Domingo de Ramos (B)
Marcos 14,1-15,47

Domingo de Ramos4

Referências bíblicas:

Procissão dos Ramos – Evangelho: «Bendito o que vem em nome do Senhor!» (Marcos 11,1-10)
1ª leitura: «Não desviei o rosto dos bofetões… sei que não serei humilhado» (3º canto do Servo de Javé) (Isaías 50,4-7)
Salmo: 21(22) – R/ Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
2ª leitura: «Ele se humilhou… por isso, Deus o exaltou» (Filipenses 2,6-11)
Evangelho: Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (Marcos 14,1-15,47)

Bendito o que vem em nome do Senhor!
Marcel Domergue

Jesus entra em Jerusalém

Jesus chega ao final da sua estrada, ao final da sua vida. Chega ao final da “Encarnação”, que não é apenas a passagem pela natureza humana (ter e ser um corpo portador de um “espírito”), mas também assumir a condição humana: nascer, crescer, aprender, escolher, agir, morrer. “No começo”, movido pela suspeita de que Deus não é amor, o homem quis libertar-se dele, ocupando o seu lugar: o lugar de um Deus que o homem, no entanto, considerava perverso (Gênesis 3). Negação do amor e negação da vida, a história humana começa com o assassinato (Gênesis 4) que vai se reproduzir por toda a Bíblia. A hostilidade dos “irmãos inimigos” acabará por se concretizar no conflito entre o Judeu e o pagão. Estes só irão reconciliar-se na decisão de levar o Cristo à morte. E Jesus, deste modo, vai assumir tudo o que o homem pode conhecer. Toma o lugar do irmão inimigo e o seu sangue grita mais forte do que o sangue de Abel, o justo (ver Mateus 23,35 e Hebreus 12,24). Diante do homem que se quer fazer “como Deus”, Deus vem fazer-se como homem: foi preciso que Deus, porque é amor, viesse a se colocar o mais baixo a que o homem pode descer. Tomou, então, a dianteira à nossa última aflição. E, deste modo, jamais estaremos sós: por Cristo e em Cristo, Deus será sempre o “Deus conosco”. Foi a tudo isso que Jesus se voltou, quando entrava triunfalmente em Jerusalém, a cidade da residência de Deus. Ele jamais será tão Deus quanto ao morrer como o último dos homens.

Rumo à morte da morte

Na Cruz, se viverá e se manifestará de fato a plenitude do amor: um amor que vai até a esposar a plenitude da injustiça dos homens, do não-amor. Aquelas pessoas têm razão em aclamá-lo e acompanhá-lo, mas estão enganadas a respeito da natureza do “triunfo” que se anuncia e se prepara. Talvez se lembrassem de Zacarias 9,9: “Eis que o teu rei vem a ti (…); ele é humilde, montado sobre um jumentinho (…). Ele eliminará os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém…” Mas Jesus não veio libertar Israel e restituir-lhe os seus poderes e domínios, conforme acreditavam. Ele veio abrir uma passagem entre a terra e Deus: a passagem que foi obstruída pela hostilidade que os homens mantêm entre si. E esta hostilidade, sobre a qual a crucifixão de Jesus é o triunfo e a revelação, vai destruir-se a si mesma: a violência vai destruir a violência. Em 1 Coríntios 15,54-55, parafraseando Isaías 25,8 e Oséias 13,14, Paulo escreve: “A morte foi absorvida na vitória. Morte, onde está a tua vitória?” Por certo, é impossível separar a crucifixão da ressurreição. Pela esperança, no entanto, é que hoje temos acesso à ressurreição. Enquanto esperamos, vamos ladeando a morte todos os dias. Temos de viver de qualquer forma no aguardo do nosso próximo futuro desaparecimento, os três simbólicos dias de túmulo, enquanto esperamos a nossa vez. Não esqueçamos a aflição e o terror de Jesus no Getsêmani. Sejamos indulgentes, portanto com os nossos eclipses de esperança.

