2.º Domingo da Quaresma (B)
Marcos 9,2-10

2.º Domingo da Quaresma 1

Referências bíblicas

1ª leitura: O sacrifício de nosso pai Abraão (Gênesis 22,1-2.9-13.15-18).
Salmo: Sl. 115(116B) – R/ Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos.
2ª leitura: “Deus não poupou seu próprio Filho” (Romanos 8,31-34).
Evangelho: “Este é o meu Filho amado” (Marcos 9,2-10).

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

«Quem é Jesus?» A questão essencial de todo o Evangelho de Marcos (Mc 1,1.11.24; 210-11; 8,29; 15,39) encontra uma resposta na Transfiguração de Jesus (Evangelho). Uma chave de leitura dos textos bíblicos e litúrgicos deste domingo, oferece-a a antífona de entrada: «procurai o rosto do Senhor. O vosso rosto, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim o vosso rosto» (Sl 26,8-9). Uma resposta a tal insistente súplica chega de um «alto monte, retirado», onde Jesus «se transfigurou» perante os três discípulos presentes: «as suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear» (v. 2-3). Marcos insiste no esplendor luminoso, que põe em evidência a identidade de Jesus. A luz não vem do exterior mas emana do interior da pessoa de Jesus. Com razão, Lucas, no texto paralelo, sublinha que Jesus «subiu ao monte para rezar. Enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto» (Lc 9,28-29). É pela relação com o Pai que Jesus é dinamicamente transformado: a plena identificação com o Pai resplandece no rosto do Filho.

O caminho de transformação interior é o mesmo para Jesus e para o apóstolo: a oração, vivida como escuta-diálogo de fé e de humilde abandono a Deus, tem a capacidade de transformar a vida do cristão e do missionário. De facto, a oração é a experiência fundante da missão. Tal foi também a experiência de Pedro, convicto de não ter ido atrás de «fábulas artificiosamente inventadas», tendo sido uma das três «testemunhas oculares… enquanto estava com Ele sobre o monte santo» (2 Ped 1,16.18). Embora no meio de perturbação e atemorizado (v. 6), Pedro teria desejado evitar aquele misterioso «êxodo» a Jerusalém, de que falavam Moisés e Elias com Jesus (Lc 9,31); teria querido deter no tempo aquela bela vinda do Reino (v. 5) como uma perene «festa das Tendas» (Zc 14,16-18). Ultrapassada a crise da paixão, a escuta do Filho amado do Pai (v. 7) e a amizade com Ele confirmaram a vocação e a dedicação de Pedro para uma missão corajosa de anúncio, até ao martírio.

Pedro teve de sair dos seus esquemas mentais para entrar no modo de pensar de Deus (Mt 16,23). O mesmo aconteceu com Abraão, do qual o segundo domingo da Quaresma nos apresenta sempre uma das vicissitudes emblemáticas: a chamada, a aliança, o filho Isaac. Ele compreendeu que não devia seguir a praxis dos sacrifícios humanos bastante difundida juntos dos povos vizinhos (moabitas, amonitas e outros). A mensagem da narração (I leitura) é clara: «O primeiro ensinamento, o mais evidente e imediato, é que o Deus de Israel repudia, como um crime abominável, o sacrifício de crianças. Sempre foi uma característica dos ídolos aquela de pretender sacrifícios humanos. O Deus de Israel, pelo contrário, desviando o braço de Abraão que estava para atingir o filho, mostrou ser o Senhor que ama a vida (Sab 11,26), aquele que dá a todos a vida (Act 17,25) e não quer a morte de ninguém (Ez 18,32)» (F. Armellini). Analisando a narração do sacrifício de Isaac com os critérios da inculturação missionária, resulta evidente que a Palavra de Deus avalia, julga, corrige, purifica os costumes dos povos.

O rosto transfigurado de Jesus é um prelúdio da sua realidade pós-pascal e definitiva; a mesma que é prometida também a nós: «Aquele corpo, que se transfigura diante dos olhos atónitos dos apóstolos, é o corpo de Cristo nosso irmão, mas é também o nosso corpo chamado à glória; aquela luz que o inunda é e será também a nossa parte de herança e de esplendor. Somos chamados a partilhar tanta glória, porque somos “participes da natureza divina” (2Ped 1,4). Uma sorte incomensurável». Assim deixou escrito Paulo VI na mensagem que deveria ter pronunciado no Angelus dominical de 6 de Agosto de 1978, festa da Transfiguração, poucas horas antes de morrer.

