4º Domingo da Quaresma (B)
Domenica Laetare
João 3,14-21
Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo modo é preciso que o Filho do Homem seja levantado. Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna. Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.

Referências bíblicas:
1ª leitura: O furor e a misericórdia de Deus manifestam-se pelo exílio e pela libertação do povo (2 Crônicas 36,14-16.19-23)
2ª leitura: «Mortos por causa das nossas faltas … é por graça que vós sois salvos!» (Efésios 2,4-10)
Evangelho: «Deus enviou o seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por ele» (João 3,14-21)
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más ações odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.
«Amor-misericórdia»:
é o único juízo de Deus sobre o mundo
Romeo Ballan, mccj
«Deus amou tanto o mundo…» É esta a chave de leitura que a Palavra de Deus nos oferece neste domingo, para entrar frutuosamente no mistério da Páscoa, já próxima. Amor-misericórdia: é a palavra de ordem, o único projecto do nosso Deus. Morte e vida, juízo e salvação, condenação e fé, trevas e luz, mal e verdade… são algumas expressões do dualismo característico de João, que aparece também no Evangelho de hoje. A história humana de todos os tempos é feita destes contrastes, tensões e vitórias parciais: umas vezes do mal, outras do bem, consoante as forças e os acontecimentos que se sobrepõem e se chocam. Aquilo que mais preocupa o coração humano é saber quem é mais forte, quem prevalecerá no fim, qual será a palavra definitiva. O optimismo ou a depressão, a esperança ou o desespero dependem da resposta a este dilema. «Sobre o pecado e sobre o mal do mundo resplandece sempre a luz do amor de Deus» (F. Mauriac).
O evangelista João – no diálogo de Jesus com Nicodemos – oferece-nos a resposta de esperança: o amor de Deus prevalece sobre o mal do mundo. O juízo de Deus sobre o mundo é a salvação, oferecida como dom; a palavra definitiva de Deus não é a morte, mas a vida. «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (v. 3,16). A condenação, eventualmente, é uma escolha pessoal de alguns: é o legado apenas para quem ama as trevas e odeia a luz (v. 19-20). O projecto de Deus é totalmente e sempre a favor da vida.
«Todas as religiões procuraram afastar-se do mundo, sublinharam a infinita distância entre o Criador a criatura, constataram o peso da vida a ponto de propor um caminho de distanciamento da realidade. O nosso Deus, ao contrário, liga-se ao mundo, ama-o. Tanto. Este “tanto” revela um aspecto de Deus que muitas vezes esquecemos: o exagero do amor de Deus por nós. Jesus, prosseguindo, recorda-nos que Deus não quer condenar o mundo, mas salvá-lo. Ah! se acreditássemos nisso! Se parássemos de acreditar num Deus sempre pronto a evidenciar, qual antipático director de turma, as nossas incongruências, para nos abrirmos àquele que “amou tanto o mundo…”» (Paolo Curtaz).
A releitura da história do Povo de Israel, proposta no livro das Crónicas (I leitura), é feita em termos de pecado-castigo-salvação. O pecado era realidade geral: chefes, sacerdotes, povo… todos «multiplicaram as suas infidelidades» (v. 14). Apesar disso o Senhor «queria poupar o seu povo» e enviava-lhe atenciosamente os seus mensageiros (v. 15). Depois de derrotas, deportação e escravidão, abre-se finalmente ao povo o caminho de regresso à pátria. A libertação proclamada por Ciro, rei da Pérsia, é vista como a intervenção final de Deus, que dá cumprimento à sua promessa de salvação (v. 22).
Para São Paulo (II leitura), na origem do projecto divino sobre o mundo, encontra-se um «Deus, rico em misericórdia», que ama todos com «grande amor» (v. 4), que oferece a abundante riqueza da sua graça e «a sua bondade para connosco, em Cristo Jesus» (v. 7). N’Ele temos a salvação «mediante a fé; e isso … é dom de Deus» (v. 8). Este dom não é reservado a alguns, mas Deus oferece-o a todos, ainda que por caminhos diversos e em tempos diferentes. O sinal de tal salvação universal é o Filho do homem elevado da terra no deserto deste mundo. É Ele o juízo do amor divino sobre o mundo: um juízo de misericórdia! Aquela «misericórdia de geração em geração» que também Maria cantou com alegria e paixão depois do acontecimento da Anunciação do Senhor.