A vitória do amor

Em todo lugar, por todo o tempo e das mais diversas formas, os homens têm levantado cruzes para os seus semelhantes. Populações inteiras são impingidas a passarem fome, a fim de que produzam dinheiro. Povos inteiros são condenados à incultura e à miséria. Massacres horrendos são perpetrados, a fim de se conquistar ou manter o poder. As maneiras humanas de crucificar são inumeráveis. «Quando comem o seu pão, é ao meu povo que estão devorando…» (Salmo 14,4). O Cristo vem se unir, em plena liberdade, a estes que são feitos de comida. Deus não quis nos deixar a sós, sem Ele, em nossas provações. Por isso percorreu o caminho da vida. Sabemos disto, mas não nos pode servir de consolação. Nem mesmo Jesus foi consolado. Ou não foi dele de quem ouvimos dizer: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?» O Cristo veio, pois, fazer-se um só conosco até nos nossos maiores sofrimentos, tendo ao termo uma morte ignominiosa. Resulta daí que todas as nossas misérias e todas as nossas mortes se juntam à dele e se tornam sofrimento e morte do Filho de Deus. Como Deus não pode permanecer na morte, abrem-se então diante de nós as portas da vida. A fé cristã já foi muitas vezes acusada, e por vezes a justo título, de colocar em primeiro plano o culto ao sofrimento e à morte. Mas é o contrário: proclamamos ao mundo inteiro que os sofrimentos e a morte estão condenados finalmente a produzirem vida, assim como o nascimento e as alegrias que nos vêm visitar. A cruz do Cristo proclama que o amor supera o ódio; é exatamente o que faz o Cristo ao dar a sua vida aos que querem prendê-lo. Ao ordenar ao discípulo que guardasse a espada que desembainhara para defendê-lo, no momento da sua prisão, ele nos ensina que resistir à violência com a violência só faz redobrar a violência.

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Durante toda a sua missão, a identidade de Jesus como Filho de Deus havia sido ocultada e não publicamente proclamada, por vontade do próprio Jesus, mas, na sua paixão, ocorre a sua plena revelação: Jesus é o Filho de Deus, o Messias manifestado ao povo de Israel e confessado por um pagão debaixo da cruz.

O relato da paixão de Jesus, que a liturgia nos propõe ao lado do da entrada festiva de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), ocupa um quinto de todo o Evangelho segundo Marcos. É o relato mais antigo contido nos Evangelhos, uma longa narração na qual encontramos o eco das testemunhas, acima de tudo de Pedro, cujo nome retorna frequentemente, e depois dos outros discípulos. Todos, porém, no momento da prisão, fogem…

O relato é composto por duas partes: a primeira, que narra os eventos vividos por Jesus junto com a sua comunidade até a captura (cf. Mc 14,1-42), e a segunda, que apresenta o processo nas suas fases, a execução da condenação em cruz e o sepultamento do corpo de Jesus em um túmulo (cf. Mc 14,43-15,47).

Dada a extensão desse trecho, não podemos fazer um comentário pontual dele; portanto, nos limitaremos a um olhar de conjunto que evidencie a boa notícia, o Evangelho contido no relato da paixão.

Essa narrativa põe à prova o nosso olhar de fé sobre Jesus: somos quase forçados a sofrer o escândalo e a loucura da cruz (cf. 1Cor 1,23), somos colocados diante do resultado falimentar da vida de Jesus. Aquele que passou no meio do seu povo fazendo o bem (cf. At 10,38), cuidando dos doentes e às vezes curando-os, e forçando o diabo a obedecê-lo (cf. Mc 1,27) e a recuar; aquele que, como profeta poderoso em obras e em palavras, “todos procuravam” (cf. Mc 1,37); aquele que atraiu a si as multidões, que o aclamaram como bem-aventurado e como aquele que vem no nome do Senhor (cf. Mc 11,9); aquele que conseguiu reunir ao seu redor uma comunidade itinerante de homens e mulheres que o reconhecia como Profeta e Messias; esse homem, Jesus de Nazaré, conhece um fim impensável e chega a uma morte falimentar.

Cada leitor atento do Evangelho, cada discípulo que seguiu Jesus desde seu batismo até o fim, não pode deixar de ficar profundamente abalado, perturbado com tal resultado…

Onde foi parar – é possível se perguntar – a força de Jesus, o poder com que ele libertava da doença e da morte aqueles que por elas estavam marcados? “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar” (Mc 15,31) – seus adversários zombam dele…

Onde foi parar aquele carisma profético com o qual ele anunciava como já muito próximo ou, melhor, presente o Reino de Deus (cf. Mc 1,15)?

Por que, na paixão, Jesus está reduzido ao silêncio e se deixa humilhar sem abrir a boca (cf. Is 53,7)?

Onde está aquela autoridade que lhe foi reconhecida tantas vezes por quem o chamava de mestre, o aclamava como profeta, o invocava como Messias e Salvador?

Todos aqueles que pareciam ser seus seguidores e simpatizantes desapareceram, e Jesus está sozinho, abandonado por todos, inerme e sem qualquer defesa.

