Meditação sobre o Evangelho
4.º Domingo do Tempo Comum (B)
Marcos 1, 21-28
Entraram em Cafarnaúm. Chegado o sábado, veio à sinagoga e começou a ensinar. E maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei. Na sinagoga deles encontrava-se um homem com um espírito maligno, que começou a gritar: «Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus». Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem». Então, o espírito maligno, depois de o sacudir com força, saiu dele dando um grande grito. Tão assombrados ficaram que perguntavam uns aos outros: «Que é isto? Eis um novo ensinamento, e feito com tal autoridade que até manda aos espíritos malignos e eles obedecem-lhe!». E a sua fama logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.
Aventura de liberdade
José Tolentino Mendonça
Queridos irmãs e irmãos,
Nesta liturgia do quarto domingo temos um conjunto de leituras que nos fornecem entradas no mistério cristão, mas também na construção da nossa própria identidade. Nós, como discípulas e discípulos do Senhor, temos uma forma de existência que se vai construindo no tempo e que se vai alimentando com a Palavra. Por isso, nós somos uma comunidade de leitura, nós precisamos de fazer este exercício de estar de pé ou sentados a escutar uma Palavra e depois permitir que essa Palavra ressoe dentro de nós. Porque é a relação vital, umbilical, com esta Palavra que também vai construindo a pessoa que cada um de nós é chamada a viver à medida de Jesus Cristo, à forma interior do próprio Jesus.
Sabemos que isso é um caminho, é um caminho de descoberta da própria proposta cristã e é um caminho de descoberta também de nós mesmos, daquilo que nós somos nesta relação com Cristo. Que não é uma relação estática, pré-determinada, pré-feita, mas é uma relação que se vai construindo. É uma vocação. É alguma coisa que se plasma, que se constrói, que se urde no próprio tempo ao longo da nossa vida. Há que colher três imagens destas três leituras, porque nós somos também muito construídos interiormente pelas imagens e as imagens trazem uma sugestão que não é apenas racional, mas também emocional, desce também às profundezas da nossa própria consciência.
Na primeira leitura do livro do Êxodo há uma imagem inesperada: Deus está a falar com Moisés, e Moisés vem fazer o relatório dos desejos de Deus. E um dos desejos é que Deus não se manifesta diretamente porque eles não aguentam. Não aguentam que Deus Se manifeste através de sismos, de labaredas, de vulcões, que mexa com a ordem cósmica. E pedem a Deus: Senhor, não Te queremos ver diretamente. E há a coisa espantosa, Deus diz a Moisés: “Eles têm razão.” Deus dá-lhes razão. É inesperado. O que é que Deus quer dizer com isto, que nós temos razão?
A revelação de Deus tem de se adequar à pessoa que nós somos, não se pode revelar de uma maneira que nós não consigamos suportar essa forma, ou que seja uma gramática ininteligível para nós. Não, a revelação de Deus, por vontade do próprio Deus, mas também por declaração das nossas limitações e da nossa singularidade, a revelação de Deus adequa-se. De maneira que Deus não fala uma língua estranha, uma língua que nós não sabemos, Deus não vai bater à porta onde nós não estamos e não passa no caminho que nós não frequentamos, não, Deus adequa-se, Deus vem ao nosso encontro. Deus quer falar uma linguagem que nós podemos acolher. Isso é muito importante na história que nós, mulheres e homens, vamos construindo na vida. Onde é que nós encontramos Deus? Às vezes pensamos: Deus é um mistério tão grande, Deus ultrapassa-me. Por um lado é verdade, mas por outro, Deus faz-se acessível, Deus torna-Se compreensível, Deus deixa-Se achar, deixa-se encontrar.
No livro de Isaías, que depois S. Paulo há de recuperar, há esta frase espantosa: “Deus deixa-Se encontrar até por àqueles que não O procuram”, quanto mais por aqueles que O desejam, quanto mais por aqueles que têm sede, têm fome do Seu rosto, da Sua revelação. Deus deixa-se encontrar. Por isso, tenhamos confiança, tenhamos confiança. Às vezes no fundo de nós sentimo-nos órfãos, sentimos que Deus está distante, sentimos a necessidade de uma palavra que não vem, de uma luz que não vemos. Tenhamos confiança. Deus manifesta-se de uma forma que nós podemos tocar. E, se a sua revelação parece demorada, aprendamos também a abraçar as demoras de Deus, sabendo que Deus é fiel à pessoa que nós somos. Deus é fiel. Deus manifesta-Se na nossa vida e manifesta-se de um modo que não nos emudece de medo, que não nos apavora de susto, mas manifesta-se de um modo que nós possamos colhê-Lo na Sua força, podemos dialogar com Ele.
