2° Domingo de Páscoa (ciclo A)
Domingo da Misericórdia Divina
João 20,19-31

Referências bíblicas:
- 1ª leitura: Atos 2,42-47
- 2ª leitura: 1 Pedro 1,3-9
- Evangelho: João 20,19-31
Meu Senhor e meu Deus
As portas aferrolhadas
João insiste neste detalhe (versículos 19 e 26), em contraste com o túmulo aberto, e vazio, que Maria Madalena, Pedro e João haviam descoberto (20,1). Neste primeiro dia da semana, que também inaugura uma nova era, os discípulos ainda não haviam deixado de ter fé na morte. Ainda estão sob o regime do medo: medo dos que mataram Jesus, medo de morrer. E eis que, de repente, Jesus está no meio deles. Em nenhum lugar está dito que tivesse passado pelas portas: não tem mais necessidade de entrar, porque já estava lá, só que se tornara inacessível aos sentidos. Fez-se visível para ir encontrar os discípulos em seus infernos, no túmulo do medo em que haviam se trancado. Parece que não o reconheceram de imediato, pois lhes mostrara as suas chagas. Há aí uma espécie de regra geral: depois da Ressurreição, Jesus não é mais identificado imediatamente. Seu corpo não faz parte mais dos «objetos» deste mundo. Daí em diante, este corpo só será acessível através dos sacramentos, estes sinais de que a própria Igreja, declarada, aliás, o «corpo do Cristo», será a recapitulação. A fórmula de saudação dos judeus, «a paz», volta constantemente nos relatos das aparições; três vezes, nesta leitura. Esta insistência é significativa: o homem e Deus não estão mais sob o regime de afrontamento, simbolizado pelo fruto que foi apanhado da árvore, em Gênesis 3. Um mundo novo está aí. Deus e o homem se fazem um. Todas as portas estão abertas.
O dom do Espírito
Até a Páscoa, as pessoas viam Jesus como um homem que lhes era exterior e que os interpelava, convidando-os a acolherem o Evangelho do Reino. Daí em diante, não o verão mais; só pela fé irão encontrá-lo. E, no entanto, jamais lhes fora tão próximo: de exterior que era, agora, ele se lhes tornou interior. Fez-se um só corpo com eles, à medida ao menos em que reunidos em seu nome (Mateus 18,20). Esta presença do Cristo nos é dada pelo Espírito e no Espírito. Espírito que é um só com ele e que irá nos repetir e fazer compreender tudo o que Jesus disse e que irá nos introduzir na verdade total. Os versículos 21-23 da nossa leitura são chamados de Pentecostes de São João: bem menos espetacular que o dos Atos, por certo, mas destinado a nos fazer compreender que tudo já nos fora dado na ressurreição de Jesus. Os relatos que, em João e nos outros evangelistas, saltam do quadro deste “primeiro dia”, procuram simplesmente fazer-nos explorar todo o conteúdo do acontecimento pascal e querem nos fazer compreender que o regime agora inaugurado, a Nova Aliança, guarda a sua eficácia até o fim dos tempos. O Espírito que nos foi dado tem por figuras o sopro e o vento, sinais de vida e de extrema mobilidade. Por isso Jesus envia os seus discípulos para todo o mundo.
Tomé, o incrédulo
Foi por verem as chagas do Cristo que os discípulos acreditaram em sua nova presença (versículo 20). No fundo, quando exigiu ver para crer, Tomé não estava tão distante dos outros. Todo mundo de algum modo, de tempos em tempos, arrola-se entre os que querem sinais para consentir em crer. Em Mateus 12,38-40, Jesus anuncia que não será dado outro sinal que não o de seu desaparecimento por três dias no ventre da terra, assim como Jonas havia desaparecido por três dias no ventre do monstro marinho. O sinal dado foi, portanto, o desaparecimento deste que é o Sinal por excelência! Jesus acaba de desaparecer, quando vem Tomé, representando todos estes de quem é um irmão gêmeo simbólico, por se sentirem acuados e sem saída. Ficou em suspenso por oito dias, em sua descrença. Oito dias, sete dos quais formam um todo completo (a semana), mais um oitavo que inaugura os tempos novos. Novos de verdade: o Cristo, que tantas vezes havia repreendido os que exigiam ver para crer, rende-se agora à decisão de Tomé. Cristo cede: Deus submete-se ao homem. Vejo neste relato uma imensa ternura. Teria Tomé atendido ao convite de Jesus? Teria tocado em suas chagas? Não me parece. Mas dirige-lhe palavras extraordinárias: primeiro, os dois pronomes possessivos, “meu”, que expressam todo o amor do discípulo: em seguida e, sobretudo, o “meu Deus”. É a única vez que, nos evangelhos, Jesus é explicitamente chamado de Deus.
