4.º Domingo do Advento – ano B
Lucas 1, 26-38
Naquele tempo, o Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José. O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo: «Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David; reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo: «Como será isto, se eu não conheço homem?».
O Anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus. E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então: «Eis a escrava do Senhor; o faça-se em mim segundo a tua palavra».
O anjo entra em sua casa
Marcel Domergue sj
A “Força de Deus” (é este o sentido do nome Gabriel) foi enviada a uma entre todas as províncias, cujo nome vem declinado: a Nazaré, na Galileia. Gabriel veio encontrar-se com uma mulher entre todas e o seu nome também nos foi comunicado: Maria, que está noiva de um homem que não é um homem qualquer: chama-se José. O amor com o qual Deus nos ama não é, portanto, um amor global, abstrato, voltado à humanidade em geral. Não: é um amor que se dirige a cada um em particular, pois foi Deus que, aliás, nos concedeu a cada um o dom de existir. Podemos dizer que cada um de nós é amado e buscado como se fosse o único no mundo. E este amor, no entanto, nos invade para nos atravessar e seguir até os outros. Na Anunciação, ele se dirige, através de Maria e de José, para este Jesus, descendente de Davi, mas que ainda não estava ali. A partir de Jesus é que o amor irá reunir a humanidade inteira a qual, de alguma forma, nele irá fundir-se. Então, todos se tornarão Um. O amor que vem de Deus será como uma circulação sanguínea que irriga todos os membros. A Igreja, corpo do Cristo, é a figura desta humanidade unificada. Na origem de tudo isto está o “Sim” de Maria à invasão divina. Devemos compreender que a Anunciação não se refere somente a Maria, a José e a Jesus, mas a cada um de nós e à humanidade inteira. A humanidade completada, perfeita, não é uma coleção de indivíduos justapostos, mas a unidade de um só corpo. A criança que está prometida a Maria traz consigo a humanidade toda. Não olhemos a Anunciação como se fosse um acontecimento exterior a nós: ela não é. Estamos todos incluídos nela. E mais, devemos compreender que este relato não fala apenas de algo que se passou dois mil anos atrás, mas refere-se também ao que nos acontece hoje: Jesus vem ao mundo e a cada um de nós sem cessar, e vem de novo, sempre.
Do medo à fé
Jamais saberemos o que se esconde sob esta figura da visita do anjo. Há aí qualquer coisa de indizível, sem dúvida, de não representável. Por mais que o anjo tenha trazido uma boa notícia, a primeira reação de Maria foi de medo. O anjo então lhe disse: «mè phobou», ou seja, não tenhas medo. Ela terá de viver a passagem do medo à fé, passagem que temos todos de cumprir e que representa a própria substância da nossa relação com Deus. Passagem a se fazer e refazer, o que vale até mesmo para Maria. O anjo irá deixá-la, a luz deslumbrante se apagará e tudo irá voltar ao mais prosaico cotidiano. Terá agora de crer sem ver. Serão trinta anos de rotina, mais três anos de uma aventura incompreensível e inquietante: de fato, em Mateus 12,46 e Marcos 3,32, não vemos Maria em busca de recuperar Jesus? Enfim, na Cruz, a Espada da Palavra, espada de dor, a traspassará (ver Lucas 2,35, para ler em paralelo com Hebreus 4,12). Ter-se-á cumprido então tudo o que se achava escondido no relato da Anunciação e encontraremos Maria com os apóstolos para uma nova gestação, a do novo Corpo do Cristo: a Igreja. Mas, por enquanto, fiquemos com Maria na hora da fecunda visita de Deus e não esqueçamos que, guardadas as devidas proporções, é também a nós que esta passagem da Escritura se refere. Abramo-nos à visita de Deus e façamos para Ele uma morada dentro de nós.
