Solenidade da Ascensão do Senhor (B)
Marcos 16,15-20

+ Conclusão do santo Evangelho segundo são Marcos
Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados». E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.
A Ascensão do Senhor
Raymond Gravel
Festa da Ascensão é a segunda face da Páscoa. Todavia, constitui a primeira face, quando tomado cronologicamente em relação aos discípulos, que experimentaram primeiro a Ausência de Jesus, a sua Ascensão, antes de experimentar a sua Presença nova, a sua Ressurreição, no coração da Igreja nascente. Em outras palavras, se a Ressurreição de Cristo marca o começo de um mundo novo, o início da criação nova, foi preciso a Ascensão para que os primeiros cristãos o realizem. Nesta festa da Ascensão do ano B, os textos bíblicos que nos são propostos comportam belas mensagens de esperança que exprimem essa dupla realidade da nossa fé cristã: Cristo está, ao mesmo tempo, no céu e na terra, assim como nós estamos, ao mesmo tempo, na terra e já no céu.
Uma Ausência que se faz Presença: A Páscoa é a festa da Presença
Jesus está ressuscitado, ele está vivo, seus próximos o encontraram. Por outro lado, como falar dessa presença, quando foi difícil reconhecer o Cristo Ressuscitado? Era ele mesmo, mas era diferente do Jesus com quem eles tinham se encontrado, conhecido, amado e servido. Jesus morreu, ele partiu; isso é uma evidência. É preciso viver essa realidade para descobrir que ele está presente de outra maneira, mas realmente. Além do mais, não foi preciso que Jesus partisse para que ele nos desse seu Espírito? Não disse o Cristo do evangelho de João: “Entretanto, eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá embora, porque, se eu não for, o Advogado não virá para vocês. Mas se eu for, eu o enviarei” (Jo 16,7)?
Isso não pode ser mais claro: foi preciso a Ascensão para que o Pentecostes chegasse. O teólogo Michel Deneken escreve: “A Ascensão é uma maneira de morrer aos olhos e de nascer ao coração”. E ele acrescenta: “Isso traz uma verdade psicológica básica. A ausência é uma condição necessária para viver… como a morte. A ausência de Jesus é abertura da liberdade a esse vento que sopra onde ele quer e quando ele quer. Jesus se retira do olhar psíquico dos humanos para iluminar todos aqueles e aquelas que o Espírito habita”.
Se Cristo é vivo e presente, não pode sê-lo senão de nós
As narrativas da Ascensão são sóbrias como aquelas da Páscoa. O evangelho de Marcos não trazia nem narrativas de aparições nem a narrativa da Ascensão. O evangelho de Marcos conclui-se com o medo das mulheres no túmulo e com o silêncio delas (Mc 16,1-8). Um escriba do século II, que achava que o final de Marcos era insustentável, compôs uma narrativa que se inspira nos outros evangelhos e o acrescentou ao evangelho de Marcos (Mc 16,9-20). Encontramos, então, nesse acréscimo alusões à aparição à Maria Madalena do evangelho de João (Mc 16,9), à dúvida dos discípulos, quando as mulheres vieram lhes anunciar que o Jesus do evangelho de Lucas estava vivo (Mc 16,10-11), aos discípulos de Emaús do evangelho de Lucas (Mc 16,12), à aparição aos Onze dos evangelhos de Lucas e de João (Mc 16,14), ao envio para missão do evangelho de Mateus (Mc 16,15-16), e finalmente aos sinais que acompanham a realização da missão cristã do evangelho de Marcos (Mc 16,17-18).
Esse autor do século II, que escreveu tardiamente e que refletiu sobre a Páscoa, disse, ao mesmo tempo, que o Cristo ausente fica presente através dos seus discípulos: “Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus” (Mc 16,19). “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e, por meio dos sinais que os acompanhavam, provava que o ensinamento deles era verdadeiro” (Mc 16,20). É o que fez dizer a Santo Agostinho no século IV: “Cristo não deixou o céu quando ele desceu até nos, e ele não nos deixou quando ele subiu ao céu”.
Jesus, novo Elias
Lucas começa o livro dos Atos dos Apóstolos como ele tinha começado seu evangelho, dirigindo-se a certo Teófilo, personagem real ou literária, mas seguramente teológica, que significa: amigo de Deus. Contrariamente ao seu evangelho, onde São Lucas situa a Ascensão na noite da Páscoa (Lc 24,50-53), aqui, no início do livro dos Atos dos Apóstolos, ele a situa quarenta dias após a Páscoa, isto é, o tempo teológico necessário para que os discípulos possam realizar a sua missão cristã. São duas maneiras de apresentar, no tempo, um mistério que escapa ao tempo.
