P4

Referências bíblicas

  • 1ª leitura – At 2,1-11 – Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito os inspirava.
  • Sl 104(103) – Enviai o vosso Espírito Senhor e da terra toda a face renovai.
  • 2ª leitura – 1 Cor 12,3b-7.12-13 – A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum.
  • Evangelho – Jo 20,19-23

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

O Pentecostes é uma festa pascal; ela é o desenvolvimento do mistério da Páscoa. Não é uma festa independente do Espírito Santo; é a festa do Senhor ressuscitado que dá aos discípulos o seu Espírito, que é o Espírito de Deus Pai. É por isso que esta festa se situa, ao mesmo tempo, na noite da Páscoa no evangelho de São João, e 50 dias depois da Páscoa no livro dos Atos dos Apóstolos, inclusive na cruz da Sexta-Feira Santa em todos os evangelistas, em particular em João: “Tudo está realizado. E inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30).

No mistério pascal, todos os elementos desse mistério – a Morte, a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes – são tão importantes que os primeiros cristãos fizeram deles acontecimentos distintos separados no tempo: três dias para a Ressurreição, 40 dias para a Ascensão e 50 dias para o Pentecostes. Mas, na realidade, trata-se de um mesmo e único acontecimento teológico que nos fala simultaneamente de Deus, do homem, de Cristo e da Igreja. Não há, portanto, contradições entre os escritos e seus autores; encontramos simplesmente maneiras diferentes de descrever a riqueza do mistério cristão.

Desde o início do tempo pascal, nós lemos os relatos da Páscoa e da Ascensão. Hoje, celebramos o Pentecostes, a festa do Espírito de Cristo, o Espírito de Deus, a festa da Igreja. O que nos dizem os textos bíblicos que a Igreja nos propõe hoje?

Atos dos Apóstolos 2,1-11

Neste texto de Lucas, sobre o dom do Espírito Santo dado aos apóstolos reunidos, o autor não procura descrever um acontecimento material e histórico que aconteceu num dado momento da história da Igreja nascente. O fato de que Lucas tenha escolhido compor seu relato por meio de uma série de alusões ao Antigo Testamento, pode desviar a nossa atenção para uma leitura de tipo histórico, que procurasse determinar como as coisas se passaram. Devemos, ao contrário, compreender as mensagens que Lucas quer dar à sua comunidade sobre o papel e a força do Espírito:

1) O Pentecostes judaico celebrava o dom da Lei ao Povo de Israel, o povo da antiga Aliança. O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito ao novo Povo de Deus, a Igreja, o povo da nova Aliança.

2) Assim como Moisés subiu ao Sinai para dar ao povo a Lei de Deus, Cristo subiu ao céu para derramar o Espírito de Deus, o Espírito da nova Aliança.

3) Assim como para Moisés o barulho do trovão e o fogo das luzes acompanham o dom da Lei de Deus, aqui o barulho, o vento e o fogo acompanham a vinda do Espírito Santo.

4) No Sinai, de acordo com tradições judaicas, Deus propôs os mandamentos nas diversas línguas do mundo, mas apenas Israel os aceitou. No livro dos Atos dos Apóstolos, Deus repara esse fracasso: todas as nações compreendem a linguagem do Espírito: “Cheios de espanto e de admiração, diziam: ‘Esses homens que estão falando não são todos galileus? Como é que nós os escutamos na nossa própria língua?’” (At 2,7-8)

5) No Antigo Testamento, as 12 tribos de Israel estão reunidas para ouvir Moisés. Aqui, os 12 povos são chamados para ouvir os 12 apóstolos investidos pelo Espírito do Cristo, proclamar as maravilhas de Deus: “todos nós os escutamos anunciarem as maravilhas de Deus na nossa própria língua!” (At 2,11b)

Em suma, este relato de Lucas é o inverso de Babel, é a abertura à universalidade e o sopro do Espírito da nova Aliança que abole as fronteiras; não há mais exclusão nem rejeição.

