3º Domingo da Quaresma (B)
João 2,13-25

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo, e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.
O «coração sincero»: berço do culto verdadeiro
Romeo Ballan, mccj
A consciência laica e o estado laico encontram legitimidade e conteúdos na I leitura de hoje. Os 10 Mandamentos têm as suas raízes na própria natureza do ser humano, ainda antes de Deus os proclamar tais. Não são uma invenção da Igreja, mas o resultado de uma reflexão puramente humana. Devemos dizer «felizmente», visto que eles constituem a base da ética humana universal. Um património partilhado entre as nações. Uma plataforma comum para o encontro de todos os povos!
Culto e ética, credo religioso e prática moral são dois elementos constitutivos do quadro espiritual de cada pessoa humana, que emergem da Palavra de Deus proclamada hoje. No que diz respeito ao culto, a vinda de Jesus trouxe mudanças radicais face ao Antigo Testamento. Quem quer que reflicta com realismo sobre o facto de Jesus expulsar do templo, a chicote, mercadores e cambistas, bois, ovelhas e pombas (Evangelho), fica surpreendido com a energia e a coragem com que Ele ousa enfrentar categorias de pessoas ligadas mais ao dinheiro e aos negócios do que ao culto e à religião. Uma intervenção de Jesus que será um dos motivos de acusação no julgamento que o levará à morte.
O significado deste gesto insólito (quase incorrecto) em Jesus «manso e humilde de coração» (Mt 11,29), vai bastante para lá da irritação de um momento pela desfaçatez de terem feito «da casa do meu Pai casa de comércio!» (v. 16). Aquele gesto é um sinal de que finalmente terminou o tempo de um culto ligado ao sacrifício dos animais e à oferta de coisas para aplacar Deus. Aquele gesto e o facto de «o véu do templo se rasgar em dois, de alto a baixo» (Mc 15,38) são sinais da superação definitiva da religião judaica. A partir de então, o único templo é o corpo de Cristo, crucificado e ressuscitado: de facto, «Ele falava do templo do seu corpo» (v. 21).
O contacto com Ele – o único Salvador – acontece não mais através de afunilamento de muralhas, sangue de animais, cumprimento mecânico, quase mágico, de ritos exteriores, mas no íntimo do coração de cada pessoa «em espírito e verdade» (Jo 4,23). Para o cristão, em particular, o contacto tem lugar na fé e nos sinais sacramentais. O único culto agradável a Deus parte do coração contrito, como no publicano (Lc 18, 13-14), e de um coração reconciliado: «vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e depois volta para apresentar a tua oferta» (Mt 5, 24). Com razão, portanto, Paulo exorta os cristãos «a oferecer os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; é este o vosso culto espiritual» (Rm 12, 1). Esta mensagem abre frutuosas perspectivas para a Missão, para o diálogo interreligioso e para a inculturação do Evangelho. As vias para o contacto salvífico com Cristo Salvador não são reservadas apenas a alguns, mas são abertas a todas as gentes: a quem quer que procure Deus de coração sincero.
Para além da fé e do culto, podemos ler, em perspectiva missionária universal, também os compromissos da vida moral. Os 10 Mandamentos (I leitura) têm o seu fundamento na lei natural, que é anterior à revelação de Deus na Bíblia e na Igreja. Esta verdade tem uma importância extraordinária para o diálogo entre os povos e para o trabalho dos missionários. Os Mandamentos são património espiritual e ético de toda a humanidade, embora a Revelação cristã venha trazer-nos uma maior certeza e plenitude na compreensão da mesma lei natural.
É o que ensina o Catecismo da Igreja Católica. «Os 10 Mandamentos pertencem à Revelação de Deus. Ao mesmo tempo ensinam-nos a verdadeira humanidade do homem. Põem a descoberto os deveres essenciais e, portanto, indirectamente, os direitos fundamentais inerentes à natureza da pessoa humana. O Decálogo contém uma expressão privilegiada da lei natural: «Desde as origens, Deus inscrevera no coração dos homens os preceitos da lei natural. Depois limitou-se a apelar para eles. Foi o Decálogo» (Santo Ireneu de Lion). Apesar de acessíveis à simples razão, os preceitos do Decálogo foram revelados. Para chegar a um conhecimento integral e certo das exigências da lei natural, a humanidade pecadora precisava desta revelação: «Uma completa exposição dos mandamentos do Decálogo tornou-se necessária na condição de pecado, porque a luz da razão se tinha obscurecido e a vontade se tinha desviado» (São Boaventura). Nós conhecemos os mandamentos de Deus através da Revelação divina que nos é proposta na Igreja, e por meio da voz da consciência moral» (CCC, nn. 2070-2071).