Filho de Deus, Filho do homem
As palavras que o anjo diz a Maria para anunciar o nascimento do Cristo podem causar-nos admiração. Ele, por certo, dá à criança que está por vir o título de «Filho de Deus», mas, para nos atermos ao texto, o futuro desta criança limita-se a herdar o trono de Davi seu pai, e a reinar para sempre sobre a casa de Jacó… Daí se entende que, mesmo depois da Ressurreição, os discípulos perguntassem a Jesus: «Senhor, é agora o tempo em que irás restaurar a realeza em Israel?» (Atos 1,6). Nada está dito sobre a salvação da humanidade inteira. Talvez Maria não estivesse ainda em condição de receber esta mensagem. Notemos o momento em que o nome de Davi vem citado duas vezes na Anunciação: uma vez no versículo 27, para nos dizer que José é «da casa de Davi», e uma vez no versículo 32, onde lemos que Deus dará a Jesus «o trono de Davi seu pai». Por ser filho de José é que Jesus pode ser chamado de Filho de Davi. O que quer que pensemos da paternidade de José, guardemo-nos de subestimá-la. Não é dito que Maria fosse da casa de Davi; prima de Isabel, mais parece ser de linhagem sacerdotal. Acrescentemos que o «Nada a Deus é impossível» do versículo 27 é uma retomada das palavras dirigidas a Sara, a propósito do nascimento naturalmente impossível de Isaac (Gênesis 18,14). Maria vem fechar e coroar a lista das maternidades «milagrosas» da Bíblia.
O anjo anuncia: a Vida virá até ti
Ermes Ronchi
A incarnação do Verbo é como uma semente lançada ao sulco do solo. A semente cai e leva para dentro da terra uma energia de vida. A terra à sua volta envolve-a e alimenta-a, cede-lhe os seus elementos químicos inertes, e a semente transforma-se numa dimensão superior: do frio escuro da terra extrai cor, perfume e sabor, que se manifestam na mais pequena flor ou na árvore secular (G. Vannucci).
A nossa fé começa por uma anunciação: um anjo afirma que o Omnipotente se faz criança, frémito no ventre de Maria, desejo de leite e carícias.
A anunciação é o ponto de êxtase da história humana, a fresta por onde entra a água de uma outra fonte, a abertura através da qual o divino se enxerta, como um ramo de oliveira no velho tronco, que reaprende a florir. Esse anúncio é uma fenda de luz pela qual a nossa história respira, abre as asas, levanta voo.
A primeira palavra do anjo a Maria, “chaire”, não é uma simples saudação; dentro dela vibra aquela coisa boa e rara que todos nós, todos os dias, procuramos: a alegria – “sê feliz”. Não exige: “reza, ajoelha-te, faz isto ou aquilo”. Mas simplesmente: abre-te à alegria, como uma porta se abre ao sol. Deus aproxima-se e cinge-te num abraço, Ele vem e traz uma promessa de felicidade.
A segunda palavra revela o porquê da alegria: és cheia de graça. Uma palavra nova, nunca antes soletrada na Bíblia ou nas sinagogas, literalmente inaudita, que faz tremer Maria: Deus inclinou-se sobre ti, enamorou-se de ti, deu-se a ti, e tu transbordas de Deus. O teu nome é: amada para sempre. Ternamente, livremente, sem arrependimentos, amada.
E anuncia que Deus escolhe um ventre de mulher, que entra na nossa corrente de santos e pecadores, nesta corrente grávida de lama e ouro; que se espalha por todas as veias do mundo, até aos últimos ramos da criação. Percebe-se que Maria fique sem palavras e que responda primeiro com o silêncio, e depois com uma pergunta: como é possível?
A vocação de Maria é a nossa própria vocação: todos somos chamados a ser mães de Jesus, a torná-lo vivo, presente, importante neste caminho, nesta casa, nas nossas relações.
O anjo Gabriel é novamente enviado a cada casa para anunciar a cada um: «Sê feliz, também tu és amado para sempre, a Vida virá até ti». Eu acredito num anjo que tem a semente de Deus na voz; acredito num Menino, do ventre de uma mulher, que é a história da ternura de Deus, imagem alta e pura do rosto do ser humano.
Ermes Ronchi, In “Avvenire”
http://www.snpcultura.org 20.12.2014
Deixar o céu falar… e adorar
D. António Couto
- Este Domingo IV do Advento deixa-nos à beirinha do Natal do Senhor. O Evangelho neste dia proclamado (L” 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lc 1, 28), não tenhas medo» (Lc 1,30), diz a Maria o anjo enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mt 28,9), «não tenhais medo» (Mt 28,5). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!