1 Cor 12,3b-7.12-13

Os coríntios acreditavam que o dom do Espírito Santo estava reservado a uma elite. Eles só reconheciam sua presença no sensacional, nos cristãos que tinham o dom de falar em línguas e, particularmente, naqueles que eram eloquentes na animação das assembleias. Paulo quer, aqui, restabelecer a realidade do Espírito Santo:

1) Todo fiel que proclamar que “Jesus é o Senhor” (1 Cor 12,3), é habitado pelo Espírito Santo. Portanto, o mais humilde e o menor dos batizados também recebeu o Espírito Santo.

2) O Espírito, o Senhor e Deus são inseparáveis. Sem mesmo chamá-lo pelo nome, Paulo nos fala da Trindade que se dispensa em carismas: dons da graça, mas o Espírito é o mesmo (v. 4), dons dos serviços na Igreja, mas o Senhor é o mesmo (v. 5) e dons das atividades, mas é o mesmo Deus que as realiza (v. 6). O Espírito põe, portanto, todos os fiéis a agir, cada um segundo seus carismas, em vista do bem de todos (v. 7).

3) Esta unidade na diversidade Paulo a exprime através de uma fábula, conhecida na sua época, sobre o corpo e seus membros, para significar que todos os cristãos, em sua diversidade, pertencem ao mesmo corpo, o Corpo do Cristo ressuscitado. Esta pertença transcende as clivagens étnicas: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1 Cor 12,13).

João 20,19-23

Para João, é na noite da Páscoa que o Espírito Santo é dado aos discípulos reunidos. Que mensagens podemos tirar dessa passagem bíblica?

1) O medo: os discípulos têm medo, eles são fracos, eles se sentem abandonados. As portas estão trancadas. Apesar disso, Jesus se apresenta a eles (v. 19). É, portanto, na humanidade dos discípulos que Cristo se faz presente.

2) A Paz: duas vezes Cristo oferece a sua paz (vv. 19.21). Mas, por que esta insistência? O sentido bíblico da palavra paz não é a ausência de guerra ou de conflitos; é a plenitude de vida que lembra a presença do Ressuscitado (cf. TOB, Lc 1,79 nota J). É, portanto, a sua Vida de Ressuscitado que Cristo dá aos seus discípulos. É uma promessa de Ressurreição também para eles.

3) A Alegria: João sublinha que o Ressuscitado da Páscoa é o Crucificado da Sexta-Feira Santa: “mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20a). O evangelista não quer dizer que se trata do cadáver de Jesus reanimado; o Ressuscitado se apresenta como aquele que fica para sempre marcado por sua humanidade, aquele que, pela cruz, testemunhou o Amor infinito de Deus. Do seu lado aberto nasceu a Igreja, ápice do sangue da Vida nova e da água viva do Espírito. Esta é a Alegria pascal experimentada pelos discípulos reunidos na noite da Páscoa.

4) O perdão: o sopro do Cristo sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, para que advenha um mundo novo. Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: é o perdão. Deus deve, em primeiro lugar, apagar a nossa história passada, derramando sobre nós o sopro do perdão dos pecados: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo e é com toda a liberdade que nós podemos fazê-lo ou recusá-lo. Que responsabilidade!

Para terminar, é uma missão que nos é confiada: nós temos a responsabilidade de fazer nascer o mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa. Esta missão é confiada a todos os cristãos em geral e, em particular, aos padres no ministério do perdão. É, portanto, pela nossa abertura ao outro, pela nossa acolhida da sua diferença que nós testemunhamos o Cristo ressuscitado e que nós trabalhamos para fazer nascer esse mundo novo. O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos. O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

http://www.ihu.unisinos.br

O Universal

Os Atos relatam que os estrangeiros vindos a Jerusalém ouviam os apóstolos falar-lhes em sua própria língua. Devemos nos referir a isto apenas como um milagre destinado a dotar de autoridade a mensagem destes Galileus? Certamente que não. Primeiro, ficamos sabendo que, daí em diante, a luz do mundo e o fogo que o Cristo veio acender passa aos apóstolos e se difunde através deles. A Palavra de Deus assume agora, como o seu caminho, as suas bocas. Além disso, sendo proclamada em todas as línguas, a sua mensagem é universal, endereçada a todos. Não há língua sagrada nem cultura a se exportar. Veremos mais adiante, nos Atos, Paulo liberar os pagãos que se fizeram discípulos de Cristo das obrigações alimentares, da circuncisão etc. No começo, o ser humano representativo de todos os homens de todos os tempos se torna um vivente pelo sopro de Deus (Gn 2,7). Agora, somos beneficiários de uma segunda criação: como explica Paulo (1 Cor 15,42-49), não somos mais apenas corpos viventes, corpos psíquicos, mas corpos espirituais: animados, portanto, pelo Espírito. Este homem do fim, assim como o da parábola do começo (Gn 1 e 2), é também universal. Paulo irá repetir que não há mais nem judeu nem pagão, nem escravo nem homem livre, mas unicamente o Cristo que é tudo em todos. Maravilhemo-nos de que o Cristo possa ser celebrado e seguido em outras línguas e através de outros ritos. O Espírito sopra onde quer e como quer e se difunde sobre toda a carne.

