2º Domingo de Páscoa – ano B 
Domingo da Misericórdia Divina
João 20,19-31


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Referências bíblicas

  • 1ª leitura: «Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum» (Atos 2,42-47)
  • Salmo: Sl. 117(118) – R/ Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; eterna é a sua misericórdia!
  • 2ª leitura: «Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva» (1 Pedro 1,3-9)
  • Evangelho: «Oito dias depois, estando fechadas as portas, Jesus entrou» (João 20,19-31)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa, e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!». Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

É significativa a cronologia que nos oferece o Evangelho de João sobre «aquele dia, o primeiro da semana» (v. 19), o dia mais importante da história. Porque naquele dia Cristo Ressuscitou. Aquele dia tinha iniciado com a ida de Maria Madalena ao sepulcro «logo de manhã ainda escuro» (Jo 20,1). No Evangelho de hoje, estamos na «tarde daquele dia… estando as portas fechadas… com medo dos judeus» (v. 19). A reconstituição de espaço e tempo, e também a psicológica, é completa. Iniciou enfim a história nova para a humanidade, no sinal de Cristo ressuscitado. Prescindir d’Ele seria uma perda de valores e um risco para a própria sobrevivência humana.

As portas fechadas e o medo são ultrapassados devido à presença de Jesus, o Vivente, que por bem três vezes anuncia: «A paz esteja convosco!» (v. 19.21.26), provocando a intensa alegria dos discípulos «ao ver o Senhor» (v. 20). Unidade de coração e de intenções, partilha dos bens, firme testemunho do Ressuscitado figuram entre as características mais evidentes da primeira comunidade cristã (I leitura): «Tudo entre eles era comum. Os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor com grande poder e gozavam todos de grande simpatia. Não havia entre eles qualquer necessitado» (v. 32-34). João (II leitura), por sua vez, exorta os fiéis a amar Deus e os filhos de Deus, com a certeza de que «esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé» (v. 4). Fé em Cristo Jesus, que veio «pela água e pelo sangue» (v. 6). A fé que conduz o cristão e o missionário ao encontro com Cristo ressuscitado, ajuda a ultrapassar também muitas dificuldades psicológicas, como angústias, medos, depressão…

Além da paz, há outros três dons importantes que Cristo ressuscitado (Evangelho) oferece à comunidade dos crentes: o Espírito, o perdão dos pecados e a missão. O fruto maior da Páscoa é sem dúvida o dom do Espírito Santo, que Jesus sopra sobre os discípulos: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Ele é o Espírito da criação redimida e renovada, que Jesus derrama no momento da morte na cruz (Jo 19, 30), como prelúdio do Pentecostes (Actos 2ss).

Para João o dom do Espírito está essencialmente relacionado com o dom da paz e, portanto, com o perdão dos pecados, como disse Jesus: «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (v. 23). A paz verdadeira tem as suas raízes na purificação dos corações, na reconciliação com Deus, com os irmãos e com toda a criação. Esta reconciliação é obra do Espírito, porque «Ele é a remissão de todos os pecados» (veja-se a oração sobre as ofertas, na Missa do sábado antes do Pentecostes, e a nova fórmula da absolvição sacramental). Para o evangelista Lucas «a conversão e o perdão dos pecados» são a mensagem que os discípulos deverão anunciar «a todas as gentes» (Lc 24, 47). Com razão, portanto, o sacramento da reconciliação é um inestimável presente pascal de Jesus: é o sacramento da alegria cristã (Bernardo Häring).

Os dons do Ressuscitado são para anunciar e partilhar com toda a família humana; por isso Jesus naquela tarde, anuncia uma missão universal, que Ele confia aos apóstolos e aos seus sucessores: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (v. 21). São palavras que vinculam para sempre a missão da Igreja com a vida da Trindade, porque o Filho é o missionário enviado pelo Pai para salvar o mundo, por meio do amor. «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós», são palavras para ser lidas em paralelo com estas outras: «Assim como o Pai me amou, também Eu vos amei» (Jo 15, 9), estabelecendo uma ligação indivisível entre missão-amor, amor-missão. Com estas palavras permanece para sempre sancionado que a Missão universal nasce da Trindade (AG 1-6) e é dom-empenho pascal de Jesus ressuscitado.