Por isso, Deus instituiu os profetas, para falarem em Seu nome ao Povo de Deus e serem presenças de Deus, serem catequistas, transmissores da sua Palavra, da sua exortação. Isto é, Deus tem muitos meios, Deus chega à nossa vida através de muitas mediações. Por isso, a primeira palavra é uma palavra de confiança.
Depois temos esta leitura da Primeira Carta aos Coríntios, do capítulo VII, que parece um bocado estranha, aqui no nosso contexto. Quer dizer, a maior parte de nós somos casados e de repente é um elogio das virgens, das pessoas que ficam solteiras porque diz: esses podem preocupar-se apenas com o Senhor, todos os outros andam divididos. De maneira que parece uma leitura estranha para ser lida numa comunidade como a nossa, parece uma leitura que só poderia ser lida num mosteiro, num convento e não numa igreja aberta à vida e à existência como é a nossa.
O que é este capítulo VII da Primeira Carta aos Coríntios? Nós temos de ter em conta o contexto para poder entender o texto de Paulo. Que contexto é este? No mundo antigo não há espaço para o sujeito individual, um homem que nasce já tem o seu destino cumprido. E tem o seu destino cumprido porquê? Porque o Homem não se pertence a ele mesmo. A sua raça, a etnia em que nasce marca definitivamente o percurso da sua vida. E depois é o Estado, ou a Cidade-Estado, ou o Reino. A pessoa é propriedade do Estado, ou é propriedade de uma família e não há espaço para o indivíduo. O que para nós hoje é uma coisa absolutamente sagrada, consignada na Carta dos Direitos Humanos, é uma coisa muito nova e para a qual o Cristianismo deu um contributo absolutamente decisivo. Porque este texto, que nos parece um bocado alienado e patético de S. Paulo, no fundo, é um grande manifesto sobre a liberdade humana. O que Paulo está aqui a fazer é a defender a liberdade individual. O que Paulo diz é assim: não é obrigatório as pessoas casarem-se, o Estado não é dono do meu corpo, a família não manda em mim, eu posso ser livre para construir um destino alternativo, um destino diferente. O que Paulo está a fazer é a fazer o elogio, isto é, está a rasgar no mundo do seu tempo a possibilidade para a liberdade individual. Que é dizer: nós já não estamos sujeitos à lei do coletivo, nós não somos propriedade de uma raça ou de um Estado mas nós vivemos um chamamento que é individual. Então, cada pessoa tem de ter a possibilidade de viver o seu chamamento, de viver a sua vocação.
Então, Paulo não está a desclassificar as mulheres casadas que andam preocupadas com os maridos e não com Deus, ou os homens casados que querem agradar às mulheres e não a Deus, mas Paulo está aqui a transformar a sociedade do seu tempo, abrindo espaço para a vocação individual.
No fundo, este é um contributo civilizacional do Cristianismo. Hoje, muitas vezes, pensa-se que o Cristianismo coarta a liberdade individual, que o Cristianismo tem um discurso que impede os indivíduos de viverem as suas opções. Ora, isso é uma ignorância histórica porque na História do mundo, na História da nossa Civilização foi precisamente o Cristianismo que potenciou a emergência do indivíduo. S. Paulo – às vezes encontramo-lo com tão má imprensa – é de certa forma o fundador do sujeito. Um pensador a quem devemos textos fundamentais acerca do corpo, e daquilo que é a corporeidade fazendo o elogio daquilo que é próprio de cada um. Por isso, este texto é um manifesto da liberdade cristã. Reparem: S. Paulo esteve preso várias vezes por liberdade de pensamento. O Cristianismo começou por ser um delito, começou por ser crime de pensamento. Porque apareciam uns grupos, umas igrejas, umas associações a pensar completamente diferente do que a sociedade e a desmantelar a organização social daquele tempo. O Cristianismo está sempre associado à aventura de liberdade. E nós, mulheres e homens cristãos, temos de dar o testemunho de que o Cristianismo nos liberta, nos torna livres, potencia a nossa capacidade de ser. O Cristianismo abre espaço, abre espaço para a própria pessoa. Coloca no centro a pessoa e não o Estado e não o clã e não a raça. Não é por eu ter nascido judeu ou não-judeu que estou mais próximo ou mais longe de Deus, porque isso já não depende de uma eleição étnica, depende da identidade que eu vou construindo. Eu posso construir essa identidade seja eu quem for. Isto é uma revolução. É uma coisa completamente nova e que abre um espaço inacreditável para o mundo.