O uno e o múltiplo

Há, pois, pelo Espírito uma reconciliação entre o particular (a língua dos Galileus) e o universal (todas as línguas). Há também uma passagem: estavam trancados num lugar bem conhecido e a situação agora é de mobilidade; “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho”, diz Jesus a seus discípulos (Mc 16,15). O Espírito é de fato intangível, voando de uma extremidade à outra da terra. É a respiração, mas também ventania de Deus. E é, ao mesmo tempo, a presença de Deus em nós. Ou, se quisermos, é Deus e o Cristo que, pelo Espírito, nos são interiores. É, sem dúvida, por estar misturado intimamente a nós que Ele é intangível e não conseguimos representá-Lo. É um paradoxo: Ele é o que possuímos de mais íntimo e, ao mesmo tempo, o que nos expulsa de nosso “eu” para nos pôr a caminho do que nos ultrapassa por todos os lados. Ele, a um sopro só, nos desliga de nós mesmos e nos liga a um corpo de que nos tornamos os membros. É a respiração deste novo corpo. Corpo que, a uma só vez, é uno e múltiplo, conjugando as diversidades, como está dito na segunda leitura. A disparidade se tornou harmonia. Mais ainda: o Espírito é a origem mesma desta disparidade, o arquiteto de todos os possíveis habilitados a fazerem parte desta construção. Por ter êxito em conciliar os extremos é que se diz que o Espírito é o Amor. As Escrituras falam seja que “Deus é Espírito” seja que “Deus é Amor”.

A Palavra e o Sopro

Temos aí o que sai da boca de Deus. De fato, o Sopro é que nos sopra a Palavra. “O Espírito vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”, anuncia Jesus imediatamente antes de sua Paixão (Jo 14,26). Em 16,12-15, insiste no fato de que o Espírito não tem outra Palavra a não ser a do Filho, em que habita tudo o que há no Pai: “Tudo o que o Pai possui é meu”. O Espírito fala em nós e o que Ele nos diz é o Filho, Palavra do Pai. Podem daí surgir algumas dificuldades, porque o Espírito não é o único que fala dentro de nós; há também a nossa vontade de poder, o nosso medo de dar demais ou de ter que suportar coisas demais. São vozes discordantes que podem encobrir e sufocar a voz sem palavras do Espírito. Mas pode ser muito difícil identificar quem está falando dentro de nós. Muitas vezes, nada se parece mais com o anjo de luz do que o anjo das trevas. No relato das tentações de Jesus, os evangelistas, sem nenhuma repugnância, põem na boca do tentador citações das Escrituras ou a promessa de um bem futuro. O que poderia haver de melhor do que defender a fé? Mas, se com isso o que se quer são as cruzadas ou a inquisição, deixa-se então a órbita do Espírito. Sabemos que o mal pode facilmente apresentar-se como um bem e, por isso, João e Paulo falam já em discernimento espiritual, com vistas a identificarmos aqui e agora a voz que está falando dentro de nós. É necessário ter disponibilidade e confiança absoluta no Espírito.

http://www.ihu.unisinos.br

O Pentecostes cristão celebra o dom do Espírito, «que é Senhor e dá a vida». Inicialmente, a festa hebraica de Pentecostes – sete semanas, ou seja 50 dias depois da Páscoa – era a festa da ceifa do trigo (cf. Ex 23,16; 34,22). Mais tarde, associou-se a ela a recordação da celebração da Lei no Sinai. De festa agrícola, o Pentecostes passou progressivamente a uma festa histórica: um memorial das grandes alianças de Deus com o seu povo (veja-se Noé, Abraão, Moisés e os profetas Jeremias 31,31-34 e Ezequiel 36,24-27…). É de sublinhar a nova perspectiva acerca da Lei e o modo de entender e viver a aliança. A Lei era um dom do qual Israel se sentia orgulhoso, mas era uma etapa transitória, insuficiente.