Marcel Domergue
http://www.ihu.unisinos.br
Acreditar na ressurreição
Queridos irmãs e irmãos,
Hoje, neste relato do Evangelho de S. João, Jesus faz um gesto de criação, de recriação em relação aos Seus discípulos: Jesus sopra sobre eles. A ouvirmos este relato nós lembramo-nos da criação do Adão e da Eva, quando Deus soprou pelas narinas do primeiro adâmico terreno para que ele ganhasse o espírito, para que ele ganhasse, em hebraico diz-se a néfes, o sopro vital, o alento que dá a vida e que depois em grego se vai falar como uma alma.
Este sopro é o sopro da criação, sem este sopro nós estamos desanimados, nós estamos desalentados, nós estamos como que prostrados, nós somos apenas terra, nós somos apenas uma coisa que se desagrega. Não somos vida, não estamos de pé. Precisamos do alento vital, precisamos do sopro, do animus para viver animados, para vivermos com a confiança necessária para tomar a vida como ela é. E Jesus faz isso aos Seus discípulos. Por isso, a tradição cristã, desde os primeiros teólogos, os Padres da Igreja, falava da Páscoa como de um nascimento. Para nós, cristãos, é o verdadeiro nascimento, é um tempo de renascimento, em que nos sentimos a nascer de novo, sentimos que acontece uma metanoia, uma transformação do nosso entendimento, uma mudança, uma alteração da nossa maneira de ver as coisas. Passamos a ser mulheres e homens novos porque o sopro do Ressuscitado foi lançado sobre nós.
Na mesma linha, na Primeira Carta de Pedro que hoje lemos, o autor sagrado diz: “Felizes de vós porque nascestes em Cristo para uma nova esperança.” Cristo é o lugar onde a gente nasce, Cristo é o ponto do nosso renascimento. Isto é, o encontro com Cristo não é apenas o esbarrar na vida de um grande homem, uma figura histórica, d. uma figura referencial para a religião. Mas, mais do que um esbarrar é um verdadeiro encontro e um verdadeiro encontro do qual nós nascemos, do qual nós renascemos. Os nossos olhos como que se abrem e nós olhamos tudo de novo pela primeira vez e olhamos tudo de novo de outra forma, à Sua ótica, ao Seu olhar, ao Seu estilo, à Sua gramática, à Sua maneira de ver. E assim nós renascemos.
Mas, este renascer não é automático, é preciso fazer um caminho. Nós percebemos que mesmo os discípulos precisaram de fazer um caminho. Porque, até ao fim, quando lemos por exemplo os Evangelhos sinóticos, mesmo no último momento quando Jesus está a partir na Ascensão há alguns que não acreditam. Isto é, a erva da descrença, o obstáculo da incredulidade está no nosso coração e temos de contar com ele. Nós precisamos de fazer um caminho para acreditar na ressurreição. E o que é acreditar na ressurreição?
Hoje nós temos duas imagens. Se calhar as imagens são mais importantes do que as palavras, porque são mais sugestivas, tocam não apenas o racional, mas tocam também o nosso coração, mobilizam os nossos sentimentos, abrem-nos caminhos mais audaciosos. Uma imagem é do Evangelho de S. João, a outra é dos Atos dos Apóstolos que hoje nós lemos. A primeira imagem é esta de Tomé que ficou preso nas feridas e nós sabemos que não é difícil ficar preso nas feridas, não é difícil. Eu diria que até é o mais normal. O mais normal é nós acharmos que esta ferida é o fim, que esta ferida não se apaga, que depois desta ferida já não há caminho, que não se pode ir mais além, que esta ferida é o ponto final. E este, se calhar, é o modus de entendimento que nós temos. Vemos um corpo rasgado e dizemos: é o fim, é o fim.
A fé na ressurreição obriga-nos a mudar o lugar onde nós colocamos o ponto final. Porque, onde é que nós na vida colocamos os pontos finais? Se calhar, colocamos o ponto final demasiado cedo, porque contamos só connosco e com a nossa força. Se calhar colocamos o ponto final com desilusão demasiado prematuramente, porque não contamos com a força de Deus, com o impacto de Deus, com aquilo que Ele pode fazer em nós. E por isso, em vez de pontos finais, nós deviamos pôr vírgulas. Vírgulas que são esses tempos de espera, esses tempos de suspensão. Na nossa vida, em vez de preenchermos com grandes decisões para todos os tempos devíamos criar tempos de espera, tempos de pausa, à espera de Deus, à espera de Deus.