- O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra de Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lc 1,29). «Conceberá no ventre» o Filho de Deus (Lc 1,31-33). «Conceber no ventre» é um pleonasmo intencional só dito de Maria por duas vezes (Lc 1,31 e 2,21), claramente para a pôr em pura sintonia com o Deus do «ventre das misericórdias» (Lc 1,78). Note-se como, na sequência do texto, de Isabel só se diz que «concebeu» (Lc 1,36). Surge então a esperada objeção de Maria: «Como será isso, se não conheço homem?» (Lc 1,34). O anjo explica que essa conceção terá a ver com a intervenção de Deus, pois se trata do Filho de Deus (Lc 1,35). Já atrás Maria tinha sido apresentada como «virgem casada» (“parthénos emnêsteuménê”) (Lc 1,27). Não se trata de uma subtileza, mas de um estatuto jurídico em que as pessoas consagravam a Deus a sua virgindade e se dedicavam completamente a Deus. Casavam-se, não em ordem à procriação, mas à proteção mútua. Este estatuto jurídico, não sendo usual no mundo judaico do seu tempo, está, porém, solidamente documentado nos últimos séculos antes de Cristo e depois de Cristo.
- Ultrapassada a objeção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lc 1,38). Na Bíblia, apenas os grandes chamados (Moisés, Josué, David) são denominados «Servos do Senhor», sendo Maria a única mulher assim denominada. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!
- Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa basílica, em três planos, foi inaugurada a 25 de março de 1969 e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição “Verbum caro hic factum est” [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.
- Em consonância com a música do Evangelho, o Segundo Livro de Samuel documenta, no extrato lido hoje (7,1-16), o desejo de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!
- Aí está também São Paulo a expor-nos, no final da Carta aos Romanos (16,23-25) a grande teologia bíblica do Mistério (“mystêrion”) do Amor de Deus, Mistério escondido eternamente em Deus (Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26), mas já presente e atuante na história dos homens desde a Criação (Jo 1,3; Cl 1,16) e agora dado a conhecer (“gnôrízô”) em Cristo (Rm 16,25-26; Ef 1,9; 3,3.10; Cl 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita, doação do Dom e dicção do Dito, totalmente entregue aos homens, para a viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (“próthesis”) eterno divino (Rm 8,28; Ef 1,11), a Vontade (“thélêma”) eterna divina (Gl 1,4; Ef 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Ómega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2Pd 1,4; 1Jo 3,2). Ao contrário do significado usual que damos à palavra «mistério», na Bíblia, como se vê, «mistério» não é o que não se sabe, mas o que Deus, por graça, nos dá a saber. E é tanto e adorável, e, visto apenas do nosso pequeno patamar, impensável!
- É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor. O Salmo 89 insinua-se-nos nas cordas do coração e não nos deixa parar de cantar!
António Couto, bispo de Lamego
O Natal que se aproxima seja Santo e Verdadeiro na vida de todos nós
Dom Alberto Taveira
Aprendemos no Catecismo que Deus é todo poderoso – onipotente, sabe tudo – onisciente – e está em toda parte – onipresente. No entanto, falamos com frequência de casa de Deus, referindo-nos aos templos, reconhecendo que o Senhor, por pura bondade, escolhe lugares que se tornam sinais de sua presença e de sua graça. Assim as nossas Paróquias, Santuários, ou outros templos e espaços sagrados, inclusive dedicados com os ritos previstos pela Igreja, tornam-se convite ao louvor de Deus, ao recolhimento, à celebração dos Santos Mistérios e à vida em comunidade.
O Rei Davi tinha no coração, pela devoção e gratidão amadurecidas no correr dos anos, com as muitas aventuras de graça e de pecado, o desejo de edificar para Deus um Templo. A resposta veio pelo profeta Natan: “Vou preparar um lugar para o meu povo, Israel: eu o implantarei, de modo que possa morar lá sem jamais ser inquietado. Os homens violentos não tornarão a oprimi-lo como outrora, no tempo em que eu estabelecia juízes sobre o meu povo, Israel. Concedo-te uma vida tranquila, livrando-te de todos os teus inimigos. E o Senhor te anuncia que te fará uma casa” (2 Sm 7, 1-16). Deus se antecipa e seu amor paterno e infinito é que prepara uma casa para seu povo. Casa aqui é família, a dinastia nascida de Davi e a certeza do cumprimento das promessas feitas por Deus.
