EPIFANIA
Mateus 2,1-12

19

Referências bíblicas:

1a leitura: Isaías 60, 1-6
2a leitura: Efésios 3, 2-3a.5-6
Evangelho: Mateus 2, 1-12


EPIFANIA
Marcel Domergue

A casa aberta para todos

A terra de Israel foi espezinhada com frequência pelos invasores estrangeiros que, muitas vezes, vinham do Oriente. Israel, por seu lado, não se privou de absorver destes povos, com quem mantinha relações, muitos elementos de suas sabedorias, religiões e, até mesmo, de seus mitos. Osmose, portanto. Mas os sábios e profetas de Israel modificavam estes elementos estranhos e os ajustavam à sua própria visão de Deus, do homem e do mundo. Por seu lado, as “nações” também irão se apropriar da herança do povo eleito. E com o Cristo foi chegada a hora: “A luz verdadeira, que ilumina todo homem, fez a sua entrada no mundo” (João 1,9). É o que a seu modo nos quer dizer o episódio dos Magos. Magos que vieram do Oriente: não se poderia imaginar nada de mais estranho para a época; pela geografia, pela história das invasões, pela religião. Os Magos, na Bíblia, justamente por causa de sua magia, da sua cosmologia (ah, os nossos horóscopos!) e outras práticas divinatórias, gozavam de péssima reputação. Pois até mesmo eles obedecem agora à atração da Luz. É com certeza uma visão otimista, se nos atemos à nossa atualidade, mas uma visão escatológica, considerando o conjunto do projeto de Deus. De todo modo, o Evangelho nos vacina desde já contra toda exclusão de raça, cultura (primitiva ou evoluída), nacionalidade ou mentalidade. Para todos, uma noite ou outra, uma estrela se levantará em nossas escuridões.

Toda a história da salvação

Este relato evangélico, assim como vários outros, nos traça em poucas linhas os feitos todos do Cristo. O pânico de Herodes e, com ele, de toda Jerusalém; pânico que irá até ao morticínio das crianças, prenunciando já a Paixão. Não é sem razão que o texto menciona os escribas e, sobretudo, os chefes dos sacerdotes que, no futuro, irão constituir o tribunal do veredito de morte. Mas, sobretudo, a expressão “Rei dos judeus” posta na boca dos Magos só irá aparecer de novo no relato da Paixão. É uma alusão feita num piscar de olhos pelo evangelista. Uma concorrência entre dois reis: Herodes e este que acaba de nascer. Será Mateus também que dirá com precisão, em 27,18, que foi por inveja que Jesus foi entregue. Embora seja o texto carregado de um futuro que o evangelista já conhece (pois o escreveu no fim do século), ele assume também o passado: as alusões à primeira leitura são evidentes. Inspirado na volta de Israel à sua terra e na reconstrução do templo que está próxima, o profeta vê para Jerusalém um futuro luminoso e para o povo portador da salvação, a convergência de todas as nações (pode-se retomar com proveito a conversa de Jesus com a Samaritana, em João 4). Ao ler o relato da visita dos Magos, é preciso lembrar a profecia de Isaías, sobre a Paixão e a Ressurreição do Cristo e a entrada dos pagãos na Igreja nascente que resultou daí.

Por outro caminho

Os Magos devem ter ficado decepcionados: vieram em busca de uma criança real e acabaram encontrando apenas um menino nascido numa família pobre: o Rei dos Judeus não nasceu na casa do rei Herodes. Devemos notar que o evangelho não fala de manjedoura, mas de casa: é Lucas só que fala de manjedoura, mas não fala dos Magos. “Casa” é a palavra empregada com frequência para designar a “casa de Deus”, o Templo: de agora em diante, Deus habitará ali onde estiver esta criança. Os Magos souberam reconhecer Deus na humildade, no quase nada deste casal e seu recém-nascido: eles se prostraram, prestaram a sua homenagem, abriram os seus tesouros. Não vamos insistir no simbolismo do ouro, do incenso e da mirra. De todo modo, o relato dos Magos antecipa o futuro glorioso da reunião universal no Corpo do Cristo. O grão minúsculo semeado na terra se tornará a grande árvore que abrigará todos os habitantes do céu sob os seus galhos (Mateus 13,32). Os Magos voltaram para sua casa: “Nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai…” (João 4,21). Não precisam mais de Belém nem de Herodes nem da estrela: a luz se lhes tornou interior. Voltaram para o seu país, reencontraram a sua civilização, as suas ocupações, mas nada será mais como antes: eles entraram “por outro caminho”.