Era necessário avançar num caminho de interiorização da Lei, caminho que atinge o seu cume no dom do Espírito Santo, que nos é dado, como nova fonte normativa, como verdadeiro e definitivo princípio de vida nova. À volta da Lei, Israel constituiu-se como povo. Na nova família de Deus, a coesão não vem já de um mandamento exterior, por muito importante que seja, mas vem do interior, do coração, em força do amor que o Espírito nos concede «porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo» (Rm 5,5). Graças a Ele «somos filhos de Deus» e imploramos: «Abbá, Pai!». Somos o povo da nova aliança, chamados a viver uma vida nova, em força do Espírito que faz de nós família de Deus, com a dignidade de filhos e herdeiros (Rm 8,15-17).

A uma tal dignidade deve corresponder um estilo de vida coerente. Paulo (II leitura) descreve com palavras concretas dois estilos de vida diferentes e opostos, consoante a escolha de cada um: as obras da carne (v. 19-21) ou os frutos do Espírito (v. 22). Para os que são de Cristo Jesus e vivem do Espírito, o programa é só um: «caminhamos segundo o Espírito» (v. 25).

O Espírito faz caminhar as pessoas e os grupos humanos e cristãos, renovando-os e transformando-os a partir de dentro. O Espírito abre os corações, cura-os, reconcilia-os, fá-los ultrapassar fronteiras, conduz à comunhão. É Espírito de unidade (de fé e de amor) na pluralidade de carismas e de culturas, como se vê no acontecimento do Pentecostes (I leitura), no qual se conjugam bem a unidade e a pluralidade, ambos dons do mesmo Espírito. A grande efusão do Espírito consagra os discípulos para serem missionários do Evangelho em todos os lugares da terra. Povos diferentes entendem uma única linguagem comum a todos (v. 9-11). São Paulo atribui ao Espírito a capacidade de tornar a Igreja una e multíplice na pluralidade de carismas, ministérios e modos de agir (cf. 1Cor 12,4-6). A Igreja tem sempre diante de si o desafio de ser católica e missionária; de passar de Babel a Pentecostes. Cf. Bento XVI.

O Espírito Santo é certamente o fruto mais extraordinário da Páscoa na morte e ressurreição de Jesus: Ele sopra-o sobre os seus discípulos (Jo 20,22-23). É o Espírito do perdão dos pecados e o Espírito da missão universal. Melhor, é o protagonista da missão (cf. RM cap. III; EN 75s), confiada por Jesus aos apóstolos e aos seus sucessores. O Espírito está sempre em acção: na obra missionária simples e escondida de cada dia, como também nos momentos mais solenes, a fim de «renovar o acontecimento do Pentecostes nas Igrejas particulares», em ordem a um empenho mais firme na nova evangelização e na missão ad gentes.

Para essa missão o Espírito é-nos dado como guia «para a verdade completa» e como Consolador (Evangelho). Estreitamente ligada à acção criativa e purificadora do Espírito, está também a Sua capacidade de sanar e curar. Trata-se de um poder real e eficaz, à volta do qual existe uma sensibilidade particular no mundo missionário, ainda que nem sempre seja fácil de discernir bem. A acção sanadora atinge por vezes também o corpo, mas muito mais frequentemente toca o espírito humano, sanando as feridas interiores e infundindo o bálsamo da reconciliação e da paz.

Na liturgia de hoje, solenidade de Pentecostes, depois de ler o relato da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e sobre Maria, a mãe de Jesus, no 50º dia depois da Páscoa (cf. At 2, 1-11), proclama-se o trecho do Evangelho segundo João, no qual é narrado o dom do Espírito aos discípulos na noite do mesmo dia da ressurreição, o primeiro dia da semana judaica (cf. Jo 20, 1). Essa diferença, na realidade, é uma sinfonia com a qual a Igreja testemunha o mesmo evento lido de modos diferentes, mas não discordantes.