Por isso é que é muito importante o contexto. Porque assim percebemos que quando Paulo está a elogiar esta mulher que não se casa, no fundo, está a dizer: cada pessoa tem de ter a possibilidade de viver a sua vocação seja ela qual for. É um exercício de liberdade que Cristo nos dá e que deve continuar hoje a animar-nos. A Igreja tem de ser também uma escola de liberdade, que nos ensine liberdade, o que é o verdadeiro espírito de liberdade. Como diz Paulo na Carta aos Gálatas: “Cristo libertou-nos para sermos verdadeiramente livres.” Verdadeiramente livres.
Por isso, nós cristãos, temos de ter liberdade para pensar o mundo. Temos de ter uma criatividade, temos de ser uma vanguarda profética no mundo. Não somos apenas herdeiros de uma forma, de uma organização, de um modo de ser. Não, nós somos herdeiros de um Espírito, de um Espírito. Que muitas vezes nos faz perguntar: porque não? Porque não ir por ali? Somos herdeiros desse Espírito que nos faz olhar para o mundo com os olhos de Deus. Sem as grades, sem as margens, sem as classes, sem as estruturas que muitas vezes são caixas para arrumar e para dividir e para descartar partes da humanidade. Por isso, este manifesto da liberdade que Paulo nos dá, neste capítulo VII da Carta aos Coríntios, tem de continuar a animar as nossas vidas.
Depois temos o Evangelho, o maravilhoso Evangelho de S. Marcos. São 16 capítulos numa linguagem muito simples, mas parece que nós estamos a ler um romancista russo, parece que estamos dentro de um romance de Dostoiévski. E assim, nesta leitura que nós ouvíamos hoje, Jesus entra na sinagoga e há um endemoniado, há gritos, há um homem que se arrasta violentamente, há as entranhas que explodem, há os demónios que falam. Parece que nós estamos a viver um romance gótico e o Cristianismo também é isso. Porque é assim: o que é que é este encontro com Jesus? Até onde é que Ele vai? O que é que Jesus toca em mim?
O Evangelho de Marcos mostra-nos desde o princípio que Jesus vem tocar as profundezas do meu ser. Jesus não toca só a minha pele, Jesus não toca só o exterior ou não toca só o mental ou não toca só o religioso. Jesus toca a totalidade da pessoa humana no seu mistério, no seu enigma, na sua luz e na sua treva, na sua profundidade insondável. Jesus toca para resgatar a pessoa completamente, a pessoa na sua totalidade. Por isso, a salvação não é um exercício de manicure, um exercício de plástica, não é um melhoramento. É um encontro que resgata a pessoa na sua totalidade, na sua profundeza.
Deixemo-nos tocar por Jesus, deixemo-nos tocar. Se calhar há zonas de nós que nós nunca permitimos que Deus entrasse, que Deus descesse até elas. Deixemo-nos tocar na profundidade do nosso ser, naquilo que é mais denso em nós, deixemo-nos tocar. Que a Boa Nova do Evangelho chegue às profundidades do meu ser, do meu consciente, do meu inconsciente, do meu desejo, do meu sonho e que nos deixemos de facto evangelizar. Que a luz de Cristo chegue a todos os pontos da nossa vida. Porque Ele vem para isso. Salvar é resgatar por inteiro a pessoa que nós somos. Nas alegrias, nos nossos medos, nas nossas coisas altas ou no nosso rés da terra. É salvar tudo aquilo que nós somos.
Deixemo-nos ao longo deste ano chamar, tocar. Sabendo que Jesus não se escandaliza connosco. Jesus abraça-nos por inteiro, Jesus ama-nos. Jesus vem-nos trazer a misericórdia de Deus. Por isso, a Palavra que o Evangelho nos lança, descrevendo-nos estes encontros com Jesus, é de uma profunda confiança.
