2° Domingo de Páscoa (A)
Domingo da Misericórdia Divina
João 20,19-31


Jesus appears to Thomas - John 20:24-29

Referências bíblicas:

  • 1ª leitura: «Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum» (Atos 2,42-47)
  • Salmo: Sl. 117(118) – R/ Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; eterna é a sua misericórdia!
  • 2ª leitura: «Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo, para uma esperança viva» (1 Pedro 1,3-9
  • Evangelho: «Oito dias depois, estando fechadas as portas, Jesus entrou» (João 20,19-31)

As portas aferrolhadas

João insiste neste detalhe (versículos 19 e 26), em contraste com o túmulo aberto, e vazio, que Maria Madalena, Pedro e João haviam descoberto (20,1). Neste primeiro dia da semana, que também inaugura uma nova era, os discípulos ainda não haviam deixado de ter fé na morte. Ainda estão sob o regime do medo: medo dos que mataram Jesus, medo de morrer. E eis que, de repente, Jesus está no meio deles. Em nenhum lugar está dito que tivesse passado pelas portas: não tem mais necessidade de entrar, porque já estava lá, só que se tornara inacessível aos sentidos. Fez-se visível para ir encontrar os discípulos em seus infernos, no túmulo do medo em que haviam se trancado. Parece que não o reconheceram de imediato, pois lhes mostrara as suas chagas. Há aí uma espécie de regra geral: depois da Ressurreição, Jesus não é mais identificado imediatamente. Seu corpo não faz parte mais dos «objetos» deste mundo. Daí em diante, este corpo só será acessível através dos sacramentos, estes sinais de que a própria Igreja, declarada, aliás, o «corpo do Cristo», será a recapitulação. A fórmula de saudação dos judeus, «a paz», volta constantemente nos relatos das aparições; três vezes, nesta leitura. Esta insistência é significativa: o homem e Deus não estão mais sob o regime de afrontamento, simbolizado pelo fruto que foi apanhado da árvore, em Gênesis 3. Um mundo novo está aí. Deus e o homem se fazem um. Todas as portas estão abertas.

O dom do Espírito

Até a Páscoa, as pessoas viam Jesus como um homem que lhes era exterior e que os interpelava, convidando-os a acolherem o Evangelho do Reino. Daí em diante, não o verão mais; só pela fé irão encontrá-lo. E, no entanto, jamais lhes fora tão próximo: de exterior que era, agora, ele se lhes tornou interior. Fez-se um só corpo com eles, à medida ao menos em que reunidos em seu nome (Mateus 18,20). Esta presença do Cristo nos é dada pelo Espírito e no Espírito. Espírito que é um só com ele e que irá nos repetir e fazer compreender tudo o que Jesus disse e que irá nos introduzir na verdade total. Os versículos 21-23 da nossa leitura são chamados de Pentecostes de São João: bem menos espetacular que o dos Atos, por certo, mas destinado a nos fazer compreender que tudo já nos fora dado na ressurreição de Jesus. Os relatos que, em João e nos outros evangelistas, saltam do quadro deste “primeiro dia”, procuram simplesmente fazer-nos explorar todo o conteúdo do acontecimento pascal e querem nos fazer compreender que o regime agora inaugurado, a Nova Aliança, guarda a sua eficácia até o fim dos tempos. O Espírito que nos foi dado tem por figuras o sopro e o vento, sinais de vida e de extrema mobilidade. Por isso Jesus envia os seus discípulos para todo o mundo.

