanuel, Deus connosco, mesmo no meio das provações e tempestades de todo o género. Até mesmo quando dorme – o sono do corpo ou o sono da morte – Ele partilha connosco as situações de perigo, entrou e permanece na barca dos discípulos. Não será nunca vencido: tem sempre a palavra última de vida. Significativamente, Marcos usa aqui, duas vezes, o verbo grego típico da ressurreição (egheiro), para indicar que Jesus acordou, despertou (v. 38.39).
A narração do milagre da tempestade acalmada é também uma página de teologia bíblica sobre o mistério do sofrimento no mundo, que faz apelo à presença providente e omnipotente de Deus. Perante o sofrimento, as lógicas humanas falham. A figura de Job (I leitura) permanece emblemática. A única âncora é confiar em Deus e gritar-lhe, ainda que de forma rude mas confiante, o nosso desespero, como o salmista, como os discípulos: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (v. 38). Com a certeza de que – como e quando Ele o sabe! – Ele tem sempre reservada para o mar a palavra: «Cala-te e está quieto!» A experiência do sofrimento, a angústia pela morte de inocentes, a indignação pelas violências e injustiças, obrigam-nos a elevar o olhar para a Cruz, para o Coração trespassado de Cristo, e a «relançar o espírito missionário». De facto, «o nosso grito em direcção a Deus deve ser um grito que trespasse o nosso próprio coração, para que se desperte em nós a presença oculta de Deus, para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo» (Bento XVI, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, 28.5.2006). Em síntese, Paulo (II leitura), com uma expressão enérgica e de difícil tradução, afirma que «o amor de Cristo crucificado nos impele» (v. 14): nos empurra, aperta, domina, parte o coração, chama à conversão e à missão.
Mestre, não te importas que pereçamos?
Papa Francisco
Na liturgia de hoje narra-se o episódio da tempestade acalmada por Jesus (Mc 4, 35-41). O barco em que os discípulos atravessam o lago é acometido pelo vento e pelas ondas e eles têm medo de afundar. Jesus encontra-se com eles no barco, mas está na popa, deitado na almofada, e dorme. Cheios de medo, os discípulos gritam com Ele: «Mestre, não te importas que pereçamos?» (v. 38).
E muitas vezes também nós, assaltados pelas provações da vida, gritamos ao Senhor: “Por que permaneces em silêncio e não fazes nada por mim?”. Sobretudo quando temos a impressão de afundar, porque esvaece o amor ou o projeto em que tínhamos colocado grandes esperanças; ou quando estamos à mercê das ondas insistentes da ansiedade; ou quando nos sentimos esmagados pelos problemas ou desorientados no meio do mar da vida, sem rota e sem porto. Ou ainda, nos momentos em que falta a força para ir em frente, porque não há trabalho ou um diagnóstico inesperado nos faz temer pela saúde, nossa ou de um ente querido. Há muitos momentos em que nos sentimos numa tempestade, em que nos sentimos quase perdidos.
Nestas situações e em muitas outras, também nós nos sentimos sufocados pelo medo e, como os discípulos, corremos o risco de perder de vista o que é mais importante. Com efeito, no barco, embora durma, Jesus está presente, e partilha com os seus tudo o que acontece. O seu sono, se por um lado nos surpreende, por outro, põe-nos à prova. O Senhor está ali, está presente; efetivamente, espera – por assim dizer – que o interpelemos, que o invoquemos, que o coloquemos no centro do que vivemos. O seu sono estimula-nos a despertar. Pois para ser discípulo de Jesus, não basta acreditar que Deus está presente, que existe, mas é preciso pôr-se em jogo com Ele, é necessário levantar a voz com Ele. Escutai isto: é preciso gritar com Ele. Muitas vezes a oração é um grito: “Senhor, salva-me!”. Hoje, Dia do Refugiado, vi no programa “À sua imagem” muitos que vêm em embarcações e no momento do naufrágio gritam: “Salva-nos!”. A mesma coisa acontece na nossa vida: “Senhor, salva-nos!”, e a oração torna-se um clamor!
Hoje podemos perguntar-nos: quais são os ventos que se abatem sobre a minha vida, quais são as ondas que impedem a minha navegação e colocam em perigo a minha vida espiritual, a minha vida familiar, inclusive a minha vida psíquica? Digamos tudo isto a Jesus, contemos-lhe tudo. Ele deseja isto, quer que nos apeguemos a Ele para encontrar abrigo contra as ondas anómalas da vida. O Evangelho narra que os discípulos se aproximam de Jesus, que o acordam e falam com Ele (cf. v. 38). Eis o início da nossa fé: reconhecer que sozinhos não somos capazes de permanecer à tona, que precisamos de Jesus, como os marinheiros das estrelas para encontrar a rota. A fé começa quando acreditamos que não somos autossuficientes, quando nos sentimos necessitados de Deus. Quando vencemos a tentação de nos fecharmos em nós próprios, quando superamos a falsa religiosidade que não quer incomodar Deus, quando clamamos a Ele, Ele pode fazer maravilhas em nós. É a força suave e extraordinária da oração, que faz milagres.