São José (estamos próximos da sua festa) entrou de modo singular no mistério pascal de Jesus, de Maria e da Igreja, da qual é Patrono Universal. Ele é modelo insigne de procura, escuta e fidelidade a Deus, ao qual ofereceu o culto do seu coração sincero na exemplaridade de vida.
Se negociamos com Deus, Ele vira-nos a mesa
Ermes Ronchi
Jesus entra no templo de Jerusalém (cf. João 2, 13-25): e é como entrar no centro do tempo e do espaço, no fulcro em torno do qual tudo gira. O que Jesus vai fazer e dizer no lugar mais sagrado de Israel é de capital importância: está em jogo o próprio Deus.
Jesus prepara um chicote e atravessa a esplanada como uma torrente impetuosa, arrasando homens, animais, mesas e moedas. As mesas derrubadas, os bancos virados ao contrário, as gaiolas lançadas ao chão mostram que a reviravolta operada por Jesus é total.
Vendem-se bois para os ricos e pombas para os sacrifícios dos pobres. Jesus abate tudo: acabou o tempo do sangue para dar graças a Deus. Como tinham gritado em vão os profetas: Eu não bebo o sangue dos cordeiros, Eu não como a sua carne; quero misericórdia, e não sacrifícios.
Com o seu sacrifício, Jesus abole qualquer outro; o sacrifício de Deus pelo ser humano toma o lugar dos muitos sacrifícios do ser humano a Deus.
Deita por terra o dinheiro, o deus dinheiro, estandarte erguido sobre todas as coisas, instalado no templo como um rei no seu trono, o eterno vitelo de ouro está espalhado no chão, desmascarada a sua ilusão.
E aos vendedores de pombas diz: não façais da casa do Pai uma casa de mercado. Deus tornou-se objeto de compra e venda. Os espertos usam-no para o lucro, os devotos para o merecer. Dar e ter, vender e comprar ofendem o amor. O amor não se compra, não se mendiga, não se impõe, não se finge.
Não usar com Deus a lei medíocre da troca, onde tu lhe dás qualquer coisa para que Ele te dê qualquer coisa. Como quando pensamos que indo à igreja, cumprir um rito, acender uma vela, dizer aquela oração, fazer aquela oferta, absolvemos o nosso dever, demos e por isso podemos esperar algum favor em troca.
Dessa forma somos apenas cambistas, e Jesus vira-nos a mesa. Se acreditamos que envolvemos Deus num jogo mercantil, temos de mudar de mentalidade: Deus não se compra e é de todos. Não se compra nem sequer ao preço da moeda mais pura.
Deus é amor, quem quer pagar-lhe vai contra a sua própria natureza e trata-o como uma prostituta. «Quando os profetas falavam da prostituição no templo, referiam-se a esse culto, tão piedoso quanto ofensivo para Deus» (S. Fausti): eu dou-te orações e ofertas, Tu dás-me vida, fortuna e saúde.
Casa do Pai, a sua tenda não é só o edifício do templo: não façais comércio da religião e da fé, não façais comércio do ser humano, da vida, dos pobres, da mãe terra. Cada corpo de homem e de mulher é templo divino: frágil, belíssimo e infinito. E se uma vida vale pouco, nada vale tanto quanto uma vida. Porque com um beijo Deus transmitiu-lhe a sua respiração eterna.
Avvenire
Trad. http://www.snpcultura.org
Jesus, lugar do encontro definitivo com Deus
Enzo Bianchi
Neste Terceiro Domingo da Quaresma, a Igreja nos oferece um relato tirado do quarto evangelho, referente à primeira epifania de Jesus em Jerusalém, no início de seu ministério público.