Os dons do Ressuscitado: a paz, o Espírito, a reconciliação e a missão, são vividos por nós na fé. Apesar de não vermos o Senhor, somos felizes (v. 29) se acreditarmos n’Ele e O amarmos. Estamos, portanto, gratos a Tomé (v. 25), que quis pôr a mão na ferida do Coração de Cristo, que «cubiculum est Ecclesiae», é o aposento íntimo/secreto da Igreja (Santo Ambrósio). Aquele Coração é o santuário da Divina Misericórdia, título e tesouro que neste domingo é celebrado com crescente devoção popular. A misericórdia divina é, desde sempre, a mais vasta e consoladora revelação do mistério cristão: «A terra está cheia de miséria humana, mas repleta da misericórdia de Deus» (Santo Agostinho). Esta é a “boa-nova” permanente, que a Missão leva à humanidade inteira.

Meu Senhor e meu Deus!
Marcel Domergue

Novo nascimento

Seja no cântico de entrada, extraído do capítulo 2 da primeira carta de Pedro, seja na segunda leitura, tirada do capítulo 1 da mesma carta, o tema do nascimento ocupa o primeiro plano. Temos, pois, de levá-lo a sério, tanto mais que o encontramos em muitos outros textos de João e de Paulo (ver, por exemplo, a conversa de Jesus com Nicodemos, em João 3).

A Escritura nos sinaliza que a Páscoa de Cristo inaugura uma vida nova, um novo estatuto da condição humana. Toda a Bíblia representa a laboriosa gestação deste Homem Novo e definitivo. Como muitas vezes se tem notado, o Novo Testamento cita o versículo 7 do Salmo 2, «Tu és meu filho, eu hoje te gerei», não a propósito do nascimento de Jesus em Belém, mas a propósito da ressurreição (Hebreus 1,5; 5,5; Atos 13,33).

Paulo vai até mesmo escrever aos Romanos (1,2-4) que foi escolhido para anunciar o Evangelho de Deus «que diz respeito ao seu Filho, nascido da estirpe de Davi segundo a carne, estabelecido Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade».

Com outras palavras, esta mudança de estatuto, que é fruto da ressurreição, encontra-se em Atos 2,36: «Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes.» A mesma coisa é dita em Atos 5,30-31. A ressurreição opera uma espécie de mudança de identidade e, no entanto, Jesus permanece sendo ele mesmo.

Renascer com o Cristo

Somos chamados a reviver este novo nascimento de Cristo. Nosso destino é o de nos tornarmos, nós também, filhos de Deus. Conforme se diz: n’Ele e por Ele. O batismo significa isto. Em Romanos 6,3-11, Paulo explica longamente que o batismo nos mergulhou na morte de Cristo para nos dar acesso a uma vida nova.

Temos, no fundo, a imagem de um retorno ao nada líquido do grande abismo primitivo (Gênesis 1,2), com vistas a uma nova criação. É claro, o batismo permanece como um rito, mas que, atualmente, dá sinais de fadiga. Por uma concepção um tanto mágica e materialista do famoso «caráter» por ele conferido, tendemos a ver neste sacramento somente um gesto, significando uma realidade imperceptível.

O batismo, no entanto, é mais do que um rito: 1 Pedro 3,21 fala de um «compromisso solene da boa consciência para com Deus pela ressurreição de Jesus Cristo». É um rito que ganha valor, portanto, por ser um ato de liberdade, até mesmo quando o compromisso é assumido pelos pais, em nome do batizado.

É o acesso a uma nova forma de existência, com certeza, mas esta passagem não se produz de uma vez por todas: o batismo é também um programa; temos a possibilidade de nascer para a vida nova ao longo de nossas escolhas. Não pelos esforços da nossa vontade, mas por uma confiança sem defeito naquele que nos liberta da morte seguidamente e que nos faz novos a cada instante.