Nos Atos, Lucas recorda que Jesus, tendo subido ao céu, cumpriu a promessa feita, enviando sobre a comunidade dos discípulos o vento de fogo do Espírito Santo, quando os judeus festejavam em Pentecostes o dom da Torá feito por Deus a Moisés. Para Lucas, é o cumprimento dos cumprimentos, a estipulação plena da nova aliança, aliança não mais fundada na Lei, mas no Espírito Santo, escrita não em tábuas de pedra, mas no coração dos crentes (cf. Jr 31, 31-33). É o nascimento da Igreja, da comunidade do Senhor imersa, batizada no Espírito Santo, habilitada pelo próprio Espírito a proclamar a boa notícia do Evangelho a todas as nações, de Jerusalém a Roma.

João, por outro lado, que conclui o seu Evangelho com aquele dia da ressurreição, pretende atestar a plenitude da salvação manifestada na vitória de Jesus sobre a morte, no dom do santo Sopro que dá início a uma nova criação, em que a misericórdia de Deus tem o primado, reina, e, por isso, há a remissão dos pecados do mundo. É essa remissão, esse perdão gratuito e definitivo dado por Deus do qual os discípulos devem ser ministros no meio da humanidade. Embora já tenhamos lido, ouvido e comentado esse texto no segundo domingo de Páscoa, voltemos fiel e pontualmente à escuta e à meditação sobre ele, pedindo ao Senhor que renove a nossa mente de modo que, lendo palavras antigas, escutemos palavras novas para o nosso “hoje”.

Estamos, portanto, no primeiro dia da semana, o primeiro depois do sábado que era Páscoa naquele ano, no dia 7 de abril do ano 30: é o dia da descoberta do sepulcro vazio, porque Jesus ressuscitou da morte. Os discípulos de Jesus, que tinham fugido no momento da prisão, estão fechados na sua casa em Jerusalém, oprimidos pelo medo de serem também eles acusados, procurados e presos como o seu rabi e profeta Jesus. Sim, a comunidade de Jesus é esta: homens e mulheres que fugiram por medo, paralisados pelo medo, sem a coragem que vem da convicção e da confiança, da fé naquele que eles tinham seguido sem entendê-lo em profundidade.

No entanto, naquela aporia, há um trabalho que se realiza no coração dos discípulos e na vida da comunidade: as palavras de Jesus, ouvidas tantas vezes, embora como que adormecidas, estão no seu coração; a leitura das Sagradas Escrituras, da Torá, dos Profetas e dos Salmos (cf. Lc 24, 44), feita junto com Jesus, continua gerando pensamentos e aquisições de conhecimento do mistério de Deus e da identidade do próprio Jesus; a força da fé do discípulo amado que “viu e acreditou” (Jo 20, 8) e de Maria de Magdala, que diz: “Vi o Senhor” (Jo 20, 18), os contagia e os move.

Medo e fé travam o seu duelo no coração dos crentes, quando Jesus, na realidade, está no meio deles, até que possam dizer: “Entrou e pôs-se no meio deles”. O Senhor está presente com a sua presença de ressuscitado vivo e glorioso, lá onde estão os seus, mas os nossos olhos estão impossibilitados de vê-lo, o nosso coração não tem a coragem de ver o que deseja e sabe ser possível. Não sabendo dizer outra coisa, nós afirmamos: “Entrou e pôs-se no meio deles”, mas o Ressuscitado está sempre presente e aparece como Aquele que vem quando nós nos damos conta.

Essa é a realidade que vivemos a cada primeiro dia da semana, a cada domingo, e aqueles discípulos não eram mais privilegiados do que nós. Jesus está no nosso meio, na posição central: se não estiver, isso significa ou que não o vemos por falta de fé, ou que voluntariamente tomamos o seu lugar no centro, atentando contra a sua soberania única de ressuscitado e vivente. Só quem sabe dizer: “É o Senhor!” (Jo 21, 7) sabe vê-lo e reconhecê-lo.