Para não fechar os olhos à luz, é suficiente e necessário olhar para Ele: Ele é o Filho, o primeiro de muitos irmãos e irmãs, elevado à vista de todos, «para que todo aquele que acredita n’Ele tenha a vida eterna» (Jo 3,15). A salvação é oferecida a quem acredita, a quem quer que eleve o olhar para Ele, aos que «voltarão o olhar para aquele que trespassaram» (Jo 19-37). Manter fixo o olhar de amor sobre Ele é fonte de salvação e de missão, como recomendava São Daniel Comboni aos missionários do seu Instituto para a África: «o pensamento sempre dirigido ao grande fim da sua vocação apostólica deve suscitar nos alunos do Instituto o espírito de sacrifício. Fomentarão em si esta disposição essencialíssima tendo sempre os olhos postos em Jesus Cristo, amando-o ternamente e procurando entender cada vez melhor o que significa um Deus morto na cruz pela salvação das almas. Se com viva fé contemplam e saboreiam um mistério de tanto amor, serão felizes por se oferecerem e perderem tudo e morrer com Ele e por Ele» (Escritos, 2720-2722). A contemplação de Cristo, elevado na Cruz e vivo na Eucaristia, é estímulo eficaz à santidade de vida e ao empenho missionário, para levar a salvação de Jesus a todos os povos.
Graça e misericórdia em superabundância
Marcel Domergue
A cólera de Deus
A primeira leitura apresenta a ruina de Jerusalém e a deportação dos seus habitantes como uma sanção decidida por Deus, furioso contra as faltas do seu povo. Da minha parte, vejo aí um modo de sublinhar que não estamos sós em nossas aflições e sofrimentos, pois Deus participa deles conosco. Foi preciso esperar o Cristo para se descobrir que esta presença não é punição divina, que Deus não é autor, mas a vítima dos nossos males. Na 2ª leitura, Paulo vai mais longe: para ele, são as nossas faltas que nos matam; elas vão, de fato, em sentido contrário à nossa criação. O caminho que vai do mal cometido ao mal sofrido não passa pela cólera divina: Deus está todo por inteiro do lado da graça (no sentido aqui de agraciar, de perdoar).
Acrescentemos que, para as Escrituras, o sofrimento provocado pelo malfeito pode alcançar os inocentes, porque somos todos solidários e vivemos num mundo desregulado pelo uso abusivo que fazemos do mal (do pecado). Confessemos que não é fácil compreender nem admitir o laço por demais estreito entre pecado e sofrimento. Devemos renunciar talvez a uma ideia de causalidade e contentar-nos com dizer que mal moral e mal físico andam juntos, que eles exprimem a nossa fraqueza atual e que devemos voltar-nos ao dinamismo inteligente e amoroso que nos faz ser. Nele podemos encontrar remédio e cura. Ele nos encaminha para a nossa verdade integral, passando, contudo, pelo caminho da nossa liberdade.
A serpente de bronze
A serpente da dúvida que corrói interiormente o povo, no caminho da pátria definitiva, ganhou forma exterior na figura de um animal. Mordidos por serpentes venenosas, os Hebreus estavam morrendo. Impossível não pensar na serpente de Gênesis 3, a primeira representação da desconfiança fundamental que leva o homem a não confiar em Deus, a não confiar na vida. Esta desconfiança é muitas vezes inconsciente. Moisés foi convocado a levantar da terra este mal mortal sob a forma da serpente de bronze. E ei-la afixada numa haste. Todos os que aceitaram contemplá-la foram curados (Números 21,8-9). Segundo João, também o Cristo, por sua vez, se fez serpente. Levantado da terra na Cruz, como a serpente de bronze, assumiu o rosto do nosso mal. Ei-lo entre os malfeitores, eliminado do mundo dos vivos. Contemplando-o, podemos ver a uma só vez a nossa culpabilidade assassina e a nossa desgraça. Notemos, no entanto, que, onde o livro dos Números diz: «Todos os que contemplarem esta serpente viverão», João escreve: «Todos os que nele crerem terão a vida eterna». O verbo crer aparece quatro vezes no início deste evangelho. É que a fé é o contrário da desconfiança destrutiva. Não basta ver, nem mesmo «contemplar» (livro dos Números); mais ainda, é preciso confiar, uma confiança que transforma toda a vida. Confiança difícil esta, pois que deve nascer à vista deste homem torturado até à morte, em virtude de uma injustiça flagrante. Lembremos a 2ª leitura do domingo passado: «escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos».