Na vocação à vida e à glória encontra o seu fundamento a dignidade de cada pessoa humana, que por nenhum motivo deve sofrer deturpação. Infelizmente o rosto de Jesus encontra-se muitas vezes desfigurado em tantos rostos humanos, como afirmavam os Bispos latino-americanos no documento de Puebla (México, 1979): «Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire na vida real feições muito concretas, nas quais deveríamos reconhecer as semelhanças do Cristo sofredor, do Senhor que nos questiona e nos interpela» (n. 31). E apresentam de seguida uma sequência de deturpações: rostos de crianças doentes, abandonadas, exploradas; rostos de jovens desorientados e explorados; rostos de indígenas e de afro-americanos marginalizados; rostos de camponeses abandonados e explorados; rostos de operários mal pagos, desempregados, despedidos; rostos de idosos marginalizados pela sociedade familiar e civil (cf. documento de Puebla, n. 32-43). E a lista poderia continuar com as situações que cada um conhece no seu próprio ambiente e a nível mundial. Qualquer rosto deturpado, de quem quer que seja, é um apelo premente, dirigido: a cada um de nós, aos responsáveis das nações, aos missionários do Evangelho de Jesus.

A religião pode ser muita coisa, e muita coisa diferente, e muita coisa em contraste. A religião não começou com a Bíblia, a religião é própria do ser humano, começou com o primeiro Homem que habitou a terra, com este desejo, este não sei quê, esta vontade de uma relação não apenas com o visível mas com este vestígio de infinito que cada um de nós trás dentro de si. Isto começou cedo e de formas muito diferentes.

Nós colhemos um bocadinho da cultura clássica, um bocadinho do mundo egípcio, um bocadinho do mundo mesopotâmico. Todos aqueles grandes impérios e civilizações que rodeavam o pequenino Israel, todos aqueles povos eram profundamente religiosos. Dos Romanos dizia-se que eram os mais religiosos dos Homens. De maneira que a religião é uma experiência humana, antropológica muito difundida. E, de facto, pode ser muita coisa, e foi muita coisa ao longo do tempo. Quando nós olhamos para os livros de antropologia e tentamos perceber um bocadinho o que eram as religiões arcaicas, nós percebemos que o modelo dominante, é o modelo da rivalidade de deus com o Homem. Pensem, por exemplo, no mito de Prometeu. Prometeu que vai roubar o fogo aos deuses e que depois é castigado por isso. Os mitos gregos implicam desejo de autonomia do Homem e ao mesmo tempo o castigo que o divino impõe ao humano. É um esquema de rivalidade e de satisfação. Os deuses têm de estar satisfeitos. Por isso, a religião é também em grande medida uma religião de sacrifício. O modelo sacrificial é o modelo que acompanha religiões em geografias diferentes. É preciso imolar ao deus, imolar a própria humanidade, oferecer os sacrifícios, os holocaustos porque o deus tem de estar satisfeito e não sentir o Homem como uma ameaça.

O que é que é típico da religião bíblica, da revelação judaico-cristã? É o esvaziamento do esquema sacrificial. Porque Deus, mais do que os sacrifícios, está interessado em criar com o ser humano uma relação de amizade e de amor, uma relação de confiança, uma verdadeira aliança. Deus não quer a nossa pele, Deus não quer o nosso sofrimento, Deus não quer torturar-nos. Nós não somos escravos de Deus, nós somos filhos e Ele quer-nos para Si numa relação de amor, numa relação de amizade, numa verdadeira confiança. E temos esse texto paradigmático, um texto também fundamental, muito comentado ao longo dos séculos, que lemos nesta passagem do livro do Génesis que conta a subida de Abraão, pai de todos os crentes, ao monte y para sacrificar o filho Isaac. Deus diz: “Abraão, sacrifica-me o teu filho.” E ele aceita fazer esse caminho. É uma subida que nós podemos imaginar atordoada, noturna. Abraão sobe despedaçado, Isaac não percebe o que é que está a acontecer, mas sobem assim ao monte Moriá. E quando estão no alto do monte e Abraão está com a faca para cortar o pescoço de Isaac, o Anjo do Senhor pega-lhe na mão e diz: “Não é isso que eu quero.” Agora há uma coisa mais importante que o sacrifício e que esvazia a própria dinâmica sacrificial que é a aliança, que é a confiança. A fé não vai ser mais tu sacrificares ao Deus, mas vai ser tu fazeres um caminho na confiança com Deus e uma confiança que é paradoxal.