Mas o enigma é ainda mais radical: onde está Deus durante a paixão de Jesus? Aquele Deus que parecia ser tão próximo dele e que ele chamava confidencialmente de “Abba”, isto é, “Papai querido”; aquele Deus que o havia declarado “Filho amado” no batismo (cf. Mc 1,11) e na transfiguração (cf. Mc 9,7); aquele Deus por quem Jesus havia posto em jogo e consumado toda a sua vida, onde está agora?

Não nos esqueçamos: a morte de cruz – como o apóstolo Paulo compreendeu – é a morte do amaldiçoado por Deus (cf. Dt 21,23; Gl 3,13), julgado como tal pela legítima autoridade religiosa de Israel, e ao mesmo tempo, é o suplício extremo infligido a quem é considerado nocivo à sociedade humana. Jesus verdadeiramente morreu como um impostor, na ignomínia, pendurado entre céu e terra, por ter sido rejeitado por Deus e pelos homens…

É muito difícil responder a essas perguntas. Pode-se começar notando que Jesus percorreu esse caminho – justamente definido como Via Crucis, caminho da cruz – rezando ao Pai para que o sustentasse naquela hora tenebrosa “suplicando a Deus com grande clamor e lágrimas” (Hb 5,7); em tudo isso, porém, sempre lutou para se abandonar a Deus e tentar cumprir a sua vontade, não a própria (cf. Mc 14,36).

Sim, Jesus viveu a paixão mantendo a sua plena confiança no Pai, acreditou que Deus não o abandonaria, que permaneceria com ele, do seu lado, apesar das aparências de sinal oposto e do fracasso humano real da sua vida e da sua missão.

Mas, no relato da paixão segundo Marcos, há uma suma revelação, feita pelo próprio Jesus durante o processo ocorrido à noite na casa do sumo sacerdote, onde estão reunidos todos os chefes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas, portanto, todas as autoridades religiosas de Israel. Estes procuram uma testemunha contra Jesus, mas não a encontram, e as falsas provas acumuladas, discordantes entre si, são inválidas. Eis, então, que o sumo sacerdote se levanta no meio e interroga Jesus: “Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?” (Mc 14,61). A pergunta é decisiva, requer uma confissão sobre a sua identidade de Cristo-Messias e de Filho de Deus (o Bendito).

Jesus, que recebera a confissão de Pedro: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29) respondendo ao apóstolo e aos outros para não falarem a ninguém (cf. Mc 8,30), agora diz com parrhesía, com franqueza: “Eu sou” (Egó eimi)” (Mc 14,62). É a plena revelação! Sim, Jesus é o Cristo, é o Filho de Deus, aquele que vem daquele que se revelara como “Eu sou” (Ex 3,14, cf. Is 41,4.10).

O Evangelho segundo Marcos havia iniciado com as palavras: “Início do Evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1), testemunhando a fé da Igreja em Jesus. Aqui, é Jesus mesmo que se revela como Cristo e Filho de Deus. E continua: “E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo com as nuvens do céu” (Mc 14,62). Haverá uma manifestação no futuro, de acordo com a visão profetizada por Daniel (cf. Dn 7,13-14), que se imporá e revelará a verdadeira identidade de Jesus, agora capturado, prisioneiro e condenado à morte violenta: o imputado no processo será o Juiz no fim dos tempos (cf. Mc 13,26-27)!

Essa revelação de Jesus diante do sumo sacerdote será retomada pelo centurião debaixo da cruz, que “viu como Jesus havia expirado e disse: ‘Na verdade, este homem era Filho de Deus!’” (Mc 15,39).

Durante toda a sua missão, a identidade de Jesus como Filho de Deus havia sido ocultada e não publicamente proclamada, por vontade do próprio Jesus, mas, na paixão, ocorre sua plena revelação: Jesus é o Filho de Deus, o Messias manifestado ao povo de Israel e confessado por um pagão debaixo da cruz. Realmente, como um monge do século XII soube expressar de modo magistral: “Sem beleza nem esplendor, e pendurada na cruz, a Verdade deve ser adorada”.

O que resta a dizer? Para compreender profundamente a paixão de Jesus, de modo a poder segui-lo nela sem se escandalizar, podemos ainda meditar sobre o sentido do gesto eucarístico da Última Ceia (cf. Mc 14,17-25). Jesus realizou tal ato para evitar que os discípulos lessem a sua morte como um evento sofrido por acaso, ou devido a um destino inelutável desejado por Deus.