O gêmeo

Confiança e fé! Temos aí, justamente, o que faltava a Tomé. Tem-se falado muitas vezes da dúvida deste apóstolo. Ora, não se trata de dúvida, mas de recusa à fé. Aliás, quanto a isto nós somos os seus irmãos «gêmeos», porque, para nós, a fé é muitas vezes difícil.

A aventura de Tomé pode nos reconfortar, porque nela podemos ver que o eclipse da fé não é forçosamente uma catástrofe e que o Cristo vem nos socorrer em nossa descrença. Ainda mais: os discípulos que anunciam a ressurreição de Jesus para Tomé contentam-se em chamá-lo de «Senhor».

Já Tomé, no final do relato, o chama de «meu Senhor e meu Deus». Os evangelhos não falam em «Deus», a propósito de Jesus. Eles o chamam de Filho do Homem, às vezes de Filho de Deus, mas nunca, a não ser aqui, de «Deus» simplesmente. Pela boca de Tomé, o discípulo que superou a sua descrença, o final do evangelho de João vai juntar as primeiras linhas nas quais, a respeito do Verbo, lemos que «Ele era Deus».

Da mesma forma que Zacarias, em Lucas 1,18, e que a «geração perversa e adúltera» que pede por um milagre, em Mateus 12,39, também Tomé exige ver para crer, e, no entanto, conforme diz Paulo, a fé vem pela audição, pelo acolhimento da palavra (Romanos 10,17).

É admirável que Cristo tenha se curvado à exigência do discípulo. Aliás, devemos observar, Tomé, o gêmeo universal, juntou-se então aos outros discípulos, que acreditaram porque tinham visto o Senhor (versículo 25). Daí podermos com isso nos tranquilizar e nos consolar, nas horas em que nossa fé se eclipsa.

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Ressuscitado e vivo para sempre
Enzo Bianchi 

Estamos no último capítulo do Evangelho escrito pelo discípulo amado, onde nos é dado o testemunho da ressurreição de Jesus por parte de Maria Madalena, do próprio discípulo amado e dos outros discípulos, incluindo Tomé (o capítulo 21 foi adicionado pela comunidade do discípulo amado, tanto que os versículos 30-31 do capítulo 20 constituem a conclusão do Evangelho).

Sempre naquele “primeiro dia da semana”, o dia da ressurreição e, portanto, o dia do Senhor (Dominus, daí dies dominicus, domingo), à noite, os discípulos de Jesus ainda estão com medo, trancados em casa, apesar de Maria de Magdala ter lhes anunciado: “Vi o Senhor!” (Jo 20,18).

Onde estavam os discípulos? Em qual casa? Não nos é dito, mas o evangelista parece nos sugerir que, onde estão os discípulos, lá vem Jesus. Assim, o leitor compreende que, todos os primeiros dias da semana, no lugar em que ele se encontra com outros cristãos, lá vem Jesus ressuscitado e vivo.

Naquele dia da ressurreição, Jesus inaugurou outro modo de presença: ele está no meio dos seus não mais como antes, homem entre os homens, mas como Ressuscitado vivo para sempre. É sempre ele, Jesus, o filho de Maria, o enviado por Deus ao mundo, mas já não mais em uma carne mortal, mas sim em uma vida eterna no Espírito de Deus. Essa nova presença é mais forte e mais poderosa do que a presença física, porque vence todas as portas fechadas e todos os muros, e se torna credível, experimentada, vivida no marco de uma vida fraterna, de uma vida de comunhão: a Igreja.

Jesus, portanto, tendo vindo entre os seus na posição central (“pondo-se no meio deles”) de quem preside a assembleia, saúda os seus com a bênção messiânica: “A paz esteja convosco!”, e, ao entregar a paz, mostra-lhes seu corpo chagado, as mãos que trazem as marcas da crucificação (cf. Jo 19, 17) e o lado que recebera o golpe de lança (cf. Jo 19, 34).