Para São Lucas, Jesus foi o profeta por excelência, o novo Elias. É por isso que a realização do evento da Ascensão nos remete à cena da ascensão do profeta Elias, no segundo livro dos Reis (2R 2,1-14), onde o profeta Eliseu, seu discípulo, receberia a plenitude do espírito profético de Elias, se ele visse a elevação celeste do seu mestre. E ela a viu! Da mesma maneira, os apóstolos herdam o Espírito de Cristo porque eles o veem elevar-se até o céu: “Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu à vista deles” (At 1,9). Para São Lucas, sendo que se trata da segunda face da Páscoa, os dois homens de branco que se dirigiam às mulheres na manhã da Páscoa para lhes dizer: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5), são as mesmas que dizem aos apóstolos que olhem para o céu: “Homens da Galileia, por que vocês estão aí parados, olhando para o céu?” (At 1,11). No fundo, não é a hora de contemplação nem de nostalgia; mas a hora da missão: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os extremos da terra” (At 1,8). Eis a missão cristã de todos os tempos.
A unidade na diversidade
O tema da carta aos Efésios é a unidade na diversidade: “Mantenham entre vocês laços de paz, para conservar a unidade do Espírito” (Ef 4,3). Mas atenção! A uniformidade não é garantia de unidade; a unidade se constrói na diversidade. Há, certamente, os dons de cada um para que se construa o corpo de Cristo que nós formamos: “Foi ele quem estabeleceu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas e outros como pastores e mestres” (Ef 4,11). Todos esses dons foram dados por amor e devem ser recebidos no amor. É por isso que São Paulo convida toda a Igreja a adotar o seguinte comportamento: “Sejam humildes, amáveis, pacientes e suportem-se uns aos outros no amor” (Ef 4,2). É a única maneira de construir a unidade e de realizar a missão cristã que é a nossa: “A meta é que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo” (Ef 4,13).
Para concluir, a Boa Nova a anunciar é sempre atual, pois Cristo está sempre vivo e ele fala e age através das mulheres e dos homens do nosso tempo. Se hoje a mensagem não tem sido transmitida e as pessoas parecem indiferentes, sem dúvida é porque como Igreja nós temos dificuldade em atualizar a Palavra de Deus às novas realidades vividas pelas mulheres e pelos homens. O problema não é a Páscoa nem a Ascensão, tampouco o Pentecostes. O problema está na linguagem para falar nesta realidade do mistério pascal. No fundo, o problema não está do lado de Deus nem de Cristo. Mas do nosso lado: nós somos frequentemente incapazes de falar de Deus e de testemunhar o Cristo Ressuscitado ao mundo atual.
Gostaria de terminar com esse bonito comentário do exegeta francês Jean Debruyenne que diz: “Antes da sua partida do visível para entrar no invisível, Jesus lança um último apelo aos crentes. Jesus chama a crer. Ele chama a mostrar sinais e a não se fechar numa ideologia. Os sinais do crente não são um sistema ou uma mágica, trata-se de um começo, de uma boa nova que não é simplesmente boa mas que é também novidade. É uma mudança de mundo que perde seu mau espírito, que fala um sermão novo, que não tem mais medo de nada porque ele tem confiança e porque ousa curar o Homem”.
Jesus foi elevado ao céu à vista deles
Marcel Domergue sj
Deus o elevou acima de tudo
Esta imagem de Jesus, que vai se elevando acima das nuvens, é nitidamente a transposição cósmica de um acontecimento espiritual, não perceptível aos nossos sentidos corporais. E o que isto quer dizer? Que dali em diante é Jesus quem detém o domínio sobre todas as coisas; que, nele e por ele, a humanidade assume o poder sobre tudo o que lhe é contrário. Ser posto mais alto, ficar por cima, dominar a situação… não terminaríamos mais de enumerar as expressões populares que usam a imagem espacial para significar poder. Poder? Palavra cheia de conotações desfavoráveis, porque evoca o arbítrio e a supressão da liberdade aos «inferiores», condenados à obediência. Mas a Ascensão de Cristo, ao contrário, significa libertação. Efésios 4,8, citando o Salmo 68, diz: «Tendo subido às alturas, levou os cativos, concedeu dons aos homens.» A antiga tradução latina dizia: «Tendo subido às alturas, levou cativo o nosso cativeiro.» Menos literal, mas muito mais significativa! Para compreender melhor, lembremos que os Hebreus viam o nosso universo povoado por potestades, principados e dominações. São termos que designam o que em Efésios 6,12 Paulo chama de «dominadores deste mundo de trevas» e «espíritos do mal que povoam os ares». Referia-se ora às sujeições impostas pelas leis da natureza, figuradas pelos astros, ora aos poderes políticos ou sociais em operação na humanidade. E também, finalmente, ao «último inimigo a ser destruído: a Morte» (1 Coríntios 15,26). «Pois tudo isso ele (o Cristo) pôs debaixo dos seus pés» (versículo 27).
