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Referências bíblicas

  • 1ª leitura: «Em nenhum outro há salvação» (Atos 4,8-12).
  • Salmo: 117(118) – R/ A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se agora a pedra angular!
  • 2ª leitura: «Nós O veremos tal como Ele é» (1 João 3,1-2).
  • Evangelho: «O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas» (João 10,11-18).

Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

O Dia Mundial de Oração pelas Vocações convida-nos, cada ano, a considerar o precioso dom da chamada que o Senhor dirige a cada um de nós, seu povo fiel em caminho, pois dá-nos a possibilidade de tomar parte no seu projeto de amor e encarnar a beleza do Evangelho nos diferentes estados de vida. A escuta da chamada divina, longe de ser um dever imposto de fora – talvez em nome de um ideal religioso –, é antes o modo mais seguro que temos de alimentar o desejo de felicidade que trazemos no nosso íntimo: a nossa vida realiza-se e torna-se plena quando descobrimos quem somos, as qualidades que temos e o campo onde é possível pô-las a render, quando descobrimos que estrada podemos percorrer para nos tornarmos sinal e instrumento de amor, acolhimento, beleza e paz nos contextos onde vivemos.

Um povo em caminho

A polifonia dos carismas e das vocações, que a Comunidade Cristã reconhece e acompanha, ajuda-nos a compreender plenamente a nossa identidade de cristãos: como povo de Deus em caminho pelas estradas do mundo, animados pelo Espírito Santo e inseridos como pedras vivas no Corpo de Cristo, cada um de nós descobre-se membro duma grande família, filho do Pai e irmão e irmã de seus semelhantes. Não somos ilhas fechadas em si mesmas, mas partes do todo. Por isso, o Dia Mundial de Oração pelas Vocações traz gravada a marca da sinodalidade: há muitos carismas e somos chamados a escutar-nos reciprocamente e a caminhar juntos para os descobrir discernindo aquilo a que nos chama o Espírito para o bem de todos.

Além disso, no momento histórico presente, o caminho comum conduz-nos para o Ano Jubilar de 2025. Caminhamos como peregrinos de esperança rumo ao Ano Santo, para, na descoberta da própria vocação e pondo em relação os diversos dons do Espírito, podermos ser no mundo portadores e testemunhas do sonho de Jesus: formar uma só família, unida no amor de Deus e interligada pelo vínculo da caridade, da partilha e da fraternidade.

Peregrinos de esperança e construtores de paz

Mas que significa ser peregrinos? Quem empreende uma peregrinação procura, antes de mais nada, ter clara a meta, e conserva-a sempre no coração e na mente. Mas, para atingir esse destino, é preciso ao mesmo tempo concentrar-se no passo presente: para o realizar, é necessário estar leve, despojar-se dos pesos inúteis, levar consigo apenas o essencial e esforçar-se cada dia por que o cansaço, o medo, a incerteza e a escuridão não bloqueiem o caminho iniciado. Por isso ser peregrino significa partir todos os dias, recomeçar sempre, reencontrar o entusiasmo e a força de percorrer as várias etapas do percurso que, apesar das fadigas e dificuldades, sempre abrem diante de nós novos horizontes e panoramas desconhecidos.

A coragem de se envolver

Por tudo isso digo mais uma vez, como durante a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa: «rise up – levantai-vos!» Despertemos do sono, saiamos da indiferença, abramos as grades da prisão em que por vezes nos encerramos, para que possa cada um de nós descobrir a própria vocação na Igreja e no mundo e tornar-se peregrino de esperança e artífice de paz! Apaixonemo-nos pela vida e comprometamo-nos no cuidado amoroso daqueles que vivem ao nosso lado e do ambiente que habitamos. Repito-vos: tende a coragem de vos envolver!

Levantemo-nos, pois, e ponhamo-nos a caminho como peregrinos de esperança, para que também nós, como fez Maria com Santa Isabel, possamos comunicar boas-novas de alegria, gerar vida nova e ser artesãos de fraternidade e de paz.