Jesus está vivo, ressuscitou da morte, mas não deixa de ser o Crucificado: aquela morte, destino de todo ser humano, mas também a morte violenta dada a Jesus pela injustiça deste mundo, foi vivida e assumida por ele, faz parte da sua humanidade agora transfigurada em Deus, mas sempre presente, não apagada nem esquecida.

Sim, Jesus ressuscitado é vida eterna, divina, mas também vida humana transfigurada, de modo que agora não é mais possível pensar em Deus, dizer Deus sem pensar também no ser humano.

A essa percepção, os discípulos se alegram, realizando as palavras ditas a eles por Jesusantes da paixão: “Mais um pouco, e o mundo não me verá, mas vocês me verão, porque eu vivo, e também vocês viverão… Daqui a pouco vocês não me verão mais, porém, mais um pouco, e vocês me tornarão a ver… Quando vocês tornarem a me ver, vocês ficarão alegres, e essa alegria ninguém tirará de vocês” (Jo 14, 19; 16, 16.22).

Jesus, então, como Ressuscitado, sopra sobre aquela comunidade, alegre por crer nele, e os torna todos enviados, apóstolos. Enviados para quê? No quarto Evangelho, esses discípulos tornados apóstolos são enviados para dar às pessoas a possibilidade de experimentar a salvação na remissão dos pecados: perdoar os pecados, perdoar as dívidas, perdoar, esse é o mandato missionário. Nada mais, nada mais! Porque é disso que as pessoas precisam: o perdão, a remissão dos pecados, o apagamento dos pecados por parte de Deus e por parte dos seres humanos, seus irmãos.

A essa experiência da presença do Ressuscitado por parte dos discípulos, João acrescenta a experiência de um dos Doze: Tomé, aquele discípulo que dissera que queria ir a Jerusalém para morrer com Jesus (cf. Jo 11, 16), mas que, depois, na realidade, fugiu como todos os outros.

Tomé não quer crer, com base na palavra dos seus irmãos, na presença do Jesus ressuscitado e vivo, mas, oito dias depois, quando a comunidade está novamente reunida no primeiro dia da semana, ele está presente. E eis que, de novo, vem Jesus, está no meio e dá paz aos discípulos; depois, dirige-se a Tomé, mostrando-lhe as mãos furadas e o lado transpassado, os sinais da paixão em um corpo transfigurado. Tomé, então, não pode deixar de invocar: “Meu Senhor e meu Deus!”, pronunciando a confissão de fé mais alta de todo o quarto Evangelho.

Aquele Ressuscitado é Kýrios e Deus para a Igreja! É preciso crer nisso sem ter visto nada, mas acolhendo o anúncio da comunidade do Senhor e o dom de Deus que revela a verdadeira identidade do Jesus ressuscitado para sempre. Para Tomé, tocar o corpo de Jesus já se tornou inútil, e ele não o faz, porque a contemplação e o encontro com os sinais da paixão transfigurados lhe bastam.

Mas a operação mais difícil, tanto para Tomé quanto para nós, está precisamente no fato de ver nos corpos chagados o poder de uma transfiguração que faz das chagas cicatrizes luminosas e cheias de sentido: não mais sinal de morte ou de pecado, mas sinal de cura e de vida para sempre.

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Queridos irmãs e irmãos,
Se nós pensarmos no processo da Paixão de Jesus, tudo correu mal na relação dos discípulos com ele. Jesus chamou aqueles homens para viverem com Ele uma experiência de comunidade, revelou-lhes o fundamental do Seu projeto, deu-lhes sinais, ajudou a consolidar a sua convicção mas na hora decisiva eles demandaram. Traíram-no, foram cobardes, pensaram em si mesmos, em salvar a sua pele, deixaram-No sozinho, disseram que não O conheciam de lado nenhum. E, quando chegou a hora da cruz Ele estava sozinho, tinha as mulheres. E as mulheres foram as primeiras testemunhas da Ressurreição porque elas não tinham nada a perder, elas viviam aquele amor por Jesus e queriam perfumar o Seu corpo, queriam visitá-Lo, queriam chorar junto da Sua tumba. Mas os homens não, os discípulos tinham todos fugido, tinham-se refugiado, pensado agora é o fim, “nós vamos apanhar a ressaca de tudo isto, vamos também ser perseguidos, sabe-se lá o que nos vai acontecer.” E estavam longe.