Tomé, o incrédulo

Foi por verem as chagas do Cristo que os discípulos acreditaram em sua nova presença (versículo 20). No fundo, quando exigiu ver para crer, Tomé não estava tão distante dos outros. Todo mundo de algum modo, de tempos em tempos, arrola-se entre os que querem sinais para consentir em crer. Em Mateus 12,38-40, Jesus anuncia que não será dado outro sinal que não o de seu desaparecimento por três dias no ventre da terra, assim como Jonas havia desaparecido por três dias no ventre do monstro marinho. O sinal dado foi, portanto, o desaparecimento deste que é o Sinal por excelência! Jesus acaba de desaparecer, quando vem Tomé, representando todos estes de quem é um irmão gêmeo simbólico, por se sentirem acuados e sem saída. Ficou em suspenso por oito dias, em sua descrença. Oito dias, sete dos quais formam um todo completo (a semana), mais um oitavo que inaugura os tempos novos. Novos de verdade: o Cristo, que tantas vezes havia repreendido os que exigiam ver para crer, rende-se agora à decisão de Tomé. Cristo cede: Deus submete-se ao homem. Vejo neste relato uma imensa ternura. Teria Tomé atendido ao convite de Jesus? Teria tocado em suas chagas? Não me parece. Mas dirige-lhe palavras extraordinárias: primeiro, os dois pronomes possessivos, “meu”, que expressam todo o amor do discípulo: em seguida e, sobretudo, o “meu Deus”. É a única vez que, nos evangelhos, Jesus é explicitamente chamado de Deus.

Marcel Domergue
http://www.ihu.unisinos.br


Queridos irmãs e irmãos,
Hoje, neste relato do Evangelho de S. João, Jesus faz um gesto de criação, de recriação em relação aos Seus discípulos: Jesus sopra sobre eles. A ouvirmos este relato nós lembramo-nos da criação do Adão e da Eva, quando Deus soprou pelas narinas do primeiro adâmico terreno para que ele ganhasse o espírito, para que ele ganhasse, em hebraico diz-se a néfes, o sopro vital, o alento que dá a vida e que depois em grego se vai falar como uma alma.

Este sopro é o sopro da criação, sem este sopro nós estamos desanimados, nós estamos desalentados, nós estamos como que prostrados, nós somos apenas terra, nós somos apenas uma coisa que se desagrega. Não somos vida, não estamos de pé. Precisamos do alento vital, precisamos do sopro, do animus para viver animados, para vivermos com a confiança necessária para tomar a vida como ela é. E Jesus faz isso aos Seus discípulos. Por isso, a tradição cristã, desde os primeiros teólogos, os Padres da Igreja, falava da Páscoa como de um nascimento. Para nós, cristãos, é o verdadeiro nascimento, é um tempo de renascimento, em que nos sentimos a nascer de novo, sentimos que acontece uma metanoia, uma transformação do nosso entendimento, uma mudança, uma alteração da nossa maneira de ver as coisas. Passamos a ser mulheres e homens novos porque o sopro do Ressuscitado foi lançado sobre nós.

Na mesma linha, na Primeira Carta de Pedro que hoje lemos, o autor sagrado diz: “Felizes de vós porque nascestes em Cristo para uma nova esperança.” Cristo é o lugar onde a gente nasce, Cristo é o ponto do nosso renascimento. Isto é, o encontro com Cristo não é apenas o esbarrar na vida de um grande homem, uma figura histórica, d. uma figura referencial para a religião. Mas, mais do que um esbarrar é um verdadeiro encontro e um verdadeiro encontro do qual nós nascemos, do qual nós renascemos. Os nossos olhos como que se abrem e nós olhamos tudo de novo pela primeira vez e olhamos tudo de novo de outra forma, à Sua ótica, ao Seu olhar, ao Seu estilo, à Sua gramática, à Sua maneira de ver. E assim nós renascemos.

Mas, este renascer não é automático, é preciso fazer um caminho. Nós percebemos que mesmo os discípulos precisaram de fazer um caminho. Porque, até ao fim, quando lemos por exemplo os Evangelhos sinóticos, mesmo no último momento quando Jesus está a partir na Ascensão há alguns que não acreditam. Isto é, a erva da descrença, o obstáculo da incredulidade está no nosso coração e temos de contar com ele. Nós precisamos de fazer um caminho para acreditar na ressurreição. E o que é acreditar na ressurreição?

Hoje nós temos duas imagens. Se calhar as imagens são mais importantes do que as palavras, porque são mais sugestivas, tocam não apenas o racional, mas tocam também o nosso coração, mobilizam os nossos sentimentos, abrem-nos caminhos mais audaciosos. Uma imagem é do Evangelho de S. João, a outra é dos Atos dos Apóstolos que hoje nós lemos. A primeira imagem é esta de Tomé que ficou preso nas feridas e nós sabemos que não é difícil ficar preso nas feridas, não é difícil. Eu diria que até é o mais normal. O mais normal é nós acharmos que esta ferida é o fim, que esta ferida não se apaga, que depois desta ferida já não há caminho, que não se pode ir mais além, que esta ferida é o ponto final. E este, se calhar, é o modus de entendimento que nós temos. Vemos um corpo rasgado e dizemos: é o fim, é o fim.

