5º Domingo da Quaresma (B)
João 12, 20-33


parabola del seminatore2

Referências bíblicas:
1ª leitura: «Concluirei uma nova aliança … e não mais lembrarei o seu pecado» (Jeremias 31,31-34)
Salmo: Sl 50(51) – R/ Criai em mim um coração que seja puro.
2ª leitura: «Aprendeu o que significa a obediência … e tornou-se causa de salvação eterna» (Hebreus 5,7-9)
Evangelho: «Se o grão de trigo que cai na terra morre, produzirá então muito fruto» (João 12,20-33)

A hora da glória

O evangelho proposto hoje é desconcertante. De fato, quando os discípulos anunciam a Jesus que os Gregos desejam vê-lo, sua resposta parece absolutamente deslocada; é como se falasse de outra coisa. Busquemos descobrir a coerência deste texto. Para isso, notemos, em primeiro lugar, a insistência na geografia. O evangelista assinala que o episódio situa-se em Jerusalém, a cidade que mata os profetas, mas que é também a «metrópole dos povos». Lembra que Filipe é de Betsaida, fazendo questão de precisar ser esta uma cidade da Galiléia, «a Galiléia dos pagãos» (Mateus 4,15). Filipe, sendo galileu, está bem situado para servir de mediador entre Jerusalém e os Gregos, os estrangeiros. O texto assinala imediatamente que estes tinham vindo para a celebração da Páscoa. O quadro cultural e étnico está, portanto, muito bem delineado (os pagãos, a Galiléia, Jerusalém, a judaica). E o quadro temporal também: a Páscoa. Jesus vai anunciar que esta, de qualquer forma, é a última Páscoa da série que havia começado no Êxodo: «A hora chegou de o filho do homem ser glorificado.» É a hora em que os tempos se cumpriram e tudo o que o primeiro Êxodo significava e profetizava será desvelado. A Páscoa antiga não é suficiente para os Gregos, pois eles pedem outra coisa: ver a Jesus.

Eles, por aí, antecipam de qualquer forma a Hora que vem chegando e que irá revelar Jesus em toda a sua glória.

Como se tem repetido, o tema da glorificação comporta uma espécie de «publicidade»: a glória é a manifestação da verdadeira face de Deus, até aqui velada ou deformada. Por que esta deformação? Ela vem de uma mentira encastelada no fundo das nossas consciências, a mentira que o livro do Gênesis põe na boca da serpente: Deus, quer dizer o Ser que nos faz existir, não é amor, mas avareza, egoísmo. Os pagãos, todos os homens, vão agora fazer sua a verdade sobre Deus, verdade que vem dos Judeus e é precisamente por isso que o episódio se situa em Jerusalém. Deus vai receber, portanto, a sua devida glória. E isto se realiza pela glorificação do Cristo. Mas é aí que as coisas se complicam: a Glória do Pai e do Filho vai se manifestar pelo seu contrário, a ignomínia da cruz. Para o evangelista, ser levantado da terra significa a uma só vez estar suspenso na cruz, ser posto em evidência, exposto aos olhares de todos e conhecer uma «elevação» que coloca o Cristo acima de toda criatura. De modo implícito, temos a serpente de bronze, fonte de cura para todos os que levantam os olhos para ela (Números 21,8; João 3,14 e 19,37; Sabedoria 16,5-7; Zacarias 12,10). De toda forma, Jesus se fez serpente, figura dos nossos males e aflições. Por isso é que se fala de «cruz gloriosa». Mas por que seria necessário ter a glória de Deus vindo até nós sob o aspecto da decadência?