Vamos pedir por nós, por esta semana que começa, por este ano comum que estamos a viver para que seja uma grande oportunidade para a vida de cada um de nós.
Deus liberta-nos de tudo o que nos mantém cativos
Ermes Ronchi
Estavam maravilhados com o seu ensinamento. O deslumbramento, essa experiência feliz que nos surpreende e desconstrói os esquemas, que se introduz como lâmina de liberdade em tudo o que nos oprime: rumores, palavras, processos mentais, hábitos, que nos faz entrar na dimensão da paixão, que é capaz de mover montanhas.
Resgatemos o deslumbramento, a capacidade de nos encantarmos de cada vez que encontramos alguém com palavras que transmitem a sabedoria do viver, que tocam o coração da vida porque nascem do silêncio, da dor, da profundidade, da proximidade da sarça ardente. A nossa capacidade de experimentar alegria é diretamente proporcional à nossa capacidade de nos deslumbrarmos.
Jesus ensinava como alguém que tem autoridade. Autorizadas são apenas as palavras que alimentam a vida e a fazem florir. Jesus tem autoridade porque nunca está contra o ser humano, mas sempre a favor dele, e sabe-o algo no interior de quem o escuta. Autorizadas e verdadeiras são apenas as palavras tornadas carne e sangue, como em Jesus; a sua pessoa é a mensagem.
Como emerge do excerto que se segue: Havia um homem possuído por um espírito impuro. O primeiro olhar de Jesus repousa sempre na fragilidade do ser humano, e a primeira de todas as pobrezas é a ausência de liberdade, como para um homem «possuído», prisioneiro de alguém mais forte que ele.
E vemos como Jesus intervém: não faz discursos sobre Deus, não procura explicações sobre o mal, antes mostra Deus que se imerge nas feridas do ser humano; é Ele mesmo, Deus, que se imerge, como cura, na vida ferida, e mostra que o Evangelho não é um sistema de pensamento, não é uma moral, mas uma admirável libertação.
Ele é o Deus chamado liberdade e que se opõe a tudo o que aprisiona o homem. Os demónios dão-se conta: o que há entre nós e Tu, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sim, Jesus veio para arruinar tudo o que arruína o homem, veio para demolir prisões; veio trazer espada e fogo para cortar e queimar tudo o que não é amor. Veio para arruinar o reino dos desejos equivocados que se apoderam e devoram o homem: dinheiro, sucesso, poder, egoísmos.
A esses, que dirigem os corações, Jesus diz apenas duas palavras: cala-te, sai. Como sonhou Isaías, que as espadas se transformem em arados, que se quebre a concha e apareça a pérola. A pérola da criação é o homem livre e amante. Posso tornar-me assim, também eu, se o Evangelho for para mim paixão e encanto. Padecimento e parto. Então descobrirei «Cristo, minha doce ruína» (Turoldo), que arruína em mim tudo o que não é amor, que dos meus braços liberta todas as coisas vazias e dilata os horizontes que respiro.
Ermes Ronchi In “Avvenire”
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
http://www.snpcultura.org
A jornada de Cafarnaum
Enzo Bianchi
Depois do relato da vocação dos primeiros quatro discípulos (cf. Mc 1, 16-20), Marcos enfatiza que Jesus não está mais sozinho. Agora, há uma pequena comunidade no seguimento desse rabi que veio à Galileia a partir das margens do Mar Morto após a prisão do seu mestre e profeta João Batista, e essa comunidade crescerá e acompanhará Jesus, envolvida na sua vida até o fim.
O evangelista nos apresenta, portanto, um dia típico vivido por Jesus e pelos seus discípulos: a “jornada de Cafarnaum” (cf. Mc 1, 21-34), uma pequena cidade situada ao norte do Mar da Galileia, centro comercial, lugar de passagem entre a Palestina, o Líbano e a Assíria, cidade com pessoas variadas, escolhida por Jesus como “residência”, como lugar onde ele e sua comunidade tinham uma casa (cf. Mc 1, 29.35 etc.), uma morada onde paravam de vez em quando, nas pausas dos seus itinerários na Galileia e na Judeia.