A fé na ressurreição obriga-nos a mudar o lugar onde nós colocamos o ponto final. Porque, onde é que nós na vida colocamos os pontos finais? Se calhar, colocamos o ponto final demasiado cedo, porque contamos só connosco e com a nossa força. Se calhar colocamos o ponto final com desilusão demasiado prematuramente, porque não contamos com a força de Deus, com o impacto de Deus, com aquilo que Ele pode fazer em nós. E por isso, em vez de pontos finais, nós deviamos pôr vírgulas. Vírgulas que são esses tempos de espera, esses tempos de suspensão. Na nossa vida, em vez de preenchermos com grandes decisões para todos os tempos devíamos criar tempos de espera, tempos de pausa, à espera de Deus, à espera de Deus.

O que é que os discípulos foram obrigados a fazer? A retirar os pontos finais. Jesus morreu, vírgula, e ressuscitou. Aquela ferida era uma ferida que Tomé acreditava que era mortal, e ele tinha posto um ponto final. Depois daquela ferida não pode haver mais nada. Mas Jesus vem dizer: Não, depois da ferida põe uma vírgula, porque a história continua, a história continua. E, no fundo, a fé na ressurreição é uma fé que só quem ama entende. Quem ama não se conforma, quem ama está sempre à espera, quem ama está num tempo de suspensão. Para quem ama não há um fatalismo, não há dizer: isto não tem mais remédio. Porque amar é dizer ao outro: “Tu não morrerás.” E dizer isso obriga-nos a recusar os pontos finais e a acreditar que o tempo da ferida, o tempo da dor, o tempo do sofrimento, o tempo da morte que nós experimentamos é apenas uma etapa de um caminho, de um caminho que vai mais longe.

Como será nós não sabemos. O modo de intervenção de Deus nós não controlamos. O que vimos foi um sepulcro vazio, o que vimos foi um vivente que nos apresenta as Suas feridas. Mas apresenta-nos as Suas feridas dentro da Sua vida, dentro de uma vida nova, dentro de uma vida restaurada.

Então, aprendamos a não colocar demasiado cedo os pontos finais. A fé na ressurreição é isso, é acreditar que há uma resolução para a vida que nós podemos não estar a ver mas temos de acreditar nela. Temos de contar com ela e temos de acreditar que a ferida pode ser o lugar de uma fecundidade, que a ferida não é necessariamente estéril e que o rasgão daquele lado pode ser a fenda da esperança, a fenda de onde sopra o espírito novo e isto é acreditar na ressurreição. Mas acreditar na ressurreição não como uma magia, não como uma fantasia. Acreditar na ressurreição como um modo de viver, como um modo de tocar a vida, de a abraçar, de a encarar e a ler, sabendo que na vida temos de contar- precisamos contar e podemos contar- com essa força de Deus que faz tudo nascer e renascer a cada momento.

Por isso, é também extraordinariamente importante aquela imagem do livro dos Atos dos Apóstolos. Porque a fé na ressurreição não é apenas uma fé intimista, não é uma fé solipsista, não é uma fé para eu acreditar e mudar um bocadinho os meus pontos finais e as minhas vírgulas. A fé na ressurreição tem uma dimensão política, tem uma dimensão económica, tem uma dimensão existencial, tem uma dimensão na maneira de viver, na maneira de organizar a minha própria vida. Por isso, essa imagem extraordinária do livro dos Atos dos Apóstolos: aqueles irmãos que estavam reunidos, na bela expressão de S. Lucas, era como se tivessem uma única alma. Porque viviam numa solidariedade, numa capacidade de condivisão, num espírito de serviço e de partilha, num assumir as dificuldades porque passam os outros, num fazer seus os dramas que os outros vivem, numa capacidade de atenção, de entrega, de verdadeira fraternidade que era como se o mundo ressuscitasse, se Jerusalém ressuscitasse, se a comunidade ressuscitasse. E aqui também há tanto trabalho nosso. A ressurreição, o tempo pascal é um tempo para arregaçarmos as mangas e metermos as mãos na realidade transformando-a, fazendo-a renascer na linha daquilo que os Atos dos Apóstolos nos apontam, que é a capacidade de construir uma comunidade qualificando a nossa relação de uma forma nova, de uma forma nova que já não é o meu nem é o teu, que já não é isto nem é aquilo mas é uma capacidade de ser novo.