A imagem do Deus invisível

Se o conflito dos irmãos inimigos ocupa tanto espaço na Bíblia, é porque este é o drama maior da história humana. Cristaliza-se na hostilidade recíproca entre o judeu e o pagão. Esta hostilidade se concretiza na sujeição ou no assassinato do adversário, no ódio cego e no desprezo. Se a Bíblia permanece atual, é exatamente porque este litígio sangrento está longe de ter terminado: guerras, opressões, revoltas, são as matérias privilegiadas dos nossos jornais. Deus, que é a nossa origem e a nossa verdade, entra neste universo desapossando-se de todo o prestígio, de todo o poder; tomando o lugar das nossas vítimas. O Cristo dá a sua vida, manifestando com isso que Deus é dom de si mesmo e não vontade de dominação. Esta é a última verdade sobre Deus, a sua glória: Ele é Amor. Só podemos dizer que existimos de verdade na medida em que aceitamos ser criados à sua imagem e semelhança, ou seja, colocando os nossos passos nos passos do Cristo, que é «o ícone do Deus invisível». Olhando-O, estamos vendo o próprio Deus, assim como Ele é. Ao termo da nossa estrada criadora, não haverá mais conflito possível: Paulo repete não haver mais nem Judeu nem Grego. Esta é a hora da glória: os Gregos também são convidados a ver Jesus, a olhar para aquele que, juntos, todos temos transpassado. Se devemos extrair de tudo isso uma regra de conduta, podemos nos perguntar onde estão hoje os nossos Gregos? Onde, os nossos Judeus? Onde estão os que pregamos na cruz do nosso desprezo?

http://www.ihu.unisinos.br

«Queremos ver Jesus» (Jo 12, 21). O evangelista João indica quem O viu e O fará ver deveras: os apóstolos, que, depois do encontro com o Ressuscitado, afirmam: «Vimos o Senhor!» (Jo 20, 25). Nestas duas frases de João está encerrado todo o curso da Missão. Na iminência daquela Páscoa tão especial para Jesus, a chegada de alguns peregrinos gregos a Jerusalém (Evangelho) tem o efeito de uma explosão luminosa sobre o mistério que se aproxima. Aqueles peregrinos eram de língua e cultura helénica, convertidos ou simpatizantes do judaísmo. Eram as primícias dos povos pagãos, chamados também eles a pôr-se a caminho em direcção a Jerusalém, para aprender os caminhos do Senhor, como tinha anunciado o profeta (Is 2, 3).

Aqueles peregrinos manifestam um desejo que tem um vasto significado missionário: «Queremos ver Jesus» (v. 12). O pedido vai muito para além da curiosidade de conhecer a estrela do momento. Eles vêm de longe, pertencem a um outro povo, a viagem foi certamente cansativa, puseram-se a caminho por motivos espirituais… Querem ver Jesus: não para um cumprimento fugaz, mas para conhecer a sua autêntica identidade, apreender a sua mensagem de vida. Na cena há ainda outros pormenores vocacionais e missionários: para chegar até Jesus, muitas vezes são precisos guias, acompanhantes. Aqueles peregrinos procuram intermediários da sua cultura, Filipe e André, que têm nomes gregos.

Jesus capta a densidade e a importância daquele momento: a sua hora, a hora de ser glorificado (v. 23), a hora da oferta da sua vida, a hora de ser elevado da terra para atrair todos a si (v. 32), para que todos os povos cheguem à vida em plenitude. A vida verdadeira, que consiste em conhecer – isto é amar, aderir, contemplar – o único verdadeiro Deus e aquele que Ele enviou, Jesus Cristo (cf. Jo 17, 3). Não chega pois ter uma ideia vaga ou alguma teoria sobre Jesus; é preciso a compreensão amorosa do mistério do grão de trigo, que morre para dar muito fruto (v. 24). Há aqui um dado biográfico: o grão que morre para dar vida é o próprio Jesus. Ele está a falar de si e mostra o único caminho que conduz à vida: um caminho que passa pela morte. (*)

O momento culminante do grão que morre é descrito com paixão na carta aos Hebreus (II leitura): aceitando a morte com amor, Jesus torna-se causa eficaz e exemplar de salvação «para todos aqueles que lhe obedecem» (v. 9). Desse modo, no sacrifício pascal de Cristo e na efusão do Espírito Santo, realiza-se a aliança nova (I leitura): é superada a antiga aliança, assente nos pilares da Lei, e abre-se o espaço à nova, radicada no coração e na vida (v. 33) das pessoas que se deixam conduzir pelo Espírito.

