V Domingo de Páscoa (B)
João 15,1-8

Referências bíblicas
- 1ª leitura: «Barnabé contou-lhes como Saulo tinha visto o Senhor no caminho» (Atos 9,26-31)
- Salmo: Sl. 21(22) – R/ Senhor, sois meu louvor em meio à grande assembleia!
- 2ª leitura: «Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros» (1 João 3,18-24)
- Evangelho: «Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim» (João 15,1-8)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto. Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei. Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem. Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido. A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos».
Dar muito fruto
Raymond Gravel
Justo antes da Ascensão, estamos agora por dois domingos com o evangelista João, no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos. Na noite da Quinta-Feira Santa, na Ceia, Jesus dá recomendações a eles. É uma forma de testamento espiritual dado por aquele que, no dia seguinte, seria preso, julgado, condenado e crucificado. Mas, de fato, será verdadeiramente um discurso pronunciado por Jesus de Nazaré, nas vésperas de sua morte? A resposta é evidentemente que não! Este discurso foi escrito vários anos depois da morte de Jesus, no seio de uma comunidade para a ele nunca foi um grande desaparecido. É por isso que esse discurso de despedida que o evangelista João coloca na boca do Nazareno, antes da sua morte, é, de fato, a Palavra que o Cristo sempre vivo dirige aos discípulos da primeira hora e àqueles dos dias de hoje. É um discurso que se dirige aos cristãos de todos os tempos. Hoje, o que podemos resgatar de tudo isso? (…)
Às vezes, tenho a impressão que a Igreja atual se considera, ao mesmo tempo, a videira e o agricultor… E, portanto, o evangelho nos lembra, e é Cristo Ressuscitado que fala: “Eu sou a verdadeira videira, e meu Pai é o agricultor” (Jo 15,1). Isso significa que todos os que estão unidos à videira, a Cristo, dão frutos, e esses frutos provêm de lugares diferentes, de ambientes diversos e múltiplos. Até existem alguns que não possuem nenhuma pertença religiosa. O teólogo Charles Wackenheim escreveu em 1994: “Todos nós conhecemos homens e mulheres que não se valem de Cristo e que se dedicam de corpo e de alma aos mais pobres, aos oprimidos e aos abandonados. Até acontece que essas pessoas recusam toda referência religiosa que lhes aparece com álibi tão inútil quanto suspeito. Mas o evangelho de João não mede os comportamentos de uns e de outros. Ele se dirige aos crentes que o foram enxertados em Cristo pelo batismo. Tanto melhor se os não cristãos dão frutos comparáveis!
O verbo ficar aparece sete vezes no texto do evangelho que nós temos hoje. Que dizer? O verbo ficar no evangelho de João tem um sentido teológico forte: ele serve para descrever não somente a permanência divina em relação à precariedade humana, mas também a intimidade de Deus e do homem que se expressa através da intimidade do Pai e do Filho. Jesus disse a Felipe: “Você não acredita que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim?” (Jo 14,10). Da mesma forma, nós devemos crer que Cristo fica em nós se nós somos enxertados nele, se nós ficamos com ele: “Fiquem unidos a mim, e eu ficarei unido a vocês. O ramo que não fica unido à videira não pode dar fruto. Vocês também não poderão dar fruto, se não ficarem unidos a mim” (Jo 15,4).
A pergunta totalmente legítima que podemos nos fazer: Quem fica em Cristo e em quem fica Cristo? A resposta é simples: aquele e aquela que produz frutos em abundância: “Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem fica unido a mim, e eu a ele, dará muito fruto, porque sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5). E para ficarmos em Cristo, precisamos amar como ele. O trecho da primeira carta de São João, que nós temos na segunda leitura de hoje, nos diz o seguinte: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade” (1Jo 3,18).