Isto é um desafio para nós, um desafio imenso, imenso para nós. Vamos pedir ao Senhor que este tempo pascal seja um tempo de desassossego para nós. Porque, a fé na ressurreição não é apenas o happy end desta história dramática, a fé na ressurreição é muito mais do que isso. A fé na ressurreição é dizer: Vá! Agora és tu! Agora faz. O que é que vais fazer com isto? Para que é que isto serve? Porque é que nós acreditamos que Aquele que está crucificado está vivo? Para que é que esta fé serve?

José Tolentino Mendonça
http://www.capeladorato.org


O capítulo final do quarto Evangelho, João 20 (Jo 21 é um acréscimo posterior), deveria ser lido inteiramente, para compreender em profundidade “o primeiro dia da semana” (Jo 20, 1.19; cf. 20, 26), o terceiro dia depois da morte de Jesus. O primeiro dia da semana é o dia da ressurreição do Senhor, mas é também aquele em que o Ressuscitado se faz presente em meio aos seus: é o dia do Senhor, o dia da intervenção decisiva de Deus, que, ressuscitando Jesus, venceu a morte.

A partir do Novo Testamento, sabemos também, justamente, que “o primeiro dia da semana” (At 20, 7; 1Co 16, 2) é escolhido pelos cristãos para estarem “no mesmo lugar” (At 1, 15; 2, 1.44.47 etc.) como assembleia de irmãos e irmãs que experimentam a vinda do Ressuscitado no meio deles.

Tendo descido a noite daquele dia, o desconforto reina nos corações dos discípulos, que não acreditaram nem na Madalena, nem no discípulo amado. Mas Jesus tinha prometido: “Depois da minha morte, ‘mais um pouco e vocês me verão’” (Jo 16, 16) e, fiel à palavra dada, “vem e está no meio”. Jesus é visto pelos discípulos no meio deles, no centro da sua assembleia, como aquele que cria e dá unidade, que “atrai todos a si” (cf. Jo 12, 32).

Naquela posição de Kýrios, de Senhor, o Ressuscitado diz: “A paz esteja com vocês!”, a saudação messiânica, palavra eficaz que traz paz, vida plena e expulsa o medo. E, para que as palavras sejam autenticadas pela sua pessoa de Mestre, Profeta e Messias conhecido pelos discípulos na sua vida com ele, Jesus mostra as mãos e o lado, que ainda trazem os sinais da sua paixão e morte (cf. Jo 19, 34).

Jesus está presente com um corpo que não é um cadáver reanimado, mas que vem a portas fechadas, não obedecendo às leis do tempo e do espaço: um “corpo de glória” (Fl 3, 21), um “corpo espiritual” (1Co 15, 44.46), no qual, porém, permanecem os sinais de ter sofrido a morte por amor. São sinais de paixão e, ao mesmo tempo, de glória, sinais do amor vivido “até o fim, ao extremo” (Jo 13, 1).

“E os discípulos se alegraram por verem o Senhor.” Acontece aquilo que Jesus havia profetizado: “ Agora, vocês também estão angustiados. Mas, quando tornarem a me ver, vocês ficarão alegres, e essa alegria ninguém tirará de vocês” (Jo 16, 22). Nessa nova situação da comunidade, o Ressuscitado, que havia prometido não deixá-la órfã (cf. Jo 14, 18) e dar-lhe outro Consolador (Jo 14, 16), torna-se manifesto. Ele repete a saudação “A paz esteja convosco!” e anuncia: “ Como o Pai me enviou, também eu envio vocês”.