O Senhor está no meio de nós! Não esqueçamos que a maior tentação vivida por Israel no deserto foi justamente a de se perguntar: “O Senhor está no meio de nós ou não?” (Ex 17, 7). Eis a pouca fé ou a não fé da qual somos vítimas, nós que nos dizemos crentes…

Na verdade, Jesus está no meio de nós sempre, é o ‘Immanuel, Deus-conosco (cf. Mt 1, 23; 28, 20), não nos deixa, não nos abandona. No máximo, somos nós que o abandonamos e fugimos dele, como os discípulos no Getsêmani (cf. Mc 14, 50; Mt 26, 56); somos nós que, diante do mundo, acabamos dizendo: “Não o conhecemos”, como Pedro na negação (Mc 14, 71 e par.); somos nós que, quando devemos constatar a sua presença porque os outros no-la testemunham, continuamos desconfiando e alimentando dúvidas, como Tomé (cf. Jo 20, 24-25).

E eis que, no relato joanino, assim que Jesus “é visto”, ele dá a paz, o shalom, a vida plena, e acompanha essa palavra com gestos. Acima de tudo, faz-se reconhecer, porque não tem mais a forma humana de Jesus de Nazaré, aquela que os discípulos conheciam e, tantas vezes, tinham contemplado. É outro, porque o seu corpo cadavérico não foi reanimado, mas transfigurado, transformado por Deus em um corpo cuja respiração é o Espírito Santo, o Espírito de Deus, aquele que Jesus respirava no seio do Pai desde sempre, antes da sua encarnação no seio da virgem Maria, antes da sua vinda ao mundo.

Mas, naquele corpo de glória, permanecem os traços da sua vivência humana, do seu sofrimento-paixão, do fato de ter amado até dar a vida pelos outros (Jo 15, 13). São as chagas, os estigmas, os sinais da cruz na qual ele foi pendurado e, junto com eles, o sinal da abertura do peito por causa do golpe da lança, abertura que proclamava o seu amor, que, como rio saído dele, queria imergir a humanidade para perdoá-la, purificá-la e levá-la à comunhão com o Pai (cf. Jo 7, 37-39; 19, 34).

E, assim, os discípulos o reconhecem e se alegram ao ver o Senhor. Finalmente a sua incredulidade é vencida, e a alegria da sua presença, da sua vida neles os invade. Então, Jesus sopra sobre eles a sua respiração, que não é mais hálito de homem, mas Espírito Santo. Na criação do homem, no princípio, Deus tinha soprado nele um hálito de vida (cf. Gn 2, 7); na última criação, soprará um sopro, um vento de vida eterna (cf. Ez 37, 9): enquanto isso, agora, todas as vezes que ele está presente na comunidade dos cristãos e é por eles invocado e reconhecido, o Espírito continua expirando. Essa respiração do Ressuscitado se torna a respiração do cristão: nós respiramos o Espírito Santo! Cada um de nós respira esse Espírito, embora nem sempre o reconheçamos, embora, muitas vezes, o entristeçamos (cf. Ef 4, 30) e o estrangulemos, nas nossas revoltas, nas nossas recusas resíduos do amor e da vida de Deus.

Esse Sopro que entra em nós e se une ao nosso sopro tem como primeiro efeito a remissão dos pecados. Ele os perdoa, os apaga, de modo que Deus não os recorda mais. Esse Sopro é como um abraço que nos coloca “no seio do Pai” (en tô kólpo toû Patrós: cf. Jo 1, 18), nos une a Deus de modo que não somos mais órfãos, mas nos sentimos amados sem medida por um amor que não merecemos nem devemos merecer todos os dias.

“Recebam o Espírito”, diz Jesus, isto é, “acolham-no como um dom”. Uma só coisa é pedida: não recusar o dom, porque o Pai sempre dá o Espírito Santo àqueles que lho pedem (cf. Lc 11, 13). É o dom da vida plena; o dom do amor que nós não seríamos capazes de viver; o dom da alegria que desfrutaremos todos os dias; o dom que nos permite respirar em comunhão com os irmãos e as irmãs, confessando com eles uma só fé e uma só esperança; o dom que nos faz falar em nome de todas as criaturas como voz que louva e confessa o Criador e Senhor.

Jesus, que antes de ir embora havia dito: “Recebam, comam; este é o meu corpo” (Mt 26, 27), agora diz: “Recebam o Espírito Santo”, sempre o mesmo convite a acolher o dom.

Cabe a nós receber o corpo de Cristo para nos tornarmos o corpo de Cristo, cabe a nós receber o Espírito Santo para respirarmos o Espírito.