Como um dia era vivido por Jesus? Ele pregava e ensinava, encontrava-se com as pessoas libertando-as do mal e curando-as, rezava. Depois, certamente havia um tempo e um espaço para comer com os seus, para estar com sua comunidade e para ensiná-la como era preciso viver para acolher o reino de Deus vindouro.
Eis como o Evangelho nos narra essa jornada de Jesus. É um sábado, o dia do Senhor, no qual o judeu vive o mandamento de santificar o sétimo dia (cf. Ex 20, 8-11; Dt 5, 12-15) e vai para a sinagoga para o culto. Jesus e seus discípulos também se dirigem à sinagoga de Cafarnaum, onde, depois da leitura de um trecho da Torá de Moisés (parashah) e de uma perícope dos Profetas (haftarah), um homem adulto podia tomar a palavra e comentar aquilo que havia sido proclamado.
Jesus é um simples crente do povo de Israel, é um leigo, não um sacerdote, e exerce esse direito. Vai ao ambão e faz uma homilia, da qual, porém, Marcos não nos diz o conteúdo, ao contrário do que Lucas faz em relação à homilia proferida por Jesus na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-21).
E eis que “todos ficavam admirados com o seu ensinamento”, atesta o evangelista: sem manifestar o conteúdo preciso da sua pregação, ele enfatiza que os ouvintes ficavam tomados por estupor (exepléssonto) ao escutá-lo. Certamente, nesse ensinamento, havia o anúncio do reino de Deus que vem, havia o chamado à conversão (cf. Mc 1, 15), mas o leitor aqui, acima de tudo, é convidado a captar a “autoridade” (exousía) de Jesus, bem diferente da dos escribas, dos especialistas das Sagradas Escrituras. Não que estes não tivessem autoridade, porque, entre eles, havia mestres que sabiam despertar discípulos e tocar os corações dos ouvintes. Mas a autoridade do escriba, habitualmente, era a de um mestre que havia recebido o ensinamento de outro mestre antes dele, em uma tradição, em uma transmissão que remontava a Moisés.
Jesus, por outro lado, tem uma autoridade semelhante à de Moisés, que lhe vem do fato de ter sido tornado profeta por Deus e de ser enviado por ele. Não esqueçamos que Marcos acaba de apresentar Jesus como aquele sobre o qual os céus se abriram e desceram o Espírito de Deus e a sua Palavra que o definiu como Filho amado, habilitando-o, assim, ao ministério profético (cf. Mc 1, 10-11). João Batista, ao apresentar Aquele que vem como “o mais forte” (Mc 1, 7), também havia indicado Jesus como um homem repleto do poder do Espírito Santo.
Jesus, portanto, mostra que tem uma autoridade inédita, rara. Não é uma palavra como a dos profissionais religiosos, dos muitos escribas encarregados de estudar e explicar as Escrituras. O que há de diferente na sua pregação?
Podemos dizer, pelo menos, que nele há uma palavra que vem da sua profundidade, uma palavra que parece nascer de um silêncio vivido, uma palavra dita com convicção e paixão, uma palavra dita por alguém que não só crê naquilo que diz, mas também o vive. É sobretudo a coerência vivida por Jesus entre pensar, dizer e viver que lhe confere essa autoridade que se impõe e é performativa.
Atenção: Jesus não é alguém que seduz com sua palavra elegante, erudita, literalmente cinzelada, rica em citações culturais; ele não pertence ao filão dos pregadores que apenas impressionam e seduzem a todos sem nunca converter ninguém. Em vez disso, ele sabe como penetrar no coração de cada um dos seus ouvintes, que são impelidos a pensar que o seu ensinamento é um “ensinamento novo”, sapiencial e profético ao mesmo tempo, uma palavra que vem de Deus, que sacode, “fere”, convence.
Sabemos bem: todos nós desejamos tal pregador nas nossas liturgias dominicais, mas, às vezes, ficamos decepcionados. Por outro lado, quem prega nas nossas assembleias não é o Filho de Deus que se fez homem; às vezes, é alguém que está cansado e até frustrado na própria missão, às vezes, está tão forçado a repetir ritos e palavras, que lhe faltam convicção e paixão.