Porque é que Deus coloca Abraão naquela situação? É para que ele experimente que a confiança, a nossa confiança em Deus, é muitas vezes uma confiança no limite, uma confiança para lá daquilo que são as nossas expetativas, a nossa razão. É uma confiança que nos contradiz na nossa própria esperança. Esperar contra toda a esperança, a fé é isso. Uma relação de confiança absoluta, que é uma coisa que se calhar nem sabemos bem o que é, ficamos a tatear o que é mas é poder experimentar que Deus está mesmo no paradoxo – foi aquilo que Abraão experimentou.

Por exemplo, Madre Teresa de Calcutá dizia: “Eu creio em Deus não por aquilo que Ele me dá, mas por aquilo que Ele me tira.” Só uma grande crente pode dizer isto! Reparem: nós não dizemos isto sem as nossas entranhas se mexerem. Nós acreditarmos em Deus por aquilo que Ele nos dá é bom, é óbvio, é natural. Mas acreditarmos percebendo que mesmo o silêncio de Deus, mesmo a interrogação de Deus, mesmo este caminho que muitas vezes nós fazemos sentindo que ninguém nos acompanha, que Deus não nos vale, que Deus não nos ouve, mesmo fazendo este caminho na confiança e sentindo que essa é uma forma de aliança, que essa é uma forma de comunhão, não é fácil.

De maneira que o que é que Abraão representa para nós? Representa a fé esvaziada de sacrifício, que já não é o sacrifício mas que é uma relação de amizade, uma relação de confiança onde eu vou até ao paroxismo da própria confiança: “Eu vou para lá de tudo, eu sei que eu não vejo, eu não sinto, eu não compreendo, eu não entendo como é que isto vai ser mas eu sei que Tu estás aí.” E é, no fundo, esta a fé de Abraão e é uma fé que nos costura. O fundamento da nossa fé é a fé abraâmica.

É interessante o texto que nós lemos da Carta aos Romanos, uma pequenina passagem do capítulo VIII que usa uma linguagem sacrificial e que muitas vezes nos confunde, nos baralha. Quer dizer, Deus não poupou o seu próprio Filho mas entregou-O à morte por nós. Nós ouvimos isto e caímos de lado. Mas como é que Deus pode ser assim, pode entregar a coisa mais preciosa que Ele tem, pode não poupá-Lo, quando nós, humanos, fazemos tudo para poupar os nossos filhos e Deus não poupa o seu próprio Filho? Como é que isto é possível?

É interessante perceber como nos Evangelhos (já o antigo Testamento faz isso, mas no Novo Testamento isso é muito claro) se usa uma linguagem ainda sacrificial, mas para esvaziar, para subverter radicalmente a teoria do sacrifício. Porque, o que é que é o sacrifício? As nossas sociedades, mesmo as nossas sociedades contemporâneas, que muitas vezes até se dizem sociedades pós-religiosas, sociedades secularizadas, são sociedades onde há uma lógica vitimária, há uma lógica de sacrifício. Há uma violência latente nas nossas sociedades que se cumpre ritualmente assim: para tudo encontra-se um bode-expiatório que carrega com as culpas de toda a gente, ele é imolado diante de todos – agora é imolado na praça pública – e nós respiramos de alívio porque encontramos uma vítima que tinha os pecados de toda a gente. As pessoas não assumem, não contamos mas ele carrega as culpas de toda a gente como se ele fosse o único culpado e ele torna-se a vítima sacrificada. A sociedade respira de alívio porque se libertou de uma fonte de mal, de uma coisa muito perniciosa. Agora podemos voltar à vida normal.