O que é que os discípulos foram obrigados a fazer? A retirar os pontos finais. Jesus morreu, vírgula, e ressuscitou. Aquela ferida era uma ferida que Tomé acreditava que era mortal, e ele tinha posto um ponto final. Depois daquela ferida não pode haver mais nada. Mas Jesus vem dizer: Não, depois da ferida põe uma vírgula, porque a história continua, a história continua. E, no fundo, a fé na ressurreição é uma fé que só quem ama entende. Quem ama não se conforma, quem ama está sempre à espera, quem ama está num tempo de suspensão. Para quem ama não há um fatalismo, não há dizer: isto não tem mais remédio. Porque amar é dizer ao outro: “Tu não morrerás.” E dizer isso obriga-nos a recusar os pontos finais e a acreditar que o tempo da ferida, o tempo da dor, o tempo do sofrimento, o tempo da morte que nós experimentamos é apenas uma etapa de um caminho, de um caminho que vai mais longe.
Como será nós não sabemos. O modo de intervenção de Deus nós não controlamos. O que vimos foi um sepulcro vazio, o que vimos foi um vivente que nos apresenta as Suas feridas. Mas apresenta-nos as Suas feridas dentro da Sua vida, dentro de uma vida nova, dentro de uma vida restaurada.
Então, aprendamos a não colocar demasiado cedo os pontos finais. A fé na ressurreição é isso, é acreditar que há uma resolução para a vida que nós podemos não estar a ver mas temos de acreditar nela. Temos de contar com ela e temos de acreditar que a ferida pode ser o lugar de uma fecundidade, que a ferida não é necessariamente estéril e que o rasgão daquele lado pode ser a fenda da esperança, a fenda de onde sopra o espírito novo e isto é acreditar na ressurreição. Mas acreditar na ressurreição não como uma magia, não como uma fantasia. Acreditar na ressurreição como um modo de viver, como um modo de tocar a vida, de a abraçar, de a encarar e a ler, sabendo que na vida temos de contar- precisamos contar e podemos contar- com essa força de Deus que faz tudo nascer e renascer a cada momento.
Por isso, é também extraordinariamente importante aquela imagem do livro dos Atos dos Apóstolos. Porque a fé na ressurreição não é apenas uma fé intimista, não é uma fé solipsista, não é uma fé para eu acreditar e mudar um bocadinho os meus pontos finais e as minhas vírgulas. A fé na ressurreição tem uma dimensão política, tem uma dimensão económica, tem uma dimensão existencial, tem uma dimensão na maneira de viver, na maneira de organizar a minha própria vida. Por isso, essa imagem extraordinária do livro dos Atos dos Apóstolos: aqueles irmãos que estavam reunidos, na bela expressão de S. Lucas, era como se tivessem uma única alma. Porque viviam numa solidariedade, numa capacidade de condivisão, num espírito de serviço e de partilha, num assumir as dificuldades porque passam os outros, num fazer seus os dramas que os outros vivem, numa capacidade de atenção, de entrega, de verdadeira fraternidade que era como se o mundo ressuscitasse, se Jerusalém ressuscitasse, se a comunidade ressuscitasse. E aqui também há tanto trabalho nosso. A ressurreição, o tempo pascal é um tempo para arregaçarmos as mangas e metermos as mãos na realidade transformando-a, fazendo-a renascer na linha daquilo que os Atos dos Apóstolos nos apontam, que é a capacidade de construir uma comunidade qualificando a nossa relação de uma forma nova, de uma forma nova que já não é o meu nem é o teu, que já não é isto nem é aquilo mas é uma capacidade de ser novo.
Isto é um desafio para nós, um desafio imenso, imenso para nós. Vamos pedir ao Senhor que este tempo pascal seja um tempo de desassossego para nós. Porque, a fé na ressurreição não é apenas o happy end desta história dramática, a fé na ressurreição é muito mais do que isso. A fé na ressurreição é dizer: Vá! Agora és tu! Agora faz. O que é que vais fazer com isto? Para que é que isto serve? Porque é que nós acreditamos que Aquele que está crucificado está vivo? Para que é que esta fé serve?
José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org