No entanto, eu creio que, mesmo nessa situação de pobreza de algumas assembleias litúrgicas, se alguém tem o coração aberto e desejoso de escutar a Palavra de Deus, qualquer um de seus fragmentos sempre o alcança… Já diziam os rabinos: se a Lei de Deus foi dada entre trovões, ruídos, sons, mas foi acolhida pelos crentes, a pregação também, que às vezes é apenas ruído, pode transmitir a Palavra de Deus a quem tem fome dessa palavra.
A autoridade de Jesus mostra-se, logo depois, em um ato de libertação. Na sinagoga, há um homem atormentado por um espírito impuro, um homem em quem o demônio está em ação. Não detenhamos a nossa atenção na violência e no barulho com que esse homem se expressa, de acordo com a descrição típica do estilo oriental, imaginativo. Vamos à substância: há um homem em quem o diabo opera de modo particular, em que a força que se opõe à de Deus tomou um grande espaço; nessa pessoa, há um espírito impuro que se opõe ao Espírito Santo de Deus que habita em Jesus. A presença de Jesus na sinagoga é uma ameaça para essa força demoníaca, e eis, então, que a verdade é gritada: “Que queres de nós, Jesus nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o santo de Deus”.
Significativamente, esse espírito impuro fala de si mesmo no plural, apresentando-se como uma fileira de forças maléficas, demoníacas; como um poder que, posto contra a parede, reage gritando com violência, mas proclamando uma fórmula cristológica verdadeira: “Tu és o santo de Deus” (cf. Jo 6, 68-69).
Isso, porém, tem como fim gerar escândalo e incredulidade, porque essa força plural não quer ter nada a ver com Jesus. Mas ele intima esse poder: “Cala-te!”, impede-lhe que faça uma proclamação sem adesão, sem seguimento; depois, liberta o homem daquela presença devastadora e mortífera. O sinal da libertação ocorrida é um grande grito: “O espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu”.
Note-se a imposição do silêncio por parte de Jesus: o grito do endemoninhado é formalmente uma confissão de fé, a identidade de Jesus não pode ser proclamada facilmente demais, como se fosse uma fórmula doutrinal ou, pior ainda, mágica. É diabólico confessar a reta fé sem se pôr no seguimento de Jesus!
Ao longo de todo o Evangelho segundo Marcos, é testemunhada essa preocupação de Jesus acerca da manifestação da própria identidade: ele não deve ser divinizado rapidamente demais, não se deve fazer isso por estar encantado com os prodígios realizados por ele, nem se deve fazer isso porque nos entusiasmamos com ele.
Só se poderá fazer isso quando, tendo seguido Jesus até o fim, ele for visto pendurado na cruz. Só então – atesta o Evangelho – a confissão do leitor pode ser verdadeira, feita na verdade e com profundo conhecimento, junto com o centurião que, vendo Jesus pendurado no lenho, proclama: “Verdadeiramente, esse homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 39). O melhor comentário é uma palavra de um monge do século XII, Guigo I, o Certosino: “Nua e pendurada na cruz, deve ser adorada a verdade”.
E eis que Marcos, criando uma inclusão com o início do relato (“todos ficavam admirados com o seu ensinamento”), anota: “E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade: ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!’”.
As pessoas presentes na sinagoga de Cafarnaum se interrogam cheias de medo: escutaram e viram que até mesmo as potências do mal são vencidas por Jesus graças à sua “palavra nova”, eficaz. O reino de Deus realmente se aproximou, e Jesus é cada vez mais reconhecido como uma presença através da qual o próprio Deus fala e age em toda a Galileia, a terra destinatária da sua pregação.
Missão: Evangelho e libertação do mal
Romeo Ballan
«Deus é médico e é também medicamento!», dizia justamente o santo capuchinho Leopoldo Mandic (1866-1942) aos seus penitentes no confessionário de Santa Cruz em Pádua. Palavras em total sintonia com o trecho evangélico de hoje. Desde o início do seu Evangelho, Marcos apresenta Jesus como uma figura extraordinária em palavras e gestos: um mestre que provoca admiração, porque ensina com autoridade moral (v. 22), isto é, com eficácia; um taumaturgo que com um simples gesto e uma ordem («cala-te, sai») expulsa de um homem um espírito impuro (v. 25-26). Temor, surpresa, fama, admiração, mas também muitas esperanças, são os sentimentos que aquele novo Rabi misterioso, convincente e poderoso, suscita no coração de todos «imediatamente por toda a parte» (v. 28). Dessa forma, toma corpo em Jesus aquele profeta ideal que Deus tinha prometido ao seu povo por meio de Moisés (I leitura). Em poucas linhas, Marcos lança as bases para que o catecúmeno – e hoje o cristão – possa fazer um progressivo caminho à descoberta de Cristo, um itinerário de escuta e de procura, caminhando da obscuridade para a luz, para a Páscoa e a missão.