O episódio é introduzido pela anotação temporal: “Estava próxima a Páscoa dos judeus”, a festa que Israel celebra todos os anos na lua cheia da primavera como memorial do êxodo do Egito, a ação salvífica com a qual o Senhor criou seu povo santo, libertando-o da escravidão para conduzi-lo à terra da liberdade.
Essa especificação temporal relativa à subida de Jesus a Jerusalém será retomada outras duas vezes no evangelho (cf. Jo 6, 4; 11, 55). É um detalhe de profundo significado, porque todas as vezes a festa da Páscoa recebe da ação e das palavras de Jesus um significado mais pleno, até a revelação de que ele mesmo é o cordeiro pascal morto na véspera da Páscoa, que ele inaugura a Páscoa de salvação definitiva e universal.
Tendo subido a Jerusalém por ocasião dessa festa, Jesus entra no templo (ierón), o lugar do encontro com Deus, onde está o Santo dos santos, o local de sua Presença (Shekinah) na Terra, mas constata que ele não é respeitado na sua função; ao contrário, de lugar de culto a Deus, tornou-se lugar comercial, sede de tráficos “bancários”, mercado onde reina o ídolo do dinheiro.
O sinédrio, de fato, havia organizado sobre o Monte das Oliveiras um caminho para os animais destinados ao sacrifício, e Caifás tinha reservado uma parte do átrio para o mercado das vítimas necessárias aos sacrifícios. Como é possível tal perversão?
No entanto, de acordo com as invectivas dos profetas, isso ocorreu com o primeiro e o segundo templos (cf. Is 7, 7; Jr 7, 17; Ml 3, 1-6), e continua acontecendo também em muitos lugares cristãos… O mercado – na época, de animais necessários para os sacrifícios; hoje, de objetos sagrados, devocionais – facilmente se instala onde as pessoas acorrem, sempre lentas para crer, mas facilmente religiosas.
É claro, aquele mercado na área do templo, exatamente no átrio reservado aos gojim, às pessoas, para que pudessem se aproximar e buscar o Deus vivo, proporcionava uma enorme riqueza aos sacerdotes, aos serventes do templo e a toda a cidade santa. Em particular, naquele lugar, eram instalados bancos de trocadores de moedas, que permitiam que aqueles que provinham da diáspora trocassem as moedas, fizessem ofertas ao templo e adquirissem as vítimas para os sacrifícios.
Encontrando essa realidade, imediatamente Jesus “fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!’”.
Jesus faz uma ação, um sinal e diz uma palavra. Desse modo, revela-se como um profeta que denuncia o culto perverso, que, com parrhesía, com franqueza, lê a situação presente e ousa declarar diante de todos o triste fim daquela que ainda é a casa de Deus, seu Pai.
Jesus pede para pôr fim àquela prática indigna de Deus, dá um sinal do cumprimento da purificação da casa de Deus anunciada pelos profetas para os últimos tempos e implementa a profecia de Zacarias: “Naquele dia, não haverá mais nenhum comerciante na casa da Senhor” (Zc 14, 21). Como Jeremias, ele critica a prática religiosa que o templo parecia exigir em nome de Deus (cf. Jr 7, 15), mas, dizendo que aquela é a casa de seu Pai, revela que é o Filho, portanto, o Messias, o Filho de Deus (cf. Sl 2, 7), esperado pelos judeus como purificador e juiz.
O gesto feito por Jesus é escandaloso para os sacerdotes e para os homens religiosos da cidade santa. Diante dessa ação que contradiz sua função e autoridade, eles se perguntam quem é esse Jesus que veio da Galileia. Portanto, pedem-lhe as credenciais: que autoridade ele tem? E, se a tiver, que dê um sinal, que mostre sua autorização para agir desse modo!
Ao expulsar todas as vítimas destinadas ao sacrifício pascal, Jesus, de fato, impede a celebração da Páscoa de acordo com a Torá, atenta ao próprio culto. Diante dessa acusação, implícita nas afirmações daqueles homens religiosos que se voltam para ele, Jesus responde com palavras enigmáticas, que são uma profecia, mas que aqueles contestadores não podem compreender em sua verdade. Ele diz, de fato, desafiando-os: “Destruí este santuário (naós), e em três dias o levantarei, o farei ressurgir”.