Aqueles peregrinos gregos que pedem para ver Jesus assumem para nós um significado emblemático: representam as pessoas e os povos que aspiram a um caminho de vida, que procuram Deus de coração sincero… Algumas vezes tal desejo é explícito, muitas outras é um desejo silencioso, intuitivo, indescritível, por vezes confuso e contraditório, mas é sempre um desejo ou um suspiro que nasce do profundo da vida. São verdadeiros SOS do espírito, ou mensagens do tipo sms… Mais do que as palavras, muitas vezes falam os gestos, as situações, os sofrimentos, as tragédias, os silêncios…

Quem dará resposta a tantas expectativas? É preciso gente disponível. A resposta é confiada a homens e mulheres de cada tempo, que somos nós cristãos. Não será suficiente uma resposta teórica ou a repetição de uma fórmula; a resposta missionária tem de partir do conhecimento amoroso, da conversão e adesão ao Senhor Jesus. Os cristãos, os missionários, têm de ter visto o Senhor, ter dele um conhecimento íntimo; devem poder afirmar, como os apóstolos depois da ressurreição: «Vimos o Senhor!» (Jo 20, 25). «O apóstolo é um enviado, mas, antes disso, um conhecedor de Jesus» (Bento XVI). Também ele tem de se tornar grão de trigo que morre para dar vida. Só assim poderá anunciar o Evangelho com credibilidade e eficácia.

A transmissão missionária da experiência cristã assume formas diferentes, segundo os tempos, as pessoas, a criatividade, as tecnologias. Olhando para o calendário dos santos e evangelizadores de cada semana (ver abaixo), encontramos modelos e estilos diferenciados de anunciar o Evangelho… Hoje usam-se também técnicas novas. Em muitos ambientes e países, sobretudo entre os jovens, a Missão corre também por via sms, mensagens de correio electrónico e outros. Chegam a muitas pessoas, mesmo não cristãs, versículos do Evangelho, pensamentos espirituais, notícias relativas à Igreja… Quando o fogo da missão arde no coração, procuram-se caminhos novos para dar uma resposta a todos os que querem ver Jesus.

De acordo com o quarto Evangelho, Jesus, com o sinal da ressurreição de Lázaro, desencadeia a oposição dos sacerdotes do templo e dos fariseus, que decidem que ele deve morrer (cf. Jo 11, 1-54). Justamente Caifás, o sumo sacerdote no cargo, afirma que a morte de Jesus é uma coisa boa: “É melhor um só homem morrer pelo povo” (Jo 11, 50). Palavra subjetivamente homicida de Caifás, mas objetivamente profética, porque a morte de Jesus é dar a vida pelos outros, por toda a humanidade.

Jesus, portanto, ao se aproximar a festa da Páscoa, entra em Jerusalém em meio aos gritos que o proclamam como Aquele que vem em nome do Senhor e Rei de Israel (cf. Jo 12, 12-14), mas esse seu sucesso junto ao povo desperta a constatação dos fariseus: “Todo mundo (ho kósmos) vai atrás de Jesus, segue-o!” (Jo 12, 19). Agora, a decisão de condenar Jesus à morte foi tomada, e ele sente que o círculo dos inimigos se estreita ao seu redor, e que aquela Páscoa será a sua “hora” tantas vezes anunciada. Por outro lado, a afirmação dos fariseus encontra uma clara ilustração no pedido de alguns dos presentes em Jerusalém para a festa: alguns gregos, isto é, pertencentes aos gentios, não circuncidados e, portanto, pagãos. Eles querem conhecer Jesus, porque ouviram falar dele como mestre de autoridade e profeta capaz de operar sinais.

Então, eles se aproximam de um dos seus discípulos, Filipe (proveniente de Betsaida da Galileia, cidade habitada por muitos gregos, assim como seu nome é grego), e lhe pedem: “Queremos ver Jesus”. Mas isso não era algo fácil, porque encontrar pagãos, impuros, por parte de um rabino, não estava de acordo com a Lei e não respeitava as regras de pureza. Filipe, hesitante, vai informar isso a André, o primeiro chamado ao seguimento (cf. Jo 1, 37-40); depois, juntos, os dois decidem apresentar a demanda a Jesus. E como ele responde? O quarto Evangelho não diz, mas testemunha algumas palavras decisivas, uma verdadeira profecia que Jesus faz sobre aquela hora, a hora da sua paixão e morte, revelada como glorificação.