A Ascensão para nós está no futuro
Em linguagem corrente, estas «dominações que povoam os ares» são chamadas de vontade de poder, sede de dominar, idolatria do dinheiro, busca por ser admirado pelos outros, etc. Tudo o que, de alguma forma, vamos encontrar nas tentações de Cristo, apresentadas por Mateus e Lucas no início de seus evangelhos. Diante desta fixação de ocupar o primeiro lugar, Deus, em Cristo, veio para colocar-Se no último. E ao fazer isso, matou em Si mesmo toda a vontade de poder; não se deixou manipular pelos nossos demônios do poder. Na Cruz, a Ressurreição e a Ascensão já estão presentes, posto que, antecipando-se, Cristo domina tudo o que nos destrói. Recusando defender-se e pôr de joelhos os que querem a sua morte, mata em Si mesmo o ódio, a violência e até a própria exigência de justiça. «Eleva-se», portanto, desde já, «acima de todas as coisas». Vamos repetir: nele, é a humanidade que obtém esta vitória. Desde então podemos nos perguntar como permanecemos ainda submetidos a todas estas «dominações» que envenenam as nossas sociedades. «Para onde vou, dizia Jesus, não podeis seguir-me agora, mas me seguireis mais tarde» (João 13,36). É que faltava ainda aos discípulos de então e aos discípulos que hoje somos nós, aceitarmos com toda a liberdade tomar o mesmo caminho que Jesus tomou. Este «mais tarde» de que fala Jesus recobre toda a nossa história pessoal e a história universal.
A nova presença de Cristo
É notável que, nos evangelhos, os «relatos» da Ascensão sempre se façam acompanhar do envio dos discípulos pelo mundo, para anunciarem a Boa Nova (Marcos 16,19-20; Lucas 24,46-53; Atos 1,6-11). Ao movimento vertical do Cristo, «elevado ao céu», corresponde o movimento horizontal dos discípulos, pela superfície da terra. Mais ainda, o instante da Ascensão se estende por toda a nossa história. A localização inscrita nos evangelhos (Betânia para Lucas, Galileia para Mateus, Jerusalém para os Atos) irá dali em diante dilatar-se e abranger a terra toda. O mundo inteiro, tendo a humanidade como ápice, é que está em trabalho de ascensão. O movimento vertical de Cristo significa que, dali em diante, Ele escapa às nossas percepções, ainda que o evangelho de Mateus termine com o «Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos». A presença de Cristo muda, portanto, de natureza, passando agora a residir na fé dos discípulos e fazendo-se ativa através do seu trabalho de evangelização. O «Eu vou estar convosco» de Mateus realiza-se através do testemunho que eles se encarregaram de dar, desde Jerusalém até as extremidades da terra. Foi para isso que receberam o Espírito, sendo assim «inspirados» pelo próprio Deus.
Viver a presença de Jesus na sua ausência
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos
Celebramos hoje a solenidade da Ascensão de Jesus. Como se lê no livro dos Atos dos Apóstolos, há um momento em que Jesus nos é tirado do nosso olhar, como que uma nuvem agora oculta a visão do próprio Jesus. E os Discípulos têm de aprender uma coisa que até aí não sabiam, que é viver a presença de Jesus na sua ausência. Viver em Jesus não O vendo, não O encontrando, não contando com Ele, com a Sua presença física e visual no dia a dia.
Mas entretanto um processo havia acontecido, e é esse processo que também a nós nos funda como cristãos, também a nós nos sedimenta a nossa identidade cristã. E que nós podemos, de certa forma, comparar àquilo acontece na vida de cada um de nós em relação aos nossos pais. Essas figuras determinantes da nossa vida interior, daquilo que cada um de nós é, da confiança com que investimos ou não na própria vida. E o que aconteceu com os nossos pais numa idade muito tenra, numa idade de colo, foi uma internalização. Nós passamos a contar com os nossos pais não só fora de nós mas dentro de nós. Essa presença dentro de nós passou a ser fortalecedora e, a um dado momento, como que passou a ser suficiente para que começássemos a viver autonomamente. É claro que uma criança de colo precisa de muito pai e de muita mãe, e precisamos sempre, mas precisam daquela presença, daquela forma de presença. Por isso os miúdos não passam de colo para colo, e precisam de estar de mão dada e precisam ver, precisam mostrar e olhar. E, aos poucos, não é que se desliguem ou amem menos os pais, mas os pais passam para dentro deles a palavra, a presença. Eles sabem que podem ir agora ao fim do mundo e que os pais estão dentro deles, que essa ligação não é ameaçada pela distância ou pela ausência.