O julgamento
Este é um tema terrível! Não sei se alguns cristãos ainda se lembram dos catecismos antigos, com o «juízo particular», no dia da nossa morte, e o «juízo universal», no final dos tempos. As Escrituras, por certo, falam em julgamento, mas não podemos esquecer tratar-se de uma metáfora emprestada das nossas práticas sociais. Alguns textos falam do julgamento como um destino inevitável; outros, que Deus não julga, mas perdoa. Neste evangelho, lemos que Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para julgar o mundo, «mas para que o mundo seja salvo por ele». Temos de levar a sério a seguinte frase: «Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado». Olhando de perto, o texto todo nos diz que não é Deus quem julga, mas nós mesmos. De fato, julgar é se pronunciar, é escolher. Eis, pois, que a luz veio ao mundo. Luz que é o Filho de Deus, verdade de Deus e verdade do homem. Diante desta irrupção da luz, irrupção que é contemporânea ao começo do mundo, os homens devem se pronunciar, devem se declarar, a favor ou contra. Este é o julgamento: alguns vão preferir as trevas. Esta imagem, de acolhida ou de recusa da luz, traduz-se no crer em Cristo ou em recusá-lo. Deus não se impõe a nós; Ele se propõe. Se o acolhemos, as nossas «obras» são ao mesmo tempo suas obras. Ou, se quisermos; Deus, para agir, passa através de nós (ver a última frase do evangelho de hoje).
Fixar os olhos em Jesus
José Tolentino Mendonça
A liturgia deste quarto domingo da Quaresma centra-nos no drama da renúncia, da recusa. Nós somos visitados, a nossa vida é visitada. Nós temos, no centro da nossa fé cristã, o Mistério da Cruz, Aquele que está levantado sobre a cruz. A imagem da serpente que Moisés ergueu na vara e que curava todas as enfermidades é apenas uma imagem, uma metáfora, desta realidade nova que é a do próprio Deus, do Filho de Deus crucificado na cruz, que nos cura e que nos salva.
Contudo, como diz o Evangelho de S. João, Ele veio aos que eram os Seus e os Seus não o receberam. É este o drama da recusa da fé, dos meios da fé, dos meios da graça, da visita de Deus à nossa vida que tantas vezes nos encontra cegos e surdos em relação à Sua passagem. Nós não estamos verdadeiramente disponíveis, criamos uma espécie de impermeabilização espiritual. Chove, a Palavra vem, o encontro eucarístico acontece mas verdadeiramente não nos molha, não nos transforma, não toca em profundidade aquilo que eu sou. Porque, sem eu me dar conta até ou de forma deliberada, mas sub-reptícia, eu construo uma estratégia de escape. É muito comum nós, cristãos, sermos escapistas profissionais em relação a Deus, em relação à Sua Palavra, à dimensão profética que nos critica e nos questiona. Nós encontramos sempre forma de escapar por entre os pingos da chuva e não ficar molhados, não ficar tocados.
Mas, este escapismo espiritual tem um preço e o preço é a nossa própria destruição. Nós não temos força de lutar contra aquilo que nos tenta, contra aquilo que nos sitia. E, quando damos por nós, somos como as muralhas de Jerusalém, as nossas muralhas, as nossas defesas estão todas em baixo, nós estamos completamente escravizados. Somos escravos, já não somos pessoas livres. Não temos desprendimento, não temos desapego. Dizemos: “Vou fazer.” Mas depois não fazemos. Dizemos: “Eu comprometo-me com isto.” Mas não somos capazes desse compromisso. Cremos, achamos, é por aqui. Mas depois não temos a força interior de ir por ali. Porquê? Porque estamos escravizados. Parece que vivemos em nossa casa, parece que cada dia chegamos ao nosso endereço, parece que somos senhores da nossa vida, mas não somos. Somos um joguete nas mãos daquilo que nos escraviza. Seja o que for. Seja o dinheiro, seja o poder, seja o orgulho, seja a autossuficiência, a autorreferencialidade, seja um erotismo mal vivido, seja a escravidão da internet, disto e daquilo. Tanta coisa que nos escraviza.