Acima de tudo, Jesus diz que o pedido para o ver por parte dos pagãos é sinal e anúncio da hora que finalmente chegou, a hora em que o Filho do homem é glorificado por Deus. No início do Evangelho, em Caná, Jesus havia dito à sua mãe: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 4), e, em seguida, inúmeras outras vezes essa hora privilegiada é evocada como hora próxima, mas que ainda não chegou (cf. Jo 4, 21-23; 5, 25; 7, 30; 8, 20). Agora, diante desse pedido, Jesus compreende e, portanto, anuncia que sua morte será fecundo, fonte de vida inaudita: a sua glória será glória de Deus. Para expressar isso, Jesus recorre ao relato do grão de trigo que, para se multiplicar e dar fruto, deve cair na terra e depois apodrecer, morrer, caso contrário, permanece estéril e sozinho. Aceitando apodrecer e morrer, o grão multiplica sua vida e, portanto, atravessa a morte e chega à ressurreição.

Sim, parece paradoxal, mas – como Jesus esclarece – “quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”, porque o apego à vida é o que impede de pôr a própria vida a serviço dos outros. Para Jesus, a verdadeira morte não é a física, aquela que os homens podem provocar, mas é precisamente a recusa de gastar e dar vida pelos outros, o fechamento estéril sobre si mesmo; ao contrário, a verdadeira vida é o ápice de um processo de doação de si.

A história do grão de trigo é a história de Jesus, mas também a do seu servo, que, justamente seguindo Jesus, conhecerá a paixão e a morte assim como seu Senhor, mas também a ressurreição e a vida para sempre. Não é só Jesus que será glorificado pelo Pai, mas também o discípulo, o servo que, seguindo o seu Senhor, se torna seu amigo. A esse respeito, com grande fé, um Padre do deserto chegava a afirmar com ousadia: “Jesus e eu vivemos juntos!”.

O que, então, Jesus promete aos pagãos para ver? Sua paixão, morte e ressurreição, seu abaixamento e sua glorificação, a cruz como revelação do amor vivido até o fim, até o extremo (cf. Jo 13, 1). A cada discípulo, proveniente de Israel ou dos gentios, no visível é dado ver o invisível; seguindo Jesus com perseverança, aonde quer que ele vá, é dado contemplar na sua morte ignominiosa a glória de quem dá a vida por amor.

De acordo com o quarto Evangelho, aqui é antecipada aquela convocação dos gentios, aquela reunião que acontecerá quando Jesus for elevado na cruz. Os profetas haviam anunciado a participação dos gentios na revelação feita a Israel, e esta hora está prestes a chegar, porque Jesus oferece a sua vida “para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11, 52).

João abre aqui uma lacuna sobre os sentimentos vividos por Jesus. Assim como os evangelistas sinóticos relatam a angústia de Jesus no Getsêmani (cf. Mc 14, 32-42 e par.), na hora que precede a sua captura, aqui também lemos sua confissão: “Agora sinto-me angustiado”. Sim, diante da sua morte, Jesus ficou perturbado, como já havia se perturbado e chorado diante da morte do amigo Lázaro (cf. Jo 11, 33-35). Mas essa angústia muito humana não se torna uma pedra de tropeço posta no seu caminho: Jesus é tentado, mas vence radicalmente a tentação com a adesão à vontade do Pai. De maneira diferente da narrativa presente nos sinóticos, mas profundamente em harmonia com ela, Jesus não quis se salvar daquela hora, nem ficar isento dela, mas permaneceu sempre fiel à sua missão de cumprir a vontade do Pai no caminho da humilhação, da pobreza, da mansidão e não através da violência, do poder, da dominação. Compreendemos, portanto, sua oração: “Pai, glorifica teu Nome”, isto é: “Pai, mostra que tu e eu, juntos, realizamos em mim a mesma vontade”.