O Bom Pastor (Evangelho) é a primeira imagem usada pelos cristãos, desde as catacumbas, para representar Jesus Cristo, muitos séculos antes do crucifixo. «O bom Pastor é a versão suavizada do crucifixo. Suavizada só a nível figurativo, porque a substância é a mesma. Não é por acaso que no trecho de João a frase “dar a vida” seja a mesma que explica o que significa “bom”, e aparece pelo menos cinco vezes» (D. Pezzini). Jesus repete com insistência que «o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas» (v. 11.15). Jesus é identificado com a imagem bíblica do pastor (cf. Êxodo, Ezequiel, Salmos…), e João releu-a em chave messiânica. Abundam as expressões que indicam uma vida de estreita relação entre Jesus e as ovelhas: entrar-sair, abrir, chamar-escutar, conduzir, guiar, caminhar-seguir, conhecer, dar a vida… Até se identificar plenamente com o «bom pastor que dá a vida pelas ovelhas» (v. 11.15). De notar que o texto grego usa um sinónimo: o pastor «belo» (v. 11.14), isto é bom, perfeito, que une em si a perfeição ética e estética. Bela, ou seja, boa, é: uma pessoa, uma alma, uma colheita, um casal, etc. É assim, porque «a beleza salvará o mundo», segundo a tese de vários autores actuais: F. M. Dostoievski, card. Carlo M. Martini, Bruno Forte, G. Bergantini…

Jesus dá a sua vida por todos: há ainda outras ovelhas a reunir, até formar um só rebanho e um só pastor (v. 16). Ele não renuncia a nenhuma ovelha, mesmo se estão distantes e não o conhecem: precisam todas de entrar pela porta que é Ele mesmo, porque Ele é o único salvador. A missão da Igreja move-se dentro destes parâmetros de universalidade: vida oferecida por todos, perspectiva de rebanho único, vida em abundância… Mesmo se o rebanho é numeroso, ninguém está a mais, ninguém se perde no anonimato; pelo contrário as relações são pessoais: o pastor conhece as suas ovelhas e estas conhecem-no (v. 14), chama-as uma a uma, pelo nome (v. 3). Há uma circularidade de vida e de relações entre o Pai, Jesus e as ovelhas, animados por uma mesma seiva de conhecimento e de amor (v. 15). Esta circularidade torna-se modelo para a missão pastoral da Igreja.

O intenso amor com que o Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas produz frutos extraordinários: faz de nós filhos de Deus (II leitura). João assegura-nos que «somo-lo realmente!». E que um dia veremos Deus «tal como Ele é» (v. 1-2). Com o dom da sua vida, o Bom Pastor tornou-se o Salvador único e universal, de todos. Afirma-o com firmeza o apóstolo Pedro, ao falar de Jesus Cristo perante o Sinédrio (I leitura): «Em nenhum outro há salvação; pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos» (v. 12).

Hoje é o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. É necessário ter confiança em Deus, que quer a vida e cuida do seu rebanho, e portanto suscita certamente os pastores que o guiem; mas é preciso que os chamados respondam ao apelo do «Senhor da messe». A vocação de especial consagração (sacerdócio, vida consagrada, vida missionária, serviços laicais…) reforça-se solidamente na experiência pessoal de sentir-se amado e chamado por Alguém que existe antes de mim. Para qualquer tipo de vocação, é determinante sentir como verdadeira a palavra de Jesus: «Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me» (v. 14). Trata-se de uma experiência fundante, que o teólogo protestante Karl Barth, superando o idealismo cartesiano, exprime assim: «Cogitor, ergo sum» (sou pensado, logo existo). Sentir-se pensado por Deus faz-me viver, faz-me sentir grande, dá-me segurança, faz-me sentir filho e irmão, faz de mim um apóstolo.

Saber que vivo no coração de Deus abre-me ao mundo, torna-me disponível a partilhar os projectos e as preocupações do Bom Pastor, que tem «outras ovelhas» (v. 16) a reunir, guiar, salvar. A proximidade e a contemplação do Bom Pastor faz-me ser Igreja missionária, com horizontes tão amplos quanto o mundo inteiro. Com esse fim é preciso habilitar as paróquias e as comunidades a não ser recintos tranquilos onde se cuida do que restou, mas campos de base onde se experimenta o encontro com o Ressuscitado e de onde se parte para anunciar Jesus aos que estão perto e aos que estão longe.

Queridos irmãs e irmãos,
Estes dias tenho estado a ler os textos de um filósofo, Hobbes. É ao mesmo tempo terrível e evidente a marca que ele deixa no pensamento moderno, no pensamento contemporâneo. A ideia que ele tem da natureza é que a natureza é uma guerra generalizada de todos contra todos. Na sua autobiografia ele diz esta coisa intensa: “Quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, nasci eu e nasceu o medo.” Porque, para ele, aquilo que pode estruturar a sociedade, aquilo que nos pode orientar é o medo. E por isso, os Estados têm de ser Estados fortes, consolidados, em que o poder de nenhuma maneira pode ser posto em causa porque é o medo que nos governa, é o medo que protege a paz social. E isto ele desenvolve no famoso livro Leviatã, em que trata desta conceção de Estado.