A História do Povo de Deus é, muitas vezes, uma história em que ele é escravo, em que ele está no exílio, em que perdeu a sua independência, em que a sua unidade, o seu território eclipsou-se, passou para as mãos de outro. E isso é uma imagem daquilo que acontece realmente na nossa vida. Porque, tantas vezes a chave da nossa casa, a chave do nosso coração, o elmo da nossa liberdade nós entregamos na mão de outro. E não temos essa capacidade. E olhamos para nós: custa-nos reconhecer mas somos fracos, não somos donos de nós mesmos, não fazemos aquilo que sentimos que devemos fazer. Acabamos por viver na espuma daquilo que é mais fácil.
Hoje, esta leitura do livro de Crónicas conta a ida do Povo de Israel para Babilónia. É um retrato chapado daquilo que nos acontece. Nós vivemos em Babilónia, grande parte da nossa vida estamos na Babilónia, não estamos na Terra Prometida, estamos submetidos a poderes que nós não tivemos a força de enfrentar, que nós não tivemos a coragem de dizer “não”. Dizemos um “nim”, tornamo-nos pragmáticos, achamos que conseguimos mas depois não conseguimos.
Por isso, é importante que cada um de nós entre dentro de si e faça um efetivo diagnóstico da sua situação. Porque, não são só os outros que estão no exílio, possivelmente eu também estou no exílio.
Aquilo que Sophia de Mello Breyner diz num poema: “Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos, mas as coisas têm máscaras e véus com que me prendem e se eu um momento detida me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém mas só de laços, para o vazio horror das voltas do caminho.” E é verdade, nós andamos assim. Somos prisioneiros de laços que não vemos, não vivemos na nossa terra, vivemos num exílio, numa pátria dividida. Como voltar? A questão da Quaresma, a questão da Páscoa é esta: como voltar a experimentar a liberdade? É possível sendo velho nascer de novo? É possível com todas estas escravidões, esta miséria, sentir um elan de um renascimento, de um rejuvenescimento interior? É possível que a primavera não seja só das tílias da minha rua mas seja também do meu coração, do meu interior? É possível isso?
Hoje a Carta aos Efésios e o próprio Evangelho de João centram-nos na fé, e dizem-nos isto: “Povo de Deus, acredita. Povo de Deus, tem fé.” Que é como dizer: “Maria, José, Manuel, João, Tolentino, Madalena, Duarte tem fé, acredita. Porque a fé é que te dá a capacidade de renascer, de recomeçar.” E este é o tempo para isso, o tempo para descobrir a força que é a fé na minha vida. Porque, não são as obras que nos salvam ou não é a nossa vontade que é tão débil, mas é a fé. Isto é, o acontecimento de Jesus Cristo na vida de cada um de nós determina um ser novo, qualquer que seja o estádio em que a nossa vida esteja. É possível. É possível porque a fé traz-nos ressurreição, a fé traz-nos vida nova. Por isso, temos de fixar os nossos olhos em Jesus. O tempo da Quaresma é um tempo cristológico, que nos enfoca na pessoa de Jesus e neste olhar de amor, de misericórdia que Ele dedica a cada um de nós. Deus está pronto a ir-nos arrancar ao exílio. Deus está pronto a ir-nos buscar ao exílio, Deus está pronto a ir buscar-nos, a arrancar-nos ao sepulcro, Deus está pronto a ir buscar-nos ao silêncio dos infernos, onde tantas vezes nós esgotamos a nossa vida. Deus está pronto a ir arrancar-nos.
E a Páscoa é isto. Um povo pascal o que é? É um povo acordado, é um povo desperto, é um povo que não se conforma a viver no exílio, é um povo que não se conforma à escravidão mas que tem ânsia de liberdade. E é assim: todos nós sabemos o que é isto. Em cada um de nós isto se traduz de uma determinada maneira. Mas agarremos esta oportunidade. A Quaresma é uma oportunidade, é a grande oportunidade para fixar os nossos olhos em Cristo e sentir que a cruz é a alavanca de uma mudança, de uma conversão, de um renascimento, de uma transformação espiritual que pode verdadeiramente acontecer em nós.
Rezemos uns pelos outros, para não ficarmos parados, para não acharmos que já não é para nós, para não acharmos que burro velho já não se converte. Mas pelo contrário, acreditarmos que é possível, para lá dos imbróglios, da frieza, dos muros que nos separam e atravancam a nossa vida e verdadeiramente não nos deixam ser, não nos deixam viver com autenticidade. Para lá disso há uma possibilidade que Deus inaugura para nós – é possível, é possível, é possível! Um homem velho pode nascer de novo? Pode. Digamos isto no fundo do nosso coração e esta certeza nos ajude a dar os pequenos passos da confiança, da procura, da misericórdia, de um caminho de libertação interior. Porque, só assim, naquele domingo em que nós vamos a correr ao sepulcro, nós encontramos um sepulcro vazio. E o sepulcro que é preciso esvaziar é o nosso, é o da nossa própria vida.