Em resposta a tais palavras, eis uma voz do céu, a voz do Pai que testemunha o reconhecimento de Jesus como Filho amado, que revelou a glória de Deus em toda a sua vida e a revelará novamente na sua “hora”. De acordo com a inteligente interpretação da Carta aos Hebreus, Jesus, “nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus (eulábeia)” (Hb 5, 7). Essa submissão não é a rendição a um destino implacável, mas sim a adesão aos sentimentos do Pai, sentimentos de amor pelo mundo até lhe dar seu Filho unigênito (cf. Jo 3, 16).

Eis que, então, Jesus pode gritar com convicção: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra”, como a serpente levantada por Moisés (cf. Nm 21, 4-9; Jo 3, 14), “atrairei todos a mim”. A “hora” finalmente chegou, a hora de Jesus, mas também aquela em que o mundo, com sua estrutura malvada, é julgado, e assim o príncipe deste mundo, o príncipe das trevas, o inimigo de Deus e da humanidade, é expulso.

Esse grito de Jesus é um grito de vitória: na luta entre o príncipe das trevas e o Filho de Deus, este último é vencedor e, elevado da terra sobre a cruz, atrai todos a si. Sim, justamente na cruz, no alto, Jesus será o vencedor do inimigo, o diabo, o pai da mentira, e, portanto, vencedor sobre o mundo de trevas que se opõe a Deus: sobre a cruz, revelou-se plenamente a glória de Deus e de Jesus.

Da cruz, “Jesus, o Nazareno, o Rei dos judeus” (Jo 19, 19) – título escrito em hebraico, grego e latim, as línguas de toda a oikouméne (cf. Jo 19, 20) – atrairá todos a si, judeus e gregos, que verão aquele que transpassaram e baterão em seus peitos (cf. Zc 12, 10; Lc 23, 48; Jo 19, 37 Ap 1, 7). Todo olho o verá, e aqueles que, vendo-o, aderirem a ele crendo no seu amor, serão salvos e conhecerão a vida eterna. Eis a verdadeira resposta para aqueles que queriam, e ainda hoje querem, “ver Jesus”.

Essa é a boa notícia da página de hoje do Evangelho, boa notícia especialmente para aqueles discípulos e aquelas discípulas que conhecem a dinâmica de cair na terra, do “apodrecer” no sofrimento, na solidão e no escondimento.

Em algumas horas de vida, parece que todo o seguimento se reduz apenas à paixão e à desolação, ao abandono e à negação por parte dos outros, mas, então, mais do que nunca, é preciso olhar para a imagem do grão de trigo que nos foi entregue por Jesus; mais do que nunca, é preciso renovar o fôlego da fé, para dizer: “Jesus e eu vivemos juntos!”.

http://www.ihu.unisinos.br

É muito curioso o início deste passo do Evangelho de S. João, que hoje proclamamos. Há uns gregos que estão por ali, de visita a Jerusalém, peregrinos que ouviram falar de Jesus e tinham curiosidade por Ele. E foram falar com dois discípulos, que pelo nome percebemos que também teriam uma linhagem grega, eram dessa etnia: Filipe e André, nomes clarissimamente gregos. Foram ter com eles, que eram o seu contacto, e disseram esta coisa espantosa: ”Nós queríamos ver Jesus.” E um fala com o outro e vão ambos ter com Jesus e dizer: “Olha Senhor, há aqui gente que te quer ver.”

A questão que aqui se coloca, não só a quem pela primeira vez se abeira de Jesus, mas a nós que nos sentimos perto Dele, que sentimos que Ele é a referência central das nossas vidas, a questão que se coloca é: o que é ver Jesus? O que é ver Jesus?

Porque, olhar para Jesus, ouvir o Seu nome, repetir a Sua palavra, sentir que há uma proximidade, uma comunhão, isso cada um de nós, à sua maneira, ao longo do tempo vai experimentando de formas diversas. Mas, o que é ver Jesus? E será que eu já vi Jesus? Será que eu já despi as cascas, já deixei para trás o ruído, já fiz cair aquilo que são os pretextos, aquilo que são os arredores do rosto, e já olhei, olhos nos olhos, para Jesus? Será que eu já O vi verdadeiramente? No sentido de que eu já compreendi o Seu caminho, já compreendi a loucura e o escândalo da Sua Cruz? Será que eu já olho para a Cruz de uma forma completamente clara? No sentido de perceber a natureza do Seu gesto, a dimensão e as implicações do Seu gesto na minha vida?