Esse processo, que é o processo fundador da autonomia de cada um de nós, também é, de certa forma, o processo que acontece no crescimento da vida cristã. Os Discípulos começaram com Jesus, partilhando 24 horas por dia a sua existência com Ele, comeram e beberam com Ele, ouviram a Sua palavra, escutaram os Seus silêncios. E, agora, Jesus está-lhes oculto por uma nuvem. Mas isso não quer dizer que eles perderam Jesus. A Igreja não perdeu Jesus na Páscoa. Nós ganhamos Jesus de outra forma, ganhámos a Sua presença em nós.
Por isso é tão importante aquilo que S. Paulo nos diz: “Que o Senhor ilumine os olhos do vosso coração para compreenderdes a esperança a que sois chamados.” Precisamos olhar com os olhos do coração para compreender a qualidade e a dimensão da esperança a que cada um de nós é chamado.
Em vez de sentirmos que a nossa vida se desmobiliza, pelo contrário, a Igreja sente neste tempo pascal que esta é a nossa hora, chegou a nossa vez, que agora temos de ser nós a assumir a beleza e a radicalidade da proposta cristã. Por isso este é o momento do envio, este é o momento do mandato em missão: “Ide por todo o mundo e anunciai.”
É muito bela a fórmula que S. Marcos utiliza: “E o Senhor cooperava com eles.” O Senhor coopera connosco. Isto é: Deus vem em nosso auxílio, Deus socorre-nos, Deus ampara-nos para esta missão de sermos agora nós os protagonistas, os atores deste Evangelho a anunciar ao mundo. Nós podemos contar com essa ajuda efetiva de Deus para a nossa vida.
Queridos irmãs e irmãos, muitas vezes a ausência de Deus, o silêncio de Deus é um embaraço para nós. Muitas vezes sentimos que Ele nos descorçoa, nos faz cair os braços, nos desalenta, não nos dá a força. Ora, a Igreja que surge que é formada na Páscoa, pelo contrário, é uma Igreja mobilizada, é uma Igreja que sabe interpretar a ausência e o silêncio como lugares a preencher com uma comprometida presença da nossa parte. Por isso este tempo pascal, que é um tempo privilegiado para a construção da própria Igreja e para a consciência que cada um de nós é chamado a ter, da sua identidade, da sua missão; este é um tempo para mobilizar, este é um tempo para sentir, este é o tempo para descobrir, este é um tempo para compreender. Compreender, descobrir, mobilizar o quê? Perceber que agora sou eu, que em Cristo agora é a minha vez de ser.
Porque Cristo não nos veio substituir, Cristo veio motivar-nos, Cristo veio possibilitar-nos, Cristo veio dar-nos a capacidade de, mas temos de ser nós a lançar-nos nesta experiência que é sobretudo uma arte de ser, uma arte de ser.
O Cristianismo não é apenas uma verdade que nós mantemos na história. É antes de tudo uma cultura, um modo de ser, um conjunto de atitudes, um conjunto de escolhas que fazem realmente a diferença na nossa vida. Nós, verdadeiramente, não nos sentimos dignos do nome de cristãos enquanto o ser cristãos na nossa vida não faz a diferença. Por sermos cristãos acontecem determinadas coisas na nossa vida. Há passos, há rumos, há trilhos que nós fazemos em nome da nossa fé.
É claro que isto é um trabalho interior de grande vigilância, é um trabalho paciente que acontece. Sto. Agostinho lembrava: “Nós não nascemos cristãos, nós tornamo-nos cristãos.” Muitas vezes, com surpresa, nós cristãos de há muitas décadas descobrimos que não somos cristãos, ou que naquela circunstância precisa não fomos cristãos, ou que naquela reação, naquele modo de pensar, naquele juízo nós não fomos cristãos. Mas, de certa forma, não temos que nos espantar porque o Cristianismo não é natural em nós, não é natural. É um tornar-se, é uma transformação, é uma metamorfose, é uma mudança que tem de acontecer em nós.