Corrente de Amor
Há uma estreita relação entres as três leituras deste Quarto Domingo de Quaresma: o amor de Deus. No segundo livro das Crônicas é esse Amor de Deus que leva o povo que estava desterrado em Babilônia a construir um templo em Jerusalém.
Na segunda leitura Paulo dirá: “Deus rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo”.
E no Evangelho, depois do diálogo com Nicodemos, afirma: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna”.
Aprofundando no texto evangélico, vemos que começa colocando diante de nossos olhos a imagem da serpente içada por Moisés no deserto, que curava aqueles que olhavam para ela e que tinham sido mordidos pelas serpentes venenosas (Nm 21, 8-9). Esta serpente levantada é um símbolo de Jesus crucificado.
Quem olha para Jesus crucificado com os olhos da fé e do amor experimenta a Misericórdia de Deus que o cura das feridas causadas pelos pecados e recebe a novidade do Espírito de Deus que, pela morte e ressurreição de Jesus, gera em nós uma vida nova, de homens e mulheres livres.
Para isso, precisamos entender que, para o evangelista João, na cruz de Jesus se dá também a exaltação, a glorificação do Filho do Homem (8, 28-12, 32). Olhar para Jesus crucificado é olhar para quem venceu a morte, e em seu amor sem medida entrega para nós torrentes de água viva (4,14).
Podemos perguntar-nos: Poderemos ver e sentir o amor de Deus nesse homem torturado na Cruz? Este amor de Deus para cada um e cada uma de nós é o Amor criador que nos deu a vida e continua gerando o universo todo com toda sua riqueza. É um amor que ao longo de toda a história busca continuamente comunicar-se, relacionar-se com a humanidade para sua felicidade como disse o profeta Oseias: “Quando Israel era menino, eu o amei. Do Egito chamei o meu filho. E não há dúvida, fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão. Mas eles não perceberam que era eu quem cuidava deles. Eu os atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles”. (Os 11, 1.3-4)
Esse Amor do Pai-Mãe que chega à sua plenitude na doação de si mesmo, na entrega de seu Filho, e pela sua encarnação o amor toma corpo, rosto, nome: Jesus Cristo! Ele é o primeiro missionário do Pai, é a personificação de seu amor.
O Papa Francisco continuamente faz-nos lembrar deste amor de Deus que se traduz em misericórdia, num amor gratuito, que não se mede segundo méritos ou erros. Ele afirma que Deus ama as pessoas “como uma mãe”. Ele dirá que “A ‘compaixão’ que Deus sente pela ‘miséria humana’ é comparável à reação de uma mãe ‘diante da dor dos filhos’”.
O incrível é que, sendo tão grande o presente oferecido, Deus mesmo apela à liberdade do ser humano para acolhê-Lo, recebê-Lo. Só se recebe aquele em quem confiamos. Por isso, podemos dizer que acolher Jesus é crer nele. É preciso acolher esse amor, como responde Francisco para uma menina diante de sua pergunta: “Se Deus perdoa a todos, como então existe o inferno?”. Ele dirá que “Deus perdoa a todos, és tu que escolhes”. Diante da pequena escoteira que lhe põe um problema “tão difícil”, sorri e explica o que é, de fato, o inferno: “Deus perdoa a todos ou não? É bom ou não? Mas você sabe que havia um anjo muito orgulhoso e inteligente, e ele tinha inveja de Deus, queria tomar o seu lugar. Deus quis perdoar-lhe, mas aquele anjo dizia: ‘Eu não necessito de perdão, eu sou suficiente a mim mesmo’. Eis, isto é o inferno”.
Nossa crença não é um sentimentalismo subjetivo, mas é a adesão a uma pessoa objetiva e concreta que é Jesus Cristo e sua proposta de vida. Segundo Bento XVI na sua primeira encíclica: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.
A fé no Filho de Deus se traduz numa vida de acordo com o seu evangelho, porque, tendo acolhido o dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro, a resposta é amar do seu jeito. Levando isso em conta, podemos entender melhor as palavras de Jesus acerca da salvação ou da condenação.