Este movimento de rivalidade e morte, que se traduz sempre no sacrifício do outro, é alguma coisa que as nossas sociedades vivem no coletivo e que nós vivemos individualmente. Porque também nós temos esta rivalidade mimética, esta rivalidade uns com os outros. Achando que o outro é que é o nosso problema, que o outro é que nos dá cabo da paciência, que se o outro não existisse a nossa vida seria muito melhor. Então, de uma maneira ou de outra, não chegamos a vias de facto, mas simbolicamente nós fazemos um ritual de sacrifício do outro. Afastamos o outro, cancelamos o outro, eliminando-o da nossa vida, e respiramos fundo porque o problema era o outro, não era o caminho que nós não fizemos, o percurso não cumprido em nós. O problema era o outro.

O que é que temos em Jesus? Jesus é o contrário da lógica vitimária. Porquê? Porque Ele faz da Sua vida dom, Ele diz: não vou ficar a rivalizar, eu ofereço-Me, eu Sou dom. E o que é que os Evangelhos dizem? Ao contrário daquilo que as sociedades dizem às cegas: aquele que é o bode-expiatório é o culpado, a vítima é sempre culpada. No Cristianismo nós dizemos: a vítima é inocente. Ele foi morto, Ele foi pendurado na cruz mas Ele é inocente, Ele é inocente. Então, nós colocamo-nos ao lado da vítima. E, em termos de civilização, em termos de cultura, em termos de humanidade, em termos de sociedade, em termos daquilo em que nós acreditamos é um salto total. Porque, um cristão tem de estar ao lado da vítima, um cristão tem de esvaziar as lógicas sacrificiais de todo o tipo, religiosas, políticas, económicas, humanas. Tem de esvaziar essas lógicas sacrificiais que estão metidas dentro de nós. Porque há uma violência que não é do mundo, é nossa, que nós carregamos dentro e precisamos de nós purificar dessa violência. E como é que nos purificamos dessa violência? É percebendo que a vítima é inocente e que o caminho de redenção não é o sacrifício mas é a dádiva, é o amor, é a oferta de si, é esta radical abertura, é este abraço que fica para sempre tatuado na cruz, é isto que nos salva.

Nós hoje, neste segundo domingo da Quaresma, lemos o texto da Transfiguração. É um texto muito belo, uma experiência espiritual forte que os Apóstolos tiveram no meio das suas dúvidas. Mas, eu só sublinho a conclusão dessa experiência espiritual da transfiguração. O texto de Marcos diz assim: ”De repente, olhando em redor, não viram ninguém a não ser Jesus.”

Queridos irmãos, o que é este caminho quaresmal que nós estamos a fazer? É isto, é desimpedir a nossa visão. Porque, na nossa visão, Jesus está lá dentro mas está tanta tralha. Jesus está aqui mas nós vemos através de tantos ramos, de tanta deformação, de tanta conveniência. Não, o olhar desimpedido: “Não viram mais ninguém a não ser Jesus com eles.” A experiência quaresmal, a experiência pascal, queridos irmãs e irmãos, é isto: cada um de nós sentir na vida concreta Jesus consigo. Mas olhando para Ele e entendendo-O. Entendendo o que significa Aquele que desarmou a lógica sacrificial, que Se oferece a Ele próprio como vítima, que está inocente mas faz a oferta de Si. Ele connosco a inspirar-nos, a dizer-nos qual é o caminho, isto é que é o itinerário quaresmal.

Vamos rezar ao Senhor, eu acho que há muito trabalho que precisamos fazer. Cada um de nós. Porque, um Cristianismo adulto pede de nós um conhecimento de Jesus percebendo o que é que está ali em causa. Porque a Cruz não é uma devoção. A devoção é bonita, mas a devoção tem de estar baseada num fundamento racional. E o fundamento racional é compreendermos o que é que este gesto significa de transformação, de mudança, de inversão do modelo, de paradigma e o novo modelo que a cruz representa.