Suplicado pelos discípulos, Jesus acalma o vento e as ondas. E faz-lhes uma pergunta, uma interrogação que também nos diz respeito: «Por que tendes medo? Ainda não tendes fé?» (v. 40). Os discípulos deixaram-se surpreender pelo medo, pois tinham fixado mais as ondas do que Jesus. E o medo leva-nos a olhar para as dificuldades, para os problemas graves e não para o Senhor, que muitas vezes dorme. Acontece o mesmo connosco: quantas vezes olhamos para os problemas, em vez de ir ter com o Senhor para depor nele as nossas preocupações! Quantas vezes deixamos o Senhor num canto, no fundo do barco da vida, para o acordar apenas no momento da necessidade! Hoje peçamos a graça de uma fé que não se canse de procurar o Senhor, de bater à porta do seu Coração. A Virgem Maria, que na sua vida nunca deixou de confiar em Deus, volte a despertar em nós a necessidade vital de nos confiarmos a Ele todos os dias.
20 giugno 2021
Arriscar a travessia pelas águas desconhecidas
Ana Maria Casarotti
No final deste dia Jesus aparece cansado. No capítulo 3 Jesus havia entrado na sinagoga onde estava o homem com uma mão seca e também “havia aí algumas pessoas espiando, para verem se Jesus ia curá-lo em dia de sábado, e assim poderem acusá-lo”. Jesus cura o homem e esse gesto traz como consequência a vontade de matá-lo e, para isso, os fariseus e alguns do partido de Herodes começam a planejar a sua morte. Jesus logo se retira para a beira do rio e muitas pessoas vão ao seu encontro para ser curadas por ele, para receber benção ou escutá-lo. Depois Jesus chama os que deseja escolher e constitui o grupo dos Doze.
Quando ele vai para sua casa são tantas as pessoas que o procuram que não tem tempo nem para comer. Neste momento seus parentes o procuram porque diziam que tinha ficado louco.
No início da proclamação das parábolas, Jesus é procurado por sua mãe e seus irmãos. Sua resposta diante desta busca é constituir uma nova família! “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.
No capítulo seguinte (Mc 4) Jesus continua com o anúncio das parábolas e finaliza este capítulo com o texto que acabamos de ouvir. “Quando chegou a tarde, Jesus disse a seus discípulos: ‘Vamos para o outro lado do mar”. Então os discípulos deixaram a multidão e o levaram na barca, onde Jesus já se encontrava”.
Chega a tarde e podemos pensar que para Jesus foi um dia de muito cansaço, continuamente rodeado de pessoas que o procuravam para ser curadas por ele, para escutá-lo, apesar de possivelmente não conseguirem entender muito o seu ensinamento através das parábolas.
Jesus pede para atravessar o mar e eles deixam a multidão e o levam na barca. Podemos imaginar que Jesus está fatigado e merece descansar num espaço com pessoas de confiança, aqueles que ele tinha escolhido. Lembremos que o mar simboliza o perigo, as ameaças à vida, tudo aquilo que destrói a firmeza e segurança da terra, fundamentalmente quando se procura atravessá-lo numa pequena barca.
Há sempre a possibilidade de uma tormenta, do vento que ameace a estabilidade da barca, mas Jesus não se preocupa com isto. Ele descansa sem medo, confiando no seu Pai.
Quando começa “a soprar um vento muito forte, e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já estava se enchendo de água”, os discípulos não podem acreditar que Jesus continue dormindo. Como é possível que ele possa continuar dormindo sem preocupar-se? Ele não tem sensibilidade, ou não percebe a força desse vento e das águas que já estão enchendo a barca? Seu pedido foi claro: ir para o outro lado do mar, ou seja, atravessar o mar da Galileia para ir à terra dos pagãos e continuar sua missão.
Mas quando começa a tormenta e o vento forte, podemos imaginar o assombro dos discípulos diante desta situação. Jesus continua dormindo!!! Eles o acordam e em suas palavras há um protesto pela sua impassibilidade: “Mestre, não te importa que morramos?”.
A resposta de Jesus não são palavras, é uma atitude que manifesta seu domínio sobre o mar e tudo aquilo que simbolize perigo e, neste caso, até risco de morte. Ele reage com palavras claras: ameaça o vento e diz ao mar: “Cale-se! Acalme-se!”
O vento para, mas não acaba aqui: Jesus se dirige aos discípulos com palavras duras pelo seu medo e sua falta de fé.
E podemos perguntar-nos: “Quais são os mares que as diferentes comunidades estão atravessando hoje para continuar assim a missão que Jesus lhes confia”?
Quais são os ventos que ameaçam continuamente nossa barca para que fique sempre na mesma beira do mar, sem preocupar-se com os outros e outras e ir ao desconhecido, ou como disse o Papa, ir às fronteiras?
Quais são as vozes que escutamos e nos atraem para ficar como uma Igreja aparentemente tranquila, sem movimento, sem estender seu olhar para além do conhecido e do seguro?
Falta-nos fé e confiança naquele que nos chama e nos convida a viver na fé e na confiança nele, sem deixar que o medo nos aprisione.
Os discípulos se perguntam: “Quem é este?”. Surpreendidos pelo seu poder sobre o vento e sobre o mar, diante da atitude de Jesus, eles têm muito medo! Se a comunidade segue os passos do seu Mestre, sofrerá perseguições, experimentará tormentas, mas o poder de Deus é maior que tudo isso.
Neste dia somos convidados a escutar suas palavras e passar assim da desconfiança ou do medo para uma fé confiada, a ponto de poder dormir mesmo na tormenta da travessia missionária.