É muito interessante porque, de certa forma, afastando-nos agora das teses do Hobbes. Se calhar também nós podemos dizer “quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, teve-me a mim e teve o medo.” Porque, quando pensamos em nós, nas categorias profundas da nossa vida, o medo é se calhar das coisas mais antigas, mais fortes, mais ambíguas que cada um de nós transporta. E mesmo na nossa relação com Deus o medo, infelizmente, acaba por estar tão presente. Nós que estamos aqui, porque é que estamos aqui? Eu não digo: de nenhuma maneira é por medo (se calhar mesmo numa visão pacificada, positiva, confiada com Deus). O fantasma do medo está lá sempre presente. Nós temos medo que Deus nos castigue, nós temos medo que isto não seja suficiente, nós temos medo de não estar a fazer as coisas bem. Nós temos medo, nós temos medo. E é tão importante nós ouvirmos a palavra de Jesus que nos diz: Não é o medo, é o Amor. “Eu sou o Bom Pastor, Aquele que vem falar do Amor, Aquele que vem revelar o Amor, Aquele que vem dizer: quando eu nasci a minha mãe teve dois filhos, teve-me a Mim e teve o Amor.”

Mas para isso tem de acontecer uma transformação na nossa vida, que não é de um momento para o outro, é o nosso caminho de vida cristã. Em lugar do medo e de pensar a nossa relação com Deus, a nossa relação com os outros, a nossa relação em sociedade, a nossa relação connosco próprios, em chave de medo, como tantas vezes nós pensamos, pensá-la em chave de Amor. Esta é a grande transformação que Jesus nos vem trazer. Ele hoje fala-nos do Amor e apresenta-nos como o Pastor Amoroso, Aquele que nos vem revelar o Amor de Deus.

As leituras todas nos explicitam detalhes sobre esta gramática do Amor que Jesus vem introduzir em nós. O primeiro é o discurso de S. Pedro em Jerusalém, quando Pedro diz: “Este homem e todos os homens são curados pelo nome de Jesus. Então, como é que nós podemos conhecer o Amor de Jesus? Podemos conhecer o Amor de Jesus porque ele nos cura. Ele não se conforma com o irremediável na nossa vida, a dizer: tu tens este defeito, tu tens esta imperfeição, isto não tem remédio. Não, para Jesus é sempre reversível a nossa vida, há sempre um remédio. Ele cura-nos, Ele transforma-nos, Ele é capaz de mudar o nosso feitio, o nosso temperamento. Porque a vida cristã é uma dinâmica também de cura, também terapêutica. Nós vemos nos Evangelhos tantos milagres, não é por acaso, é porque é nesse processo de transformação interior, de sanação interior que nós percebemos quem é Jesus, que nós tateamos o Seu Rosto. É na medida em que nós cristãos podemos dizer: eu mulher/eu homem fui curado, sou curado pelo Amor que Ele me dá, o Seu Amor cura as minhas feridas, transforma a dureza e a violência do meu coração, ensina-me a mansidão, ensina-me a paz, ensina-me o perdão. Ele cura-me, Ele transforma-me, Ele ensina-me. É na medida em que nós podemos dizer isso e dizer isto de uma forma objetiva, concreta, real que nós conhecemos o Amor de Deus.

O mais importante é sentires que Deus te ama. Aquilo que Simone Weil dizia: “O mais importante não é termos fé em Deus mas é descobrirmos que Deus tem fé em nós.” E podemos dizer: o mais importante não é o amor que temos a Deus mas é descobrirmos com todas as forças da nossa vida o Amor que Deus tem por nós. Descobre o Amor que Deus tem por ti! Esse Amor incessante, esse Amor inconformado, esse Amor constante, esse Amor fiel, esse Amor permanente. Esse Amor que nunca diz: está derrotado, está acabado. Esse Amor que acende debaixo da cinza a possibilidade de fogo, a possibilidade de vida. Aconteça o que acontecer, sente na tua vida que és amado por Deus e faz disso a tua verdade, o teu ponto de partida, o teu caminho.

Depois, a Epístola de S. João abre-nos outro entendimento do Amor que Jesus nos vem revelar. Ele diz: “Jesus vem dizer-nos que somos filhos porque nos permite ver a Deus tal como Ele é.” Em Jesus nós vemos a Deus tal como Ele é. E de facto, nós, cristãos, nunca vimos Deus. O Evangelho de S. João e a Epístola de S. João há de lembrar a Deus nunca ninguém viu. Nós nunca vimos Deus, aquilo que nós vimos de Deus é o que nós contemplamos em Jesus. Aquilo que Jesus nos revela de Deus é a nossa sabedoria de Deus.