Antes o Senhor se antecipara, pensando o mundo como casa para a humanidade, na criação do universo. O conceito original de ecologia remete a esta ideia de casa, com o necessário equilíbrio de todos os elementos que contribuem para a felicidade das pessoas. Quando nos distanciamos da certeza da criação, com a qual sabemos que o Senhor acompanha a vida humana e não se afasta da obra a nós confiada, surgem os extremismos tão característicos de nosso tempo. De um lado, a casa da humanidade pode ser mal cuidada, e as agressões à natureza pululam por toda parte, com as consequências de todos conhecidas. Nos últimos meses, muitos atribuíram a São Pedro a seca que assolou regiões antes abundantes de chuvas, esquecendo-se de que já estamos pagando caro pelo nosso pouco cuidado com a casa da humanidade. Outro desequilíbrio acontece com uma verdadeira divinização da natureza e de suas forças. É que acreditar em Deus Criador e Providente, que tem um plano de amor e um projeto de felicidade para a humanidade, acaba incomodando. É mais fácil fazer de Deus apenas uma energia difusa!
Entretanto, a casa edificada por Deus Criador foi confiada à humanidade, quando a narrativa do Livro do Gênesis (Gn 1-2) mostra a responsabilidade do cuidado da vida entregue aos nossos primeiros pais e a toda a sua descendência, na qual estamos incluídos. E da grande casa comum podemos chegar às casas das pessoas, chamem-se assim ou ganhem outros títulos, dos barracos, taperas, casebres ou choupanas, passando pelas edificações dos projetos habitacionais, ou pela casa construída ou adquirida com tanto esforço pelas famílias, para se tornarem lares acolhedores. Daí se pode chegar a mansões ou palácios. A casa atrai por ser ambiente de intimidade, convivência feita de liberdade, espaço de encontro.
O Anjo Gabriel encontrou a Virgem Maria em sua casa, (Cf. Lc 1, 26-38), certamente um lugar muito simples, pois tudo indica que sua família era gente dos pobres de Javé, um resto que não perdera a esperança no cumprimento das promessas de Deus. Na intimidade de um recinto feito sagrado pela vida da família, entra o emissário do Céu! Casa e templo se confundem de uma forma magnífica, pois ali Deus realizava o que anunciara séculos antes a Davi. E agora, maior do que as expectativas humanas poderiam imaginar, o ventre daquela mocinha de Nazaré se torna o verdadeiro Templo onde Deus habita. Deus não só envia o Messias, mas este é o próprio Filho de Deus que se faz carne! Todas as distâncias entre o Céu e a terra são superadas. A responsabilidade da resposta ao plano de Deus foi confiada a uma adolescente! Cada dia a Igreja recorda este mistério, rezando ao som das badaladas dos sinos do “Angelus”: “O Anjo do Senhor anunciou a Maria, e ela concebeu do Espírito Santo… Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra… E o Verbo se fez Carne e habitou entre nós”.
De Nazaré o mistério se espalha! Para o nascimento do Menino Jesus, a casa foi um estábulo e o berço uma manjedoura. Pastores e Magos encontram numa cena bucólica aparentemente irrisória de mãe com filho nos braços, a resposta aguardada por séculos, mesmo por aqueles que não tinham dado nome à esperança. Mais tarde durante sua vida pública, o Filho do homem, que não tem onde reclinar a cabeça (Cf. Mt 8, 18-20), entra na casa e na vida das pessoas, especialmente os pobres pecadores, restaura a alegria, consola os sofredores, cura os enfermos, perdoa, salva! Um dia, é na casa de um homem que preparou “uma sala no andar de cima” (Cf. Lc 22, 9-12), no calor amigo de uma refeição pascal, que ele assegura sua presença eucarística! Até que ele venha, a Igreja se reúne para fazer casa aos seus filhos, na força da Palavra e da Eucaristia! De novo aquela sala, feita Cenáculo, foi lugar da oração fervorosa pela vinda do Espírito Santo. Daquela casa saíram às ruas e praças, para levar aos confins da terra o anúncio da salvação.
Não nos é difícil retornar à casa de nossas famílias ou à casa do mundo. Para aguardar e apressar a vinda do dia de Deus (Cf. 2 Pd 3, 11-14), deixemos que o alegre anúncio do Anjo Gabriel a Maria seja dirigido a cada fiel. Ao dar a resposta pessoal, certamente desproporcional à que ofereceu a Virgem Mãe, nasça em nós, no Natal que estamos para celebrar, o compromisso de preparar a casa do coração para que Deus edifique sua morada em nós. Brote um renovado espírito de solidariedade, que nos leve a colaborar para que mais pessoas tenham a casa do teto e do afeto, especialmente os que sofrem mais. Do Presépio de Belém “Casa do Pão” venha a graça da responsabilidade da partilha, para edificarmos o mundo segundo o plano de Deus. O Natal que se aproxima seja Santo e Verdadeiro na vida de todos nós. Para tanto, seja nosso coração casa onde Deus habita!