Jesus identifica a si mesmo, seu corpo, com o santuário, com a tenda levantada no deserto onde Deus habitava, na qual residia a Shekinah. Aqueles inimigos de Jesus podem suprimi-lo, e assim efetivamente acontecerá, porque o levarão à cruz e à morte; mas, em três dias, ele levantará novamente aquela tenda da Presença de Deus que é seu corpo. Será sua ressurreição dos mortos! Mas essas palavras ressoam como incompreensíveis, porque aqueles judeus veem o templo de Deus feito de pedras e se perguntam: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário (naós) e tu o levantarás em três dias?”.
Em todo o caso, Jesus já estabeleceu o sinal, disse a palavra necessária, aquela que quer que o templo não seja casa de comércio, mas casa de Deus, e depois entra no silêncio, em uma tristeza indizível. O templo, lugar dele, por ser casa de Deus, seu Pai, o templo que o deveria ter reconhecido e se aproximado dele como o Senhor, o Kýrios que toma posse dele, precedido por João, o novo Elias (cf. Ml 3, 1-2.23-24), na realidade, não o reconhece, não o acolhe. E, logo depois, a atividade comercial e o sistema bancário retomam exatamente como antes dele, como se Jesus nunca tivesse feito aquele gesto…
Mas, ao lado dessa hostilidade, que só crescerá até a condenação de Jesus à morte, o quarto evangelho também registra a reação dos discípulos que haviam descido com ele a Jerusalém de Caná da Galileia. Quando o viram fazer aquele gesto, que não causou um mal físico a ninguém, que não era um gesto de violência, mas uma mímica altamente expressiva e eloquente, uma clara condenação do sistema religioso sobre o qual se regiam o templo e o sacerdócio, consideraram-no cheio de paixão, zelo, como Elias (cf. 1Re 19, 10.14), e o salmo tantas vezes rezado moldou seu pensamento: “A paixão pela tua casa me consumirá” (Sl 68, 10).
Na verdade, no salmo, o verbo está no passado; aqui, ao contrário, no futuro, como que dizendo que esse gesto o levará a ser consumido como o Cordeiro da Páscoa: sim, essa paixão por Deus levará Jesus à condenação e à morte! E quando Jesus, consumido por essa paixão, ressurgir, pois tal paixão-amor “até o fim” (eis télos: Jo 13, 1) por Deus e pelos homens não podia morrer, então os discípulos se lembrarão das suas palavras sobre a ressurreição em três dias: “Jesus estava falando do santuário (naós) do seu corpo”. Não será reerguido o templo de pedras destruído, mas seu corpo morto se reerguerá para a vida eterna.
Agora, portanto, o lugar do encontro com Deus é o corpo de Jesus, o lugar do verdadeiro culto a Deus é Jesus. É isso que significam suas palavras dirigidas mais tarde a Tomé e Filipe: “Ninguém vem ao Pai senão por mim (…) Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14, 6.9). A economia e os ritos dos sacrifícios animais acabaram para sempre, Jesus é a verdadeira vítima do sacrifício: o único sacrifício de acordo com a revelação de Jesus, de fato, é “dar a vida pelos outros” (cf. Jo 15, 13) e “oferecer o próprio corpo por amor” (cf. Rm 12, 1). Essa é a boa notícia cristã, o Evangelho: o lugar da Presença de Deus não é um edifício, mas é Jesus Cristo mesmo, é um homem, é sua carne em que “habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2, 9).
Consequentemente, o lugar da Presença do Senhor é o corpo de Cristo (cf. 1Co 12, 12-29), que é sua Igreja, porque os cristãos são o templo de Deus (cf. 1Co 3, 16-17). É no corpo de Cristo que se revelou a glória de Deus, e é no nosso corpo que Deus habita agora através de Cristo, na comunhão do Espírito Santo.