ww.ihu.unisinos.br
«Vós sois os ramos»: podados e fecundados para a Missão
Romeo Ballan mccj
Jesus no Evangelho identifica-se com a videira: «Eu sou a verdadeira vide» (v. 1). A presente afirmação está ligada à série de definições que Jesus dá de si mesmo, reunidas pelo evangelista João: Eu sou a água fresca (Jo 4); «Eu sou o Pão vivo» (Jo 6); «Eu sou a luz do mundo» (Jo 9); «Eu sou o Bom Pastor» (Jo 10); «Eu sou a ressurreição e a vida» (Jo 11)… E hoje: «Eu sou a videira, vós os ramos» (v. 5). São afirmações que nos reportam à auto-definição do Deus do Êxodo: «Eu-Sou envia-me a vós» (Ex 3,14). Aparece de modo claro que as revelações de identidade de Deus, e de Jesus, são por si mesmas um Evangelho, uma boa notícia, e contêm uma missão, um mandato a levar a outros. É já depois da última ceia de Jesus com os discípulos, no contexto de despedida, já por si carregado de significado e de emoções, que se insere a passagem do Evangelho de hoje sobre «a videira e os ramos», onde assume a rica temática bíblica da videira, cantada pelos profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel…) e nos salmos (80). Ele é a videira verdadeira do novo Israel, que não desiludirá a expectativa divina, porque dará frutos.
No trecho da videira e dos ramos há uma revelação trinitária: O Pai é o agricultor (v. 1), o Filho é a verdadeira vide, o Espírito Santo é a seiva vital e amorosa no seio da Trindade e no coração dos discípulos, que são os ramos. Da alegoria da videira e dos ramos é possível, também, fazer uma leitura eclesial e eucarística: o primeiro «fruto da videira» é a Eucaristia da nova aliança no sangue de Jesus (Mt 26,29). Os outros frutos são pedidos àqueles que Ele chama a segui-lo: para que «deis muito fruto e vos torneis meus discípulos» (v. 8). Estes frutos encontram-se no campo que é o mundo, onde «a messe é grande, mas os operários são poucos» (Mt 9,37).
A condição indispensável para dar frutos está na união do ramo com a cepa. Quanto a este ponto, a experiência da vida agrícola não admite alternativas nem excepções. Daí a insistência de Jesus: «Permanecei em mim e eu permanecerei em vós» (v. 4). O verbo «permanecer» aparece por bem sete vezes no breve trecho de hoje. Não chega portanto uma presença qualquer, de passagem, com um voo de pássaro de planta em planta, ou de borboleta de uma flor em outra; ‘permanecer’ indica estabilidade, morada fixa, residência. Isto é, amizade, convivência, identificação, oração. (*) Uma amizade que se reforça na «poda», vivida como necessária passagem de purificação e de fecundidade, «para que deis mais fruto» (v. 2). É o que nos assegura Job, que de poda entendia bem: feliz o homem que é corrigido por Deus, cujas mãos ferem apenas para curar (Jb 5,17-18).
O convite a confiar sempre em Deus – mesmo nos meandros da dor – vem-nos de João (II leitura), porque «Deus é maior que o nosso coração e conhece todas as coisas» (v. 20). Ele deu-nos o Espírito Santo (v. 24), para nos ajudar a não amar apenas por palavras, «mas com obras e em verdade» (v. 18). Um testemunho de semelhante amor vem-nos da história de Paulo (I leitura): depois de ter perseguido os cristãos, descobre neles a presença daquele Senhor que lhe mudou a vida. No caminho de Damasco nasceu não apenas um cristão, mas o apóstolo, o grande missionário, que – graças à mediação de Barnabé que o apresentou aos apóstolos – pregava em Damasco e em Jerusalém com coragem, abertamente, no nome do Senhor Jesus (v. 27-28). É de sublinhar enormemente o papel de Barnabé como amigo, acompanhante, conselheiro e colega de Paulo na missão. Os receios e as suspeições em relação a Paulo eram grandes, não só porque tinha sido perseguidor, mas sobretudo porque «Paulo manifestava uma forma e uma amplitude de visão que surpreendia e intimidava os cristãos que já se tinham habituado a uma vida sem o ímpeto missionário que o neo-convertido demonstrava. Ele pregava com coragem e a sua veemência criava-lhes problemas. Paulo tomava a sério aquilo que tanto nos custa: amar o próximo na sua situação concreta (Gustavo» Gutiérrez).