Os discípulos acolheram o Enviado de Deus, seguiram-no e creram nele; agora, são enviados por todo o mundo para serem como ele, Jesus, foi em toda a sua vida: testemunhas da verdade, da fidelidade de Deus, isto é, do seu amor pela humanidade. Com a sua vida, devem mostrar que “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu único Filho” (Jo 3, 16).

Para serem habilitados a essa missão, devem ser recriados: é preciso uma imersão no Espírito Santo, é preciso o Espírito como novo sopro no coração de carne (cf. Ez 36, 26). Então, Jesus, o Ressuscitado que respira o Espírito Santo, efunde-o sobre a sua comunidade. Nós, cristãos, vasos de barro frágeis e pecadores (2Co 4, 7), pelo dom de Jesus ressuscitado, respiramos o Espírito Santo que perdoa os pecados e nos habilita à vida eterna no Reino de Cristo.

Somos, portanto, o corpo de Cristo, o “templo do Espírito Santo” (1Co 6, 19). O mesmo Espírito que ressuscitou Jesus da morte é o doador de vida aos discípulos, e, como “companheiro inseparável de Cristo” (Basílio de Cesareia), torna-se companheiro inseparável para todo cristão. É ele, presente em cada discípulo e discípula, que recorda as palavras de Jesus (cf. Jo 14, 26), que o torna presente e testemunha que ele é o Senhor (cf. 1Co 12, 3).

Espírito Santo, Espírito de Deus e Sopro de Cristo, nos é dado na nossa condição de corpo humano, de carne. Não se esqueça que, no quarto Evangelho, a carne é o lugar da humanização de Deus – “A Palavra se fez carne” (Jo 1, 14) –, o lugar escolhido por Deus para estar conosco e no meio de nós. A carne é lugar de conhecimento a serviço da Palavra de Deus que a habita: eis a morada do Espírito Santo. Por isso, assim como Jesus foi concebido como carne pelo Espírito Santo e por uma mulher, assim também a Igreja é gerada pelo Espírito Santo e pela humanidade, e, do sopro do Espírito, faz a sua respiração.

Mas isso tem uma recaída decisiva na vida dos cristãos: significa remissão dos pecados, porque a experiência da salvação que podemos fazer na terra é justamente a remissão dos pecados. Cantamos isso todas as manhãs no Benedictus: “… anunciando ao seu povo a salvação, que está na remissão de seus pecados” (Lc 1, 77). Receber o Espírito Santo é receber tal remissão, isto é, viver a ação do Senhor que não só perdoa, mas também se esquece dos nossos pecados, fazendo de nós criaturas novas.

Essa é a epifania da misericórdia de Deus, do amor de Deus profundo e infinito, que, quando nos alcança, nos liberta das culpas e nos recria em uma novidade que nós não podemos nos dar! E cuidado para não entender esse texto apenas como fundamento do sacramento da reconciliação. A capacidade de libertar da culpa e de fazer misericórdia é dada por Jesus a todos os discípulos: não só aos Onze, porque, no Cenáculo, no dia de Pentecostes, também estão as mulheres, está Maria junto com outros discípulos e discípulas (cf. At 1, 13-15; 2, 1).

Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), batizando os discípulos no Espírito Santo (cf. Jo 1, 33), habilita-os à sua missão: perdoar, reconciliar com Deus e com os irmãos e as irmãs. Pela cruz e pela ressurreição, a humanidade foi reconciliada com Deus, mas tal evento deve ser anunciado a todos, e os discípulos são enviados para isso: aonde chegarem, devem fazer reinar a misericórdia de Deus, devem viver o mandamento último e definitivo do amor recíproco (cf. Jo 13, 34; 15, 12), devem perdoar os pecados uns aos outros, habilitados, portanto, a pedir o perdão dos pecados a Deus.

E que fique claro: as palavras de Jesus que acompanham o gesto do sopro do Espírito – “A quem vocês perdoarem os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoarem, eles lhes serão retidos” – são expressadas através de um estilo semita que se serve de expressões contrastantes para afirmar com mais força uma realidade.