E, nessa nova vida animada pelo Sopro santo, sempre e sempre, ocorre a remissão dos pecados: Deus os perdoa a nós, e nós os perdoamos aos outros que pecaram contra nós (cf. Mt 6, 12; Lc 11, 4). Não há libertação senão da morte, do mal e do pecado! O Pentecostes é a festa dessa libertação que a Páscoa nos deu, libertação que alcança a nossa vida cotidiana com as suas fadigas, as suas quedas, o mal que as aprisiona.

Podemos realmente confessar: o cristão é aquele que respira o Espírito de Cristo, o Espírito Santo de Deus e, graças a esse Espírito, é santificado, reza ao seu Senhor, ama o seu próximo.

http://www.ihu.unisinos.br

O sopro que nos faz ser
José Tolentino Mendonça

Hoje celebramos a festa do Pentecostes, do Espírito Santo, que é o Deus connosco, que é o Deus que nos acompanha nos itinerários da nossa vida. Mesmo se, na nossa devoção, na nossa relação, muitas vezes nos esquecemos do Espírito Santo. Porventura, o Espírito Santo é o Deus esquecido das nossas vidas e da nossa oração.

Porque, quando pensamos em Deus pensamos em Deus Pai, pensamos em Deus Jesus Cristo que viveu entre nós, que nos revelou o Seu amor, mas esquecemo-nos do Espírito Santo. Este Espírito Santo que Jesus pediu ao Pai para enviar de junto Dele, quando subiu até ao Pai. Este Espírito Santo que é a grande promessa de Jesus aos Seus Discípulos, que promete que enviará Aquele que defenderá a fé no nosso próprio coração, Aquele que atestará a existência de Deus e o amor de Deus ao nosso próprio coração, Aquele que virá como O Consolador, Aquele que virá como O Exortador, Aquele que vem ao encontro da nossa fragilidade. Como diz S. Paulo na Carta aos Romanos: “Aquele que vem gemer dentro do nosso coração, ensinando-nos a rezar.” Que é uma coisa que não seríamos capazes de fazer sem a ação do Espírito Santo nos nossos corações.

Cada um de nós, como batizado, é uma consequência do Espírito Santo. A Igreja verdadeiramente nasce no dia do Pentecostes. Porque a Igreja não é apenas uma associação cheia de méritos, uma associação cultural e religiosa para lembrar um grande acontecimento: a passagem de Jesus entre nós. A Igreja não é um grupo de militantes que há dois mil anos se reúne para fazer memória de um acontecimento passado. A Igreja é fruto do Espírito Santo.

Isto é, nós não vivemos do passado, vivemos do presente. Nós não vivemos de uma memória, nós vivemos de uma gestação que, abraçando a memória, ela é completamente presente e completamente futuro. Nós não somos simpatizantes de Jesus, partidários de Jesus. Nós fomos feitos um com Ele, no Espírito Santo. O Espírito Santo liga-nos a Deus porque é o próprio Deus, acende em nós o Espírito divino.
Tal como essa primeira imagem, essa primeira metáfora que acontece nas páginas primeiras de Bíblia, quando Deus, à maneira de um oleiro, amassa o ser humano do pó da terra, e depois sopra das suas narinas o vento, o hálito, o sopro interior e o homem torna-se vivente, nós também sem o Espírito somos apenas um corpo de barro, somos apenas uma coisa exterior, somos apenas alguma coisa aquém da própria vida. É o Espírito o sopro que nos faz ser.

A palavra “espírito”, que o grego traduz por “anemos “, que quer dizer ânimo, como nós utilizamos, mas que quer dizer “vento, sopro”, no hebraico diz-se “néfes”, e néfes é a vida. E o que é a vida? A vida é este sopro vital sem o qual nós não podemos viver.

Ora, o sopro vital não é apenas o oxigénio de que nós precisamos para existir neste instante. O sopro vital é este Sopro de Deus de que cada um de nós é objeto para poder ser e ser plenitude. E, por isso, é tão importante tomar consciência da presença do Espírito Santo nas nossas vidas, rezar ao Espírito Santo, pedir que Ele venha, pedir que Ele nos ilumine, pedir a Sua interceção, pedir que Ele permaneça connosco, pedir que Ele nos encha de todos os Seus dons.