Nada disso tudo. Jesus, de fato, viveu seu próprio fim na liberdade: poderia ter fugido antes que os eventos precipitassem, poderia ter cessado de realizar ações e de pronunciar palavras ao término das quais o esperava uma condenação à morte.

Mas não o fez; pelo contrário, permaneceu fiel à missão recebida de Deus, continuou realizando em tudo e pontualmente a vontade do Pai, mesmo às custas de ir ao encontro de um fim ignominioso. E isso porque ele sabia muito bem que só assim poderia amar a Deus e aos seus até ao fim (cf. Jo 13,1)…

Jesus concluiu sua existência assim como sempre a gastara: na liberdade e por amor a Deus e a todos seres humanos! Para que isso ficasse claro, Jesus antecipou profeticamente aos discípulos a sua paixão e morte, explicando-a a eles com um gesto capaz de narrar o essencial de toda sua história: pão partido, como a sua vida seria dali a pouco; vinho derramado no cálice, como o seu sangue seria derramado em uma morte violenta.

Se, no início do Evangelho, Marcos escrevera que os discípulos, “abandonando tudo, seguiram a Jesus” (cf. Mc 1,18.20), na hora da paixão se vê forçado a anotar que eles, “abandonando Jesus, fugiram todos” (Mc 14,50). O escândalo da cruz permanece em toda sua dureza e não deve ser silenciado, mas o sinal eucarístico, memorial da vida, paixão e morte de Jesus, será capaz de reunir novamente os discípulos em torno do Cristo ressuscitado.

A comunidade dos discípulos de Jesus poderá, assim, atravessar a história e chegar até nós, sem temer enfrentar nem mesmo as horas obscuras e as crises: o seu Senhor, de fato, a precedeu também nessas provações, vivendo-as na liberdade e por amor.

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Na verdade, este homem era Filho de Deus
D. Fidel Catalán

Hoje, na Liturgia da palavra lemos a paixão do Senhor segundo São Marcos e escutamos um testemunho que nos deixa estremecidos: «Na verdade, este homem era Filho de Deus!» (Mc 15,39). O Evangelista tem muito cuidado em colocar estas palavras em lábios de um centurião romano, que atônito, assistiu a uma execução mais entre tantas que deveria presenciar devido a sua permanência num país estrangeiro e submetido.

Não deve ser fácil se perguntar que viu Naquele rosto —quase desfigurado— como para emitir semelhante expressão. De uma forma ou de outra descobriu um rosto inocente; alguém abandonando e talvez atraiçoado, a mercê de interesses particulares; o quiçá alguém que era objeto de uma injustiça em meio de uma sociedade não muito justa; alguém que cala, suporta e, inclusive de forma misteriosa aceita tudo o que vem. Tal vez, inclusive, se sentiu colaborador de uma injustiça diante da qual ele não pôde mover nem um dedo para impedi-la, como tantos outros se lava as mãos diante os problemas dos outros.

A imagem daquele centurião romano é a imagem da Humanidade que contempla. É, ao mesmo tempo, a profissão de fé de um pagão. Jesus morre só, inocente, golpeado, abandonado e confiado também, com um sentido profundo de sua missão, com os “restos de amor” que os golpes tinham deixado no seu corpo.

Mas, antes —na sua entrada em Jerusalém— lhe aclamaram como Aquele que vem em nome do Senhor (cf. Mc 11,9). Nossa aclamação este ano não é de expectativa, ilusionada e sem conhecimento, como a de aqueles habitantes de Jerusalém. Nossa aclamação dirige-se Àquele que já passou pela doação total e que saiu vitorioso. Em fim, «nós deveríamos nos prosternar aos pés de Cristo, não pondo sob seus pés nossas túnicas ou ramas inertes, que muito pronto perderiam seu verdor, seu fruto e seu aspecto agradável, senão nos revestindo de sua graça» (Santo André de Creta).

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Cruz e glória
Antonio Rivero

Ideia principal: Cruz e glória vão juntos na nossa vida, como na vida de Cristo.

Síntese da mensagem: Entramos hoje na “Semana Santa” ou na “Semana Maior”, que é metade quaresma (até a Eucaristia da Quinta-feira) e metade Tríduo Pascal (desde essa Eucaristia até a Vigília Pascal e depois todo o domingo). E entramos envolvidos no paradoxo: procissão com hosanas e aplausos vitoriosos e a paixão com choros compartilhados.