Por isso, nós precisamos desta ligação a Cristo, precisamos da força da oração. Sem oração nós não conseguimos. Precisamos de reencontrar a força e o sentido da oração, que é o grande estímulo neste processo de transformação em que nós estamos. Por isso, um cristão não navega com o piloto automático, isso não existe. Um cristão tem de estar sempre atento, e ele com as mãos no leme, sabendo que Deus coopera com ele. Mas sabendo que cada passo, cada gesto precisa ser levado a Cristo. Temos que levar a nossa vida a Cristo para que Cristo a ilumine, para que Ele nos revele aquilo que a nossa vida é e o que ela pode ser.
Pe. José Tolentino Mendonça, Solenidade da Ascensão do Senhor
«Ide…!» – Os «pés» da Igreja missionária
Romeo Ballan mccj
A Ascensão de Jesus ao céu apresenta-se sob três aspectos complementares: 1º, como gloriosa manifestação de Deus (I leitura) com a nuvem das aparições divinas, homens vestidos de branco, bem quatro referências ao céu em apenas dois versículos, anúncio do regresso futuro… (v. 9-11); 2º, como remate de uma empresa difícil e paradoxal, mas bem sucedida (II leitura): Jesus, subindo ao céu, distribui dons aos homens e é a plenitude de todas as coisas (v. 8.10); 3º, como envio dos apóstolos para uma missão tão vasta como o mundo (Evangelho).
Os acontecimentos finais da vida terrena de Jesus dão sentido e iluminam o atribulado percurso anterior. «Por isso João fala de exaltação, fala de ascensão de Jesus no mesmo dia da morte na cruz: morte-ressurreição-ascensão constituem um único mistério pascal cristão que vê a recuperação em Deus da história humana e do ser cósmico. Também os quarenta dias, de que se faz menção em Actos 1,2-3, evocam um tempo perfeito e definitivo e não devem ser vistos como uma informação cronológica» (G. Ravasi).
O cumprimento, o epílogo, da Páscoa de Jesus está na origem da alegre esperança da Igreja e da «confiança serena» dos fiéis de um dia se encontrarem «na mesma glória de Cristo» (Prefácio). É esta a origem do empenho apostólico e do optimismo que anima os missionários do Evangelho, na certeza de serem portadores de uma mensagem e de uma experiência de vida bem sucedida, graças à ressurreição. Acima de tudo, é vida plenamente alcançada em Cristo; e é já, ainda que só de forma inicial, uma vida bem sucedida nos membros da comunidade cristã. Os frutos estão aí: é preciso olhar para eles e saber apreciá-los.
Motivados interiormente por semelhante experiência positiva de vida em Cristo, os Apóstolos – e os missionários de todos os tempos – tornam-se suas «testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra» (Act 1,8), num itinerário que se abre progressivamente do centro inicial (Jerusalém) em direcção à periferia tão vasta como o mundo. O mundo inteiro é, de facto, o campo ao qual Jesus, antes de subir ao céu, envia os seus discípulos (Evangelho): «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a todas as criaturas» (v. 15). Em algumas representações, a solenidade da Ascensão é retratada com dois pés que saem da nuvem que envolve o corpo de Jesus. São os pés da Igreja missionária, os pés com que Jesus continua a caminhar hoje pelos caminhos do mundo.
A Ascensão, portanto, não é festa de despedida ou de adeus, mas festa de envio, de missão. Uma missão que se realiza graças à presença permanente do Senhor, que actua juntamente com os evangelizadores e confirma a Palavra com os milagres (v. 20). Ele garante-nos: «Eu estarei convosco todos os dias» (Mt 28,20).
Os verbos do envio em missão mantêm a sua perene actualidade: «ir» indica o dinamismo e a coragem para se inserir nas sempre novas situações do mundo; «pregar o Evangelho», para que os povos se tornem seguidores não tanto de uma doutrina, mas de uma Pessoa; «acreditar”» alude à obediência da fé; «baptizar» indica o sacramento que transforma e insere as pessoas na vida trinitária e eclesial. (*)
Os apóstolos põem de imediato em prática o mandamento de Jesus: «Partiram a pregar por toda a parte» (v. 20). As últimas palavras dos quatro Evangelhos são um lançamento da Igreja em missão – uma Igreja em estado permanente de Missão! – para continuar a obra de Jesus. Por toda a parte, sempre! Com o empenho de cada um, segundo o proverbial “arregaçar a mangas”, para que o projecto iniciado por Jesus chegue a transformar as pessoas a partir de dentro, no coração, e, dessa forma, se crie um mundo mais justo, fraterno, solidário. O olhar para o céu – meta final e inspiradora da grande viagem da vida – não distrai e não tira energias, antes estimula os cristãos e os evangelizadores a ter um olhar de amor sobre o mundo, um empenho missionário ajustado às situações concretas, generoso e criativo. Pela vida da família humana!