E depois, no Evangelho, nesta página extraordinária escrita por S. João. Jesus diz uma coisa curiosa, Jesus diz: “Eu sou o Bom Pastor.” Podemos traduzir assim. O adjetivo kalós . “Eu sou o Bom Pastor.” Mas, o primeiro sentido de kalós, não é o bom, é o belo. Eu sou o Belo Pastor. E nós estamos aqui porque Jesus sacia a nossa fome de bondade, é verdade; porque Jesus sacia a nossa fome de verdade, é certo. Mas também porque Jesus sacia a nossa fome e sede de beleza. Nele nós saciamos a nossa ânsia de beleza, de uma beleza que nos salve, de uma transparência, de uma consistência, de uma harmonia que tantas vezes nós não encontramos na vida e ficamos esfomeados dessa beleza, desse sentido. Que não seja só isto, que não seja só o que os nossos olhos veem mas seja essa outra coisa que nos ilumine, que nos fascine, que nos arrebate, que nos assombre, que seja também o nosso êxtase. Porque a vida tem de ser também êxtase. A vida tem de nos espantar, tem de nos fazer abrir a boca, tem de nos assombrar. A vida não é só o fazer as coisas certas. Claro que isso é bom e importante mas nós precisamos de um assombro.

E isso é assim no amor e é assim numa fome e numa sede fundamentais que nós humanos carregamos na nossa vida. Porque nós somos poeira mas poeira enamorada, precisamos de nos enamorar de alguma coisa, precisamos que a vida seja esse êxtase. E Jesus é o Pastor dessa fome do nosso coração porque Ele é o Belo Pastor. É Aquele que nos dá um espanto perante as coisas, perante a realidade. Esse espanto que é a nossa oração de cada dia, que nos dá um sentido de outra coisa que alimenta aquela fome, aquela inquietação indizível que o nosso coração transporta. Aquilo que Sto. Agostinho diz: “O meu coração andava inquieto, sem descanso enquanto não repousei em Ti.”

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O bom pastor

A imagem do pastor com as suas ovelhas deixa insensíveis muitos crentes. Pois, de fato, não apreciamos muito ser comparados a um rebanho obediente, no qual cada um perde a sua especificidade. Mas, deixando isto de lado, perguntemo-nos sobre o que Jesus quer nos dizer com esta imagem tão característica de certa região e de uma época bem determinada. Hoje vemos igualmente pessoas inscreverem-se em partidos e colocarem-se na defesa de seus líderes quer sejam políticos, confessionais ou ideológicos. Gurus é o que não falta. Jesus paradoxalmente nos convida à liberdade frente a todos

os condutores de homens, mesmo quando as circunstâncias nos levam a cerrar fileira com eles, tendo em vista este ou aquele resultado. Não podemos dizer: “Eu sou de Paulo!”, ou “Eu sou de Apolo!”, ou “Eu sou de Cefas!” (1 Coríntios 1,12). Jesus opõe o “bom pastor” ao mercenário, isto é, àquele que trabalha para o seu próprio interesse: dinheiro, notoriedade, poder… Para este, a prosperidade das “ovelhas” não é o seu objetivo; estas são para ele apenas um meio. Assim, mais uma vez, se põe para nós uma questão fundamental: o que buscamos na vida, por detrás de nossas condutas, na superfície muitas vezes louváveis, mas que às vezes têm por fim tão somente nos justificarmos aos olhos dos outros ou aos nossos próprios olhos, para confirmarmo-nos a respeito de nós mesmos? Podemos às vezes ser “ovelhas”, quando nos fazemos servidores, e outras vezes, “mercenários”, quando nelas buscamos o interesse próprio.

Um estranho pastor!