Não significam um poder que os discípulos poderiam utilizar de acordo com o seu arbítrio; ao contrário, expressam que a sua tarefa é a remissão dos pecados, o perdão, como foi para Jesus, que, em toda a sua vida, nunca condenou, mas sempre disse ter vindo não para julgar e condenar (cf. Jo 8, 15; 12, 47), mas para que todos “tenham a vida em abundância” (Jo 10, 10). “Como o Pai me enviou, também eu envio vocês”, em que esse “como” refere-se a um estilo: “Como eu perdoei os pecados, vocês também devem perdoá-los; é com essa tarefa que eu envio vocês”.

Feita essa experiência, os discípulos anunciam a Tomé, não presente na primeira manifestação do Ressuscitado: “Vimos o Senhor!”. É o anúncio pascal que deveria ser suficiente para acolher a fé no Ressuscitado. Mas Tomé não acredita, aquelas palavras parecem-lhe devaneios nada confiáveis.

“Oito dias depois”, portanto, no primeiro dia da segunda semana depois do túmulo vazio, eis Tomé e os outros juntos novamente. É o primeiro, mas também o oitavo dia, dia da plenitude, mas os discípulos ainda têm medo dos assassinos de Jesus. Eles deveriam levar o anúncio pascal a toda a Jerusalém, mas, em vez disso, permanecem fechados, dominados pelo medo. Mas Jesus se faz presente novamente: “Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja com vocês!”.

Eis a fidelidade de Jesus, o Veniente entre os seus, mesmo quando não o merecem e não estão à sua espera. Acima de tudo, ele entrega a paz, “a sua, não a do mundo” (cf. Jo 14, 27), depois se dirige a Tomé, “chamado Dídimo”, o “gêmeo” de cada um de nós. Tomé é o gêmeo no qual há, como em nós, a lógica de querer ver para crer. Tomé é como nós: quando se perfila o evento da ressurreição, vemos morte (cf. Jo 11, 15-16); quando Jesus anuncia que nos precede, não sabemos qual é o caminho (cf. Jo 14, 2-6); quando devemos confiar no testemunho dos nossos irmãos e irmãs, queremos ser aqueles que veem…

Jesus, porém, vem também para Tomé e também a ele se mostra com os sinais do seu amor: os estigmas da sua paixão impressas para sempre na sua carne gloriosa. A ressurreição apaga os sinais da morte e do pecado, mas não os sinais do amor vivido, porque o fato de ter amado tem uma força que transcende a morte. Todo o cuidado aos doentes que as mãos de Jesus praticaram, todas as carícias que ele deu, todo o seu amor vivido, todas as forças liberadas do seu seio são visíveis também no seu corpo ressuscitado. Jesus, portanto, convida Tomé a se aproximar e a colocar o dedo naqueles estigmas.

E aqui, atenção, não está escrito que Tomé colocou o seu dedo, mas disse: “Meu Senhor e meu Deus!”. Reconhecendo nos estigmas o amor vivido por Jesus, Tomé faz a confissão de fé mais alta e plena em todos os Evangelhos: Jesus é o Senhor, Jesus é Deus. É por isso que quem vê Jesus vê o Pai (cf. Jo 14, 9); é por isso que Jesus é a exegese de Deus que ninguém jamais viu nem pode ver (cf. Jo 1, 18); é por isso que Jesus é “o Vivente” (Lc 24, 5) para sempre.

Tomé certamente não é um modelo, embora nele possamos nos reconhecer. Por isso, Jesus lhe diz: “ Bem-aventurados os que chegam a crer sem terem visto”. É conhecendo o amor vivido pelo Crucificado que se começa a crer: milagres e aparições não nos deixam ter acesso à verdadeira fé. Só a palavra de Deus contida nas Santas Escrituras, só o amor de Jesus do qual o Evangelho é anúncio e narração (“sinal escrito”, para citar o encerramento do Evangelho), só ficar no espaço da comunidade dos discípulos do Senhor podem nos levar à fé, fazendo-nos invocar Jesus como “nosso Senhor e nosso Deus”.

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É significativa a cronologia que nos oferece o Evangelho de João sobre «aquele dia, o primeiro da semana» (v. 19), o dia mais importante da história. Porque naquele dia Cristo Ressuscitou. Aquele dia tinha iniciado com a ida de Maria Madalena ao sepulcro «logo de manhã ainda escuro» (Jo 20,1). No Evangelho de hoje, estamos na «tarde daquele dia… estando as portas fechadas… com medo dos judeus» (v. 19). A reconstituição de espaço e tempo, e também a psicológica, é completa. Iniciou enfim a história nova para a humanidade, no sinal de Cristo ressuscitado. Prescindir d’Ele seria uma perda de valores e um risco para a própria sobrevivência humana.