Nós ouvíamos os discípulos de Emaús que imediatamente deixaram Jerusalém e foram para um lugar mais seguro na periferia e pensamos: como é que depois vai ser o primeiro encontro com Jesus? Quer dizer, Jesus vem ao encontro destes que o abandonaram, destes que O negaram, destes que O traíram. Como é que vai ser o encontro de Jesus com estas pessoas? E o que é maravilhoso é percebermos que Jesus vem ao encontro deles na paz, na reconciliação, no perdão. Jesus não vem para um ajuste de contas. A Ressurreição não é um ajuste de contas, não é um triunfo sobre a fragilidade dos discípulos. Pelo contrário, é um alargar, é um reforçar, é um encher, é um abraçar as lacunas, é um dialogar com aqueles que O haviam abandonado. Jesus não abandona aqueles que O haviam abandonado. E isto para nós é Ressurreição pura a acontecer. Porque, o que é para nós a morte é a lógica do ajuste de contas. O que não nos deixa saída, o que não nos dá futuro é quando nós pagamos o mal com o mal. O que para nós é um vicolo fechado, uma rua estreita é quando, perante o sofrimento que os outros nos infligem, nós queremos fazer o mesmo. A Ressurreição é uma rutura com a lógica do olho por olho, dente por dente, com a lógica do egoísmo, com a lógica da vingança, da revanche, é uma rutura com isso.

Jesus vem e eles têm as portas fechadas e Jesus vem na mesma. E vem dizer: “A paz esteja convosco.” A Ressurreição é esta capacidade de criar a paz em situações, em ambientes, onde parece que a paz já não é possível, onde a rutura se consolidou. Mas Jesus não aceita o irremediável da vida, não aceita o irremediável da nossa história e vem dizer: Não, Eu vou-me pôr no meio e vou dizer “a paz esteja convosco”. E depois Jesus faz um gesto: sopra sobre eles. E este sopro é a Vida, é a transmissão do Espírito, é a nova criação. Como Deus insuflou o ar nas narinas do primeiro Adão que moldou da terra, Jesus também insufla o Seu Espírito nestes discípulos para que eles possam verdadeiramente ser. Então, a vulnerabilidade, a fragilidade, a miséria dos discípulos não impede a Ressurreição.

Queridos irmãs e irmãos, nada impede a Ressurreição, a força da Ressurreição, o poder da Ressurreição. Não são as nossas portas fechadas que impedem Jesus de vir, de soprar sobre nós e de nos recriar. O tempo da Ressurreição, o tempo Pascal é tempo para nos sentirmos novos, renovados, recebendo um Espírito novo. Que é um Espírito que vai para lá da nossa fragilidade, que vai para lá das próprias feridas que trazemos. Jesus é capaz de fundar uma nova etapa e de trazer a paz, de encher o coração de paz, dar a força que precisamos e isso é Ressurreição e isso é Ressurreição a acontecer.

Se calhar, neste momento das nossas vidas nós estamos de portas fechadas, se calhar, neste momento das nossas vidas nós estamos acossados com medo, se calhar, neste momento da nossa vida nós vivemos a ressaca disto, de cobardias, de traições, de abandonos, de incompreensões e Jesus vem para soprar sobre nós, para transmitir-nos o Seu Espírito. Este é o primeiro momento.