Em suas parábolas, Jesus parte das realidades visíveis na vida corrente, mas, geralmente, faz este material inicial sofrer transformações consideráveis. Tanto assim que um pastor de verdade, assalariado ou não, vive do seu rebanho: da sua lã, da sua carne, do preço da venda de determinados animais. Mas este a quem Jesus chama de bom pastor, o verdadeiro pastor, não se parece com nenhum outro. Primeiro, porque para ele não se trata de um rebanho de anônimos: no versículo 10,3 (pouco antes da nossa leitura), ficamos sabendo que este pastor chama as suas ovelhas cada uma por seu nome. Ele as conhece e elas o conhecem. Mas eis que no versículo 7 o pastor não é mais pastor, mas a porta pela qual as ovelhas entram e saem. E, em João, o pastor se tornará finalmente “o Cordeiro de Deus”. Jesus ocupa, portanto, todos os postos. É que o Senhor e Mestre fez-se o servidor; o pastor tornou-se o cordeiro imolado, para se oferecer ao rebanho em alimento. Então os membros do rebanho também, por sua vez, acedem ao Senhorio. Uma troca admirável! Assim ficamos sabendo que Este que está na origem de tudo o que existe põe-se a serviço de quem Ele mesmo faz existir. Há, pois, nesta parábola do Bom Pastor, a afirmação silenciosa de que tudo tem a sua origem no amor e que este amor nos acompanha ao longo de todos os caminhos que escolhemos seguir. Ele nos faz atravessar as portas da morte. O Cordeiro imolado, o nosso pastor, está vivo para sempre! Assim, a nossa vida, estando dentro da Sua, permanece inalterável.

O pastor que dá a sua vida

O «bom pastor», portanto, decididamente, nada tem a ver com os pastores comuns, pois estes vivem do seu rebanho, enquanto o Cristo, pelo contrário, está a falar de um pastor que não é outro senão Ele próprio. Ele é quem dá a vida por suas ovelhas. E estas palavras querem fazer alusão à Páscoa que estava por vir. Jesus, um dia, dirá aos discípulos: «Tomai, todos, e comei; isto é o meu corpo que será entregue por vós.» «Tomai, todos, e bebei; este é o cálice do meu sangue, que será derramado por vós.» Já no capítulo 6 do evangelho de João, lemos: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna» (54) e «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele» (56). Portanto, não é mais o rebanho que alimenta o pastor, mas o pastor que, com sua própria carne, alimenta o rebanho. Aliás, tudo o que consumimos não é alimento de verdade, porque só nos proporciona um sursis à morte, a sua suspensão temporária. Ora, a Eucaristia significa tudo isso. Faz de nós, por certo, um só «rebanho», um só corpo, mas repartir, tomar e comer este pão só pode produzir frutos se absorvemos, também, a sua Palavra. Que palavra? Em 1 João 3,24, lemos que “quem guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele” (são as mesmas palavras do capítulo 6). E o mandamento de Cristo é que nos amemos uns aos outros, «não com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade». Deveríamos também nós nos dar em alimento para os nossos irmãos? Pois é exatamente isto que está dito em 1 João 3,16.

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O símbolo de Jesus como Bom Pastor produz hoje, em alguns cristãos, certo aborrecimento. Não queremos ser tratados como ovelhas de um rebanho. Não necessitamos de ninguém que governe e controle nossa vida. Queremos ser respeitados. Não necessitamos de nenhum pastor.

Não sentiam assim os primeiros cristãos. A figura de Jesus Bom Pastor converteu-se muito rapidamente na imagem mais querida de Jesus. Já nas catacumbas de Roma, ele é representado carregando sobre os seus ombros a ovelha perdida. Ninguém pensa em Jesus como um pastor autoritário dedicado a vigiar e controlar os seus seguidores, mas como um bom pastor que cuida delas.

O “Bom Pastor” preocupa-se com as suas ovelhas. É o seu primeiro traço. Nunca as abandona. Não as esquece. Vive pendente delas. Está sempre atento às mais débeis ou doentes. Não é como o pastor mercenário que, quando vê algum perigo, foge para salvar a sua vida abandonando o rebanho. Não quer saber das ovelhas.

Jesus tinha deixado uma recordação inesquecível. Os relatos evangélicos descrevem-no bem, preocupado com os doentes, os marginalizados, os pequenos, os mais indefesos e esquecidos, os mais perdidos. Não parece preocupar-se por si mesmo. Sempre se vê pensando nos outros. Preocupam-no sobretudo os mais desvalidos.

Mas há algo mais. “O Bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas”. É o segundo traço. Até cinco vezes repete o evangelho de João esta linguagem. O amor de Jesus às pessoas não tem limites. Ama os outros mais do que a si mesmo. Ama a todos com amor de Bom Pastor que não foge perante o perigo, mas que dá a sua vida para salvar o rebanho.

Por isso a imagem de Jesus, Bom Pastor, converteu-se rapidamente numa mensagem de consolo e confiança para seus seguidores. Os cristãos aprenderam a dirigir-se a Jesus com palavras recolhidas do salmo 22: “O Senhor é o meu Pastor, nada me falta… mesmo que caminhe por vales profundos, nada temo, porque Tu vais comigo… A Tua bondade e a Tua misericórdia acompanham-me todos os dias da minha vida”.

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