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O rosto da glória

De repente, aquele Jesus de todos os dias, cujos traços eram mais do que conhecidos de seus discípulos, mostrou-se resplandecente de luz. Notemos que este relato -espécie de experiência mística de Pedro, Tiago e João- encontra-se inserido nos anúncios da Paixão. Compreende-se que os discípulos tivessem necessidade de ser fortalecidos, pois iriam ressentir-se com a perspectiva da crucifixão de Jesus, tomando-a como uma derrota. O mesmo se dá conosco, aliás, por via da certeza de nossa morte. Jesus já lhes teria falado por certo sobre a sua ressurreição. Eles, contudo, conforme sublinhado na última frase do evangelho, não compreendiam o que queria dizer «ressuscitar dos mortos». Nós também não, devemos confessar. A visão do Cristo radiante de luz podia fazê-los tomar consciência de que haveria uma saída positiva, feliz, para o drama que iria se produzir. Não tenhamos medo de transpor isto para os dias de hoje. Da mesma forma que todo o conjunto dos evangelhos, também este relato não fala somente de acontecimentos passados, mas refere-se ao que acontece hoje em nossas vidas. Nós também temos necessidade de ganhar altura em relação ao que a vida nos dá por viver e aos acontecimentos que afetam a humanidade atualmente. «Não tenhais medo», por detrás de tudo isso, mantém-se radiante esta luz de glória. Luz que secretamente está sempre em trabalho, no interior de tudo o que temos de atravessar. Hora virá em que ela se manifestará com todo o seu brilho, em plena luz do dia. Nada pode reduzir ao silêncio a Palavra que nos faz ser. Para sempre.

A religião da luz

Há momentos em nossas vidas que são de «transfiguração»: momentos nos quais vemos claro. Então, a alegria nos visita e podemos compreender, ou entrever, a verdade última de nossas existências. Mas, depois, uma névoa nos recobre e vemos apenas Jesus que está só, este Jesus de todos os dias que acreditamos conhecer e que não nos surpreende mais. É neste claro-escuro que temos de caminhar: o pão de cada dia da nossa vida cristã não é a visão, mas a fé. Importante tomar consciência de tudo isso, porque temos dificuldade em reconhecer que a mensagem evangélica é uma “boa notícia” (é este o sentido da palavra «evangelho»). Muitos de nós fabricamos uma religião masoquista, feita de prescrições exigentes, de pesadas proibições. Tristeza e abstinência generalizada… Pois invertamos a perspectiva e entreguemo-nos à alegria que nasce da certeza de sermos «salvos». Salvos de quê? Salvos da morte, bem entendido. Temos de nos persuadir de que nada de grave, de verdadeiramente grave, pode nos acontecer. O que quer que aconteça, estamos indo para a luz. Tudo o que vivemos será transfigurado, «até mesmo os nossos pecados», como escreve Santo Agostinho. Mas, sobre tal formulação, melhor será meditar após passada, e não no momento mesmo (um mau momento), da «tentação». Isto tudo nos ajuda a compreender que a última palavra da fé é a que chamamos de «ação de graças», ou seja, o reconhecimento. No vocabulário religioso, fala-se muito em «sacrifício». Não esqueçamos que o último sacrifício, aquele em sua forma perfeita, é o «sacrifício de ação de graças».

Para além de Moisés e de Elias

Moisés costumava frequentar as montanhas: foi na solidão do Sinai que recebeu a Lei. Também Elias, figura simbólica de todo o profetismo, era familiarizado com o monte Horeb. Por isso os evangelistas situam a Transfiguração «sobre uma alta montanha». Jesus vai substituir, vai realizar e cumprir, completar perfeitamente uma superação: «a lei e os profetas», expressão que recapitula toda a primeira Aliança. Pedro, Tiago e João, ali representantes da nova Aliança que irá se concluir na Páscoa, são tomados de terror, ainda que Pedro tenha dito: «É bom ficarmos aqui.» A sua proposta, de erguer três tendas, não é inocente. Quer não só manter-se instalado na manifestação da glória, mas põe no mesmo plano Jesus, Moisés e Elias. Ora, justamente quando chegou o momento em que a Lei foi superada e em que as profecias se cumpriram. A questão não é inventar uma religião que, ao lado da fé no Cristo, conserve o culto da Lei, fundando-se na expectativa da realização das profecias. Com Cristo, tudo já foi dado. Trata-se agora de acolher este dom e de fazê-lo nosso. A este acolhimento chamamos de fé. Vai ser preciso descer da montanha e pôr-se a caminho de Jerusalém. Assim como Moisés, antigamente, havia conduzido o seu povo na travessia do mar, do deserto e do Jordão, Jesus vai atravessar a morte para fazer-nos atravessá-la.