A segunda experiência da Ressurreição é aquele encontro pessoal com Tomé. E Tomé diz: “Não, eu preciso de ver. Eu duvido, eu não acredito que isso seja possível.” E Jesus não tem medo das dúvidas de Tomé, Jesus não as desconsidera. Jesus toma a sério a palavra de Tomé. E isto para nós é muito importante, porque como é que a nossa fé se constrói? A nossa fé constrói-se porque Deus toma a sério as nossas dúvidas, a nossa incapacidade de acreditar, de ir mais longe. Ele toma a sério e traz precisamente aquilo que Tomé pede, “Eu preciso de ver as feridas”. Então Jesus traz as Suas feridas, “Então toca nestas feridas”, e esta disponibilidade de Jesus para caminhar segundo o nosso passo, para vir ao encontro. Por mais absurdos que sejam o tipo das nossas reivindicações, é a força da Ressurreição a entrar na nossa vida.

Normalmente, as feridas continuam a ser uma marca do conflito. Nas feridas nós lemos as nossas lágrimas, as nossas dores, a agressão. As feridas são uma espécie de documento da guerra, daquilo que aconteceu. Jesus transforma as feridas que são inapagáveis, Jesus transforma-as numa fonte de encontro. E isto também para nós é Ressurreição. A Ressurreição só acontece com a transformação das nossas vidas, do sentido das nossas feridas. Temos de deixar de olhá-las apenas como uma coisa que nos foi tirada, como a coisa que sofremos e olhar para as feridas como a marca do nosso dom, da nossa dádiva, da nossa entrega, da oferta de nós mesmos. Como Jesus olha agora para as suas feridas, não como a vitalidade que Lhe foi tirada mas, pelo contrário, são o documento de um amor, de uma entrega, de uma paixão pela vida, de uma doação até ao fim.

Quando formos capazes de transformar o sentido das nossas feridas nós estamos a ressuscitar, estamos a ressuscitar e isso é alguma coisa que fazemos no tempo, é alguma coisa que precisamos fazer. Todos nós somos pássaros feridos, de um lado e de outro, cheios de amolgadelas. Mas que sentido é que isso tem? O que é que eu posso fazer com isso? Que património é esse? É um património apenas de dor, de sofrimento, de agressão que eu transporto pela vida fora? Ou é alguma coisa que eu ressuscito, que eu interpreto de outra forma, que eu sou capaz de dar um sentido? Á maneira daquele sentido que Jesus deu às Suas próprias feridas. Isso também é ressuscitar, reinterpretar o nosso sofrimento, isso também é ressuscitar. Passar da lógica apenas vitimária para a lógica da doação, para a lógica do dom.

Jesus não conta a Sua vida como um sacrifício que Lhe foi infligido, Jesus conta a Sua vida como uma história de amor. E contar a sua própria vida como uma história de amor isso também é ressuscitar, é ressuscitar com Jesus.

E o terceiro aspeto desta página do Evangelho de S. João é aquela frase misteriosa que Jesus diz a Tomé, diz aos que estavam ali reunidos, aos onze: “Tu porque viste, acreditaste. Felizes os que acreditam sem terem visto.” Aqueles que vivem uma dinâmica da Ressurreição na história, no mundo, ao lado uns dos outros são aqueles que acendem a luz da esperança, acendem a luz da promessa no seu coração. E não precisam de ver para lutar. Não precisam de ver para permanecer fiéis numa esperança, numa espectativa, aqueles que vivem a história não a partir do terreno seguro de uma história cheia de garantias, mas aqueles que avançam no tempo da incerteza que é o nosso com o coração colocado mais adiante. Sem garantias, sem certezas. Mas o amor é também o risco de ser, a fé é também o risco de viver. E a Ressurreição também é um risco. É viver a vida arriscando, acreditando que pode ser assim, que vai ser assim. E é esta fé quando é o motor da nossa vida que se torna também uma máquina de ressuscitar vida, de alargar horizontes.

Queridos irmãs e irmãos, a tarefa é nossa. Nós estamos aqui e sobre nós desce o Espírito do Ressuscitado. Quer dizer, Jesus vive em nós. Ele está vivo em nós, Ele está vivo em cada um de nós. E como é que isso se vê? Como é que isso se toca? Como é que isso se torna motivo de fé? Ele está vivo em cada um de nós.

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