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Epifania: “viver em saída…”
Adroaldo Palaoro

A “travessia” vivida pelos Magos é a mesma que todos experimentamos; somos seres “em saída”, em contínua busca. Quem busca não permanece sentado olhando o teto ou paralisado com o comando da tv na mão; hoje somos milhões de pessoas buscando permanentemente no Google, no Facebook, no WhatsApp…, sentados, parados, anestesiados…

Quem “sai” está deixando sua acomodada segurança, expondo-se ao que não conhece ou lhe dá medo conhecer. Há milhões de pessoas saindo sem pôr os pés na rua, de garagem em garagem, de centro comercial em centro comercial, viajando de metrô com os olhos fixos no celular, transitando por circuitos perfeitamente estabelecidos para não ver o que há mais além do “parque temático” que lhe é apresentado. Há muitos milhões que vivem com uma venda nos olhos, quer estejam em casa ou saiam para fazer exercícios. Que buscam? Que as animam a sair? O que encontram?

O relato dos Magos não faz referência a pessoas concretas, mas a personagens. Não eram reis, mas “magos”, ou seja, sábios que investigavam os céus para entender melhor o que se passava na terra. Porque estavam buscando, descobriram, encontraram. Notemos que são os que estavam longe que descobriram, enquanto que aqueles que estavam próximos do Menino não se inteiraram de nada.

Para descobrir a presença de Deus, o único definitivo é a atitude. Ao descobrir algo surpreendente, puseram-se a caminho. Não sabiam para onde iam, mas arriscaram.

No caminho que os Magos percorreram para aproximar-se de Jesus estão representadas as atitudes daqueles que buscavam a Jesus e se aproximavam das primeiras comunidades cristãs para conhecê-lo. E está também representada nossa busca.

O importante, no texto de Mateus, não é deter-nos na veracidade histórica dos Magos, mas descobrir a “pérola preciosa” que o evangelista oferece, tanto para as primeiras comunidades cristãs como para os judeus que se aproximavam para conhecer Jesus através de seu testemunho.

Como eles poderiam situar-se diante do nascimento de Jesus? Segundo o Evangelista, diante de Jesus podem ser adotadas atitudes muito diferentes.

O relato dos magos nos fala da reação de três grupos de pessoas. As autoridades religiosas, que conheciam muito bem a lei judaica e sabiam o que significava Belém para a corrente profética, não souberam ler os sinais dos tempos e não puderam encontrar Jesus. A religião, quando se reduz a simples práticas rituais, atrofia a sensibilidade da pessoa, impedindo-a abrir-se às surpresas de Deus.

O poderoso rei Herodes, preocupado em preservar seu poder, só vê perigo diante de qualquer situação diferente. Nenhum poder é mediação para deixar-se provocar pelo novo.

Somente alguns pagãos, guiados pela pequena luz de uma estrela, buscaram, puseram-se em marcha e encontraram Jesus.

O relato é desconcertante. Deus, escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no poder ou fechados na segurança religiosa, mas se revela àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano, na ternura e na pobreza da vida.

Os Magos não pertenciam ao povo eleito, não conheciam o Deus vivo de Israel. Nada sabemos de sua religião nem de seu povo de origem. Só sabemos que eles viviam atentos ao mistério que se encerra no cosmos. Seu coração buscava verdade.

Em algum momento acreditaram ver uma pequena luz que apontava para um Salvador. Precisavam saber quem era e onde estava.

Abriram-se à luz da estrela e rapidamente puseram-se a caminho. Seria uma perda de tempo? Valia a pena fazer a travessia?

Não conheciam o itinerário preciso que deveriam seguir, não sabiam para onde a estrela os conduziria e o caminho implicava riscos. Mas em seu interior ardia a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.