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Se o primeiro Domingo da Quaresma nos apresentou Jesus em confronto com a tentação, face a face com Satanás na solidão do deserto, este segundo Domingo mostra-nos Jesus que conhece a transfiguração do seu rosto e de toda a sua pessoa, tornando-se participante da indizível glória do Pai. No itinerário quaresmal, a transfiguração de Jesus indica o fim a que tende este caminho: a ressurreição, de que a transfiguração é antecipação e profecia.

Alguns dias depois de ter anunciado aos seus discípulos a necessidade da sua morte e ressurreição (cf. Lucas 9, 22) e de lhes ter exposto com clareza as condições para o seguir nesse caminho (cf. Lucas 9, 23-26), Jesus «levando consigo Pedro, João e Tiago» – os discípulos que lhe eram mais íntimos – «subiu ao monte para orar». Lucas é o evangelista que mais insiste na oração de Jesus: Ele reza no momento do batismo recebido de João (cf. Lucas 3, 21), reza antes de escolher os Doze (cf. Lucas 6, 12-13), reza na iminência da sua paixão (cf. Lucas 22, 39-46)…

Também a transfiguração de Jesus ocorre no contexto da sua oração, no mistério do seu encontro pessoalíssimo com o Pai: «Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se». A oração é para Jesus espaço de acolhimento em si da presença de Deus. Presença que é santidade, isto é, alteridade capaz de transfigurar aquele que aceita acolhê-la radicalmente na sua vida. A alteração no rosto de Jesus manifesta que agora ele narra o rosto invisível de Deus (cf. João 1, 18). A oração, além disso, é comunicação de Deus a Jesus mediante a sua “conversação” com Moisés e Elias, que personificam a Lei e os Profetas, ou seja, a Escritura do Antigo Testamento.

Sim, a oração de Jesus é essencialmente escuta da Palavra de Deus contida na Escritura, uma escuta que se torna encontro com quem é vivente em Deus, uma verdadeira experiência da comunhão dos santos. É nesta oração que Jesus encontra a confirmação do seu caminho, orientado agora para a paixão, morte e ressurreição, em continuidade com a história da salvação conduzida por Deus com o seu povo. É por isso que Moisés e Elias «falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém». Não por acaso, pouco depois especifica-se que Jesus voltará resolutamente o seu rosto e os seus passos para a cidade santa (cf. Lucas 9, 51), decidido a viver o que na oração compreendeu ser a sua missão.

«Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele.» Mas esta experiência extraordinária, que custa o preço da luta para permanecer vigilante, dura um momento: a transfiguração de Jesus é antecipação da comunhão que espera todos os homens no Reino, é a primícia do mundo completamente sujeito ao sinal da beleza de Deus; mas precisamente é só uma primícia… É por isso que enquanto Pedro, sem saber verdadeiramente aquilo que diz, pede a Jesus para prolongar essa experiência através da construção de três tendas, a nuvem da presença de Deus envolve-os, e dela vem uma voz que proclama: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o».

O grande mandamento «escuta Israel» (Deuteronómio 6, 4) agora ressoa como «escutai-o, o Filho», a Palavra feita carne em Jesus (cf. João 1, 14), o homem no qual a Escritura encontra o seu cumprimento (cf. Lucas 24, 44). Eis o essencial da nossa fé!

O Evangelho deste Domingo coloca-nos portanto em guarda: Jesus não pode ser a projeção dos nossos desejos mas é o Jesus Cristo segundo as Escrituras, e para o conhecer é preciso escutar, meditar e rezar a Palavra contida em toda a Escritura. Tudo isto tendo consciência de que a oração não nos dispensa do esforço quotidiano da obediência a Deus através de Jesus Cristo, ou seja, do cumprimento da nossa vocação pessoal; pelo contrário, a oração ajuda-nos a preencher essa vocação de sentido porque transfigura os acontecimentos e as relações de todos os dias. Foi assim com Jesus, pode ser assim também para nós.