Em vez de se retirar para os seus problemas pessoais e seguir o seu caminho, Paulo, podado e fecundado no sofrimento, enfrenta incompreensões e divergências, aceita o confronto com os outros apóstolos, não se isola, mas procura e mantém a comunhão com o grupo. Um exemplo para aqueles que, também hoje, se dedicam com paixão à causa missionária do Evangelho e se deparam muitas vezes com incompreensões e contrastes mesmo no seio da comunidade eclesial. A tentação de abandonar pareceria a escapatória mais fácil. Paulo, pelo contrário, resistiu, renovou a Igreja a partir de dentro. Procurando sempre a comunhão. Com amor!
Permanecer em Deus
Marcel Domergue
«Sem mim nada podeis fazer»
Palavra surpreendente! Pois não precisamos estar ligados ao Cristo para poder construir as nossas máquinas, cultivar nossos legumes, etc. E mais; tem muita gente que «faz o bem» e «dá fruto» sem qualquer referência ao Evangelho. Neste sentido, é incontestável que se possa levar uma vida humana correta, e mesmo até mais, sem que se conheça ou se reconheça a Cristo. À luz da fé, no entanto, mesmo que disto sequer tenhamos consciência, sabemos que a energia que nos anima, a inteligência que nos guia e o benquerer que nos religa aos outros são obra do Verbo em quem vive tudo o que é vida. A Bíblia mesmo já via a «Sabedoria divina» na origem da habilidade manual do artesão. O Verbo está aqui, em toda a humanidade, cada vez que homem ou mulher aceita fazer algo de bom, de humano. Nada, com efeito, escapa à ação criadora de Deus. O Verbo fez-se carne desde sempre e o Cristo está aqui, escondido no mistério de Deus e na tumultuada história dos homens. Com Jesus, o que estava escondido tornou-se visível, e eis que somos interpelados por esta Palavra que se tornou audível. Estamos, assim, submetidos a uma escolha: acolher ou recusar. Por isso muitas vezes a Escritura qualifica Jesus como «juiz»: sua presença e sua ação conduzem cada um a revelar os seus pensamentos e os seus desejos mais profundos: a operação verdade. «Quem é da verdade escuta a minha voz» (João 18,37)
Conhecer a verdade para alcançar a liberdade
Podemos perguntar em que a vinda de Cristo pode nos servir? Se em última análise todo ato bom de um não crente vem do Verbo, sendo como que uma humanização da Palavra divina, o que nos traz de novo a Encarnação? Bom, primeiro, uma revelação: através do Cristo, ficamos sabendo que as nossas atividades humanas, e também nossas tomadas de posição, têm um alcance divino. Daí que o fruto que tenhamos dado «permanece»; está revestido da solidez do próprio Deus. Mas este fruto, em primeiro lugar, somos nós mesmos, transformados pelo que escolhemos e pelo que fazemos. Já há aí uma forma de promessa de vida eterna. Produzindo o fruto de Deus, estes ramos que nós somos não podem acabar no «fogo», perecendo na destruição dos seres inúteis. Mas a revelação dada e recebida em Cristo ainda nos traz outra coisa: faz-nos alcançar a mais alta liberdade que existe. Daí em diante, conhecendo nossa verdade última, estamos em condição de escolher, de responder com um sim ou com um não. Podemos escolher o que devemos ser. Saímos da noite para nos dirigirmos à plena luz. Permanecer em Cristo ou nos separarmos dele, é esta a escolha que, através da parábola da videira e dos ramos, Jesus nos propõe.