O episódio do homem possesso por um espírito impuro, que grita e se contorce, induz a algumas reflexões sobre a existência dos espíritos do mal que, em formas múltiplas e dramáticas, atormentam as pessoas no corpo, na psique e no espírito. É sabido que algumas manifestações atribuídas ao diabo, eram, e são ainda hoje, simplesmente doenças, mesmo se pouco conhecidas. Este facto porém não deve justificar as dúvidas sobre a existência do espírito maligno ou sobre a acção negativa que tal espírito tem sobre as pessoas. Negá-lo seria ingenuidade, que serviria apenas para favorecer a expansão do mal no mundo. Os Evangelhos apresentam-nos numerosos milagres de Cristo sobre pessoas que eram vítimas de males estranhos de natureza psicossomática. A acção sanativa de Jesus abarca a pessoa de modo integral: Ele cura, simultaneamente, o corpo, a psique e a alma.
Para fazer frente ao mal, ao destino e às forças negativas em geral, todos os povos fizeram recurso a meios como o espiritismo, a adivinhação, o ocultismo, confiando-se a magos, bruxos, astrólogos, feiticeiros, videntes, adivinhos, horóscopos, etc… Deus tinha já proibido estas práticas ao seu povo (Dt 18,10-11). Porque se trata, demasiadas vezes, de um obscuro mundo de fraudes, que explora – em troca de chorudas compensações económicas – os receios, a ingenuidade, a credulidade das pessoas, a ignorância sobre Deus, gerando falsas consolações, seguidas rapidamente por frustrações e desespero. Segundo a experiência comum dos missionários que operam em várias partes do mundo, medos e enganos são sinais típicos de paganismo. Mas são realidades que continuam a serpentear entre os cristãos, quando estes não estão totalmente convertidos interiormente: quando não aprenderam, por um lado, a aceitar alguns limites conaturais à vida humana e, por outro, a confiar na orientação amorosa e providente do Pai da Vida. Frequentemente alguns resíduos de paganismo continuam a conviver em pessoas crentes, por vezes também em pessoas de vida consagrada.
O caminho de conversão é necessário para todos e dura toda a vida, porque cada pessoa humana nasce pagã, isto é, não cristã. Uma pessoa não nasce cristã: torna-se cristã. O caminho de conversão recomeça com cada pessoa que nasce: de facto, o Baptismo não é senão o início de um processo de crescimento espiritual. A conversão cristã consiste na progressiva libertação dos medos, dos ídolos e das múltiplas formas de falsidade. Expondo-se sem véus à verdade do Evangelho, cada pessoa faz experiência e dá testemunho da liberdade interior que brota da adesão a Cristo. Os santos são pessoas que, com a graça divina, atingiram um maior grau de libertação das formas de paganismo. De facto, a adesão a Cristo gera liberdade, porque só Ele é a verdade que torna livres (Jo 8,32; 14,6). Porque Jesus, com o seu sofrimento ajuda-nos a dar sentido ao nosso sofrimento e a enfrentar as provações com serenidade.
A pregação evangelizadora, embora sempre benévola e compreensiva para com as pessoas que erram ou são doentes, deve ser vigorosa e acutilante contra o mal. O facto que o endemoninhado do Evangelho, esteja primeiro tranquilo na sinagoga e, depois do ensinamento autorizado de Jesus, comece a rebelar-se e a gritar contra Ele (v. 22-24), convida a reflectir sobre a força e autenticidade da nossa pregação. Esta não pode ser indulgente ou branda para com o mal, por medo de incomodar, mas deve sacudir as consciências, estimular as pessoas a uma mudança de vida e indicar o caminho que conduz ao encontro verdadeiro com Deus e com os irmãos, na comunidade dos crentes em Cristo. Só assim o anúncio missionário do Evangelho de Jesus exerce o seu poder libertador e salvador: expulsa os demónios, cura as feridas, renova e transforma as pessoas desde dentro.