Mas devemos confessar: aqueles judeus não conseguiam discernir em Jesus a Presença de Deus, e nós, cristãos, não sabemos discernir que Cristo está em nós. Paulo no-lo repreende: “Examinem a si mesmos e vejam se estão na fé. Ponham-se à prova. Vocês reconhecem que Jesus Cristo habita em vocês, sim ou não?” (2Co 13, 5).
Um Padre do deserto, abba Pambo, se dirigia assim a um irmão: “Tu sabes que és um tabernáculo do Senhor? Sabes que Deus habita no teu corpo e que teus membros são membros de Cristo? É no teu corpo que tu podes dar glória a Deus e fazê-lo habitar no mundo, entre os humanos!”. Uma admoestação que dá vertigem.
Trad. http://www.ihu.unisinos.br
Destruir e reconstruir
José Tolentino Mendonça
É curioso o modo como este passo do Evangelho de S. João termina, porque não deixa de ser desconcertante. Jesus naquela páscoa faz sinais, faz milagres, em Jerusalém. Há quem acredite nesses sinais mas Jesus desconfia dessa fé. Jesus não acredita na crença, na reação que os Seus milagres despertam naquelas pessoas.
Isto é desconcertante porque nós podemos achar que é uma coisa boa: as pessoas assistem a milagres, acreditam em quem os faz. Isso em si é uma coisa boa. É ou não é? É uma coisa boa. Então, como é que Jesus é crítico, afasta-Se, não acredita naquela fé?
Para nós dá que pensar, porque isto também questiona o conteúdo da nossa própria fé. O que é que nos faz acreditar? O que é que nos aproxima de Jesus? O que é que é o cerne da nossa própria religião? O que é que nos liga? É uma fome de milagres? É uma vontade de prodígios? É uma necessidade que Deus resolva as nossas carências, as nossas necessidades? É porque Deus vem, de certa forma, compensar algum buraco, alguma necessidade urgente em nós? É isso que é a razão da nossa fé ou nós seguimos Jesus por outra coisa? Já não é por aquilo que Ele nos dá, já não é por aquilo que Ele nos premeia, que Ele nos oferece, que Ele nos dá a ver? Ou é pela Sua vida, pelo testemunho daquilo que Ele é, daquilo que Ele fez que nós estamos aqui?
A palavra de Jesus desconserta, mas ao mesmo tempo é uma chamada à purificação da nossa própria religião. A religião também precisa ser purificada. Não a religião em abstrato, mas a nossa própria religião, aquilo que está no cerne da nossa relação com o próprio Deus, com o próprio Jesus. Porque, esta imagem que é descrita no Evangelho de S. João do templo, muitas vezes é essa imagem que está dentro de nós – os cambistas, os vendedores disto, os vendedores daquilo. Porque, no fundo, sem darmos conta, reduzimos a religião ou transformamos a religião numa espécie de comércio interior, num sistema de trocas, num mecanismo de compensação, numa expetativa que nós temos em relação a Deus ou que achamos que Deus tem em relação a nós. E, de repente, o Templo já não é um Templo mas é uma praça de comércio e a religião já não é a experiência da gratuidade e do dom, mas é uma troca de serviços, uma troca de benefícios.
Jesus põe em causa este modelo de religião em que muitas vezes assenta a nossa própria espiritualidade e a nossa prática religiosa. Jesus põe em causa esse modelo de religião e desafia-nos a olharmos para o religioso de uma outra forma, como lugar de escuta radical de Deus. Escutarmos a Sua voz, escutarmos a Sua palavra como lugar de uma oração que seja pura, no sentido de que não seja para a imediata satisfação das nossas necessidades, mas seja o colocar a vida em Deus nesta experiência de gratuidade. Amamos a Deus sem ser por nada, como é o verdadeiro amor. O amor por causa disto ou por causa daquilo não é ainda o verdadeiro amor. Amar Deus sem ser por nada, acreditar em Deus sem ser por nada, acreditar por aquilo que Ele é, acreditar como entrega total do que somos. Isso é tornar o templo um Templo.