Quando os Magos desviaram-se da rota de Belém e entraram em Jerusalém para perguntar onde é que estava o rei dos judeus recém-nascido, a estrela desapareceu de suas vistas, como que indicando que não é na riqueza e no luxo das cortes que a Luz de Deus brilha para os corações.

A estrela também moveu os magos a que deixassem de olhar para ela; que olhassem antes para o lugar, na Terra, para onde ela apontava e sua luz iluminava. Pois é na simplicidade e pobreza de uma criança que resplandece a luz de Deus.

Os magos não caem de joelhos diante de Herodes: não encontram nele nada digno de adoração. Não entram no Templo grandioso de Jerusalém: tem acesso proibido. A pequena luz da estrela os atrai para o pequeno povoado de Belém, longe de todo centro de poder.

Ao chegar ao lugar indicado, veem somente o “menino com Maria, sua mãe”. Nada mais. Um menino sem esplendor nem poder algum.

Uma vida frágil que necessita dos cuidados de uma mãe. É suficiente para despertar nos magos o assombro.

Eles prostram-se e adoram o Menino Jesus. Cena poética onde Mateus nos ajuda a romper nossos esquemas mentais. Aqueles que conheciam as escrituras de memória e sabiam interpretá-las não vão ao encontro de Jesus. Aqueles que sabem ler as estrelas são capazes de ver mais além das aparências. E o que veem nesse Menino é tão profundo que caem prostrados, tiram seus tesouros, esvaziam-se e enchem-se da nova Luz descoberta.

Foi assim que a longa jornada dos Magos começou, seguindo o caminho que a luz da estrela indicava. E ao final de longa peregrinação chegaram ao lugar procurado.

“Banhado pela suave luz da estrela, em meio a vacas, jumentos e palha, se encontrava um nenezinho. Eles, então, foram iluminados. Não pela luz da estrela, mas pela luz da criança.

Perceberam que sua busca havia chegado ao fim. Aquilo que os adultos esqueceram e que a sabedoria busca – as crianças sabem.

Ser sábio é ser criança. O universo é um berço onde dorme uma criança. E desde aquele dia eles deixaram de olhar para as estrelas e passaram a olhar para as crianças.

Os sábios veem o avesso. O avesso é esse: os adultos são os alunos; as crianças são os mestres. Por isso os magos, sábios, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menino numa estrebaria…

No Natal, todos os adultos rezam a reza mais sábia de todos, escrita pela Adélia Prado:

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” (Rubem Alves)

Para meditar na oração

Inspirados nos Magos, que descobriram sinais e começaram um caminho de busca, podemos nos perguntar: quê sinais descobrimos durante o ano de 2017? Para onde nos conduzem esses sinais, como se fossem estrelas? Eles nos fazem sair de nossa “zona de conforto”, de nossas seguranças…?

Eles nos ajudam a priorizar a viagem ao interior de nós mesmos?

– A estrela que seguimos nos mobiliza ter acesso à nossa “gruta” interna, onde nova vida pulsa por nascer, ou preferimos alimentar uma multidão de contatos superficiais através das redes sociais, afogando-nos nas experiências de solidão?

– Nossas “viagens” despertam o espírito solidário e nos comprometem a responder às necessidades dos mais frágeis ou permanecemos confinados em nós mesmos, “adorando” nosso “ego”?

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Sonhemos, procuremos, adoremos.
Papa Francisco

Os Magos estão de viagem para Belém. E a sua peregrinação interpela-nos também a nós, chamados a caminhar para Jesus, porque é Ele a estrela polar que ilumina os céus da vida e orienta os passos para a verdadeira alegria. Mas, qual foi o ponto de partida da peregrinação dos Magos ao encontro de Jesus? O que é que levou estes homens do Oriente a porem-se em viagem?