Para a mentalidade judaica daquele tempo, o julgamento se daria no final dos tempos, quando os vivos e os mortos teriam de se apresentar diante do tribunal de Deus. Para João, o julgamento se dá aqui e agora, no confronto das pessoas e da sociedade com a pessoa e a prática de Jesus. Por isso, para o evangelista, Jesus não julga, são as pessoas que fazem seu próprio julgamento de acordo com o estilo de vida que escolhem viver.
O amor do Pai continua fazendo-se presente em nosso mundo, em nossa história por meio das pessoas que, movidas pelo Espírito Santo, vivam como Jesus viveu, façam de suas vidas uma paixão pelo Reino, pela salvação da humanidade.
Qual é nossa resposta?
Poderemos ver e sentir o amor de Deus
nesse homem torturado na cruz?
José Antonio Pagola
Olhar o Crucificado
O evangelista João nos fala de um estranho encontro de Jesus com um importante fariseu, chamado Nicodemo. Segundo o relato, é Nicodemo quem toma a iniciativa e vai até Jesus “de noite”. Intui que Jesus é “um homem vindo de Deus”, mas move-se entre trevas. Jesus irá conduzindo-o até à luz.
Nicodemo representa no relato todos aqueles que procuram sinceramente encontrar-se com Jesus. Por isso, em certo momento, Nicodemo desaparece de cena e Jesus prossegue o Seu discurso para concluir com um convite geral a não viver nas trevas, mas a procurar a luz.
Segundo Jesus, a luz que pode iluminar tudo está no Crucificado. A afirmação é atrevida: “Tanto amou Deus ao mundo que entregou o Seu Filho único para que não pereça nenhum dos que creem Nele, mas que tenham a vida eterna”. Poderemos ver e sentir o amor de Deus nesse homem torturado na cruz?
Habituados desde criança a ver a cruz por toda a parte, não aprendemos a olhar o rosto do Crucificado com fé e com amor. O nosso olhar distraído não é capaz de descobrir nesse rosto a luz que poderia iluminar a nossa vida nos momentos mais duros e difíceis. No entanto, Jesus nos envia sinais de vida e de amor.
Nesses braços estendidos que já não podem abraçar as crianças, e nessas mãos cravadas que não podem acariciar os leprosos nem bendizer os doentes, está Deus com os Seus braços abertos para acolher, abraçar e sustentar as nossas pobres vidas, rasgadas por tantos sofrimentos.
Desde esse rosto apagado pela morte, desde esses olhos que já não podem olhar com ternura os pecadores e prostitutas, desde essa boca que não pode gritar a Sua indignação pelas vítimas de tantos abusos e injustiças, Deus revela-Nos o Seu “amor louco” pela humanidade.
“Deus não mandou o Seu Filho para julgar o mundo, mas para que o mundo se salve por Ele”. Podemos acolher a esse Deus e podemos rejeitá-Lo. Ninguém nos força. Somos nós os que temos de decidir. Mas “a Luz já veio ao mundo”. Por que tantas vezes rejeitamos a luz que nos vem do Crucificado?
Ele poderia pôr luz na vida mais desgraçada e fracassada, mas “o que age mal… não se aproxima da luz para não se ver acusado pelas suas obras”. Quando vivemos de forma pouco digna, evitamos a luz porque nos sentimos mal ante Deus. Não queremos olhar o Crucificado. Pelo contrário, “o que realiza a verdade, aproxima-se da luz”. Não foge para a escuridão. Não tem nada para ocultar. Procura com o seu olhar o Crucificado. Ele faz viver na luz.
Oração
A leitura deste poema, que ilustra Jesus a caminho ao Calvário, pode nos ajudar a caminhar com Ele para fazer de nossas vidas, no dia-a-dia, uma entrega de amor ao Pai e aos nossos irmãos e irmãs.
O Cireneu
Fizeste andar ao paralítico
agora não podes caminhar
necessitas de minhas pernas
para ao Pai chegar.
Levantaste os caídos,
agora não te podes levantar
necessitas de minhas forças
para ao Pai chegar.
Saciaste a sede dos sedentos
agora tens a boca seca
pedes da minha água
para ao Pai chegar.
Obrigada por me querer a teu lado,
ofereço-te a minha fragilidade,
porque unida à tua
poderemos ao Pai chegar!
(Autor anônimo).