Quando os judeus tentam aferir porque é que Jesus toma a iniciativa de derrubar, de armar o banzé naquele átrio do Templo, Jesus usa dois verbos que nos fazem mergulhar neste processo de conversão a que a Quaresma nos desafia. Jesus diz: “Destruí este templo e Eu o reedificarei em três dias.” Destruir e reconstruir, apagar e reescrever, morrer e renascer. É o binómio que o próprio processo quaresmal nos desafia a viver. Há coisas a destruir em nós para poderem ser reconstruídas. Há uma imagem que tem de ser superada para poder nascer outra imagem, há práticas que têm de ficar para trás para poderem surgir outras práticas. Há um esvaziamento da nossa vida que é necessário para podermos verdadeiramente renascer. E Jesus, quando falava do destruir e do reconstruir, falava do Templo que é o Seu próprio corpo.
Quando Jesus entra no templo de Jerusalém não é para purificar o templo mas é para o arrasar. Arrasar quer dizer superar aquele modelo de religião em que o espaço físico, a monumentalidade do lugar, a exterioridade ou a lei ainda são o fundamento, em que os ritos ainda são o centro, o âmago. Jesus vem parar esse modelo religioso e vem dizer: agora é o Meu corpo, agora é o vosso corpo, o Templo. Agora é a vossa vida o lugar, esse lugar onde o encontro com Deus, onde o verdadeiro sacrifício, a verdadeira oferta (não é a oferta de uma coisa mas é o dom de si mesmo) ocorre. Por isso, Jesus centra a religião não num templo mas no Seu próprio corpo. E, quando olhamos para o Crucificado nós percebemos que Ele é o nosso Templo, que Ele é o nosso lugar. E, que naquele corpo, naquele corpo vencido, naquele corpo esmagado pelo sofrimento, naquele corpo que é o ícone do amor, que é o ícone do dom, Deus está inteiro. Naquele corpo que morre gritando: “Meu Deus, meu Deus porque Me abandonaste?” Naquele corpo que é o sinal da ausência de Deus, do silêncio de Deus está também a voz de Deus, a palavra de Deus para todos os tempos, para as mulheres e para os homens de todos os tempos.
Por isso, queridos irmãos, é no nosso corpo, é na nossa vida que a expressão de Deus Se manifesta. Isso dá-nos uma responsabilidade por aquilo que somos, por aquilo que vivemos, pela qualidade que empregamos no dia a dia nas pequenas coisas, nas transações da vida, nos seus tráficos que tantas vezes nós abandonamos porque achamos que depois resolvemos a religião de outra maneira, fora da vida ou fazendo um gesto extraordinário, ou estabelecendo um milagre, um protocolo qualquer externo àquilo que vivemos. E Jesus diz: não, é no teu corpo, é no que és, é no fundo do teu ser que tens de exprimir a verdade desta relação. “Destruí este Templo e em três dias Eu o reconstruirei.” Para que serve a Quaresma? Para que serve este tempo que é também um tempo de prova, um tempo exigente, um tempo de ter propósitos. Um tempo em que pelo jejum, pelo encontro fraterno com os irmãos, pela oração nos somos chamados a ir além do habitual, a ir além daquilo que já fazemos, a crescer, a sairmos de nós, a irmos ao encontro de Deus e dos irmãos. Para que serve este tempo? Este tempo serve para reconstruir a vida. E, de facto, irmãs e irmãos, nós precisamos reconstruir os laços da nossa vida, dar força àquilo que vivemos, emprestar aí, a esta vida deslaçada, a esta vida tantas vezes medíocre, a esta vida que fica aquém daquilo que ela pode ser, a esta vida que não nos satisfaz, a esta vida que não reflete o melhor de nós mesmos, aquilo que Deus já criou em nós e que não aparece verdadeiramente expresso nos nossos gestos, nas nossas palavras, nas reações, nos projetos que nos mobilizam. O tempo da Quaresma é um tempo de revisão, é um tempo de formação, é um tempo para nos vermos ao espelho e dizer: não, a vida não pode ser o rame-rame, a vida não pode ser o deixa andar, a vida não pode ser esta coisa automática em que eu rotinizo o meu coração, em que eu me esgoto de forma sonolenta. A vida tem de ser outra coisa.