“Senhor, nós queremos ver Jesus.” E se calhar, no nosso coração, de uma forma ou de outra, este desejo está muito presente, nós queremos ver Jesus. E é esse desejo que explica que, domingo a domingo, nos encontremos nesta circunstância, na cena litúrgica, para ver, tentar palpar o Seu rosto, tentar ir além das evidências, desterrar essa costura.

“Senhor, nós queremos ver Jesus.” Talvez esta seja a prece mais persistente, este desejo que não se apaga, esta inquietação por ver o Seu rosto. Talvez esta inquietação seja a nossa maior prece, a nossa única prece. Senhor, nós queremos ver o Seu rosto. E Jesus mostra-nos o Seu rosto.

Este caminho quaresmal que estamos a fazer, outra coisa não é do que uma aproximação do nosso rosto ao rosto de Jesus. Para olhá-Lo de perto, para vê-lo no detalhe, para perceber como Ele é semelhante e diferente do nosso. Para perceber como do Seu rosto irradia uma luz que torna o nosso rosto escuro e mal iluminado num rosto luminoso, transparente. A Quaresma outra coisa não é que nos avizinharmos, radicalmente, de Jesus. Para viver a Páscoa, que é o momento em que o Seu rosto se revela na Sua plenitude, na Sua inteireza, nós possamos acompanhá-Lo, vendo-o verdadeiramente. Não apenas as coisas a acontecerem, mas nós a olharmos para Jesus.

Queridos irmãs e irmãos: uma das críticas que outras Igrejas cristãs fazem aos católicos é que nos dispersamos muito. E às vezes essa crítica colhe, é verdadeira. Que nos dispersamos nos símbolos, nos ritos, nas imagens, nos santos, nos papas. Andamos um bocadinho dispersos e distraídos e ocupados com coisas que são de Deus, mas que não são o essencial. E perdemos de vista a centralidade crística que a nossa vida deve ter. Perdemos de vista este centro que nos deve atrair radicalmente com todos os traços da nossa história. Que é nos colocarmos, olhos nos olhos, com a figura de Jesus e com a pessoa do crucificado. Por isso, é também importante purificarmo-nos de uma religiosidade dispersiva. Que nos acorrenta a isto, nos faz acender velinhas àquilo e nos distancia da grande lição do Crucificado. Que é sempre nova, tem ressonâncias sempre atuais no nosso coração.

A palavra espantosa que Jesus hoje diz no Evangelho é uma palavra que nós nunca acabaremos de meditar e de colher o seu significado profundo: “Quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim.” E diz o evangelista S. João que Jesus falava da forma como havia de morrer. Claramente, quando Ele for levantado da Cruz, atrairá todos a Ele.

É interessante o verbo que Jesus utiliza: o verbo atrair. Porque o verbo atrair é um verbo de uma grande ambiguidade de sentidos, de uma grande abertura semântica. Atrair é uma coisa que nós ligamos ao desejo, ao erotismo, ao coração, à beleza, não tanto à razão. Às vezes sentimo-nos atraídos pelo que vemos, sentimo-nos colados, sentimos que há coisas no nosso coração, há desejos, há expectativas no nosso coração que, de repente, estão ali presentes e sentimo-nos puxados, puxados para ali. Então, este verbo – “Quando Eu for levantado da terra atrairei todos a mim” – quer dizer que a nossa relação com Jesus não é apenas uma relação racional, não é apenas esta compreensão que a grande ortodoxia nos faz dizer. Que Cristo é o Senhor, que Cristo é o Deus connosco, que Cristo é o Filho de Deus. Essas verdades do dogma sustentam a nossa fé. Mas não é apenas a arquitetura racional dos dogmas que nós somos chamados a viver na relação com Jesus.

Nós somos chamados a viver uma relação para cá e para lá da própria racionalidade. Uma relação que é afetiva com o próprio Jesus. Sentindo que Ele nos emociona, que Ele nos toca, que Ele é também o inexplicado de Deus que vem ao nosso encontro. Que Ele, sem nós podermos explicar como, sem nós podermos dizer porquê, Ele realiza tudo, mas tudo o que nós queremos da vida, que Nele nós vimos tudo aquilo que sonhamos.