Pontos da ideia principal:

Em primeiro lugar, a Cruz está ai pendente, como espada de Damocles, desde que nascemos até a nossa morte, porque somos seguidores de Cristo e o único sinal do cristão é a santa Cruz. Assim aprendemos no catecismo da nossa infância. O lema dos cartuxos nos confirma que muitas coisas mudarão, mas ai está a Cruz sempre firme: “Stat Crux dum volvitur orbis” (a Cruz está constante e de pé, enquanto o mundo muda). O nosso mundo é um bosque de cruzes morais, físicas, afetivas…,diárias, pessoais, familiares, sociais, políticas…, nacionais, internacionais, planetárias. E em cada uma, um cristo: o prisioneiro sem esperança, o revolucionário fracassado, o condenado por Aids, o mártir das estruturas opressoras sem poder revolucioná-las, a mãe do drogado, o filho abusado por um pedófilo, o moribundo por falta de um diagnóstico. Cruzes e mais cruzes: os 15 milhões e algo mais de leprosos; os 800 milhões de analfabetos, os 1.500 milhões sem direitos humanos, os 3.500 milhões de famintos no mundo de hoje com 5.800 milhões de inquilinos. A terrível historia da cruz do sofrimento humano: injustiça, desigualdade, miséria social, doenças, culpas, destino cego, maldade absurda. Ondas sem fim de sangue, suor e lágrimas, dor, tristeza e medo, abandono, desesperação e morte. E, Vós, Cristo, o que nos dizeis, o que fazeis? Só o Pai responde: “Olha o meu Filho na cruz, e atreve-te a rezar gritando, mas não blasfemar”.

Em segundo lugar, mas essa Cruz é a Árvore da Vida, da qual pendeu Cristo Redentor, Vitorioso e Salvador. Cruz para chegar à Glória. Tem uma cruz ciclope e cinza em Califórnia, levantada nas colinas de Los Angeles: o nascer do sol pelas montanhas alarga a sua sombra sobre as praias mundanais de Malibu e, no pôr-do-sol em direção do Havaí, Samoa e Pago-Pago, projeta a sua sombra perdoadora sobre os chalés dos deuses e deusas de Hollywood. Tem uma cruz de cobre, fincada no topo fronteiriço da Suíça, Alemanha e Áustria- no Zugspitze, 2.960 metros-, que no verão reluz debaixo do sol e no inverno se abriga do gelo, e que ali sinala para os alpinistas da vida o topo por conquistar: o céu. O navegante português Vasco da Gama em 1498 fincou uma cruz vermelha nas costas do Quênia, e quando Francisco Xavier viu a cruz de caminho para a Índia escreveu aos seus irmãos jesuítas de Roma: “Só de vê-la, só Deus sabe quanta consolação recebemos, conhecendo quão grande é a virtude da cruz, vendo-a assim somente e com tanta vitória entre tanta moureria (muitos mouros ou muçulmanos)”. Sim, a cruz nos traz a vitória de Cristo sobre o pecado, o demônio e a morte. Por isso podemos cantar “Hosanas”, embora a cruz penda do teto da nossa vida, porque a cruz é remédio e medicina, é alivio e consolo, se a levarmos com Cristo. A cruz virá acompanhada de Páscoa, não esqueçamos isso. Assim lemos na antífona de entrada de hoje, antes da procissão: “recordando com fé e devoção a entrada triunfal de Jesus Cristo na cidade santa, queremos acompanhá-lo com os nossos cantos, para que, participando agora da sua cruz, mereçamos um dia ter parte na sua ressurreição e na sua vida”. Cantamos hosanas quando alguém se casa diante do altar do Senhor, ou quando um casal tem um bebê, ou esse matrimônio se reconcilia, ou esse jovem se gradua com excelente nota ou se ordena sacerdote, ou supera uma operação complicada, ou essa religiosa entra no convento depois de algumas dificuldades ou faz os seus votos solenes. Hosanas devemos entoar quando um pecador volta para Deus ou perdoa o seu inimigo.

Finalmente, comecemos esta Semana Santa com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, como nos lembra são Paulo na segunda leitura de hoje. Levemos a nossa cruz olhando de soslaio a Cristo, que caminha do nosso lado, compartilhando a sua cruz com os nossos irmãos que também sofrem e levam a sua cruz, da mesma forma que cada um de nós.

Para refletir: Como levo a minha cruz? De má vontade e protestando por todos os cantos, com paciência e resignação, com amor e unido a Cristo?

Para rezar: Saúdo-vos, ó cruz, minha única esperança. Na vossa cruz, Senhor, quero colocar as minhas farpas e as minhas pequenas cruzes, consciente de que chegarei à Glória através da cruz.