Esse rasgão, essa abertura, essa brecha, essa possibilidade nova é que é em nós a Páscoa. Jesus faz-nos tomar a sério a nossa vida, faz-nos tomar a sério aquilo que somos. Por isso, nós temos de olhar para este instante, para este momento no seu dramatismo. Porque, no instante, no presente se joga o definitivo. Neste momento eu posso decidir o bem absoluto ou posso decidir perder a vida, posso decidir não escolher o amor.
Por isso, na primeira leitura do livro do Êxodo, Deus é tão perentório a dizer assim: é agora, é no aqui e no agora que se joga a salvação ou a perdição. E nós, cristãos, herdámos essa conceção da vida. Para nós, este momento que estamos a viver, o nosso corpo, não é uma ilusão. Este momento não é apenas um intervalo, este momento é o palco onde a nossa vida se decide nas pequenas coisas. Mas onde o bem, onde o futuro de Deus já se pode tocar, já se pode encontrar. O presente é uma fábrica de transformação de vida, é a nossa manjedoura. A quaresma para os cristãos é um lugar de nascimento e renascimento.
“Destruí este templo e em três dias Eu o reconstruirei.” O Senhor está empenhado em reconstruir a nossa vida. Aceitemos a misericórdia de Deus, o desafio que Deus nos lança e façamos desta Quaresma um tempo em que damos horizonte à nossa própria vida, em que sentimos que estamos a caminhar. Já vamos no terceiro domingo. Até pode acontecer que até aqui nada tenha acontecido e que os nossos propósitos de Quarta-feira de Cinzas (onde é que eles já estão?) já os abandonámos, não somos capazes, não conseguimos, fomos irrealistas, o que julgávamos que íamos fazer não fizemos, por pequenino que fosse. Aconteceu isto, aconteceu aquilo e pronto, os melhores propósitos já se dissiparam. Vamos recomeçar.
No terceiro domingo vamos relançar o nosso caminho quaresmal e acreditar que os pequenos gestos ascéticos que nós fazemos não são em vão. Não escutemos as palavras de Deus em vão e não esgotemos esta oportunidade em vão. Mas procuremos colhê-la como uma hipótese para a nossa vida. Por tonto que nos pareça dizer: eu não vou comer chocolates na quaresma ou eu não vou beber vinho na Quaresma, eu não vou tomar tantos cafés. Parece uma coisa tola, tonta. Quer dizer, não é de pessoas adultas. Mas as pequenas privações num caminho ascético fazem reflorescer a vida, temos de acreditar na proeza das mediações. Por pequeno que seja sejamos fiéis a elas.
Há uma história de um noviço em que o mestre de noviços lhe diz: “Olha, tu todos os dias vais regar uma planta que está seca.” Ele vê a planta seca mas o mestre mando-lhe regar todos os dias. Muitas vezes ele sente a vontade de desanimar, de atirar o balde, colocar a água noutro sítio. Quer dizer, regar a planta seca de que é que vale isso? Mas na história há um momento em que ele vira as costas e que a planta refloresce. É como a nossa vida. Muitas vezes parece que já não vale a pena, parece que já não há remédio, já não há cura para este caminho torto que eu vivo ou esta incompletude. Já sou assim, já tenho de me adaptar aos meus defeitos, já não me consigo corrigir, já não me vou transformar. E, quando volto costas, alguma coisa se consegui, alguma coisa se fez.
Por isso, este caminho quaresmal que seja um caminho de confiança. São pequenos passos, são pequenos gestos, são pequenos propósitos mas recomecemos. Se for o caso, neste terceiro domingo, senão continuemos. Mas façamos verdadeiramente este caminho de exercícios, de manobras espirituais, de transformação, de desapego para podermos chegar à Páscoa e perceber que Ele é sabedoria para nós.
Aquilo que S. Paulo nos diz na Carta aos Coríntios é um desafio muito grande. Eu tenho de transformar o Crucificado num mestre para mim. Aquele que está pendurado na cruz é o meu mestre. Quer dizer, como é que Ele me ensina a viver, como é que Ele me traz a sabedoria, me ilumina o caminho da minha vida?
Rezemos uns pelos outros, irmãos. Ajudemo-nos neste caminho, confirmemo-nos neste caminho e que na oração ao longo da semana tenhamos presente todos os irmãos com quem celebramos ao domingo a nossa fé.