Porque o Espírito é uno e é múltiplo. O Espírito é fantasioso, é criativo. O Espírito, sendo apenas um só, Ele está em todos de uma maneira única, de uma forma diferente. Ele distribui os carismas, Ele distribui os talentos, as qualidades, as potencialidades, a originalidade do próprio ser. É o Espírito o defensor ao mesmo tempo da unidade e da originalidade. Cada um de nós é um cristão original no Espírito Santo, e traz para a comunidade um dom que é único. Por isso precisamos tomar consciência e pedir ao Espírito Santo que nos renove, que nos recrie.

Aquela expressão que muitas vezes usamos do “desalmado”, ou então do “desanimado”, quer dizer isso muitas vezes, que é o modo como nós vivemos: vivemos sem alma, vivemos sem ânimo. Isso é efetivo, é real nas nossas vidas. Ora, o entusiasmo, o Deus que nos faz dançar, que nos faz ser, que nos enche, que nos dá o fulgor, a intensidade, que nos faz brilhar, é o Espírito. É o Espírito. E, por isso, precisamos acolher o Espírito Santo nas nossas vidas.

Uma Igreja conformista, uma Igreja parada, de onde não nasce nada, uma Igreja que vive a satisfazer os mínimos é uma Igreja sem Espírito Santo. É uma Igreja que deixa o Espírito Santo como um estranho, à porta. É o Espírito Santo que acorda em nós a paixão, a vontade, a criatividade para exprimir em novas linguagens, em novas gramáticas o coração da nossa fé.

Em Itália há um mosteiro, o mosteiro de Bose (já tenho falado dele de vez em quando), que é uma comunidade monástica jovem. Eles têm uma parede da qual eu me lembro muitas vezes. Numa parede têm o que eles chamam os nossos pneumatóforos. Pneumatóforo quer dizer condutor do Espírito Santo, aqueles que nos trouxeram o Espírito. Então, os pneumatóforos são os visitantes proféticos que passaram pela comunidade como hóspedes e a desafiaram, a inspiraram a ser.
De facto, nós precisamos de nos inspirarmos uns aos outros. Precisamos de ser luz, de desafiar. Quantas vezes nós achamos que ser cristãos é ser condescendentes uns com os outros. É dar palmadinhas nas costas e dizer: “Deixa lá. Afinal, podia ser pior.” Claro que podia ser pior, mas também podia ser muito melhor. Nesse sentido, há um dever de inspirar a vida uns dos outros, de sermos pneumatóforos, de levarmos o Espírito, de abrir horizontes, de apontar estrelas, de levantar os olhos mais longe, de dizer: “Tu és capaz. Tu consegues, no Espírito Santo.” E é assim que nós, irmãos, acordamos e percebemos que o Pentecostes não foi um acontecimento do passado, mas é um acontecimento de presente.

Nós precisamos do Espírito Santo, precisamos que Ele venha, precisamos de contagiarmo-nos uns aos outros com o fogo do Espírito Santo. E se encontramos um irmão/uma irmã mais desanimada, mais cansada, o que nós temos a fazer é de lhe passar o Espírito Santo. Na Igreja das origens os cristãos viviam a impor as mãos uns aos outros. Esse impor as mãos era essa passagem efetiva do Espírito Santo. Ora, com um abraço, com uma palavra, com uma presença, nós também impomos as mãos, nós o que fazemos é passar vida de um coração para o outro.

Queridos irmãos, sejamos bons condutores de vida, desta vida espiritual. Porque sem o Espírito Santo nós somos só o pó, nós somos só a terra, nós somos só o barro, nós somos só isto que se vê daqui, e isto que morre aqui, todos os dias, a todas as horas. É o Espírito que nos torna maiores, é o Espírito que nos projeta. O Espírito Santo é a alavanca da Igreja e é a alavanca da história. O Espírito Santo é o mestre, é o mapa, é o oceano, é a viagem. Por isso, acolhamos o Espírito Santo, neste dia para as nossas vidas, para este momento preciso que cada um de nós está a viver, e que há de ser um momento de traduzir o Espírito Santo de uma forma pessoal e nova nas nossas existências.

Pe. José Tolentino Mendonça, Domingo de Pentecostes 2015