Tinham ótimas desculpas para não partir: eram sábios e astrólogos, tinham fama e riqueza; de posse duma tal segurança cultural, social e económica, podiam acomodar-se no que tinham e sabiam, deixando-se estar tranquilos. Mas não; deixam-se inquietar por uma pergunta e um sinal: «Onde está Aquele que nasceu? Vimos despontar a sua estrela» (Mt 2, 2). O seu coração não se deixa amortecer na choça da apatia, mas está sedento de luz; não se arrasta pesadamente na preguiça, mas está abrasado pela nostalgia de novos horizontes. Os seus olhos não estão voltados para a terra, mas são janelas abertas para o céu. Como afirmou Bento XVI, eram «pessoas de coração inquieto (…); homens à espera, que não se contentavam com seus rendimentos assegurados e com uma posição social (…); eram indagadores de Deus» (Homilia, 06/I/2013).

Mas esta saudável inquietação, que os levou a peregrinar, donde nasce? Nasce do desejo. Eis o seu segredo interior: saber desejar. Meditemos nisto. Desejar significa manter vivo o fogo que arde dentro de nós e nos impele a buscar mais além do imediato, mais além das coisas visíveis. Desejar é acolher a vida como um mistério que nos ultrapassa, como uma friesta sempre aberta que nos convida a olhar mais além, porque a vida não é «toda aqui», é também «noutro lugar». É como uma tela em branco que precisa de ser colorida. Um grande pintor, Van Gogh, escreveu que a necessidade de Deus o impelia a sair de noite para pintar as estrelas (cf. Carta a Theo, 09/V/1889). Isto deve-se ao facto de Deus nos ter feito assim: empapados de desejo; orientados, como os Magos, para as estrelas. Podemos dizer, sem exagerar, que nós somos aquilo que desejamos. Porque são os desejos que ampliam o nosso olhar e impelem a vida mais além: além das barreiras do hábito, além duma vida limitada ao consumo, além duma fé repetitiva e cansada, além do medo de arriscar, de nos empenharmos pelos outros e pelo bem. «A nossa vida – dizia Santo Agostinho – é uma ginástica do desejo» (Tratados sobre a primeira Carta de João, IV, 6).

Irmãos e irmãs, como no caso dos Magos, também a nossa viagem da vida e o nosso caminho da fé têm necessidade de desejo, de impulso interior. Às vezes vivemos um espírito de «parque de estacionamento», vivemos estacionados, sem este ímpeto do desejo que nos impele para diante. Será bom perguntar-nos: a que ponto estamos nós na viagem da fé? Não estaremos já há bastante tempo bloqueados, estacionados numa religião convencional, exterior, formal, que deixou de aquecer o coração e já não muda a vida? As nossas palavras e ritos despertam no coração das pessoas o desejo de caminhar ao encontro de Deus ou são «língua morta», que fala apenas de si mesma e a si mesma? É triste quando uma comunidade de crentes já não tem desejos, arrastando-se, cansada, na gestão das coisas, em vez de se deixar levar por Jesus, pela alegria explosiva e desinquietadora do Evangelho. É triste quando um sacerdote fechou a porta do desejo; é triste cair no funcionarismo clerical! É muito triste…

Na nossa vida e nas nossas sociedades, a crise da fé tem a ver também com o desaparecimento do desejo de Deus. Tem a ver com a sonolência do espírito, com o hábito de nos contentarmos em viver o dia a dia, sem nos interrogarmos acerca daquilo que Deus quer de nós. Debruçamo-nos demasiado sobre os mapas da terra, e esquecemo-nos de erguer o olhar para o céu;  estamos empanturrados com muitas coisas, mas desprovidos da nostalgia do que nos falta. Nostalgia de Deus. Fixamo-nos nas necessidades, no que havemos de comer e vestir (cf. Mt 6, 25), deixando dissipar-se o anseio por aquilo que o ultrapassa. E deparamo-nos com a bulimia de comunidades que têm tudo e muitas vezes já nada sentem no coração. Pessoas fechadas, comunidades fechadas, bispos fechados, padres fechados, consagrados fechados. Porque a falta de desejo leva à tristeza, à indiferença. Comunidades tristes, padres tristes, bispos tristes.