Deus procura uma casa no coração de cada pessoa
Romeo Ballan mccj
Estamos às portas do Natal; nas famílias cristãs e nas igrejas prepara-se o presépio que é um dos sinais típicos do Natal porque reconstrói o lugar e o ambiente em que Jesus nasceu. Os textos bíblicos e litúrgicos deste Domingo apresentam-nos o tema do lugar onde Deus nasce e onde Ele habita. Onde encontrar uma casa para Deus? Qual é a Sua preferência?
O rei David (I. leitura), que tinha finalmente estabelecido tréguas com todos os inimigos que o rodeavam e que tinha conseguido construir para si mesmo uma casa em madeira de cedro (v.1-3), decide construir também um templo para a arca do seu Deus. Decerto que planeava um templo grandioso, que não tivesse rival entre os templos dos povos vizinhos. Mas o profeta Natan reprova tal projecto: antes de mais David precisa de reconhecer que foi Deus quem o escolheu quando ainda andava atrás do rebanho (v.8), e que as suas vitórias militares deve-as à presença dinâmica daquele Deus que está sempre ao seu lado: “estive sempre contigo, onde quer que foste” (v.9). E mesmo a dinastia e a descendência a que ele dá tanto valor, há-de recebê-la como um dom “estável para sempre” (v.16.11), parte de um projecto muito mais amplo que vem do próprio Deus, e que Ele mesmo realizará.
A manifestação plena da morada de Deus no meio da família humana é a vida humana de Jesus que é o Filho de Deus na nossa carne (Evangelho). O seio de Maria Virgem é escolhido, por obra do Espírito Santo, como lugar da morada humana de Deus, que para este fim preparou para si mesmo uma pessoa especial, a “cheia de graça” (v.28). Vários Padres da Igreja sublinham o facto que Maria concebeu o filho de Deus antes no seu coração e depois no seu corpo. Isto é, tornou-se a morada de Deus pela fé e pelo amor, antes da sua maternidade física. Tudo isso foi possível graças à plena disponibilidade de Maria que acolheu aquela proposta tão surpreendente do anjo de Deus: “Eis-me aqui, sou a serva do Senhor, faça-se…” (v.38). O fiat de Maria é muito mais que uma simples aceitação resignada: o texto grego original indica um desejo, uma disponibilidade cheia de alegria para que isso aconteça. Assim começa já a nova família dos que adoram Deus em espírito e verdade (Jo 4,23). E assim Maria cantará as grandes obras que o Omnipotente realizou na sua vida (Lc 1,49).
Entre estas obras grandes está também o cumprimento da promessa de Deus a David, cujo trono será herdado pelo Filho do Altíssimo – o filho de Maria – num reinado que nunca mais terá fim (v.32-33). S. Paulo (II leitura) fala deste mistério de salvação “escondido nos séculos” (v.25), mas ‘revelado agora e anunciado … a todas as gentes para que obedeçam na fé” (v.26). Deus quer ser encontrado e acolhido no coração de cada pessoa humana, porque todas as pessoas foram criadas à Sua imagem. Cada pessoa, cada cultura, é morada de Deus. Em cada pessoa podemos descobrir sinais da beleza e da bondade de Deus; nas culturas dos povos há sinais da verdade, assim chamados ‘sementes do Verbo’, que trazem consigo uma realidade maior, que precisam do Verbo Incarnado para amadurecerem e chegarem à sua plena realização.
Todo o coração humano é potencialmente e realmente uma morada inicial de Deus. A missão da Igreja consiste em descobrir os sinais da presença de Deus no coração de cada pessoa e nos acontecimentos da história quotidiana dos povos, para conduzir a todos à plenitude da vida que se encontra em Cristo, único Salvador. Maria é um modelo dessa mesma plenitude, ela que foi a primeira a acreditar e a primeira missionária de Cristo: a seguir à anunciação, leva-o logo, consigo, ao encontro da prima Isabel, e o oferecerá aos pastores e aos magos. Maria, modelo de morada divina, ensina-nos que Deus quer renovar as pessoas a partir de dentro; que o coração humano é o primeiro e o melhor presépio onde Jesus quer nascer. O coração de cada pessoa!