A videira verdadeira
Com o pastor e as ovelhas estávamos no universo animal; hoje, com a videira, estamos no reino vegetal. Nos dois casos, trata-se de nos fazer passar de uma realidade de nosso mundo, do qual temos experiência, à realidade invisível, da qual ela é a figura imperfeita. O verdadeiro pastor e a videira verdadeira só nos são acessíveis pela fé, mas, sob os nossos olhos, temos um esboço que, por imperfeito que seja, não é menos revelador. Assim, antes de Se revelar perfeitamente em Cristo, que é «o ícone do Deus invisível» (Colossenses 1,15), Deus se manifesta com imagens aproximativas e imperfeitas, mas que estão a caminho da sua perfeição, o que irão atingir quando estiverem totalmente criadas no Filho: é o mundo que ainda geme nas dores do parto (Romanos 8,22). Mas Isto não impede que as realidades deste mundo nos falem de Deus: «desde a criação do mundo, através das criaturas, a sua realidade invisível tornou-se inteligível» (Romanos 1,20). As parábolas são construídas sobre esta analogia, entre o alusivo do mundo e o perfeito de Deus. Jesus é assim a «videira verdadeira», mas as nossas videiras terrestres podem nos dar uma ideia da nossa unidade com ele e nele. Uma ideia imperfeita, por certo: afinal, o agricultor forçosamente é exterior à sua videira, enquanto o Pai, por seu Verbo, é interior à sua criação, está engajado nela. Sem, no entanto, confundir-se com ela. E é por isso que a analogia da videira se mantém pertinente.
A Videira e os ramos
O evangelho de João insiste muito no fato de sermos habitação, morada de Deus. Mas esta presença interior do Pai se faz pelo Filho e pelo Espírito. Podemos nos representar o Espírito como a seiva que irriga os ramos desde o pé da videira. “Seiva” que transporta nela tudo o que há em Deus e que somos perfeitamente incapazes de avaliar. Posto que, aliás, sendo Deus infinito, não entra no regime dos números. De todo modo, o Espírito faz-se corpo conosco, e faz de nós um só corpo: é somente um pé da videira e uma multidão de ramos. Ficamos sabendo, aliás, que os frutos são diferentes conforme os diversos ramos (ver 1 Coríntios 12,4…). Aqui está em questão a alternativa: o fruto ou a esterilidade. E nós nos encontramos uma vez mais diante do problema da «retribuição», com a perspectiva da perda, da destruição dos ramos sem fruto ou, se quisermos, dos pecadores impenitentes. De minha parte, penso que, uma vez mais, Jesus nos fala do que deveria acontecer se as coisas se passassem conforme a justiça: então, o nosso futuro, para todos assim como somos, seria a morte sem amanhã, sem «terceiro dia». Mas, na passagem do rico notável (Lucas 18,27) ou do jovem rico, em Mateus 19, ficamos sabendo que, se ao homem é impossível por si mesmo entrar no reino da Ressurreição, «a Deus tudo é possível». O fruto que todos acabaremos por dar e em virtude do qual seremos salvos da morte é o fruto da árvore da Cruz.
Por que “dar fruto”?
Mas eis que se põe uma grave questão, embora inevitável: se Cristo afinal tomou a seu encargo as nossas faltas e a nossa esterilidade, se «onde avultou o pecado, a graça superabundou»(Romanos 5,20), por que nos fatigarmos em “fazer o bem” e “dar fruto”? Pois, enfim, os nossos comportamentos nocivos desencadeiam em Deus um acréscimo de amor! Paulo já se punha esta questão (cf. Romanos 6,1…), e inúmeras páginas das suas cartas giram em torno do tema da justa cólera de Deus e da «injusta» justificação do culpado. Por que então nos preocuparmos com bem nos conduzirmos, se o Cristo tomou para si mesmo todo o nosso mal? Uma resposta justa a esta questão supõe a fé, que faz nascer em nós o amor, em resposta ao amor que nos faz renascer. Renascer de outra forma: por este renascimento já nos passamos ao universo da Ressurreição. O nosso batismo, explica Paulo, e a fé que a ele está ligada, fazem-nos esposar a trajetória pascal. Assim como o Cristo na Cruz, estamos «mortos para o pecado» e somos portadores de uma vida nova. Daí em diante, é o conjunto dos ramos, juntos e solidários na unidade da Igreja, que dá ao mundo os frutos da videira de Deus, os frutos da árvore da Cruz. Sim, mas nem sempre estamos à altura, e por isso é que os ramos, que somos nós, têm necessidade de serem podados, para produzirem frutos convenientes. É uma história inteira a se viver.