Com os olhos pousados sobretudo em nós mesmos, perguntemo-nos: como está a viagem da minha fé? É uma pergunta que hoje nos podemos colocar, cada um de nós. Como está a viagem da minha fé? Está estacionada ou está em caminho? A fé, para partir uma vez e outra, precisa de ser deflagrada pelo detonador do desejo, de colocar-se em jogo na aventura duma relação sentida e vivaz com Deus. Mas o meu coração vive ainda animado pelo desejo de Deus? Ou deixo que o hábito e as deceções o apaguem? Hoje, irmãos e irmãs, é o dia bom para nos colocarmos estas perguntas. Hoje é o dia bom para voltar a alimentar o desejo. E como fazer? Vamos à «escola de desejo», vamos ter com os Magos. Ensinar-nos-ão, na sua escola do desejo. Fixemos os passos que dão e tiremos algumas lições.

Em primeiro lugar, partem quando aparece a estrela: ensinam-nos que é preciso voltar a partir sempre cada dia, tanto na vida como na fé, porque a fé não é uma armadura que imobiliza, mas uma viagem fascinante, um movimento contínuo e desinquietador, sempre à procura de Deus, sempre com o discernimento, naquele caminho.

Depois, os Magos em Jerusalém perguntam: perguntam onde está o Menino. Ensinam-nos que precisamos de interrogativos, de ouvir com atenção as perguntas do coração, da consciência; porque frequentemente é assim que fala Deus, que Se nos dirige mais com perguntas do que com respostas. Devemos aprender bem isto: Deus dirige-Se a nós mais com perguntas do que com respostas. Mas deixemo-nos desinquietar pelos interrogativos das crianças, pelas dúvidas, as esperanças e os desejos das pessoas do nosso tempo. A estrada é deixar-se questionar.

Além disso os Magos desafiam Herodes. Ensinam-nos que temos necessidade duma fé corajosa, que não tenha medo de desafiar as lógicas obscuras do poder, tornando-se semente de justiça e fraternidade numa sociedade onde, ainda hoje, muitos “herodes” semeiam morte e massacram pobres e inocentes, na indiferença da multidão.

Por fim, os Magos regressam «por outro caminho» (Mt 2, 12): provocam-nos a percorrer estradas novas. É a criatividade do Espírito, que faz sempre coisas novas. É também, neste momento, uma das tarefas do Sínodo que nós estamos a realizar: caminhar numa escuta conjunta, para que o Espírito nos sugira caminhos novos, estradas para levar o Evangelho ao coração de quem é indiferente, vive alheado, de quem perdeu a esperança mas procura aquilo que sentiram os Magos: uma «imensa alegria» (Mt 2, 10). Sair para mais além, caminhar para a frente.

No ponto culminante da viagem dos Magos, porém, há um momento crucial: tendo chegado ao destino, viram o Menino e «prostrando-se adoraram-No» (2, 11). Adoram. Lembremo-nos disto: a viagem da fé só encontra ímpeto e cumprimento na presença de Deus. Só se recuperarmos o gosto da adoração é que se renova o desejo. O desejo leva-te à adoração e a adoração renova em ti o desejo. Porque o desejo de Deus cresce apenas permanecendo diante de Deus. Porque só Jesus cura os desejos. De quê? Cura-os da ditadura das necessidades. Com efeito, o coração adoece quando os desejos coincidem apenas com as necessidades; ao passo que Deus eleva os desejos e purifica-os; cura-os, sanando-os do egoísmo e abrindo-nos ao amor por Ele e pelos irmãos. Por isso, não esqueçamos a Adoração, a oração de adoração que é pouco comum entre nós: adorar, em silêncio. Por isso não esqueçamos a adoração, por favor.

E procedendo assim, cada dia, como os Magos, teremos a certeza de que, mesmo nas noites mais escuras, brilha uma estrela. É a estrela do Senhor, que vem cuidar da nossa frágil humanidade. Ponhamo-nos a caminho rumo a Ele. Não demos à apatia e à resignação a força de nos cravar na tristeza duma vida medíocre. Abramo-nos à inquietude do Espírito, corações inquietos. O mundo espera dos crentes um renovado ímpeto para o Céu. Como os Magos, levantemos a cabeça, ouçamos o desejo do coração, sigamos a estrela que Deus faz brilhar sobre nós. E como indagadores inquietos, permaneçamos abertos às surpresas de Deus. Irmãos e irmãs, sonhemos, procuremos, adoremos.

6 Janeiro 2022