É aquele poema tão belo da Sophia de Mello Breyner: “Vimos o lume aceso nos Seus olhos, e foi por o termos olhado que ficámos penetrados de força e de destino, Ele deu carne àquilo que sonhamos, e a nossa vida abriu-se iluminada pelas imagens de ouro que Ele viu.” E, de facto, é esta relação vital que nós precisamos de construir com a pessoa de Jesus. Isso não se faz sem abandono, sem silêncio, sem nos jogarmos – e a palavra é essa – sem nos jogarmos para os pés de Jesus. Sem nos atirarmos para os Seus pés. Se estamos com as nossas reservas mentais, as nossas seguranças, a manter o nosso campo, se queremos manter a respeitabilidade que cada um merece a si próprio, se cada um de nós quer manter apenas uma relação intelectual com a figura de Jesus, também é possível porque é uma figura absolutamente fascinante. Mas não é isso que nos é pedido. O que nos é pedido é que, por palavras, atiremos a nossa vida para os pés Dele, o que nos é pedido é que nos ajoelhemos em silêncio olhando para o Seu corpo, para o Seu rosto, para aquilo que, sem nenhuma palavra, apenas com o exemplo, Ele nos diz.

O importante é que cada um de nós se meta no meio na multidão, atrás Daquele que vai ser crucificado no Gólgota. O mais importante é que cada um de nós se sinta seu discípulo, discípula e que isso meta em perigo a nossa vida. Eu sou discípula, discípulo de um crucificado, de alguém que é um condenado. Mas é isso que me define.

Por isso, queridas irmãs e irmãos, a Páscoa que nós estamos perto de viver tem de ter uma intensidade na nossa vida. E é isso que nos transforma. O verbo que Jesus usa é um verbo poderoso – até pode parecer um bocado estranho, mas não: Jesus atrai-me, atrai-me no sentido que me enche de um amor, toca as cordas afetivas mais recônditas do meu ser. Faz-me estar com Ele, não tenho vontade de me distanciar, de me separar. E isso é um mistério da Cruz, é um mistério da Cruz. Sem esta dimensão que chamamos mística e cada cristão, cada cristã tem de viver, nós ainda estamos como os gregos que vieram ter com os discípulos a perguntar: “Senhor, faz-nos ver Jesus.”

Precisamos de mergulhar, mergulhar. E é desse mergulho que nos fala, de forma tão bela, a passagem do livro de Jeremias que hoje lemos. Ele diz: “Vai haver um momento em que…” A nossa fé é feita de muitas perguntas, de muito debate, de muita discussão, de muita coisa que não compreendemos, de muitas interrogações. E vai ser assim até ao fim, não tenhamos ilusões. Vai ser assim até ao fim. Porque nós somos incompletos, inacabados, nós somos entreabertos, nós não nos vamos realizar completamente aqui, nós vamos morrer com fome e com sede, nós vamos continuar a sentir o peso da nossa nudez. Isso é o que é o ser humano, esse é que é o enigma humano, isso é que nos torna a impressão digital do próprio Deus.

Mas uma coisa é certa: nós somos chamados a experimentar, a viver uma outra realidade. Como nos diz Jeremias, já ninguém tem de nos dizer: “Olha, vem aprender alguma coisa sobre Deus. Olha, vem estudar. Olha, vem ouvir falar sobre Deus.” Já não precisaremos de nada, porque todo o conhecimento de Deus estará inscrito no nosso coração. E isto é verdade, isto tem sido verdade na história da Igreja, na história dos crentes. Porque ao mesmo tempo precisamos de saber tudo e já sabemos tudo. Porque quando o Crucificado nos olha, o Seu olhar permanece em nós. Quando O Crucificado nos olha, o Seu olhar depois não nos abandona, ele continua impresso no nosso coração. E mesmo que nós depois nos sintamos em solidão, é uma solidão diferente, porque é uma solidão em que permanecem connosco os olhos de Jesus Cristo.

http://www.capeladorato.org