Somos chamados a ser fecundos
José Tolentino Mendonça
Hoje, neste passo do Evangelho de S. João que proclamamos, aparece-nos uma interpretação da palavra “discípulo” que é importante nós tomarmos para a nossa reflexão. Porque nós damos por descontado que somos discípulos de Cristo, porque o nosso próprio batismo tornou-nos isso. Consideramos o discipulado como a categoria de base, a categoria que é ponto de partida.
Esse entendimento continua certo, há que dizê-lo. Antes de toda a nossa ação, todo o nosso mérito, de toda a nossa construção, nós somos em Cristo. Recebemos a Sua força, o Seu vigor, é Ele que nos ilumina, recebemos a Sua graça, a Sua presença nas nossas vidas. De maneira que nós somos à partida discípulos de Cristo. Mas há um outro entendimento que emerge das palavras do Senhor que hoje escutamos. Esse entendimento coloca o termo “discípulo” não como ponto de partida, mas como ponto de chegada de uma vida que tudo faz, que em tudo se empenha, que se compromete autenticamente para se tornar uma vida semelhante à de Jesus.
Nós não somos discípulos porque começamos um caminho. Nós somos discípulos porque ao longo do nosso caminho, um caminho necessariamente demorado, complexo, paciente, um caminho necessariamente feito de tantos, de múltiplos recomeços, a verdade é que, no final desse caminho, há alguma coisa em nós que sem palavras nos liga à pessoa de Jesus, à lição de Jesus, ao modelo de Jesus. Então é a forma de viver, é a modalidade da nossa própria existência, é a forma, a configuração que damos à vida que nos faz ou não ter este nome de discípulos de Cristo.
Só numa vida de permanência em Jesus e numa vida fecunda nós podemos dizer que somos discípulos de Cristo. Esta dupla aceção que a palavra “discípulo” tem no discurso do Senhor introduz, sem dúvida, uma tensão na nossa vida. Não podemos estar parados, não podemos estar de braços cruzados a achar que tudo está adquirido, e que basta o que temos, e que podemos estar satisfeitos com o que fazemos.
Nós somos chamados, na Páscoa de Jesus, a um sobressalto, a uma transformação. A vida não pode ficar a mesma. Nós somos chamados a dar fruto, somos chamados a uma fecundidade interior. Que só vem também quando nos dispomos, verdadeiramente, a multiplicar os talentos, a dar outros passos, a abrir as nossas mãos, a adensar a nossa experiência espiritual. Somos chamados a ser fecundos. Como diz o Senhor: “A glória do Meu Pai é que deis muitos frutos.”
Num domingo como este, o V domingo da Páscoa, em que a questão é o fruto, que fruto nós damos? Qual é a fecundidade das nossas vidas? A nossa fé serve para quê? Enche o nosso coração de que coisas? Num domingo como este, em que esta é a questão decisiva das leituras da palavra de Deus, é muito importante que cada um, no seu coração, possa de facto sentir que somos chamados a passar da escassez e da retenção à multiplicação da vida. Que não podemos estar a diminuir, a subtrair o significado da vida, mas todos nós somos chamados a multiplicar a vida que nos é dada. E multiplicar a vida é torna-la fecunda, é sentir que a nossa participação em Cristo atua em nós muito fruto. Fruto de vida.
É interessante que nas Cartas de S. João nós temos um critério muito prático, mas também muito seguro, do ponto de vista espiritual, para olharmos e fazermos um balanço, um exame de consciência da nossa vida. A Carta de S. João coloca, de facto, o centro deste balanço naquilo que diz o nosso coração. O que é que me diz, hoje, o meu coração em relação à minha vida? Ele pede-me mais? Ele pede-me outras coisas? O meu coração está em paz com a vida que eu vivo? Se o meu coração tem reivindicações, se o meu coração me põe perguntas, se o meu coração me pede mais eu tenho de ouvi-lo. Eu tenho de ouvi-lo. O critério numa vida espiritual é: há paz no teu coração? Há paz nessa consciência que é o santuário íntimo onde o homem e a mulher se encontram com Deus?