As portas fechadas e o medo são ultrapassados com a presença de Jesus, o Vivente, que por bem três vezes anuncia: «A paz esteja convosco!» (v. 19.21.26), provocando a alegria intensa dos discípulos «ao ver o Senhor» (v. 20). Paz e alegria encontram-se entre as características mais evidentes da primeira comunidade cristã (I leitura): tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração e gozavam da simpatia de todo o povo (v. 46-47). Uma simpatia justificada, dada a solidez e a irradiação missionária daquele novo grupo que se alicerçava sobre quatro pilares (42): ensino dos apóstolos, fracção do pão, oração e koinonia (união fraterna, partilha de bens). Pedro (II leitura), por sua vez, exorta os fiéis a estar «cheios de alegria, embora seja preciso ainda… passar por diversas provações» (v. 6). A Páscoa de Jesus faz ultrapassar os medos do cristão e do missionário; a fé, que conduz ao encontro com Cristo ressuscitado, ajuda a ultrapassar também as dificuldades psicológicas, como a angústia, os receios, a depressão…

São três os principais dons que Cristo ressuscitado oferece à comunidade: o Espírito, o perdão dos pecados e a missão. O fruto maior da Páscoa é sem dúvida o dom do Espírito Santo, que Jesus sopra sobre os discípulos: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Ele é o Espírito da criação redimida e renovada, que Jesus derrama no momento da morte na cruz (Jo 19, 30), como prelúdio do Pentecostes (Actos 2ss).

Para João o dom do Espírito está essencialmente relacionado com o dom da paz e, portanto, com o perdão dos pecados, como disse Jesus: «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (v. 23). A paz verdadeira tem as suas raízes na purificação dos corações, na reconciliação com Deus, com os irmãos e com toda a criação. Esta reconciliação é obra do Espírito, porque «Ele é a remissão de todos os pecados» (veja-se a oração sobre as ofertas, na Missa do sábado antes do Pentecostes, e a nova fórmula da absolvição sacramental). Para o evangelista Lucas «a conversão e o perdão dos pecados» são a mensagem que os discípulos deverão anunciar «a todas as gentes» (Lc 24, 47). Com razão, portanto, o sacramento da reconciliação é um inestimável presente pascal de Jesus: é o sacramento da alegria cristã (Bernardo Häring).

Os dons do Ressuscitado são para anunciar e partilhar com toda a família humana; por isso Jesus naquela tarde, anuncia uma missão universal, que Ele confia aos apóstolos e aos seus sucessores: «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (v. 21). São palavras que vinculam para sempre a missão da Igreja com a vida da Trindade, porque o Filho é o missionário enviado pelo Pai para salvar o mundo, por meio do amor. «Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós», são palavras para ser lidas em paralelo com estas outras: «Assim como o Pai me amou, também Eu vos amei» (Jo 15, 9), estabelecendo uma ligação indivisível entre missão-amor, amor-missão. Com estas palavras permanece para sempre sancionado que a Missão universal nasce da Trindade (AG 1-6) e é dom-empenho pascal de Jesus ressuscitado.

Os três dons do Ressuscitado: o Espírito, a reconciliação e a missão, são vividos por nós na fé. Apesar de não vermos o Senhor, somos felizes (v. 29) se acreditarmos n’Ele e O amarmos. Estamos, portanto, gratos a Tomé (v. 25), que quis pôr a mão na ferida do Coração de Cristo, que «cubiculum est Ecclesiae», é o aposento íntimo/secreto da Igreja (Santo Ambrósio). Aquele Coração é o santuário da Divina Misericórdia, título e tesouro que neste domingo é celebrado com crescente devoção popular. A misericórdia divina é, desde sempre, a mais vasta e consoladora revelação do mistério cristão: «A terra está cheia de miséria humana, mas repleta da misericórdia de Deus» (Santo Agostinho). Esta é a “boa-nova” permanente, que a Missão leva à humanidade inteira.