Eu estou em paz ou sinto que estou parado, ou sinto que faço pouco, sinto que fico aquém, sinto que não dou o fruto que podia dar? E se eu sinto essa insatisfação em mim, eu tenho o dever de escutá-lo, tenho o dever de escutá-lo. Porque é pelo meu coração que Deus fala. É pelo meu coração, antes de tudo, que Deus fala. Eu posso ouvir muitas coisas e isso ser importante, mas a grande mensagem de Deus é-me dita pelo meu coração. Se o nosso coração não tem paz, temos de tomar a sério, temos de colher as implicações, temos de fazer um discernimento. Sabendo que, mesmo quando o nosso coração é pequeno e pobre, Deus é sempre maior que o nosso coração. Deus pode tornar sempre maior o nosso coração.
Nesse sentido há aqui uma confiança fundamental que é preciso trabalhar ao mesmo tempo que trabalhamos o nosso sentido de justiça, de autenticidade, de verdade.
Porque, como diz a Carta de S. João, não podemos ficar a amar Jesus e a amar os irmãos, não podemos ficar apenas a ser discípulos de Jesus por palavras e pela língua, temos de o ser também pelas obras. E todos sabemos como isso é mais difícil. É muito mais fácil dizer que sim e depois logo se vê, se sim se não. Outra coisa é ter a vida hipotecada à palavra do Senhor. Sentir, no fundo do coração, que nos entregamos, que nos damos e que concretizamos, que fazemos, que praticamos a Ressureição, que praticamos a fé na Ressureição. Não é apenas uma verdade que anunciamos mas é uma verdade que praticamos. Torna-se não apenas uma ortodoxia, mas também uma ortopraxia, a Páscoa de Cristo, porque nos empenha a fazer coisas.
Aqui é importante sabermos que não há obstáculos, que ninguém está excluído desta tarefa de tornar fecunda a vida, uma vida multiplicada pelo espírito do Ressuscitado.
O exemplo que os Atos dos Apóstolos hoje nos dão é do apóstolo Paulo. Ele que era o rival, ele que era o inimigo, ele que era o perseguidor torna-se o vaso de eleição. Deus pega nele e transforma-o, e torna-o um braço da Sua videira, torna-o um lugar onde a vida acontece, onde a vida jorra, torna-o uma nascente de vida. Por isso nenhum de nós pode dizer: “Ah, estou já demasiado estéril”, “Já é demasiado tarde” ou “Nunca vou chegar isso.” Não, todos somos chamados, permanecendo em Cristo, a dar esse fruto. É o próprio Espírito que conspira com a nossa fragilidade para que essa fecundidade aconteça nas nossas vidas.
Queridos irmãs e irmãos, neste tempo santo da Páscoa nós não estamos apenas a celebrar a Ressurreição de Jesus, nós estamos a celebrar a nossa ressurreição. Estamos a colocar aqui sobre a mesa, como assunto, como questão a ressurreição das nossas vidas, a transformação das nossas vidas.
Esta transformação não é uma utopia, não é apenas uma questão de palavra ou de fé, é uma questão de prática. O que é uma vida ressuscitada? O que é uma vida nova?
Penso que as duas grandes palavras de Jesus que nos aparecem no Evangelho são palavras que temos, de facto, de levar para as nossas vidas. Uma palavra é: permanecer. O desafio a permanecer. “Permanecerei em Mim e eu permanecerei em vós.” Este desafio a radicar, a esconder, a colocar, a ligar a nossa vida à vida de Cristo. E a outra palavra é a palavra “fecundo”, o dar fruto. Há uma exigência que é feita aos discípulos do Senhor. Nós temos de merecer também esse nome. Esse nome é um dom mas também é uma tarefa, também é uma missão. Merecer o nome de discípulo de Jesus.
Acreditemos, queridos irmãs e irmãos, que não há nome mais belo que nós possamos conquistar, não há título de maior luminosidade que nós possamos ganhar na nossa vida do que a de termos sido e a de sermos humildes e fiéis discípulos de Jesus.
Www.capeladnorato.org